sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Que tudo se realize

Cada um sabe das suas resoluções de ano novo.

Paciência
- “Em 2012, prometo ser mais paciente com os outros. Prometo também...”
- Querido, será que você poderia me vir aqui pra...
- NÃO! Agora não posso ir aí. Não posso ir ali. Não posso ir a lugar nenhum. Mas você podia aproveitar e ir pro diabo que a carregue.
- ...
- Onde eu estava mesmo? Ah, era “prometo ser mais paciente com os outros”.

Inveja
- “Em 2012, prometo ser menos invejosa. Vou deixar pra trás, de uma vez por todas, esse sentimento tão mesquinho. E eu espero do fundo do meu coração que aquela perua que mora na cobertura com piscina no prédio ao lado tome a mesma resolução. Aquela oxigenada e siliconada é a inveja em pessoa. Toda vez que ela pára o seu Mercedes conversível novo em folha ao lado do meu Chevette 82, no sinal, consigo ver claramente nos seus olhos azuis (que, aposto, são lentes) o seu desejo de possuir tudo o que eu tenho e ela não pode ter. E aposto que o seu novo namorado, o sósia do Brad Pitt, pensa a mesma coisa dessa desclassificada.”

Solidariedade
- Vamos lá, escrever pra ficar registrado: “Em 2012, prometo ser mais solidária.”
- Benzinhô.
- Oi?
- Minha mãe ligou pedindo ajuda pra preparar a ceia de amanhã.
- Por que eu? Ela não pode se virar sozinha? E a sua irmã, não pode ir? E você?

Saúde
“Em 2012, prometo cuidar mais da minha saúde. É a melhor resolução que poderia ter. Realmente, nada como duas cervejinhas e uma pitada num cigarrinho pra clarear as ideias.”

Preguiça
“Em 2012, prometo ser menos preguiçoso e nunca mais deixar as coisas inacab

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Cher père Noël

Cher père Noël,

Eu ia escrever essa cartinha em polonortês, mas pensei bem e decidi fazer em francês mesmo, porque assim você vai treinando a língua para não fazer mais bobagens como a do ano passado, lembra? Eu enviei uma carta caprichada contando o meu comportamento exemplar, as boas ações, as notas na escola e até o dia em que dividi meu sorvete de chocolate com a minha irmã mais nova, que aliás não merecia nem um pouco, aquela pirralha chata. E no fim, pra provar como sou um bom garoto, pedi um único presente, pra me esquentar no inverno: um tecido de lã pra cobrir o cou. Acontece que você me trouxe um pano pra tapar o cul.

Putain, père Noël, t’es vraiment con! Cachecol não tem nada a ver com cueca. O cou fica em cima. O que fica em baixo é o cul.

Como você vem à França há tantos séculos, imaginei que já soubesse falar nossa língua, na qual foram escritos vários clássicos da literatura, do cinema, do teatro e da música ruim. Mas, não, você prefere se comunicar em inglês, né? Você não passa é de um subproduto da Coca-Cola, um emissário do Tio Sam, um assecla do Mickey Mouse.

E se você pensa que essa é a carta de um menino mimado de classe média que está esperneando porque não ganhou presente, devo dizer que você está totalmente certo, coroa. O que você não sabe é que eu, Jean-Pierre, 7 anos, não estou sozinho, e escrevo esta na condição de presidente da associação Vítimas Enganadas e Lesadas pelo Homem da Barba Branca, a VELHO Barbaca.

A VELHO Barbaca é composta por mim, pelo meu irmão mais velho que está fazendo musculação e pelo Jacques Dupont, nosso vizinho, para quem você tem dado uma caixa de frutas cristalizadas todos natais, todos os anos. O Jacques Dupont detesta frutas cristalizadas (aliás, quem é que gosta?). Ele já te enviou não sei quantas cartas, pedindo candidamente para ganhar outra coisa. E você, o que fez? Ignorou os apelos do pobre coitado. Ou então não entendeu o que ele escreveu, o que não me surpreenderia nem um pouco.

Fique sabendo, père Noël, que estamos organizando uma manifestação para a noite do dia 24 de dezembro. Mandamos pintar faixas com slogans contra você (e contra o presidente Sarkozy, para conseguirmos mais adesões) e já temos até uma palavra de ordem:

“Père Noël, bonzinho uma ova!
Se eu te encontrar acabo dando aquela sova”

Fica ligado! Ou o meu irmão vai dar um jeito de moldar um biquinho francês na sua boca.

Des bisous!

Jean-Pierre

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Crônica circular

Um plano que tinha desde que cheguei a Paris, e nunca havia realizado, era pegar um ônibus qualquer e ir até o final da linha. Sem o objetivo de chegar a lugar nenhum, apenas para observar as pessoas subindo e descendo, andando nas ruas, conduzindo seus carros. Hoje decidi fazê-lo, na esperança de no caminho encontrar um bom assunto para uma crônica.

Saio de casa, subo no ônibus 29 e sento ao lado de uma mulher que lê o Le Monde. Saco meu moleskine para anotar o que me chama a atenção. Escrevo “Ópera Bastille, vovô” quando passamos pela ópera da Bastille, que meu avô condenou para todo sempre, classificando-a como uma “ópera de 2a categoria, onde se apresentam artistas de 2o nível, para um público de 2o escalão”. Sendo ele um conhecedor no assunto, nunca ousei discordar.

O 29 devia ir até as (infernais) Galeries Lafayette, mas pára na altura da Ópera Garnier. A ópera original de Paris, construída no século XIX, que serviu de inspiração para o Theatro Municipal do Rio e, o mais importante de tudo, sempre recebeu a aprovação do meu avô: “Essa vale a pena visitar, ao contrário daquela coisa horrível da Bastilha”.

Como não achei ainda um tema interessante para um texto, decido pegar o 80, que corta a cidade de norte a sul. Uma linha que passa por lugares a mim estranhos e me traz a sensação – que adoro - de estar perdido em uma cidade que já conheço bem.

Só me situo quando já estamos perto do Champs-Élysées, que exibe garboso sua iluminação de Natal, como toda Paris nesse momento. Anoto "Champs-Élysées, luzes" e admiro o cartão postal por alguns instantes, mas minha atenção é logo desviada para o senhor da minha frente, que confere no jornal o resultado da loto. “Não ganhei, droga. Quem sabe da próxima vez?”.

O 80 atravessa o Sena pela ponte d’Alma, de onde se tem uma visão fantástica da torre Eiffel, e continua o trajeto habitual, que o leva várias vezes por dia, todos os dias do ano, à porta de Versailles. Desço na École Militaire, ainda sem a minha história, e pego o 87. Sento na janela, perto de um casal oriental que conversa animadamente, de uma mãe que fala em inglês à filha e de uma senhora que abre e fecha sem parar um livro de Michel Houellebecq.

O 87 passa por trás dos Invalides e sua bela cúpula dourada. Depois, faz uma curva e vai em direção à monstruosa torre Montparnasse. Escrevo "Invalides x Montparnasse". Em seguida, vira novamente, sai costurando pequenas ruas e tangencia o Bon Marché, onde posso observar as decorações natalinas, os clientes entrando sem nada e saindo cheios de sacolas, as pessoas pedindo esmolas e doações e principalmente os transeuntes, que passam sem se importar nem um pouco com todo o burburinho.

Desço na Gare de Lyon, com frio e frustrado por não ter encontrado fatos extraordinários pelo caminho, apesar de estar em uma das mais deslumbrantes cidades do mundo. Tudo o que pude ver foi a vida normal correr para pessoas tão normais quanto eu. Paro e penso sobre isso. E nesse instante, e pela primeira vez desde que cheguei aqui, há quase 5 anos, sinto-me um parisiense, apesar de sempre ter inconscientemente me recusado a ser um.  

Um pouco atordoado, entro em um bar e peço um café expresso. O garçom me serve e pergunta se quero açúcar. Olho pra ele e digo que “non, merci”, enquanto retiro o sobretudo e o cachecol.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Tudo na vida é passageiro

Francês adora discutir, mas detesta perder a classe.

- Táxi!
- Ei, ele é meu.
- Não, é meu, eu vi primeiro.
- Você viu primeiro, mas fui eu que chamei antes.
- Você chamou antes, mas eu já pensava em chamá-lo há tempos, mesmo antes dele aparecer. Táxi em Paris é tão raro quanto um sorriso.
- Agora é tarde, é meu.
- Eu não vou sair da frente.
- Ah, vai sim. Senão eu bufo.
- Pois eu sei bufar também, ó: buffff.
- Se é assim, eu digo: você é chato!
- Oh!
- E repito: chato, cha-tão!
- Pois prepare-se que agora vou te ofender pra valer.
- Estou preparado.
- Você é um limitado.
- E você é um tolo.
- Tolo, eu? Melhor do que ser um inútil.
- Prefiro ser inútil do que um bobalhão como o que vejo na minha frente.
- E eu...
- Ei, olha, aquela mulher acabou de entrar no nosso táxi e ele arrancou. Foi embora.
- Zut.
- Buffff.
- Outro táxi a essa hora vai ser impossível.
- Vai mesmo.
- Não tenho mais escolha, vou voltar pra casa andando, sob a chuva.
- Pra que lado você vai?
- Bastille.
- Vem aqui, vamos dividir meu guarda-chuva. Eu vou pro mesmo lado.
- Merci. Você até que é um cara bacana.
- Você também é gentil. Ao contrário daquela senhora sem classe que roubou o meu táxi.
- Seu? Era meu.
- Coisa nenhuma, eu vi primeiro.
- Viu, mas fui eu que chamei.
- Chamou de metido que é, pois eu pensei em chamá-lo antes.
- Você é mesmo um bobo.
- Pelo menos não sou besta.
- Ei, estúpido, não mexe esse guarda-chuva, tô me molhando.
- Quieto, reclamão.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Está claro?

No meu prédio não tem síndico, mas uma empresa responsável pela limpeza e manutenção das áreas comuns do edifício, que, por sua vez, emprega dois guardiães, executores dessas tarefas.

Há também um conselho sindical, incumbido de contratar essa empresa e de organizar as reuniões de condomínio. Estas, juntamente com a benzetacil, estão entre as coisas das quais mais tenho medo na vida. Felizmente, até hoje consegui evitar contato com ambas.  

Acontece que o conselho sindical decidiu demitir os guardiões do prédio (vejam só, sempre quis mostrar pra todo mundo que conhecia os dois plurais de guardião, e eis que a chance se apresenta. Aproveito para mandar um beijo para a Aliete, minha professora de português da 6a série, que aplicava provas infernais, cujas análises sintáticas e semânticas até hoje me dão pesadelos).

Bom, mas como eu dizia, o conselho sindical resolveu que era hora de pirulitar o casal que cuida do imóvel e desempenha tarefas básicas e necessárias, como limpar as lixeiras, varrer o chão e tratar mal os desconhecidos. E para anunciar a novidade, colou um aviso na entrada do edifício. A acusação: o par não prestara um serviço a uma habitante em dificuldade.

Furioso, o casal rebateu também com um papel, pregado ao lado do primeiro. Nele, dizia que não haviam não prestado o serviço, que seria o mesmo que dizer que haviam prestado, mas é completamente diferente.

O conselho sindical não tardou a responder que sim, os dois haviam não prestado o serviço e por isso estavam sendo justamente despejados.

Os guardiães/ões mais uma vez retrucaram, afirmando enfaticamente que não era verdade que sim, eles haviam não prestado o tal serviço. O real ocorrido, segundo eles, era sim, eles não haviam não prestado.

O conselho sindical subiu nas tamancas e preparou mais um aviso, que foi posto ao lado dos outros e transformou a entrada do prédio em uma galeria de arte abstrata. Nele, atestava que tinha provas irrefutáveis de que não era a realidade que o casal não havia não prestado o serviço. E que a atitude dos dois, em um país como a França, era o mesmo que sim, prestar um desserviço.

A questão ainda está longe de terminar e é provável que logo ela pare na justiça. Mas talvez antes deva parar em um gramático e um lógico. Pelo menos pra que fique claro o que aconteceu. Ou pra que não fique claro o que não aconteceu. Ou pra que fique escuro o que...

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

C’est pas normal

“Ce n’est pas” e sua abreviação “c’est pas” significam “não é” em português. Ou deveriam significar. Só que nem sempre é assim.

. “C’est pas mal” literalmente quer dizer “não é ruim” e na verdade significa que é bom.
. “C’est pas si mal” literalmente quer dizer “não é tão ruim” e na verdade significa que é muito bom.
. “C’est pas mal du tout” quer dizer “não é nada ruim” e é o maior elogio que você pode receber de um francês.
. “C’est pas cher” literalmente quer dizer “não é caro” e na verdade significa que é bem barato.
 . “C’est pas terrible” literalmente quer dizer “não é terrível” e na verdade significa que é muito terrível.
. “C’est pas un sauvage” quer dizer “não é um selvagem” e é comumente usado para falar de alguém, vejam só, muito bem educado.
. “C’est pas grave” literalmente quer dizer “não é grave” e na verdade significa que você acabou de fazer algo bem grave.

E aí outro dia eu fui conversar com um amigo sobre essas curiosidades.

- Fernando.
- Pois não?
- Já parou pra pensar nessas expressões? E depois os franceses acham que os brasileiros complicam a língua, invertendo o sentido das palavras.
- Os brasileiros é que invertem? Pois sim...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Noventa e um


Na minha série de filosofia barata que é um barato, já defendi a tese de que o gesto definidor do francês é, pra mim, o assoar de nariz. Indo um pouco além – ou um bocado aquém, dependendo do ponto de vista –, ontem, enquanto lepidamente pedalava uma Vélib, tive a visão de que a palavra que resumiria os patrícios de Victor Hugo seria quatre-vingt-onze. Noventa e um.

Os mais apressados descordariam: “por que não croissant?”, “fromage, pra mim é fromage!” ou “protesto, o que define o francês não seria uma palavra, mas a expressão ‘uh la la’”.

Eu diria que todos eles têm um pouco de razão, afinal croissant, fromage e uh la la são termos mais utilizados por aqui do que outros, tais quais douche e sourire. Porém, no afã impaciente de encontrarem a perfeita síntese gaulesa, os incautos passariam ao largo de uma característica marcante da cultura local: a tendência a filosofar e a poetizar, mesmo onde não cabe.

Isso pode ser facilmente demonstrado fazendo uma comparação simples com a língua portuguesa. Vamos tomar como exemplo a expressão “fala, mulek doido!”. Um equivalente francês seria traduzido para algo como: “Diga aí, meu companheiro por quem tenho muito apreço, que me faz pensar sobre o real sentido da palavra amizade e me traz lágrimas aos olhos quando estou às margens do Sena em uma tarde de outono, tomando uma taça de um bom Bourgogne enquanto ajeito a minha echarpe, e de repente penso em você e na fugacidade do tempo, no fato de que um dia todos retornaremos inexoravelmente ao pó, como já o fizeram Flaubert, Roberpierre e o casal Curie. Como está a sua existência na jornada de hoje?”.

Podemos notar no modelo linguístico exaustivo proposto que esse idioma, por mais belo que seja, não é chegado a caminhos curtos. E mais do que uma característica da língua, essa é uma marca do povo francês.

O pobre noventa e um seria o resumo perfeito disso. É uma palavra, mas também uma conta matemática, pois quatre-vingt-onze significa literalmente quatro vezes vinte mais onze. E é um número, mas também uma visão de mundo. Afinal os franceses, vá saber porquê, inventaram lá atrás de contar de vinte em vinte, e não de dez em dez (mesmo se atualmente apenas o oitenta e o noventa – quatre-vingt e quatre-vingt-dix – persistam). Percebam que ainda nem falei do setenta, que virou soixante-dix, sessenta mais dez. Mas vamos deixá-lo para lá por enquanto.

Se você, como eu, se embaralha sempre que precisa falar quatre-vingt-onze, uma sugestão: tente dizer cent moins neuf, cem menos nove. Não é mais fácil, mas os franceses vão adorar.

sábado, 12 de novembro de 2011

Veja bem, meu bem

- Bonjour, monsieur Cariello. Posso ajudar?
- Bonjour, madame Emma. São os meus óculos.
- Eu acho lindos.
- Mas eu não estou com eles agora.
- Eita, tem razão. Mas você continua bem apessoado.
- Uma das hastes quebrou.
- Ah, então é por isso que você não está usando?
- Que capacidade de dedução!
- O que posso fazer por você?
- Consertar seria uma boa.
- Foi só esse o motivo que o trouxe aqui?
- Na verdade eu vim perguntar se vocês vendiam queijo, mas ao entrar lembrei que meus óculos precisavam de reparação.
- Deixa vê-los.
- Tá aqui.
- Hummm... Hã... Oh...
- É tão grave assim?
- Pardon?
- Os óculos, é tão grave? Você tá fazendo uns barulhos estranhos.
- Ah, não. Isso é porque encontrei um pedaço de saucisson entre os meus dentes. Uma delícia.
- Mas e a haste?
- O que tem?
- Dá pra consertar?
- É verdade, foi por isso que você veio. Vou ver se está na garantia.
- Ok.
- Não está mais. Vou ligar pro fabricante. Espera um minuto.
- Ok.
- Veja bem, monsieur Cariello...
- Ta difícil.
- O quê?
- Ver bem. Tá difícil sem os óculos.
- É verdade. Toma aqui de volta.
- Madame Emma, eles estão quebrados.
- Quem?
- Meus óculos.
- Meu Deus, é verdade. O que você vai fazer a respeito?
- Foi por isso que eu vim aqui, pra consertá-los.
- Pois veio ao lugar certo.
- Então, o que podemos fazer?
- Podemos tomar um café, se você quiser. Depois das 18 estou livre.
- Madame, os óculos. O que podemos fazer com eles?
- Ah, vai ter que reparar, né?
- Acho que finalmente estamos nos entendendo.
- Como eu ia dizendo, veja bem, monsieur Cariello.
- Tá difícil.
- O quê?
- Nada, nada. Só repeti a piada, que já era sem graça na primeira vez.
- Quanto aos seus óculos, acho que não podemos fazer nada. A garantia acabou, o fabricante não faz mais essas hastes e o mais terrível é que parece que vai chover mais tarde.
- O que tem a ver a chuva?
- Pode atrapalhar o nosso café.
- Madame Emma, não vou poder tomar esse café com a senhora. Estou ocupado hoje.
- Mas que lástima. Quer saber? Vou dar um jeito de consertar os seus óculos, assim você vai enxergar a chance que está perdendo.
- Não precisa, não precisa! Até mais ver, Madame Emma.
- Volta, volta. Abre o olho, monsieur Cariello.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Hoje eu vi o Gérard Depardieu

Hoje eu vi o Gérard Depardieu na rua. Ele tava fazendo um filme, que é o que se espera do Gérard Depardieu. Ninguém imagina encontrar o Gérard Depardieu na fila do pão, passeando com o cachorro ou andando de bicicleta. Se isso ocorresse, a gente logo pensaria: “Caramba, aquele sujeito é a cara do Gérard Depardieu”. Mas como ele estava posicionado exatamente em frente a uma câmera, eu não tive dúvidas de quem se tratava.

Quando eu passei pela rua onde cruzei o Gérard Depardieu, muita gente havia parado para vê-lo, algo absolutamente compreensível, pois fiz o mesmo. Do lado dele havia um carinha de barba que eu conhecia de algum lugar mas agora sou incapaz de dizer de onde. De qualquer maneira, ele vai ficar pra sempre na minha memória como “o carinha de barba que estava ao lado do Gérard Depardieu na rue d’Aligre”, mesmo que um dia ele raspe a barba.

Depois dessa vicissitude de encontrar o Gérard Depardieu e ele não ter nem olhado pra mim, fiquei pensando que deveria escrever uma crônica a respeito. Afinal, não é sempre que a gente esbarra com o Gérard Depardieu, mesmo morando em Paris. Eu já vi por aqui a Laetitia Casta andando ao lado de dois carinhas, o Romain Duris descendo da motocicleta e o sujeito que faz a série sensação Bref atravessando a rua no sinal. Já vi até o Paul McCartney e o Roger Waters, mas pra isso tive que comprar ingresso, então não vale.

Gastei bons minutos imaginando que diabos eu poderia dizer nessa crônica, além do fato óbvio de ter estado no mesmo espaço-tempo que o Gérard Depardieu. Não cheguei a nenhuma conclusão e comentei o fato inesperado com uma amiga. Ela disse que um dia ele já fora bonito e hoje era muito feio, com o que prontamente concordei. E ainda acrescentou que se ele continuasse engordando desse jeito muito em breve nem para o papel de Obelix serviria mais.

Logo depois fui à feira comprar legumes e comentei com o vendedor que havia visto o Gérard Depardieu fazendo um filme. Ele me perguntou quem era esse sujeito. Aí eu me dei conta de que não havia importância nenhuma o fato de eu ter encontrado com o Gérard Depardieu, estivesse ele em frente a uma câmera ou não. Encerrei o papo, peguei duas abobrinhas e fui pra casa cozinhá-las.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Reduzindo ao nariz

Se você fosse escolher um gesto – um só – para definir o brasileiro, qual seria? Pra mim, seria o driblar. O drible é a síntese do que fazemos de melhor.

No futebol, é o Garrincha deixando seus marcadores sentados no chão (aliás, você sabia que a última vez que o Brasil bateu a França em uma Copa do Mundo foi nos 5 x 2 de 1958, com Garrincha e Pelé em campo?). Na vida, é o cidadão se virando pra pagar as contas, acumulando trabalhos, fazendo bicos. Na música, são os escravos enganando os senhores de engenho e batucando temas religiosos africanos, criando o que no século XIX virou uma das raízes do samba. E olha que ainda nem falei do famoso jeitinho, a derivação do drible em forma de acochambramento.

E o francês, qual o gesto que o define?

Eu diria que é o ato de assoar o nariz, apreciadíssimo em terras gaulesas. Tão valorizado que – vejam bem – você pode fazê-lo em qualquer lugar, seja na rua, no metrô, na fila do açougue, no batizado da sobrinha ou à mesa, que ninguém se choca. Por outro lado, se ao invés de expirar você inspirar, se você fungar, aí estará cometendo uma tremenda falta de educação. É quase certo que em troca receberá uma bela bufada.

O assoar o nariz seria a síntese do francês porque significa a expulsão de um treco que incomoda, enquanto o fungar seria a sua absorção. E os franceses são ótimos em expulsar trecos que incomodam, como monarcas, americanismos, seleções brasileiras e invasores diversos (vamos esquecer os alemães da 2ª Guerra, ok?, consideremos aquilo uma fungada histórica). Essa questão de o Sarkozy mandar árabes, africanos e ciganos embora, então, é apenas um reflexo atávico, a repetição de um gesto ancestral. A culpa não é só dele, mas em grande parte da avantajada napa que carrega entre os olhos.

Outra prova: um francês irritado se sente no direito de expulsar da cabeça dele tudo o que o enerva. E se ele estiver bravo com você, pior ainda, pois esse grande fluxo – não mais nasal, mas cerebral – vai na sua direção. É uma catarse quase hipnótica e o mais próximo que os racionais conterrâneos de Voltaire chegam do nirvana. 

Portanto, da próxima vez que vir um francês assoar o nariz, fique atento! Pode ser uma conspiração revolucionária em curso. Ou uma descarga verbal daquelas.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Louise, crítica musical

Talvez ainda seja um pouquinho precipitado pra dizer que ela vai seguir a carreira de crítica, mas a Louise, do alto dos seus 18 meses, já deixa claras suas preferências, tanto em músicas que coloco pra tocar quanto em vídeos que assistimos no YouTube. Tem canções que ela adora. Já outras...

. Pintinho Amarelinho – É o hit do momento. A preferida das preferidas, que ela pede em média 43 vezes por dia, fazendo o gesto de bater o indicador de uma mão na palma da outra, em referência ao “pintinho amarelinho” que “cabe aqui na minha mão”. Na parte do “mas tem muito medo do gavião”, ela esconde o rosto. Sucesso absoluto na Radio Louise.

. Les crocodilles – Conta as aventuras de um crocodilo que foi para a guerra às margens do Nilo e, encontrando o elefante inimigo, deu no pira. Quando quer ver essa, ela começa a falar “cro cro cro cro” sem parar. Das duas uma: ou passamos o vídeo, ou colocamos tampões nos nossos ouvidos. Geralmente a Louise vence.

. Marcha soldado – Outra que ela adora. Já aprendeu a bater continência e também aprendeu que isso só deve ser feito de brincadeirinha, afinal ela é de uma família de esquerda. Uma famosa versão na internet troca o trecho “a polícia deu sinal” por “São Francisco deu o sinal”. Nessa hora ela faz careta, pois, assim como o pai, não entendeu e não gostou da profanação da versão original, oras.

. Sereia – Não curtiu. E eu entendo o porquê. Medo da Fafá de Belém na concha...

. La famille tortue – A letra, em francês, fala que “nunca se viu nem nunca se verá a família tartaruga correr atrás dos ratos. O papai, a mamãe e as crianças tartaruga só vão na maciota”.  Bem condizente com o papai real. La famille tortue já ocupou o posto de número 1, mas agora anda meio esquecida. 

. Atirei o pau no gato – Sucesso garantido, em todas as suas variações (apesar de eu não curtir o final moralista e politicamente correto de algumas). Mas, bom, a crítica é ela, que faz questão de dizer o “miau” do final.

. A canoa virou – Polêmica. Ela adora a primeira versão que descobrimos na internet. Ao tentar mostrar uma outra, fui recebido com a mais longa sequência de “non non non non non non” da história.

. Kashmir – Bem, essa ainda não é sua preferida. Pra dizer a verdade, ela nem conhece. Mas meu objetivo é fazê-la chegar ao Led Zeppelin antes do seu segundo aniversário. Afinal, se a Louise quiser seguir a carreira de crítica, é bom passar logo pras coisas sérias. Papel de pai é orientar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Ao vencedor, as batatas de frango

- Quer batata?

A pergunta era pra ser simples, mas revelou-se de uma inesperada complexidade.

- Quero.
- De quê?
- O quê?
- Quer de quê? Tem de frango assado de vitrine, de maminha mal passada puxada no alho, de salsa e cebolinha orgânicas, de pernil ao abacaxi e, última novidade e exclusividade da nossa companhia, de peixe frito com tomate, uma delícia!

Eu demorei entender se a aeromoça estava me oferecendo um prosaico pacote de batatinha ou tirando sarro da minha cara, recitando a um habitante da classe econômica o cardápio da executiva.

- Cumequié?
- Tem de frango assado de vitrine, de maminha mal passada...
- E a batata?
- Então. Esses são os sabores disponíveis, senhor.

Já faz algum tempo que abandonei as batatas fritas de saquinho como a base da minha nutrição, e percebo que não acompanhei as variações pelas quais o produto passou. Como os malditos panettones, elas sofreram mutações e agora vêm em sabores tão diversos quanto improváveis. Tornaram-se verdadeiros gremlins alimentares.

- Moça, não tem batata sabor batata?
- Não entendi.
- Aquela simples, sem nada, só a batata frita com sal, como antigamente.
- Sei não. Peraí que eu vou ver.

Pela expressão de espanto da aeromoça, deduzi que a palavra “antigamente” soava para ela como “na época de Ramsés II”. Ou em um tempo muito distante onde as pessoas – imaginem só! – alimentavam-se de bizarrices inimagináveis nos dias de hoje, do tipo batata com gosto de batata, água sabor água e pizza sem ketchup.

- Senhor, achei isso aqui, ó. Vê se serve.

E me esticou um pacotinho brilhante, onde lia-se “sabor muzarela de búfala light”.

- Só tem isso?
- Não, tem também de frango assado de vitrine, de maminha mal passada puxada no alho, de salsa e cebolinha...
- Sabor batata não tem mesmo, né?
- É claro que não, senhor.

É claro que não. Que ideia mais maluca a minha.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Pílulas

A menos de dez minutos a pé da minha casa tem seis livrarias e cento e vinte cafés (desde a última contagem, há quinze dias, mas é possível que já haja uns dois ou três novos). Isso é reflexo de um dos programas preferidos dos parisienses: abrir um livro em uma mesa de um café – na varanda, se o clima for favorável – e ficar ali horas a fio, lendo compenetradamente, pensando na vida.

Nesse mesmo perímetro tem também três farmácias, que são pequenas, fecham aos domingos e vendem... medicamentos. E apenas medicamentos.

Tô contando isso porque na semana passada visitei o Rio de Janeiro e, precisando comprar dois livros, dirigi-me à minha livraria preferida, a Letras & Expressões, em Ipanema. Um lugar que me acostumei a frequentar, pois era também um ponto de encontro, com uma casa de shows e um restaurante simpático.

Era. Porque agora virou farmácia. Ou melhor, vai virar, está em obras.

A drogaria que vai abrir no lugar da Letras & Expressões fica exatamente em frente a uma outra, enorme, e a cinco minutos a pé de outras noventa e três (ou já seriam noventa e quatro?). Essa região eu apelidei de "shopping da ziquizira", pois com tantas farmácias, funcionando dia e noite, você começa a se perguntar se é normal estar em boa saúde. Aí conclui que não. E entra em uma delas pra comprar um “remedinho pra curar essa coisa estranha que tá me dando hoje, sabe?”.

Então sai com um carregamento que “vai te fazer sentir melhor, seja lá o que você tenha, bastando tomar duas cápsulas desse aqui e três glóbulos daquele ali antes do jantar”. E já que está em uma farmácia brasileira, você aproveita para levar para casa duas coca-colas, uma lata de sorvete e três pacotes de biscoito de polvilho. Afinal, os shoppings da ziquizira espalhados por aí te vendem a cura, mas também a garantia da sua breve volta ao estabelecimento.

Ao dar de cara com a enorme placa que dizia “Em breve, para a sua comodidade, mais uma farmácia do grupo X”, fiquei pensando que ao invés de tantos comprimidos deveríamos era tomar mais pílulas literárias, de preferência sentados em um café por longas horas. Talvez assim livremos a cabeça desse tanto de doença que a gente adora inventar. Ou pelo menos, ao fim do livro, teremos uma boa história para contar.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O estrangeiro

Um dos problemas de já estar há tanto tempo fora do Brasil é que de vez em quando eu me sinto um estrangeiro dentro do meu próprio país.

- Bom dia, posso ajudar?
- Bonjour, madame. Me dá um truc daquele ali, por favor.
- Um pão de queijo?
- Ah, é assim que se chama, tinha esquecido. Como ele é feito?
- Com queijo, oras.
- Sim, mas qual? Comté, gruyère, emmental...
- Sei lá.
- E o polvilho, é orgânico?
- Moço, sei não. Joããão, vem aqui me ajudar. Tem um cliente estranho fazendo umas perguntas mais ainda.

- Bom dia, senhor.
- Bonjour, monsieur. O senhor sabe dizer qual o queijo do pão de queijo?
- Hein?
- O queijo do pão de queijo, qual é?
- É queijo queijado, oras.
- Mas qual queijo? Comté, emmental, Beaufort...
- Pra mim você tá falando grego.
- Não é grego, é francês, muito diferente.
- Pois francês pra mim é grego. E se você continuar me enchendo a situação aqui vai ficar ruça.
- Bom, tá legal, me dá dois.
- Com recheio?
- Qual recheio você tem?
- Hoje só tem manteiga.
- Essa manteiga é manteiga ou é margarina?

- Maria, a manteiga é manteiga?
- Você também pirou, João?
- É esse cliente que já tá me perturbando as ideias. Ele quer saber se a manteiga é manteiga ou margarida.
- Margarina. Eu disse margarina.
- O senhor fica quieto aí no seu canto. Maria, é manteiga ou não?
- É sim, João.

- É manteiga, senhor.
- Quero dois.
- Tá aqui, dois. Mais alguma coisa?
- Um café.
- É pra já.
- Peraí, peraí.
- O que foi agora?
- Não é assim.
- Não é assim o quê?
- Antes de escolher eu preciso saber qual tipo de café harmoniza melhor com esse pão de queijo. É o arábico, o robusto, o...

- Calma, João, calma! Pra que essa violência? Larga o moço.
- Me deixa, Maria. Só quero harmonizar um pouco mais as minhas mãos com o pescoço desse cara. Depois eu solto, eu juro.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Pra lá de Marrakech

O riad, espécie de casa tradicional marroquina com um enorme pátio no meio, onde fiquei em Marrakech tinha dois andares e era colado em uma mesquita. Quem já visitou um país árabe sabe que cinco vezes por dia um sacerdote vai ao microfone e faz a chamada para a oração, lembrando que é o momento de rezar para Alá. As caixas de som estão sempre fora dos templos, para que todos por perto ouçam a convocação.

Chegamos a Marrakech pela manhã, e ao meio dia em ponto um cântico religioso invadiu a casa.

- Que é isso, o Roberto Carlos marroquino?
- Não, o almuadem.
- Mulher de quem?
- O almuadem, a pessoa encarregada de anunciar o momento das cinco preces diárias.

Outra coisa que eu não sabia era que uma dessas preces acontecia às cinco da manhã. Descobri quando fui acordado no susto pelo sujeito soltando a voz praticamente no meu ouvido.

- Vixe, Maomé veio me buscar!
- Pára de escândalo, Daniel, é só o almuadem. É a hora da primeira oração do dia.
- Mas nem Alá tá acordado numa hora dessas, ele não vai escutar.

Passado o impacto inicial, acabei me habituando ao ritual muçulmano e comecei até a gostar muito da voz do tipo. Fui perguntar para a Aziza, a faxineira do riad, o que significava aquele chamado.

- Começa com “Allah hu Akbah”, Deus é grande.
- E depois?
- Depois ele fala um monte de coisas, que, resumindo, querem dizer “Allah là haut”, Deus lá em cima.
- Alá la ô?
- Isso.
- Mas que calor?
- Hã?
- Nada.

Empolgado com a iniciação a essa cultura completamente diferente da minha, resolvi filmar o cântico de cima da varanda do riad, de onde havia uma vista frontal para a salinha a partir da qual o cidadão fazia o anúncio.

- Melhor perguntar para o almuadem antes, para não ofender Allah.
- Que nada, Alá já é brother.

Engano meu. Pra ser íntimo de Alá é necessário um pouco mais de disciplina do que com os deuses ocidentais. Não é só chegar, colocar o pé na mesa, tirar a roupa e abrir uma garrafa de vinho, como era na Grécia antiga. Na cultura árabe essas minhas gracinhas não são muito bem vistas.

A prova é que a minha punição foi imediata: enquanto procurava um bom lugar para esconder a câmera, não percebi que a varanda estava cheia de cactos. A minha histórica falta de jeito, misturada à má educação com Alá, cuidou para que eu esbarrasse em um.

- Ah la la la la!
- Converteu-se ao islamismo, Daniel?
- Não, encostei num cacto. Tô mais espetado que boneco de vodu.

Sentei no sofá e passei algumas horas tentando arrancar as dezenas de espinhos, um por um. Quando já conseguia me mexer, resolvi dar um passeio pra esfriar a cabeça.

- Vamos à praça Jemâa el Fna, respirar um pouco. Ai.
- Vamos.
- Esse Alá me paga. Amanhã vou filmar de novo, agora já sei onde estão os cactos.
- Olha lá...

Na enorme praça, bem no centro da cidade, camelôs misturavam-se a domadores de macacos, a lojas de temperos e chás mágicos, a vendedores de roupas e de toda sorte de produtos, a barraquinhas de suco e a todo tipo de comércio e de atrações, que incluem encantadores de serpentes.

Eu detesto cobra, mas mesmo assim me aproximei um pouco para ver esses malucos que ficam tocando flauta em frente a quatro ou cinco najas. “Não é possível que de vez em quando um bicho desses não acorde do feitiço pra dar uma dentada nesses caras”, pensei, calculando a melhor medida entre chegar um pouco mais perto e conservar uma distância segura.

Nisso, senti alguém me cutucar por trás. Quando virei, um dos assistentes do – vamos chamar assim – espetáculo sapecou uma cobra em torno do meu pescoço. Paralisado de pânico, só conseguia mexer a ponta dos lábios.

- Ia ea oa ai.
- Pardon?
- Tira essa cobra daqui.
- Ah, ela é boazinha. Quer que faça uma foto de vocês dois? Vocês ficam lindos juntos. Custa só dez dihrams. Sorria!
- Eu quero que essa cobra suma daqui agora, com você junto.
- Ih, ó o cara. Vem, Sophie, vamos encontrar alguém mais gentil.

Nos últimos dias de Marrakech deixei a barba crescer e sapequei um chapéu marroquino, pra ficar parecido com um local e me esconder um pouco de Alá, que ele não tava pra brincadeira.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Alencar Sete Cordas

Ontem recebi duas tristes notícias, duas pessoas que se foram. Uma, o pai de uma amada amiga, que sucumbiu a um câncer que já o atormentava há algum tempo. A outra, um dos mais geniais músicos que já conheci, Alencar Sete Cordas.

Professor de violão do meu pai, do meu irmão (de quem também foi parceiro) e meu (apenas por duas aulas, uma das quais conto aqui embaixo), o mestre Alencar tocou com gênios como Raphael Rabello, Nelson Cavaquinho e Cartola, e tinha um conhecimento musical de tamanho comparável apenas ao da sua simpatia.

Como homenagem à sua arte e ao seu inesquecível sete cordas, republico essa semana no Chéri à Paris um texto que escrevi para o site Overmundo, há 6 anos.

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Eu não sou chorão. Sou músico!

"Meu pai sempre fala que a vida da gente é como couro de cobra. Muda o tempo todo", diz o cearense José de Alencar Soares, ao explicar a sua trajetória, revelando uma sabedoria passada entre gerações em sua terra natal, Abílio Martins, no município de Ipu, Ceará.

José de Alencar Soares é mais conhecido como Alencar Sete Cordas, um apelido que mistura seu nome de batismo e o instrumento que escolheu para tocar, o violão de sete cordas. E a sabedoria prática, como no caso da cobra, foi o que o levou à música, já que no sertão não havia métodos e professores.

Ainda criança começou a se interessar pela música. "Eu escutava Nelson Gonçalves e conseguia perceber perfeitamente o violão. Entendia a complexidade daquilo e ficava tentando reproduzir". E em 1967, aos 16 anos, foi tocar guitarra em uma banda de baile, Os Cometas. No repertório, MPB, serestas, bossa-nova, músicas estrangeiras e, claro, muita Jovem Guarda. Estranho para quem veio se destacar no choro?

"Eu não sou chorão. Sou músico", esclarece. "Adoro Jovem Guarda. Ainda sei tocar tudo daquela época. Esses dias estava reescutando os discos de Roberto Carlos e percebi mais uma vez a riqueza harmônica daquelas músicas", revela.

A música tornou-se um trabalho, mas o pai de Alencar não enxergava ali um bom futuro para o filho. E, em 1971, mandou-o embora de casa. Podia escolher: São Paulo, Rio ou Brasília. Veio parar na capital, ao contrário de um conterrâneo famoso, que foi para a Cidade Maravilhosa.

"Naquela época, as pessoas saíam de Ipu para trabalhar em outras cidades. Hoje em dia, saem para serem bandidos. O Bem-Te-Vi (ex-chefe do tráfico na Rocinha, morto por policiais) era de lá." Bizarro.

Seus primeiros anos em Brasília não foram muito produtivos musicalmente. Dedicou-se mais ao trabalho de funcionário público. E só arranhava o violão eventualmente, quando conseguia um emprestado. Tanto que sua volta definitiva ao instrumento só ocorreu em 1977, quando acompanhou um amigo em uma roda de samba feita por funcionários do Senado. Nada mais normal, caso ela não estivesse acontecendo durante o horário de expediente.

Esse amigo era Veloso, bandolinista que tocou com uma lenda do instrumento, Jacob do Bandolim. E a partir dessa e de outras rodas formou-se o embrião do Clube do Choro, fundado poucos meses depois na casa da flautista Odete Ernest Dias.

Desde então não parou mais. Já reconhecido como grande instrumentista, acompanhou nomes como Sílvio Caldas, Moreira da Silva, Paulo Vanzolini, Nelson Cavaquinho, Turíbio Santos e Cartola, de quem tem boas recordações. "Uma vez, depois de um show, ficamos bebendo até as 4 da manhã. Os músicos na cerveja e o Cartola no Conhaque Presidente, que ele adorava."

Foi só depois que começou os estudos formais de música. "Tudo o que eu tocava era de ouvido e de intuição. Não sabia nada de teoria. Para mim, uma semicolcheia era um espermatozóide".

E parece que ele aprendeu bem. Tão bem que virou professor. E há anos aperfeiçoa seus estudos e métodos de harmonias, já conhecidos e utilizados em outras cidades, como Rio e São Paulo.

Chegou até a dar umas dicas para Raphael Rabello. Perguntei se ele tinha sido professor do grande violonista. "Nunca. Ele só teve dois professores. Eu troquei umas informações com ele. Mas nós éramos grandes amigos".

Os olhos de Alencar brilham ao falar sobre os métodos harmônicos que vem desenvolvendo. Parece entrar em um mundo próprio, uma espécie de Matrix musical. Esquece que está no meio de uma entrevista e passa uns 30 minutos explicando as possíveis modulações de cada tom. Fico olhando para o aluno dele, que está ao meu lado e gentilmente cedeu sua aula para que continuássemos o papo. E, como se fôssemos puxados para o universo alencariano, tudo aquilo que ele falava também passou a ser muito claro para nós dois.

Além desses estudos, nos últimos anos Alencar retomou suas atividades no renascido Clube do Choro, agora sob o comando de Reco do Bandolim. E chegou a fundar a Escola de Choro Raphael Rabello. Mas agora anda meio afastado de lá. "Por quê?", pergunto. Ele me olha sorrindo e responde: "Porque a vida da gente é como couro de cobra. Vive mudando".

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Os clichês

- Dá uma sambadinha aí, então, só pra eu ver.
- Eu?
- Você não é brasileiro?
- E o que tem a ver uma coisa com a outra?
- Tudo, ué. Vocês são especialistas no assunto.
- Isso não significa que todo brasileiro saiba sambar.
- Mas e no carnaval, quem não samba faz o quê?
- Depende. Os que não sabem jogar bola se ocupam de assaltar os turistas. É importante, para manter nossa imagem no exterior.
- Você só pode estar de brincadeira.
- Foi você quem começou.
- Quer dizer que você não sabe sambar?
- Na última vez que tentei dei um nó tão grande nas minhas pernas que achavam que estava fantasiado de saci com cãibra.
- Mas você não tem nem aquelas roupas de escola de samba?
- Tenho várias, claro, mas só uso domingo de manhã, quando vou correr no parque. É que aqueles chapéus cheios de penas azuis me dão alergia, sabe?
- Mas que brasileiro mais sem graça que você é.
- Desculpe a falta de originalidade. Mas e você, monsieur, que tal se você me mostrasse um pouco da habilidade francesa em cozinhar? Pega aquele caramujo que tá passeando ali de bobeira e prepara um prato pra gente.
- Ei, não é assim. Eu adoro comer, mas sou uma negação na cozinha. Quase fui extraditado da última vez que tentei fazer um ovo frito.
- Tá vendo?
- O quê?
- É disso que estou falando. Dos clichês.
- Como assim?
- Dessa imagem pré-fabricada, que limita a visão sobre o outro. Vocês acham que todo brasileiro sabe sambar. E quando aparece um que não sabe, já vêm logo com esse papo de “nem parece brasileiro”.
- Você tem razão...
- É claro que tenho. Escuto essa conversa desde que cheguei na França.
- Então, meu amigo brasileiro, proponho que deixemos esses estereótipos pra lá.
- Abaixo os estereótipos!
- Vamos celebrar o fim deles.
- Celebremos.
- Levante o braço e grite “fim aos clichês!” comigo.
- Olha, meu caro francês, gritar eu até grito. Mas tem certeza de que é uma boa ideia você levantar o braço, hein?

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

À la brésilienne

- Je suis désolé, monsieur, mas isso não pode ser feito.
- Como assim, não dá?
- C’est pas possible.
- Não dá pra dar um jeitinho?
- Como assim, um jeitinho?
- Um jeitinho é uma maneira brasileira de resolver o que não pode ser resolvido. Mas não significa, no entanto, que a coisa será definitivamente resoluta.
- Você está me dizendo que você quer que eu invente uma solução para algo aparentemente insolúvel e no fim das contas ela não vai solucionar o problema?
- Vai resolver o meu problema, que é a questão nesse momento.
- Mais c’est incroyable!
- Eu também acho. Inacreditavelmente simples, né? Estamos acertados?
- C’est incroyable a sua cara de pau. Você quer que eu mude as regras para se adaptarem às suas necessidades!
- Eu não diria “mudar”. Vamos trocar por “humanizar”. É mais bonito e cai super bem na França, onde vocês adoram uma filosofiazinha.
- Então, pela sua lógica, se eu tirasse a sua multa eu seria mais humano?
- Duplamente. Fazendo esse favor, você se mostraria uma pessoa melhor e de quebra ainda ganharia um amigo.
- Quem?
- Euzinho.
- Mas eu não quero sua amizade.
- Como assim?
- Eu nem sei quem é você.
- Antônio, a seu serviço.
- Não quero ser seu amigo, Antoniô.
- Puxa, tá bom...
- Ei, também não precisa chorar.
- Vocês, franceses, são muito frios. Bem que minha mãe me disse pra não vir pra cá, que o Brasil era muito melhor, que a torre de Brasília era muito mais bonita que a Eiffel, que a poluição do Tietê era muito mais escura que a do Sena, que...
- Calma, Antoniô. Vamos fazer o seguinte: pra você parar de me perturbar, eu finjo que não vi o seu carro e você vai embora daqui, ok?
- Jura que você vai fazer isso por mim?
- Juro.
- Você não imagina como fico feliz! Pra agradecer, te convido a ir lá em casa hoje à noite. Vai ter feijoada com caipirinha.
- Hmmm, adoro caipirinha, mas não sei se devo.
- Deve, deve. Afinal, somos amigos ou não?
- Somos?
- Claro que somos!
- Bom, d’accord. Vou aceitar o convite.
- Feito. Passa lá às 20 horas. Não precisa levar nada. Beijomeliga!

Vrummm.

- Antoniô, você não me deu o endereço. Antoniô!!!

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Ricochete

Em uma madrugada de verão, o velho poeta sai de casa caminhando sem destino. Moleskine no bolso, pro caso de pintar uma inspiração, não tarda se encontrar ao largo do canal Saint-Martin.

Ele observa as pontes de pedestres e hesita um pouco antes de subir em uma delas. Ao chegar no ponto mais alto, para e contempla as águas passarem embaixo, sem pressa. Fecha um pouco os olhos, tentando focalizar a visão, à procura de peixes. Mas tudo o que vê são copos plásticos boiando, sinal de que alguém deve ter se divertido não muito longe dali, não muito tempo antes.  

Desce da ponte e continua sua peregrinação, dessa vez na outra margem, mais boêmia. Observa os jovens falando alto, taças de vinho na mão, flertando, e se lembra que um dia já fez o mesmo.

Senta-se em um banco e os observa, saca o moleskine e rabisca palavras soltas, como “paixão”, “vontade”, “beleza”, “alegria”, “descoberta” e “leveza”. Tenta fazer algo com elas, mas não sabe o quê. Daquelas palavras ele sabe muito bem a definição do dicionário, mas já há algum tempo não consegue enxergá-las no próprio ser.

Tenta um soneto, que não sai, pois não o sente. Passa para um haikai, mas ser sintético nunca foi uma de suas qualidades. Ensaia um acróstico, e se lembra que detesta acrósticos, por julgar ser uma forma fácil de escrita. “Uma poesia menor, mesmo que a palavra escolhida seja grande”, sempre dizia, com sua peculiar ironia.

Ainda sentado, desmonta sua caneta tinteiro, arrebenta a carga e a despeja inteira nas páginas quase virgens do pequeno caderno. Não o faz de forma displicente, muito pelo contrário, toma cuidado de inutilizar para sempre aquelas folhas. Joga tudo no canal, a caneta inclusive, compra uma cerveja numa épicerie e continua, como um zumbi, a perambular.

Pouco depois, chega ao bassin de la Villette, lotado, e procura um canto mais escondido para se refugiar com suas angústias e seus fantasmas. Pega uma pedra qualquer e joga nas águas paradas. Ela ricocheteia, descreve um breve arco, ricocheteia novamente e afunda de vez. Surpreso, procura uma outra pedra, mais achatada, e lança novamente. Esta repete a trajetória da anterior, porém quica quatro vezes antes de submergir para sempre.

Entregue à atividade, só percebe que o tempo passou quando os primeiros raios de sol anunciam a chegada de um novo dia.

Lentamente, retoma o rumo de casa. No meio do caminho, para na mesma épicerie e negocia com o proprietário que este lhe venda sua caneta esferográfica, que de tão gasta lhe é dada como presente.

Ao chegar ao lar, antes de dormir, o velho poeta pega um pedaço de papel e desafoga:

"Sonhos ruins findos:
Com pedrinhas e água
fiz arcos lindos"

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

À table!

O General De Gaulle disse uma vez que era impossível governar um país que tem mais tipos de queijo do que dias do ano. Ainda no contexto gastronômico, eu afirmo que o mais complicado na França nem é a enorme variedade desses derivados lácteos, mas sim a estapafúrdia quantidade de regras de comportamento à mesa que eles têm.

No Brasil elas se resumem mais ou menos a “evite colocar seu pé na comida do outro” e “se for lamber o prato, faça-o embaixo da mesa”. Mas no país do fromage a lista é longa e tem origem antiga, resultado de séculos e séculos de muita preocupação com a etiqueta e, principalmente, de muita falta do que fazer.

Eis uma pequena amostra delas, com datas indicadas onde necessário.

Capítulo 1 – Da maneira de se portar
. Regra 1 (ano 1023) – Ao sentar-se à mesa, nunca sente-se realmente à mesa, mas sim na cadeira reservada para você.
. Regra 45 – É terminantemente interditado olhar no prato do vizinho. Fazendo isso, você dá a ele o direito de bufar na sua direção e dizer “merde”.
. Regra 97 (ano 1990) – É proibido cantar à mesa. Principalmente aquela lambada do grupo Kaoma.

Capítulo 5 – Da refeição em si
. Regra 4 (ano 1211) – Se você já acabou o seu javali, não fique de olho no do seu colega. Ele pode ficar chateado e te cortar a cabeça com uma espada.
. Regra 23 (ano 1322) – É polido e prudente não começar a refeição antes da dona da casa. Polido porque, afinal, é ela quem o está convidando. E prudente porque em pleno século XIV é grande a chance de a gororoba estar estragada. E aí é a velha quem vai passar mal.
. Regra 64 (ano 1655) – Nós todos sabemos que essas enormes perucas brancas que usamos são absolutamente ridículas, mas isso não significa que você possa retirá-la durante um jantar.

Capítulo 9 – Das batalhas à mesa
. Regra única – Não brigue à mesa.
. Regra única, adendo 1 (ano 1642) – Se brigar e a coisa ficar feia, evite marcar duelos para logo após o almoço. Seria uma grande indelicadeza com a dona da casa.
. Regra única, adendo 4 (de 1789) – Mesmo para um revolucionário, não é de bom tom brigar à mesa. Mas caso a confusão role, nunca utilize seu guardanapo de tecido para estrangular o vizinho. Prefira a guilhotina.
. Regra única, adendo 4.1 (de 1789) – Quando o uso da guilhotina se fizer necessário, é polido esperar a futura vítima acabar a sobremesa e o café.

Capítulo 13 – Da eventualidade de servirem escargots
. Regra 1 – Coma. Se não gostar você pode fazer biquinho, afinal estamos na França.
. Regra 17 – Se seus escargots forem servidos vivos, não promova uma corrida com eles. A dona de casa pode ficar ofendida.
. Regra 31 – Não se preocupe, não é gafe deixar as antenas do bicho no prato.

Capítulo 21 – Da hora de partir
. Regra 8 (ano 1243) – É indelicadeza com o dono da casa ir embora antes de ficar completamente bêbado.
. Regra 27 (ano 1789) – É indelicadeza com o dono da casa ir embora antes de ficar completamente bêbado e cantar a Marselhesa.
. Regra 43 (ano 2011) – É indelicadeza com o dono da casa ir embora antes que ele tenha a chance de bufar três vezes, demonstrando claramente que você já deveria ter zarpado há muito tempo.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A história de Mamicô

A Mamicô é uma contraparente do tio de um primo de 15º grau. E tão fraca quanto nossos laços familiais é a sua memória. Porém, se suas lembranças já falham, o bom humor e a vontade de conversar parecem não terem sofrido a corrosão causada pelo tempo.

Na última semana, fomos visitá-la na sua enorme casa na Normandia. Com seu eterno sorriso, ela contava diariamente um pouco dos seus quase 90 anos de história. Ou de estória.

1º dia

“Sabe, o Bernard comprou essa casa há muitos anos, antes mesmo do nosso casamento. Era um antigo monastério. Os monges que habitavam aqui oravam, meditavam e nas horas vagas produziam um excelente vinho. Depois que chegamos, começamos a fazer grandes festas, que duravam três, quatro dias, toda a cidade era convidada. Você pode contar, são exatamente 16 quartos, dá pra receber muita gente. Nós adorávamos passear pelo bosque. No verão, colhíamos cerejas, amoras e framboesas frescas e ele sempre aparecia com uma rosa para mim. No inverno, dávamos uma voltinha rápida, só para pegar um pouco de ar, pois o frio é rude. Às vezes passávamos na única discoteca da região e dançávamos até o dia clarear. O Bernard já se foi, que Deus o tenha, mas a casa continua aberta a todos os nossos netos e bisnetos, como ele sempre quis. Você, com esse seu sotaque, deve ser o filho da Brigitte, né? Sim, sim, agora estou lembrando. Qual é mesmo o seu nome?”

2º dia

“O Bernard comprou essa casa há muitos anos, parece que de um monge, que precisava de dinheiro para a bebida. Lembro que fazíamos festas memoráveis e depois íamos todos orar e meditar no bosque. Nosso casamento foi aqui. Convidamos toda a cidade, mas ninguém conhecia o endereço e ainda por cima era inverno, então só vieram nossos netos e bisnetos. Mesmo assim foi uma lindeza só. O Bernard colheu rosas e encheu de pétalas todos os 25 quartos. Você estava, né? Você e aquela sua namorada, a Brigitte, que usava um lindo vestido cor de cereja, perfeito para o calor que fazia no dia. Eu a adoro, a Brigitte. Não sei se te falei e talvez você nem acredite, mas essa casa já foi uma discoteca.”

3º dia

“Quando o Bernard chegou aqui, tudo isso era um enorme bosque, cheio de monges pendurados nas árvores. Ele tentou montar uma discoteca, mas as pessoas bebiam demais. Então ele colocou nossos netos e bisnetos para produzirem vinho para toda a cidade. Eu me lembro de uma manhã de inverno, quando você chegou com a sua filha Brigitte. Ela tinha uma rosa no cabelo e comia framboesas como uma louca. Instalamos vocês na suíte número 33. Lembro claramente, porque 33 é a idade de Cristo. No dia seguinte o Bernard meditou e me pediu em casamento.”

4º dia

“Bernard, isso é hora de chegar? Aposto que estava bebendo vinho com a Brigitte naquela discoteca, enquanto eu fico aqui, meditando. Não gosto dessa moça, ela é muito assanhada. Agora raspa essa barba e vamos. Os monges estão esperando. Estamos atrasados para o nosso casamento no bosque. Pega um casaco, hoje tá fazendo frio.”

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Não estamos a seu serviço

O garçom parisiense, eu acho que ainda não falei suficientemente dele, o garçom parisiense acha que você teve a pior ideia do mundo quando escolheu ir ao restaurante no qual ele trabalha. Ora, se há tantos outros por perto, por que você tinha que aparecer logo ali? Agora ele vai ser obrigado a te atender, ou a fazer algo parecido com com isso.

Você chega ao restaurante, escolhe uma mesa, senta e espera que o sujeito venha te falar. E espera. Espera e olha para ele, na expectativa de ser notado, mas ele te ignora de uma maneira que nem o pai da sua ex-namorada conseguiu fazer depois de você ter enchido a cara e dado vexame na festa de aniversário da sobrinha de 2 anos, com toda a família reunida.

E quando você já começa a perder as esperanças, ele chega de supetão.

- Alors, o que deseja?

Nessa hora você, inocentemente, comete o erro fatal, a gafe imperdoável, o absurdo dos absurdos: pede o menu. O garçom te olha com cara de quem está morrendo de vontade de te jogar na frente do primeiro ônibus biarticulado e aponta para a parede com o queixo.

- O menu está ali, em letras gigantes.

Inexperiente, você cai no segundo equívoco, o de pedir explicação sobre a comida. Ora, quem nesse mundo não sabe o que tem em um prato chamado “Comme un céviche de daurade royale aux herbes, mesclun aux feuilles de moutarde et pignons de pin“? Se não sabe, por que foi inventar de ir àquele estabelecimento, hein? Contendo o impulso de te mandar catar azeitonas na Grécia com o pé esquerdo, ele dá uma bufada ao mesmo tempo que devolve a pergunta.

- Qual parte exatamente o senhor não compreendeu?

Em um ato de extrema e rara benevolência, o distinto decide te conceder mais 11 segundos do seu precioso tempo e narra um resumo explicativo dos pratos do dia, em uma velocidade de causar inveja em locutor de futebol no rádio. Consternado e já quase pedindo desculpas, você opta pelo único que entendeu, o “steak frites”, que deduz corretamente ser o glorioso bife com batatas fritas. O único que não dá margem a erros. Ou quase.

- Cozimento da carne, monsieur?

O cozimento da carne? Você ainda não pensou a respeito, merde! No desespero, faz uma cara de piedade, na esperança de que ele decida por você, mas o olhar do cidadão é tão congelante que você sente frio até na alma. Em pânico, diz a primeira coisa que vem à cabeça.

- Bem passada, por fa...

Mas não consegue terminar a frase.

- Carne bem passada fica dura e sem gosto. Não presta. Ou você pede outro cozimento ou escolhe outro prato. O peixe com pimentões e tomates é bom.

Apavorado, você aceita a sugestão, sem nem ter escutado direito, com o único pensamento de se ver logo livre do sujeito. Pouco depois, ele traz a sua comida e só aí você se lembra que detesta pimentão. Por um segundo, você chega a cogitar a possibilidade de dizer que não era bem isso o que gostaria de ter pedido, de saber se seria possível ele ser compreensível e trocar pimentões por batatas, mas o garçom parisiense lê o seu pensamento e te manda um olhar glacial e uma bufada do outro lado do restaurante. Nesse exato momento você se convence de que você e o pimentão nasceram um para o outro.

sábado, 30 de julho de 2011

O mundo paralelo de Christiania

Estávamos na porta de Christiania, a célebre cidadela hippie de Copenhaguen, onde artistas, vagabundos, poetas, marginais, traficantes, hippies e todo tipo de alternativo convivem harmonicamente há 40 anos como se o sonho sessentista de paz & amor & drogas nunca tivesse deixado de existir.

Antes de passarmos a barreira, lembrei-me do aviso de um amigo: “Velho, Cristiania é um mundo paralelo. Ali você acessa uma outra dimensão, uma realidade muito diferente da nossa. Não é pra iniciantes, fica ligado”.

Entramos um pouco apreensivos e prendemos o ar. Mas logo percebemos que meu amigo havia exagerado. Tudo parecia completamente normal. O céu era esverdeado, como em qualquer lugar do mundo. E a chuva de purpurinas em forma de coração não era forte o bastante para incomodar. É verdade que estranhei um pouco um sujeito vestido de Charles Chaplin que andava plantando bananeira, mas o cachorro rosa ao meu lado me tranquilizou, garantindo que o cidadão só caminhava daquele jeito porque se sentia um pouco indisposto.

Na rua principal, comerciantes de alimentos e plantas ali mesmo produzidos dividiam espaço com enormes placas informando que era proibido tirar fotos e tocar balalaika. Fiquei tão absorvido lendo o informe que quase fui atropelado por um elefante distraído. Não posso reclamar, e culpa era minha, eu estava fora da faixa e não respeitei a preferência do bicho.

Um pouco mais à frente, um pequeno palco recebia uma banda cover de Black Sabbath. A música estava boa, mas porquê um dos músicos estava tocando com uma cadeira de balanço no lugar da guitarra? Comentei o fato com um carinha ao meu lado e ele não sabia a razão. O engraçado é que ele era a cara do Ozzy Osbourne. Não só ele, aliás, mas todas as outras pessoas da platéia. Teve um momento em que todo mundo se virou pra mim, fez o símbolo do heavy metal e gritou um sonoro “yeah!”. Eu berrei um “yeah!” de volta. Daí foi um pulo pra cantarmos Paranoid em coro.

Continuamos nossa peregrinação pelo lugar, sempre tomando cuidado para desviar das poças de areia movediça e dos malditos aviões que insistiam em passar dando rasantes nas nossas cabeças, e chegamos a uma lagoa. Era linda, com suas margens gramadas, sua pequena ponte ligando a uma ilhota e suas águas amarelinhas, de onde saltavam dezenas de peixes e torradeiras. Paramos uns minutos pra relaxar e aproveitar a paisagem.

Cansados da peregrinação, decidimos que o momento da cerveja era chegado. Entramos em um bar curioso, pois havia gelatina no lugar do chão e a única maneira de se locomover era saltando. Entre um pulo e outro, conseguir entrar em fase com um ciclope e perguntei como fazia pra descolar uma bebida. “Nada de mais simples”, ele disse. “Basta entrar naquela fila ali e recitar um ou dois trechos de Goëthe, em alemão”. Escolhi meus preferidos, soltei a voz e solicitei três Carlsberg.

Cervejas acabadas, resolvemos ir embora. Embarcamos na nave estacionada em frente ao bar e eu disse ao comandante Jimi Hendrix o endereço do nosso hotel. Consternado, ele explicou que só poderia nos levar até a fronteira da cidadela, não tinha autorização de passar daquele limite.

É claro que aceitamos a carona de bom grado. Jimi nos deixou na entrada, apertou nossas mãos, tocou fogo na nave e se mandou. Cruzamos a porta de Christiania e soltamos o ar. Ali tivemos certeza de que meu amigo havia inflacionado seu recito, pois aquele lugar nos pareceu muito normal. Pergunta pra Janis Joplin, pro Jim Morrison, pro Andy Wharol, pro Raul Seixas ou pro Timothy Leary, que estavam o tempo todo com a gente.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Os biôs

A última moda em Paris é ser bio. Ou biô, como eles dizem. Ser bio é ser adepto dos alimentos orgânicos, produzidos sem agrotóxicos. É adotar um modo de vida mais são, de mais respeito à natureza e ao produtor. É colocar um pouco mais de saúde no prato.

Tem parisiense que faz qualquer coisa por uma porção de legumes e frutas bio. Conheço um que duas vezes por semana pega o carro, atravessa Paris inteira e engole fumaça de engarrafamento só para vir ao Marché d’Aligre comprar sua cota de bem estar em forma de abobrinhas.

Há aqueles que se amontoam em frente às barracas bio da feira e se acotovelam, se empurram e quase se estapeiam na disputa pelo alho poró mais bonito. E quando descobrem um bom exemplar de funcho perdido entre as endívias, aí é o verdadeiro êxtase, a contemplação do divino, o arrebatamento do espírito e do corpo.

Mas não é qualquer bio que serve, a coisa não é tão simples assim. Pra ser bom, o bio tem que ser caro. Bio em promoção está estragado, não presta, com esse preço aí alguma coisa está errada. E não faz mal se para morder um superfaturado damasco bio é necessário vender os dentes da boca. Afinal, o parisiense sabe bem que bio de pobre não tem tantas vitaminas quanto seus semelhantes inflacionados.

O parisiense verdadeiramente bio só consome produtos bio. Ele acorda de manhã, passa um creme bio no rosto, pra ficar com aquela pele de pêssego bio. Depois, prepara um café bio guatemalteco, morde uma maçã bio, que vez ou outra esconde uma minhoca, também bio (ou seria minhoca bia?) e come uma ou duas tartines de pão bio com manteiga idem.

E então sai pra rua e acende um Malrboro, feliz de sua condição de sujeito saudável.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

J'aime rien

Há algo muito importante que você precisa aprender sobre os parisienses: eles te detestam. Eles não te conhecem e te odeiam. Nunca te viram e já não suportam a sua presença. Mas, acredite, esse ódio, apesar de real, não é pessoal (esse é um privilégio concedido a poucos, como ao atual casal presidencial e às pessoas que estão a menos de 200 quilômetros deles).

Vou tentar explicar alguns elementos dessa falta de apreço do parisiense por tudo o que se move e não é o seu cachorro.

Bufada
Categoria: manifestação não-verbal de ódio

A bufada é a mais clássica demonstração de irritação do parisiense. Mas é mais do que isso: é também o último refúgio da eterna insatisfação francesa, da vontade que eles têm de vez em quando – tipo umas 12 vezes por dia – de mandar tudo pros ares e fazer uma revolução. É o que sobrou depois que se tornou meio indelicado pendurar o sujeito em uma forca ou guilhotiná-lo em praça pública. Malditos tempos monótonos, onde não se pode nem mais descer tranquilamente a lâmina no pescoço alheio.

Putain!
Categoria: manifestação verbal de ódio

Putain significa puta merda. Em Paris você vai escutá-lo ao menos 337 vezes por dia. Se um parisiense está aborrecido, ele diz “putain”. Se um parisiense dá uma topada com o joelho, ele diz “putain”. Se um parisiense pisa num cocô de cachorro de um outro parisiense, ele diz “putain”. Se está frio, ele diz “putain”. Se faz calor, ele diz “putain”. Se você ousa abordar um parisiense, tirando-o de suas complicadas elocubrações mentais, para lhe perguntar alguma coisa que não esteja à altura de sua genialidade, ele pode até não dizer “putain”, mas certamente vai pensar. E depois vai bufar.

Vizinhos   
Categoria: objeto (relativo) de desprezo

O verdadeiro parisiense nunca se dirige aos seus vizinhos quando pegam o mesmo elevador. Mas se por acaso se encontram em um bar do outro lado da cidade, são capazes de conversar por horas a fio, falando mal dos outros vizinhos. No dia seguinte, no elevador, o amigo da véspera volta à condição de semi desconhecido. Condição que dura até o próximo encontro fortuito em um bar bem distante, porque esse da esquina é mal frequentado, tá cheio de vizinhos.

Turistas
Categoria: objeto de ódio extremo

Só tem uma coisa que o parisiense odeia mais do que você, o vizinho ou qualquer outro parisiense: o turista. Se você for um destes, a sua única opção é freqüentar lugares nos quais dificilmente os locais põem os pés, como a torre Eiffel ou o Louvre (evite os McDonald’s ou a Eurodisney, sempre entupidos de nativos).

Bom, pra não ser injusto, preciso admtir que o parisiense adora Paris, com seus restaurantes, sua vida cultural, seus cafés com mesas na varanda, seus parques e tudo mais o que há.

Não é exagero dizer que o parisiense ama sua cidade.

Ele só detesta todo mundo que mora nela.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Des bisous

Francês adora se dar beijinho no rosto. “Faire la bise”, eles dizem. E ao contrário do que pregava Tim Maia, aqui também vale homem com homem e mulher com mulher.

Quero deixar claro que não tenho nada contra cumprimentar meus amigos macho alfa dessa maneira. Mas o melhor é que a coisa seja resolvida rapidamente: “salut”, bisou, bisou, “ça va?”. Pronto, feito, não se fala mais nisso, passemos a outra coisa.

Só que nem sempre é tão simples. Sendo estrangeiro, você nunca está ao abrigo de situações embaraçosas, como quando vê de longe um amigo francês e reflete: “lá vem o sujeito, vou precisar beijá-lo quando ele chegar”. Ele, sabendo que você não é local, acaba pensando: “olha lá meu amigo brasileiro, vou fazer como ele e seus simpáticos conterrâneos, dar um abraço ao invés de um beijo”.

Aí ele pára diante de você, que quer se mostrar integrado e já faz o biquinho em direção ao rosto do cidadão. Ao mesmo tempo, ele coloca os braços em torno de você e também se aproxima. Batata, sem querer vocês estão quase se dando um verdadeiro french kiss. Uma situação, vamos definir assim, um pouco desconfortável, que pode tornar-se ainda pior se ambos ostentarem pêlos crescidos na cara. Já aconteceu comigo e é uma sensação que não consta da minha lista de preferidas. Se fosse classificá-la, ela viria depois do item intoxicação alimentar causada por salmonela.

Mas então você decide esquecer do incidente e passa bons momentos ao lado do seu amigo. E pra provar que o selinho não afetou em nada a sua virilidade, vocês conversam de assuntos de interesse masculino, como o campeonato africano de futebol, as diferenças entre a Playboy francesa e a brasileira ou último disco do AC/DC.

Até que chega a hora de ir embora. Meio bêbado, você se levanta e vai andando em direção à sua casa, no que é interpelado pelo seu amigo.

 - Peraí, vai embora sem dizer adeus?

Consternado, você o segura com força pelos ombros e lhe tasca uma rápida beiçada nas duas faces, antes que ele invente novamente essa história muito estranha de te abraçar.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Macacos me mordam!

Vejam vocês que essa foi uma semana agitada na França. Anteontem, foram libertados os dois jornalistas da France Télévision que pagaram uma big etapa de 18 meses de cativeiro no Afeganistão. Ontem, Sarkozy levou uma semi bifa de um cidadão mutcho putcho da vida, na saída de uma reunião. Hoje, a justiça (ha ha!) americana decidiu liberar o Dominique Strauss-Khan, sob condição que ele “se comporte como um bom menino e, por favor, pare de se meter onde não é chamado”.

Todas essas notícias são bombásticas, mas não foi nenhuma delas a que mais me chamou a atenção no período. O posto de top of mind da semana vai para a seguinte manchete: “Digit, uma gorila que vive com um casal”. Não o senhor e a senhora não estão ficando malucos. É exatamente isso: dois franceses decidiram adotar um macaco. Peraí, que eu explico melhor.

Pierre e Elianne Thivillon são administradores de um zoológico na cidade de Saint-Martin-La-Plaine. Acontece que eles já não são mais jovens e por uma dessas razões da vida acabaram não tendo filhos. E aí, um belo dia desses, sem nada melhor pra fazer, decidiram levar o símio para casa. Pronto, simples assim.

Engana-se, porém, quem ache que Digit abandonou o trabalho. Não! Ela continua passando os dias no zoológico, entretendo os visitantes e fazendo as macaquices que esperam dela. E só à noite é que ruma para o novo lar doce lar, pra assistir a uma televisãozinha, bater um rango, dar um relax, que ninguém é de ferro. Mais tarde, quando chega a leseira, vai para os braços de Morfeu. Na cama do casal que a adotou, claro.

Essa história é tão surreal que a tomada dessa decisão só pode ter sido no mesmo tom:

- Benhê.
- Hã…
- Ô, benhê.
- Diga, mozinho.
- Tava aqui, conversando com os meus botões.
- Fala.
- Tive uma idéia, mas não sei se você vai achar boa.
- Pode falar, mozinho.
- Sabiuquié?
- Sei não.
- Fiquei pensando, já que a gente não tem filhos…
- Já sei, você está a fim de fazer uma grande viagem.
- Né isso não.
- Quer mais um cachorrinho?
- Quero não.
- E o que é, então?
- É que… Tava pensando em trazer a Digit pra morar com a gente.
- Aquele macaco?
- Fala assim não, ela pode ficar chateada. Digit é um gorila, e gorila também é gente.
- Peraí, Elianne. Você está querendo me dizer que quer trazer pra casa um macaco…
- É gorila!
- Que seja. Um gorila, que passa o dia inteiro no zoológico, macaqueando pra lá e pra cá, se esfregando em outros símios, comendo aquele lixo que os turistas jogam pra ele, um animal com tanta força que é capaz de esmagar nossas cabeças com apenas uma mão, que vai acabar fazendo caguito no meio da nossa sala e sujar tudo por aqui, sem contar que se um dia ela pira pode destruir a casa inteira em menos de um minuto. É esse bicho que você quer trazer pra morar com a gente?
- É.
- Bon, d’accord. Agora eu digo uma coisa: o controle remoto da TV continua comigo, e isso não se discute.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Dans le noir

Querida mamãe, querido papai.

Já estamos em Paris há quase uma semana e ainda tem zilhões de coisas para descobrirmos. Hoje andamos o dia inteiro e chegamos exaustos ao hotel. Mortos de fome, perguntamos pro atendente se ele conhecia um fast food pra nos indicar. Ele nos olhou nos olhos durante longos segundos e depois disparou a gritar, mas não entendemos muito bem o que ele disse. O Andrezito, que sabe de cor a letra de “Je t’aime, moi non plus...” e por isso é o que melhor fala francês de nós três, pescou umas palavras. Parece que o sujeito misturou na mesma frase “turistas estúpidos”, “Paris”, “um milhão de restaurantes”, “McDonalds”, “Mickey”, “lixo americano” e “explodir aquele país com uma bomba de mil megatons e depois jogar sal grosso por cima”.

Tadinho do atendente, acho que todo aquele discurso o deixou sem fôlego, pois no final ele não parava de bufar. Decidimos deixar o pobrezinho descansar um pouco e saímos na louca à cata de algo pra comer. Foi a Pituca quem sugeriu:

- Oie! Estamos em Paris, a cidade dos restaurantes. E se a gente trocasse o Big Mac por um verdadeiro jantar?

Todos concordamos e decidimos entrar no primeiro que aparecesse pela frente. E foi assim que chegamos ao Dans le Noir, um restaurante com uma cara muito simpática e um pessoal solícito. Ninguém ali falava português, claro, mas não tivemos problemas para nos comunicar em inglês. Uma garçonete veio nos explicar como funcionava o lugar.

- Aqui vocês comem no escuro total, sem saber o que tem no prato.

A gente adorou aquela ideia, menos o Andrezito. Ele falou que não saber o que tem no prato não era novidade nenhuma, pois até hoje não conseguira decifrar a gororoba que sua mãe preparava diariamente no almoço. Mas insistimos e ele topou jantar ali. A moça continuou as instruções.

- Um de vocês segura no meu ombro. Os outros se colocam em fila e fazem o mesmo com quem está na frente. Não soltem de jeito nenhum, pois no salão não há qualquer luz.

Só aí reparamos que a atendente era cega. Aliás, não somente ela, mas quase todo mundo que trabalhava ali. Segurei então no seu ombro, o Andrezito veio atrás e a Pituca por último. E entramos no salão escuro. Tudo ia bem, até que o Andrezito resolveu aprontar das suas e apertou os meus pneus. Mamãe e papai, vocês sabem como eu mooorrooo de cócegas. E quando me tocam ali, perco totalmente o controle. Mal o Andrezito encostou, me contraí toda e quase esmaguei o trapézio (viva as aulas de anatomia!) da atendente, que caiu no chão. Eu e o Andrezito tropeçamos por cima dela. A Pituca teve menos sorte, pois escorregou feio e, no desespero, agarrou-se aos cabelos de um cliente que estava jantando tranquilamente. Os dois despencaram como uma torre Eiffel implodida e, segundo ela conta, saíram rolando pelo salão. Um funcionário do lugar veio correndo com uma lanterna, disse uns mil “pardons” ao cidadão e nos levou à nossa mesa. Eu acho que aquela confusão cansou os dois sujeitos, pois eles não paravam de bufar.

Já instalados, não enxergávamos um dedo à frente do nariz. A garçonete chegou com a comida e disse para não nos mexermos enquanto ela nos servia. Depois nos explicou que os talheres estavam em cima da mesa, mas o legal era comermos com as mãos e tentarmos adivinhar o que ela nos havia servido. Comentei com Andrezito e Pituca que havia algo meio molenga, frio e grudento no meu prato e o Andrezito (sempre ele) me lembrou que na França se come muito escargot. Ele disse até que as crianças pegam escargot na rua, passam uma manteiguinha e botam pra dentro. E que provavelmente era aquilo que tinham nos preparado. Mamãe e papai, vocês sabem que eu mooorrooo de nojo de caracol, lesma e bichos rastejantes em geral (como o Fabinho, aquele meu ex).

Aí não pude controlar, gritei com toda a força, quebrando a calma francesa do lugar e começando uma confusão, com direito a pratos caindo e uma baita de uma gritaria. Pituca e eu não entendemos nada do que diziam, mas o Andrezito compreendeu algumas coisas, como “turistas estúpidos”, “Paris”, “um milhão de restaurantes” e “alguém chama rápido um médico porque tem um senhor sofrendo um ataque cardíaco aqui atrás”.

Não demorou e um funcionário surgiu pra acender a luz do salão pela primeira vez na história do restaurante e tentar resolver aquela pândega (viva as aulas de português!). Mas antes de ele chegar, nós já tínhamos nos arrastando até a saída. Fomos direto ao caixa, a fim de pagar a conta e sumirmos dali. Quando vimos o quanto devíamos, o conceito do restaurante fez todo o sentido: aquele jantar nos custou os olhos da cara. Mas não tem problema, afinal estamos em Paris e Hemingway já dizia que Paris é uma festa (viva as aulas de literatura!).

Amanhã vamos à Eurodisney.

Beijos da Ju.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Mais um roteiro para um filme (chato) francês


Mathieu, Arnaldo e Lucille caminham tranquilamente às margens do Sena, em uma tarde de outono. Mathieu e Lucille são parisienses e Arnaldo é brasileiro. É ele quem escorrega em uma casca de banana e despenca no rio, só tendo tempo de se agarrar a uma prancha de madeira que passava por perto.

Arnaldo – Ei, me ajudem, não sei nadar.

Mathieu – Meu são Sartre! Que coisa mais irresponsável, Arnaldô. Você deveria ter pensado nisso antes, deveria ter aprendido a nadar quando era tempo. Agora quer que a gente aja para remediar uma atitude que você não tomou.

Lucille – Tão brasileiro isso, Arnaldô...

Arnaldo – Me ajudem a sair, a água tá fria.

Mathieu – Mas é claro que a água está fria, estamos no outono. Acabaram as cerejas, acabou o calor, acabaram os sorrisos.

Lucille - Agora vamos todos nos fechar aos poucos em nossas individualidades invernais.

Arnaldo – Fechem-se, abram-se, tranquem-se, explodam-se. Mas me tirem daqui!

Mathieu – Não é tão simples, Arnaldô. Eu não tenho autorização para entrar nesse rio.

Lucille – Eu também não.

Arnaldo (já batendo o queixo) – Na...não têm o quê?

Mathieu – Autorização, Arnaldô. É preciso entregar um dossier e uma carta de motivação na prefeitura de Paris, explicando por que eu quero mergulhar no Sena. Com um pouco de sorte, a resposta sai em menos de 3 semanas.

Lucille – E não é certo que ela seja positiva.

Mathieu – Mas aí cabe sempre recurso.

Arnaldo (segurando-se à prancha com dificuldade) – Preciso de ajuda...

Lucille – Mas que vergonha, Arnaldô. Você só enxerga o próprio umbigo? A França precisa de ajuda, os pobres desse país precisam de ajuda, os desempregados precisam de ajuda. E você falando apenas do que você necessita?

Mathieu – Franchement, Arnaldô, está na hora de cada um de nós começar a pensar mais no coletivo.

Arnaldo (já engolindo água) – Me tirem... daqui...

Lucille – Arnaldô, é por causa de gente como você que esse país está afundando. Sempre “eu, eu e eu”.

Arnaldo (só com a boca de fora) – Rápido... (blub) Ajudem... (blub)

Mathieu – Voilà! Tive uma ideia brilhante para mudar essa situação!

Lucille – O que é?

Arnaldo faz um esforço para tirar a cabeça da água.

Mathieu – Uma ação conjunta.

Lucille – E o que seria? Juntarmos nossos cintos e fazermos uma corda para resgatar o Arnaldô da água?

Arnaldo batalha para se agarrar novamente à prancha.

Mathieu – Melhor, Lucille, muito melhor.

Lucille – Você me segura pela cintura enquanto eu me inclino para puxar o Arnaldô?

Arnaldo, olimpicamente exausto, levanta a mão, esperando o socorro que irá salvá-lo.

Mathieu – Ainda melhor.

Lucille – E o que é, Mathieu?

Mathieu – Vamos fazer uma passeata para reclamar das condições de higiene da nossa cidade. Onde já se viu, cascas de banana no chão em plena Paris? Imagina se sou eu quem tropeço e caio nesse rio?

Lucille – Ou eu?

Mathieu – Marchons!

Lucille – Allez!

Arnaldo – Blub...


Leiam aqui o primeiro roteiro para um filme (chato) francês