sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Uma dádiva de Natal


Já deve ter acontecido com você: comemoração de Natal na casa do primo distante da sua mãe, missa do Papa na TV, tâmaras em cima da mesa (o que seriam das tâmaras se não fosse o Natal?), crianças gritando pra lá e pra cá e de vez em quando gritando ainda mais alto pois uma delas acabou de ser atropelada por uma quina de parede, e, claro, o pinheiro cheio de bolas coloridas em cima e de presentes embaixo.

Você vai dar uma espiada nos pacotes e descobre um com o seu nome. Fica imaginando o conteúdo. Aquele vinho de uma safra especial que você viu em uma loja e comentou com a família inteira, na esperança de ganhá-lo? Um sapato novo, pois o seu atual e único tem bem mais quilômetros de uso do que deveria? A sonhada coleção de DVDs com todos os especiais de fim de ano do Robertão? A sua ansiedade é compreensível, afinal esse ano o combinado era não poupar. Certamente qualquer uma dessas escolhas te agradaria, ou até mesmo possíveis variações delas, como um champanhe barato, uma chuteira nova para a sua pelada semestral ou a 5ª temporada de Seinfeld.

Aí surge aquele contraparente do seu cunhado, o que sempre puxa o coro "Pre-sen-tes! Pre-sen-tes!", e faz o serviço esperado. As crianças correm na frente, mas alguém as segura e diz que precisam aguardar a vez, como todo mundo. O marido da sua tia, que você apelidou de primo Halley pois ele só dá as caras de longos em longos ciclos, anuncia o primeiro regalado no inevitável amigo oculto. Não por acaso a prima enxutona que todos desconfiam ser sua amante e que ele curiosamente sempre tira no sorteio. Ela o abraça de uma maneira caliente, dando uma mexidinha nos quadris, como uma pom-pom girl americana. O tio Alan, já bêbado, aproveita pra gritar "Essa aí vai comer mais de um peru no Natal". Só ele e o tio Geraldo riem.

Pouco a pouco, os mimos vão sendo distribuídos, mas o seu continua embaixo da árvore. O Thiaguinho, filho do Thiagão, já teve tempo de quebrar o carrinho de controle remoto que ganhou, tentando transformá-lo em um avião de controle remoto, levando junto um vaso de porcelana que estava pelo caminho. E depois de eras, finalmente chega a sua vez. Sendo o último, as atenções estão todas voltadas pra você. A tia Jojô te dá um beijo lambuzado de batom rosa e entrega uma caixa retangular embrulhada em papel dourado. O tio Alan, ainda mais mamado, solta a sua infalível piada anual "É uma bola de basquete". Dessa vez nem o tio Geraldo acha graça.

Como uma criança, você rasga a embalagem. Dentro do pacote, ao invés de um presente, um outro pacote. E dentro desse, outro. E mais outro. Até chegar em uma caixinha pequena. Você faz uma pausa. Todos gritam "A-bre! A-bre!". Você abre. E fecha. Mas a pedidos gerais precisa mostrar o mimo recebido.

- Um chaveiro em forma de avestruz...

A tia Jojô sorri banguelamente e te dá um outro beijo rosa na bochecha ainda imaculada, explicando que "Se você apertar o rabo do bicho, uma luz sai pelos olhos, virando uma prática lanterna". Sem alternativa, você testa a lanterna, mas ela não funciona. A tia Jojô tira duas pilhas do rádio da cozinha e as estende para você, ignorando que elas nunca vão entrar no chaveiro.

Depois das rabanadas de sobremesa, todos correm para ir embora. O tio Alan é o primeiro, abraçado com o tio Geraldo e puxado pela orelha pela tia Marília. Só você e o Thiaguinho não estão apressados. Você já o convenceu de que se desmontarem o chaveiro de avestruz terão as peças necessárias para consertar o carrinho de controle remoto dele. Enfim, coisas que acontecem a todo mundo.

Belle & Chico, os irmãos franco-brasileiros, também ganharam presentes que não queriam. Leia em www.bellechico.com.br

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Pára tudo!


O direito à greve é uma religião na França, algo sagrado. Mesmo se a noção do sagrado seja um tanto quanto pitoresca em um país que chama todo mundo de vous (senhor), mas Deus de tu (você).

Eu, criado em um ambiente de esquerda, não discuto um só segundo a legitimidade desse tipo de movimento. Já participei de diversas greves e participarei de outras tantas. A questão é que as constantes paralizações na terra do escargot chegam quase a banalizar a coisa. Se você fizer uma busca pela palavra "grève" na Wikipedia francesa vai ver que existem doze categorias diferentes, entre a rotativa, a geral, a de fome, a política e até uma importada, a japonesa. Nesta os trabalhadores ostentam uma braçadeira com reivindicações e frases de protesto. Você meio que vira uma manifestação ambulante e individual.

Mas a minha modalidade preferida é a greve de cinquenta e nove minutos. Trata-se de uma pausa de exatos cinquenta e nove minutos no trabalho. A explicação: a partir de uma hora, o patrão tem direito a descontar o dia inteiro do salário. Então os funcionários retornam à labuta um minuto antes do dead line. Mais engenhoso e francês, impossível.

Falando nisso, lembrei de uma história que não aconteceu comigo, mas com um amigo de um brother de um chegado. Ou não. O cidadão estava lépido e faceiro no metrô, sorrindo como noivo em noite de núpcias. Aí o trem brecou entre duas estações. Depois de um bla bla bla aqui e outro acolá sobre as causas da repentina parada, o condutor avisou no sistema de som: "Senhores passageiros, a partir desse momento estamos em greve. Gostaríamos de contar com a colaboração de vocês".

Fiquei pensando no que seria exatamente esse "contar com a colaboração de vocês". Esperar que os passageiros passassem o tempo ali dentro brincando de adedonha ou fazendo uma aula coletiva de dança de salão? "Bem, vamos lá. Mulheres nos bancos do lado esquerdo, homens nos do lado direito. Cada um escolhe seu par e o brasileiro ali vai improvisar um sambinha pra gente". Ou então fazer todos descerem para empurrar o metrô até a próxima estação? Infelizmente eu não sei como a história se acabou, pois o sujeito não terminou seu relato.

Conto isso porque hoje de manhã escutei no rádio que a greve do RER, o trem de ligação de Paris com seus subúrbios, continua. Deve ser a terceira ou quarta dos funcionários da RATP, a empresa dos transportes públicos de Paris, só esse ano. Mas a notícia mais intrigante não era essa, e sim a de que os funcionários incumbidos de recarregar os caixas eletrônicos dos bancos poderiam também iniciar uma paralização a partir de amanhã. Caramba, eu nunca havia pensado que existiam pessoas responsáveis por isso. Para mim, o dinheiro brotava nas máquinas, simplesmente.

Matutando essas histórias enquanto andava pelas ruas cobertas de neve de Paris, achei que era um bom assunto para a crônica dessa semana. Entrei no prédio e cheio de ideias na cabeça peguei o elevador rumo ao 6º andar. Acontece que ele resolveu ficar bloqueado entre o 3º e o 4º. Logo entendi o recado: talvez por solidariedade, hoje ele também estava de greve.

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Eu pego o saca saca saca-rolhas


O utensílio doméstico mais importante na França não é um moderno microondas, um fogão de seis bocas ou um lava-louças de última geração. O item que não pode faltar nas casas na terra do vinho é o simples saca-rolhas. Contam até que o General De Gaulle, ao escapar para a Inglaterra durante a 2a Guerra Mundial, só levou consigo dois uniformes militares e duas dúzias de exemplares do singelo objeto. E ainda assim achando pouco (os saca-rolhas, não os uniformes).

Acontece que o nosso modelo, uma espécie de Mercedes Benz dos saca-rolhas - mas sem GPS ou air bags -, resolveu quebrar justo na hora de começar o jantar, antes de abrirmos a garrafa de vinho. Uma tragédia! Vinho é o novo suco de laranja. É a nova Coca-Cola.

Como todo brasileiro, quando a situação aperta tento resolvê-la na base do jeitinho. E como todo homem, detesto perguntar ou pedir favor aos outros. Bater na casa de um vizinho pra pegar algo emprestado é impensável.

De posse dessas duas qualidades (qualidades?), resolvi experimentar novos métodos para arrancar a rolha, que já estava pelo meio do caminho. Primeiro com um canivete, tentativa obviamente frustrada. Depois com os dentes, o que quase me custou um canino. Por fim, decidi cortar a danada com uma faca e socar o pedaço preso na garrafa com um hashi, as varinhas para comer sushi. Depois de aniquilar com a minha paciência e quase arrebentar o gargalo umas três vezes, rendi-me à poesia dos fatos: vinho, só perturbando o vizinho.

Saí cheio de coragem e com a garrafa nas mãos corredor afora, e bati à primeira porta que me apareceu pela frente, com o discurso na ponta da língua: "Desculpai-me vos perturbar a essa hora, mas vós teríeis um saca rolhas, s'il vous plaît?". Se você não disser vós, corre o risco de ganhar um desaforo de brinde. Mas de nada adiantou o ensaio, pois ninguém atendeu. Bati de novo e aguardei mais. Sem respostas. E o jantar esfriando.

Acontece que a teimosia é outra das minhas características. Quando coloco uma coisa na cabeça não tem quem me faça voltar atrás. E naquele momento eu decidira que havia uma missão a cumprir. A abertura da garrafa era prioridade. Era mais importante do que comer. Mais importante do que dormir. Como um cavalo que não enxerga nada além da cenoura à sua frente, eu só visualizava aquele maldito pedaço de cortiça extirpado.

Toquei a campainha do outro apartamento. Aguardei. Ninguém. Toquei de novo. Aguardei de novo. Ninguém de novo ou de velho. Tentei recorrer à vizinha de baixo. Ela haveria de colaborar, afinal temos - ou tínhamos - um pacto. Mas também não atendeu. Dirigi-me então ao apartamento do fundo do corredor. Uma voz salvadora.

- Quem é?
- É o homem da rolha, falei.
- O quê?
- Quer dizer, é o vizinho do 6º, queria saber se você poderia me emprestar o saca-rolhas um momento.
- Bien sûr.

Abriu a porta uma simpática velhinha que está sempre despenteada e com óculos de gatinha, apesar de já passar dos 70 anos. E já com o apetrecho na mão. Peguei-o, resolvi o problema rapidamente e agradeci. Ela despediu-se com um "já sei o que dar pra você de Natal", rindo alto.

Voltei pra casa sentindo-me vitorioso, fiz meu prato e servi uma boa taça daquele vinho. Eu merecia. Provei da sopa, que já virara sorvete de legumes. "Não tem problema", disse a mim mesmo, mantendo o bom humor. "O bom vinho vai compensar o jantar frustrado". Dei uma baita duma golada, mas ele era péssimo, intragável. Joguei o resto na pia, comi uma banana verde e fui dormir. Era o melhor a fazer naquela hora.

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Dos anais da medicina francesa


De férias em Paris, em pleno inverno, Leopoldo Rocha, gaúcho de Bento Gonçalves, passou mal subitamente e precisou consultar um médico.

- Alors, o que você tem?
- Tô tri doente, dotô.
- Très doente? Quais os sintomas?
- Bah, a temperatura sobe e todo o resto desce.
- Todo o resto?
- As carne amolece, entende?
- Entendo, entendo. Tá tomando alguma coisa pra melhorar?
- Chimarrão com arnica.
- Ximarao?
- Ão, chimarrão.
- C'est quoi?
- É uma erva que serve pra tudo. E cura de resfriado a dor de corno. Mas essa última propriedade só pôde ser comprovada fora do Rio Grande, porque lá não tem chifrudo e nem baitola.
- Tá se aquecendo bem?
- Tô tentando, mas não me deixam.
- Comment?
- Imagina que ôtro dia fui fazer um fogo de chão no hotel, pra me esquentar o côro e assar umas costela, e o gerente bateu na porta do quarto com dois ou três polícia. Só foram embora depois que apaguei a fogueira e dei pra eles um pedaço de carne mal passada.
- E na rua, usa o quê pra não sentir frio?
- Mas que pergunta. A camisa do Colorado.
- Do quê?
- Mas você não conhece nada, tchê. Do Colorado, o Internacional, o clube dos macho do Sul.
- Só usa isso?
- Uso também a Fátima, minha senhora.
- Ah, entendi, vocês andam juntinhos, abraçados.
- Não, mando ela me agarrar por trás e saio carregando pela cidade. Esquenta que é uma beleza. O inconveniente é que às vezes dói um pôco a lombar.
- Bom, vamos tirar sua temperatura. Vai ali na cama e baixa as calças.
- As calça? Tu tá tri maluco?
- É pra tomar a temperatura.
- E o que isso tem a ver com as calça?
- Tenho que colocar o termômetro no reto, oras.
- Pois em Bento Gonçalves a gente coloca o termômetro é debaixo do braço.
- Senhor, a temperatura retal é a única correta.
- No Brasil todo mundo mede a temperatura errada e até hoje não vi ninguém reclamando.
- Só que na França o método é outro.
- O que você chama de método na minha terra é baitolice. Ali ninguém toca, nem a Fátima. Minha santa mãe contava que quando eu nasci um médico foi me dar uma palmada no traseiro mas eu desci a mão na cara do sujeito antes.
- Aqui a gente trabalha assim. É pegar ou largar.
- Levar ou largar, você quer dizer. Olha, faz aí o que tem que fazer, mas não conta pra ninguém não, viu?
- Não se preocupe, sou um profissional.
- Mas que diabo...
- Pronto, acabou!
- Já?
- Viu? Nem sentiu. Tá com um pouco de febre, um resfriado leve. Toma esses comprimidos e logo você melhora.
- Merci, doutor.

Dois dias depois, Leopoldo bate novamente à porta do mesmo médico.

- Você de novo?
- Pois é.
- Ainda doente?
- Não, não, já melhorei.
- Viu como a medicina francesa resolve?
- Resolve, resolve. Só essa história do termômetro na porta de saída que ainda não me convenceu.
- Como não? Você viu como é eficaz!
- Vim tirar a prova, tchê. Vô colocar agora esse termômetro aqui embaixo do braço. E o senhor vai ver como nosso método é mais exato.
- Senhor, sem comparar não dá pra saber se ele realmente funciona.
- Tá bom, doutor. Mas é a última vez, viu? Tudo pela ciência. - Disse o Leopoldo, já baixando as calças.

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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A fábula da burocracia francesa


Era uma vez uma época onde o tempo passava tão lentamente que uma folha demorava dois dias e meio pra cair de uma árvore. Sem ter nada de mais útil pra fazer e porque a vida era deveras entediante, alguns habitantes de um país chamado Fromage, onde se comia muito francês, um produto branco e feito de leite, decidiram que doravante (era tão antigamente que ainda se usava "doravante") todos os assuntos deveriam ser tratados de forma escrita. Além disso, os documentos precisariam contar com a assinatura de um máximo de pessoas possível. Pra passar o tempo ou era isso ou jogar dominó, que ainda nem havia sido inventado.

Após duzentos e quinze anos de discussão sobre o tema, que precisou ser aprovado e reaprovado em dezoito instâncias, três velhos (e très velhos) sábios fromageiros tiveram a ideia de fazer um concurso mundial para unificar a nova filosofia e criar um nome para ela. Foram chamados pensadores de vários países: da Vodkaput, de Macarronni e até do Bacalhauau. Apesar do tempo recorde para criação e envio dos convites, apenas três gerações e meia, os bacalhauaueses não puderam participar, pois estavam ocupadíssimos aperfeiçoando a fórmula do pastel de nata e planejando descobrir o Sambrazyl dali a alguns milênios.

Mas eis que o concurso finalmente foi realizado. E o forte cheiro de francês fresco servido à volonté durante o evento atraiu um grupo de quibes que passava por perto. Três deles, Arkiv Odossier, Karim Baqui e Passam Anham, alegavam ampla experiência no assunto, queriam participar das discussões e, se bobear, faturar a premiação, ideia vetada pelo imperador Sharkozzy Osbourne.

- Trouxeram CPF?
- Não.
- E inscrição assinada em três vias?
- Também não.
- Passaram no cartório pra autenticar a assinatura?
- Passamo não.
- Fizeram uma procuração para delegar poderes a algum dos presentes?
- Fizemo não.
- E os trâmites, seguiram os trâmites legais?
- Seguimo não.
- Enviaram o dossier pelo correio junto com um cheque?
- Enviamo não.
- Carimbaram os documentos com o supervisor?
- Carimbamo não.
- Ah, assim não vai dar pra participar. Vocês não trouxeram nada.
- Trouxemo sim.
- O quê?

Dito isso, os quibes sacaram suas cimitarras e saíram barbarizando mutcho locamente. Fatiaram os fromages, desenrolharam os vodkaputos e picotaram os macarronnis. Só deixaram vivo o arquivador oficial do reino, o velho e surdo Craciia, encarregado de anotar o ocorrido.

- Craciia, registra aí na ata que esse sistema administrativo não nos apetece, tá bom?

Craciia anotou "o sistema é antigo, parece, mas é bom".

- E na sugestão de nome, escreve que é coisa de burro.
- Churro?
- De burro!!
- Murro?
- De burro, Craciia.

Ele anotou. E em seguida foi devidamente laminado pelos quibes, que disseminaram pelo mundo aquele documento, supostamente uma ode contra o sistema criado pelos fromages. O problema é que eles não entendiam tchungas do que estava escrito.

Moral: Era burro o Craciia. Mas não apenas ele.

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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Argentina! Argentina!


Em viagem aos Estados Unidos, um grupo de amigos do qual faz parte Ronald Walker combinou o seguinte código: nas intermináveis visitas a shoppings e centros comerciais, quando se perdessem uns dos outros, levantariam a mão e gritariam "Argentina! Argentina!" com força. Assim, além de se encontrarem mais facilmente, contribuiriam para a difamação da terra de Maradona, alimentando um pouco mais a bem humorada peleja que travamos eternamente com nossos vizinhos.

Essa pequena história contextualiza a que vem a seguir.

Como o inverno tá chegando, o novo endereço da pelada do Paristeama é um campo sintético, coberto e cobrado. Fica longe pacas, depois de onde Judas perdeu as chuteiras. Então combinamos de nos encontrarmos em Bastille para fazer o trajeto de metrô de quase uma hora juntos. Normalmente vamos em pé, mas um dia desses conseguimos pegar um vagão vazio e sentamos em cadeiras viradas umas pras outras, ambiente propício para uma conversa animada. Claro que o assunto não poderia ser outro se não futebol: comentários sobre nossa última partida, o campeonato brasileiro e o vídeo mostrando o Ronaldinho Gaúcho tocando pagode em Paris com um dos atacantes do nosso time. O clima era de mesa de boteco. Só faltava mesmo abrir umas cervejas e pedir pro Márcio (conheço bem uns 10 garçons que se chamam Márcio) trazer uma nova porção de pastéis.

O papo seguia descontraído e certamente alguns decibéis acima de um dos critérios estabelecidos pelo PaPaI, o Padrão Parisiense de Inverno. O curioso é que mesmo sendo um padrão, o PaPaI é variável. Provavelmente pelo fato de ter sido elaborado por um brasileiro, eu mesmo. Tratarei dele com mais detalhes em um texto futuro. Por ora basta saber que quanto mais frio faz, mais o Parisiense fica ranzinza. E a relação parece ser recíproca, pois quanto mais o Parisiense fica ranzinza, mais frio faz.

Nesse dia os termômetros deviam marcar uns 10ºC e todos os passageiros portavam seus grossos casacos. Uns liam os jornais e bufavam, outros conversavam com amigos e bufavam. E ainda havia aqueles que só bufavam, como uma senhora acompanhada de uma criança pequena, sentada perto da gente. A cada elevação do nosso tom de voz, ela nos olhava com cara de entediada e expirava o ar pelas ventas com grande vontade.

Acontece que assim como a gente ela seguiu no metrô até o último ponto da linha. E quando o trem preparava-se para chegar à estação final, com o volume da conversa já bem elevado, ela não resistiu e interveio.

- Mas como vocês gritam, hein?

Alguém do nosso grupo começou um discurso sobre o mau humor francês, que não pareceu emocionar a senhora. Mas um outro, também amigo de Ronald Walker, teve a grande sacada que comandou o resto da conversa. Ao mesmo tempo que soube lidar com a dona reclamona, escreveu mais um capítulo da eterna e recíproca provocação com o país de Juan e Evita Perón.

- Desculpe, senhora. Não deu pra controlar. É que no nosso país a gente fala alto mesmo.
- Mas aqui tem que ter respeito.
- O problema é que na Argentina, de onde viemos, estamos acostumados a gritar. - Disse, reforçando o "Argentina".
- Só que a França não é a Argentina.
- Sentimos muito. Mas nós, argentinos, não conseguimos nos controlar. - E saiu do vagão gritando "Argentina! Argentina!".

O próximo passo já está decidido: aprender o hino.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Três vezes sete


Sete respostas para quando alguém perguntar "aquela é a torre Eiffel?"
1 . Não, é um poço de petróleo. A França também está investindo no pré-sal.
2 . De jeito nenhum. É o arco do triunfo. Não sei por que todo mundo insiste em trocar o nome dos dois.
3 . Hã? Aquilo não estava ali ontem. Corre, corre, antes que ela cresça ainda mais e pegue a gente.
4 . Você precisa saber de uma coisa. Não existe torre Eiffel, não existe Paris, não existe a França. Segundo a teoria espírita, o mundo material é o plano moderador do caráter individual. Traduzido para a linguagem dos nossos dias, isso significa que a cada segundo ídolos, torres, totens e McDonald's são criados e destruídos. Quanto a mim, prefiro meu McChicken com mais maionese, mesmo sabendo que corro o risco de ter um enfarte. Mas, pensando bem, McChicken, maionese, enfarte e gols do Zidane são coisas que só existem na sua cabeça. Fui claro?
5. Torre Eiffel? Não é o Coliseu? Não estamos em Roma? Vou matar aquele agente de viagens.
6. Você pode chamá-la de torre Eiffel. Eu a chamo de Marta. Assim, só porque é mais bonitinho.
7. Rapaz, não é que é ela mesmo? Como é que eu nunca tinha visto?

Sete desculpas para não ir novamente ao Louvre e ver as mesmas obras de sempre, dessa vez acompanhando um cunhado do seu primo que está de passagem por Paris.
1. Minha religião proíbe visita a museus que mostram coisas velhas.
2. Não gosto de japoneses.
3. Putz, tô com uma gripe A lascada hoje.
4. Mona Lisa? Maior baranga. Investe a grana da entrada na última Playboy.
5. Quem precisa do Louvre quando se tem o Dicão? Não conhece o Dicão? Claro, claro, o nome dele é Argemiro das Dores Fortes. Conhece agora? Não? É um amigo meu, e ele tem um conhecimento tão grande sobre tudo que a turma do Biruta passou a chamá-lo de Dicionário. Depois virou Diciozão e, agora, Dicão. Pensando bem, acho que nunca te falei na turma do Biruta, um pessoal que frequentava o Bar do Biruta, lá perto de casa. Olha, acho que vou ao museu com você sim. Aí posso te contar em detalhes a história do Dicão, da turma do Biruta e da Margarida, de quem ainda não falei. Tem conversa pra uma semana aí. Desistiu de ir? Mas por quê?
6. Eu ia te propor exatamente de irmos lá hoje, mas acabei de receber uma ligação e vou ter que viajar às pressas pro Longequistão. Mó pena...
7. Não ficou sabendo? Ainda ontem transferiram o Louvre inteirinho pra Catolé do Rocha, na Paraíba.

Sete comidas exóticas francesas
1. Escargot
2. Carne moída de cavalo
3. Foie gras
4. Gafanhotos fritos
5. Linguiça de sangue
6. Coxas de rã
7. Brigitte Bardot aos 70

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Roteiro para um filme (chato) francês


Pode nem ser verdade, mas o cinema francês tem fama de ser verborrágico, pretensamente filosófico e, algumas vezes, chato pra caramba. Resolvi então dar a minha contribuição à sétima arte da terra do fromage, com um roteiro para um curta metragem. Inspiração francesa, sim, mas com um toque brasileiro.


Cenário - Casa de campo isolada por causa de uma inesperada tempestade de neve. Um casal heterossexual e um homossexual (do qual o brasileiro Chicão faz parte) estão lá dentro. Não há aquecedores, só uma chaminé velha e semi-entupida. E como também não há mais lenha, eles discutem maneiras de combater o frio.

Jean (marido de Marie), tremendo - Putain! Putain! Putain!

Marie, olhando para o infinito - Três vezes, Jean. Você disse "putain" três vezes. Isso me faz lembrar que três é o primeiro número primo de Fermat, apesar de ser o segundo de Sophie Germain.

Paul (marido de Chicão), visivelmente emocionado - Nessa hora eu penso que os pilares da democracia francesa são três também: liberté, égalité, fraternité. Esse acesso patriótico me dá até vontade de chorar.

Chicão (o brasileiro) - Mes chéris, essa conversa de "três" tá bem bacana, mas e se a gente partir pra prática, hein? Que tal fazermos um ménage à trois agora, pra aquecer essa bodega? Não precisa nem tirar a roupa, é só abrir o zíper.

Marie, olhando para a janela - Mas, mas... Nós somos quatro. Quatro é um número maldito, segundo a filosofia milenar chinesa.

Chicão - É só a gente jogar você no fogo que o problema tá resolvido.

Jean, bufando, parte em defesa da Marie - Chicón, você é um grosso, um grosso, um grosso!

Chicão - Paul, você contou pra ele?

Paul - Hã?

Chicão - Nada. Olha, enquanto vocês ficam com esse papo aranha, a gente vai congelando. A única saída é fazer um fogo com esses móveis velhos e horrorosos e esses livros empoeirados.

Marie, mirando um quadro torto perto da lareira - Esses móveis... Não podemos queimá-los. São relíquias de Louis XIV, sobras do palácio de Versalhes. Louis XIV, o rei mecenas. Pensadores sentaram nessas cadeiras. Discursos foram escritos nessa mesa. Leis elaboradas, teorias rabiscadas, destinos traçados, sonhos tolhidos.

Jean, pegando um livro de Voltaire na estante - Também não podemos tocar nos livros. Esse aqui, Tratado sobre a tolerância, de Voltaire, é um clássico do pensamento universal. Voltaire escapou da fogueira, e não somos nós que vamos queimá-lo, c'est impossible.

Chicão, perdendo a paciência - Dá esse gibi aqui, ou você vai conhecer meu tratado sobre a intolerância.

Paul - Oh!

Marie, olhando para o chão - Oh!

Jean, deixando o livro cair - Oh! Oh! Oh!

Paul, com lágrimas nos olhos - Chicón, mon bebê. A violência não resolve nada.

Chicão - Ah, agora vocês dizem isso, né? Passaram geral a guilhotina quando foi conveniente, degolaram legal, e hoje vêm com essa conversa. Quero nem saber, vou barbarizar.

Marie, olhando para suas próprias mãos - Não é tão simples, Chicón. O pensador Edgar Morin disse que a violência deve ser tratada em sua complexidade.

Jean, pegando o livro no chão - E você não vai tocar em nada disso, nos móveis ou nos livros. Em nada. Nada.

Chicão, dirigindo-se a Paul, mas falando de Jean - Esse carinha tem mesmo que ficar repetindo tudo três vezes?

Marie, olhando para o chão - Mantenha a calma, Chicón. Lembre-se que o inverno nunca falha em se tornar primavera.

Chicão, ainda falando a Paul - E essa outra aí? Parece que fumou um baseado numa folha de enciclopédia. Eu vou é...

Nesse momento, um urso arrebenta a porta de entrada, devora a todos e destrói a mobília. O único objeto que sobra inteiro é o livro de Voltaire, caído no chão. O urso volta e faz cocô em cima.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A guilhotina de Lisboa


Uma revisão histórica (tem coisa mais na moda do que revisão histórica?) atribui a invenção da guilhotina não aos franceses, mas sim aos portugueses. Os patrícios de Robespierre teriam-na apenas aperfeiçoado, ao descobrirem que ela dificilmente funcionaria em Portugal.

- Manoel!
- Ó pá, Joachim!
- Está cá?
- Não, estou lá.
- Então venha cá, ora pois.
- Pronto. Cá estou, Joachim.
- Pois diga-me o que é isto?
- Só digo se primeiro me disseres porque te chamas Joachim com ch.
- Não enches, Manoel. Estamos em Lisboa, no século dezoito. Queria que me chamasse como, José Sarney?
- Tens razão. Sempre pode ser pior.
- Sempre, ó pá.
- Mas afinal, o que é essa geringonça?
- Chama-se tomba lâmina, moderníssima invenção.
- Serve para quê, ó Joachim?
- Dizem que é para cortar o bacalhau mais rápido.
- E como funciona, ó pá?
- É simples, ó Manoel. Primeiro, rodas as pás dessa manivela até a lâmina suspender-se. Segundo, colocas o...
- Não entendi.
- O que foi agora, Manoel?
- Dissestes que devemos rodar as pás da manivela ou que devemos rodar, ó pá, a manivela?
- As pás, ó pá.
- Pois sim.
- Posso continuaire?
- Pois não.
- Segundo, colocas o bacalhau aqui. Terceiro, soltas as pás. Quarto, retiras o bacalhau já cortado e o levas para a Maria cozinhá-lo.
- E será que o tomba lâmina funciona também com cacetinhos, Joachim?
- Pois coloca o teu, Manoel.
- Estou a falaire de pão, ó pá.
- Ah bom. Vamos tentaire.

Zupt!

- Funciona! E com pastéis de nata?
- Vamos tentaire.

Zupt!

- Também funciona! E com pedras, ó pá?
- Vamos tentaire.

Zap...

- Não funciona, Joachim
- Manoel, roda as pás da manivela para levantar a lâmina. Vou tiraire a pedra.
- Está levantada.
- Pega aqui a pedra.
- Pronto. Está pega. E agora, Joachim?
- Agora solta, ó pá.

No dia seguinte, no velório do Joachim, o Manoel ainda tentava explicar como realizara a primeira decapitação com o novo aparelho e acidentalmente descobrira um novo uso para a máquina.

- Eu tinha entendido "solta a pá", eu juro.

Para transformar o tomba lâmina no grande hit da revolução, os franceses fizeram apenas uma mudança: tiraram a manivela e as pás. E para levantar a chapa cortante colocaram uma corda. Simples, n'est ce pas?

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Os renegados


É, já está acabando o ano da França no Brasil. E você provavelmente deve ter prestigiado diversos dos milhares de espetáculos que aconteceram por todo o país, mostrando um pouco da cultura francesa em suas mais variadas formas, como música, artes plásticas, circo ou cinema. Mas há muitos projetos que não passaram pelo crivo da comissão de seleção do evento. Para que não caiam de vez no buraco negro do esquecimento, fizemos uma lista com alguns dos principais excluídos que (in)felizmente você não poderá ver.

. Vive Agnaldo Timóteo! (musical)
A vida e a obra do cantor Agnaldo Timóteo são retratadas nesse musical estilo Broadway. Aquelas músicas inesquecíveis das quais ninguém se lembra são interpretadas em francês pelo próprio Agnaldo, um cantor do qual todo mundo se lembra mas adoraria esquecer.

. Oficina de biquinhos (workshop)
Pensada para os tupiniquins que ambicionam falar o idioma gálio, a ideia da oficina de biquinhos precisou ser abandonada logo nos primeiros testes. É bem verdade que após algumas horas de tentativas os alunos conseguiam fazer a famosa boca em forma de fiofó de galináceo. O problema é que ela permaneceu assim depois, e alguns voluntários precisaram de intervenção cirúrgica para resolver o concombre. Quer dizer, o pepino.

. Le retour de ceux qui sont pas partis (cinema)

Lenda urbana no Brasil, o célebre filme até então nunca realizado A volta dos que não foram foi finalmente levado às telas pelo coletivo parisiense NiQ, N'importe Quoi. A película de cinco horas e meia se passa em uma casa no campo e mostra uma mesa na varanda, um relógio de corda e um galo manco. "Não há atores, pois eles ainda não voltaram desse hipotético lugar para o qual não foram. E esse atraso no retorno significa que talvez os personagens sejam brasileiros, mas essa interpretação eu deixo para os espectadores", conta o diretor Tappas Naface. Na 3a hora de projeção, uma folha cai em cima da mesa, anunciando uma possibilidade de outono. E no minuto final o galo morre. O relógio, ao que parece, foi colocado apenas para compor o cenário. "Uma excentricidade minha, já que era absolutamente desnecessário para a compreensão da história", finaliza Naface.

. Equilibradores de baguete (circense)

Cento e vinte e dois palhaços tentam equilibrar doze mil e duzentas baguetes, uma em cima da outra, juntando-as apenas com geléia de ruibarbo. Espetáculo recusado pela impossibilidade de se comprar doze mil e duzentas baguetes de uma só vez, mas principalmente porque ninguém no Brasil sabia que diabos é ruibarbo.

. Merde (exposição)
Instalação dedicada à palavra preferida dos franceses, com vídeos, depoimentos, fotos, áudio, esculturas, quadros e toda uma panóplia dedicada ao assunto. Ao ler o projeto, um dos participantes da comissão de seleção foi taxativo: "trata-se definitivamente de uma grande bosta".

. O grande príncipe (teatro)
Nessa continuação da célebre história de Saint-Exupéry, o pequeno príncipe cresce e vira um mala sem alça: enche a lata, pisa na rosa que cultivava e faz churrasco da raposa. O ápice acontece quando ele está às 10 da manhã em um boteco de 5a categoria, já fedendo a Pitu, e uma criança que passava pela rua o reconhece, repetindo o singelo pedido "desenha um carneiro para mim?". O ex-pequeno príncipe e atual grande chato diz que abandonou o carneiro e agora só aposta no galo. A criança não entende. O monarca ri e arrota. A criança chora. Baixam as cortinas.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Agulhando


Você ainda não deve estar sabendo, mas o francês Jaques Darosca está sendo apontado como o novo berro da moda mundial. Super antenado que sou, tentei entrevistá-lo durante a Paris Fashion Week, que rolou esse mês. Chegar até o cara foi moleza: passei pelos seguranças distraindo-os com uma conversa sobre os benéficos efeitos da combinação gatas de Ipanema e cerveja gelada. A complicação veio depois. Como eu estava usando um casaco falsificado da Adidas e meias que não combinavam com o seu "espírito bleu dessa tarde fria de outubro", Darosca recusou-se a falar comigo, bufou e deu um gritinho de desprezo. Não necessariamente nessa ordem. Em um lance de astúcia, porém, consegui esconder um microfone no camarim onde o estilista dava os retoques finais na sua última criação, ao lado do fiel assistente Alfie Nette.

- Ce putain de brésilien, do que ele entende, hein, hein? Aquele casaco da Adidas patético e fal-si-fi-ca-dér-ri-mo, comprado na Feira do Paraguai em Brasília. Digo isso porque conheço, conheço tudo de moda, tudo, mesmo a moda fora de moda como a dele. Ha ha ha, a moda fora de moda. Eu daria pra ser humorista. Bem que minha saudosa mamãe dizia: "Darosca, você dá pra qualquer coisa que queira". Sábia mamãe. Agora aquele brasileiro, se quiser falar comigo, filhote, só vestindo Dior pra cima. Não, pra cima também não, porque acima de Dior só tem Deus e eu, e mesmo assim não sei quem vem primeiro. Vamos combinar, Deus não é propriamente o que se pode chamar de um estilista de sucesso. Tá certo que sua primeira coleção foi um ar-ra-so, aquela folhinha que tapava as vergonhas de Adão e Eva. Mas depois Ele dormiu sobre os louros, e tem bem uns 10 mil anos que não solta nada de original. Sinceramente, aquela roupa de pele dos homens das cavernas era muito cafona. Pele é out, outzérrimo. Aliás, ninguém até hoje conseguiu me explicar porque os homens da caverna vieram depois de Adão e Eva. Tá vendo?, mais uma incoerência de Deus. Certamente o criador tirou período sabático e esqueceu de voltar. Eu não, sou completamente coerente. Minha coleção 2007, com o enigmático tema Filé de borboleta ou..., abriu espaço para a de 2008, A magnificência da contradição do sei lá o quê (em laranja e lilás). Tudo a ver. E graças a isso pude enfim atingir meu ápice em 2009, com Pum. Simples e lindo. O pum é o resultado de tudo o que ingerimos, e na minha arte não poderia ser diferente. Como fui eu que criei, darling, o meu Pum é a soma final de toda a história do estilismo. E digo mais. A partir de agora, tudo deverá ser repensado. Ninguém mais poderá desenhar roupas da mesma maneira. De fim, o Pum será o novo começo, o ponto de partida. Em 15 minutos, 15 petites minutes, quando minhas modelos pisarem a passarela, até Deus terá que se curvar a mim. Até Ele vai descer pessoalmente pra me aplaudir e... Mas o que você quer, Alfie? Não tá vendo que estou em plena catarse criativa?

- Só pra avisar que a luz acabou e o desfile foi cancelado, chefe.

- Merde...

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Louça suja se lava em casa

Há fatos que nos marcam para todo o sempre, como o primeiro beijo, a aprovação no vestibular e a chegada de um... lava-louças. No caso do último, a vida já começa a mudar na antevéspera do prometido dia "D".

- O que você está fazendo?
- Vou lavar esses pratos e copos do jantar.
- Nem pense nisso! O lava-louças vai ser entregue depois de amanhã.
- Mas esse tanto de coisa acumulada não vai entrar.
- Faremos duas sessões, então. Temos que dar trabalho pra ele.

Nem pensei mais nisso. Deixei a louça suja na pia sem mesmo a organizar, já que em pouco tempo, impiedosamente, ela seria arremessada (a louça, não a pia) ao seu novo destino mecânico. A única dificuldade agora seria escolher o programa de lavagem mais adequado, entre as tantas opções possíveis.

Dois dias depois, quase todos os copos e pratos estavam devidamente sujos, esperando a grand premiére, o momento no qual eu apertaria o botão "on". O botão para ligar a máquina e me desligar definitivamente do mundo cíclico detergente-esponja-esfregação.

Profundamente imerso nesse pensamento, levei um susto quando o interfone tocou. Os entregadores incrivelmente chegaram na hora marcada, certamente um fato inédito em todo o mundo. E antes de abrir a porta lanço um olhar e um leve sorriso para a louça acumulada. Em breve você estará brilhando, pensei.

- Quer que instale?
- Não precisa. Ainda preciso trocar uma tomada para poder ligá-lo.
- Ok. Bonne journée.
- Bonne journée.

Acontece que as cozinhas em Paris são milimétricas. Aqui, para as coisas poderem caber, tudo precisa "être aux normes", estar nas normas. Só que as normas não são tão normativas assim, pois estão completamente diferente do que eram anos atrás.

Então o lava-louças obviamente não coube no espaço reservado para ele, por coisa de um centímetro na largura. E, como não havia onde colocá-lo, o trambolho ficou prostrado no meio da cozinha, reduzindo o espaço livre à área de um guardanapo (fechado) e obrigando-nos a uma ginástica para poder alcançar qualquer coisa nos armários. E a um semi-malabarismo se quiséssemos usar o fogão.

Ligamos na loja e eles prometeram passar para buscá-lo dali a alguns dias. Por não terem o modelo menor, com menos capacidade mas dessa vez nas dimensões adequadas ao nosso apertamento (é a última vez que uso a piada do apertamento, juro!), compramos um novo em outro lugar. Entrega prevista para uma semana depois. Uma semana! Deu quase pra sentir saudades das Casas Bahia e sua "dedicação total a você".

Nesse período, a cozinha virou a Faixa de Gaza. Entrada por conta e risco próprios. E sempre com a possibilidade de uma bomba em forma de tigela de vidro cair por perto. Os pratos estando todos sujos, passamos para os de sopa, que logo acabaram também. E começamos a analisar com muito carinho a hipótese de não comermos mais - jejum é bacana, saca? - pois a possibilidade de se lavar qualquer coisa ali era remota, muito remota. Aquilo parecia uma instalação, com panelas, copos e talheres se equilibrando de maneira mágica. E como toque extra ainda havia os restos de molho de tomate, de arroz e de outras coisas já indecifráveis. Marcel Duchamp, artista francês que apresentou um mictório como obra de arte, assinaria embaixo com orgulho.

No dia previsto para a chegada do salvador da pátria e da pia, como era previsível, ele não chegou. No dia seguinte também não. Na loja, disseram que "de amanhã de manhã não passa". Passou. E antes que a cozinha ficasse para todo o sempre impassável, impregnei-me de coragem e decidi enfrentar aquela montanha.

A batalha foi dura e longa. Uma vasilha cheia de restos de lasanha desafiou-me durante intermináveis minutos. Mas eu estava decidido a dar cabo daquela situação. Tempos e tubos de detergente depois, exausto mas satisfeito pela minha vitória, sentei no sofá para descansar, decidido a cancelar a compra desse objeto maligno de uma vez por todas. Nesse instante o interfone toca.

- Quem é?
- Os entregadores do lava-louças.

Mandei subir, com planos de testar o aparelho na mesma hora. Como não havia mais nada a lavar, a idéia era colocar os dois lá dentro, mesmo que não estivessem "aux normes".

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Para delírio das gerais

Amigos amantes do esporte (e amigas amantes dos olhos do Chico Buarque), voltei esta semana à famosa pelada relatada na semana anterior. Sei que a construção dessa frase ficou um pouco confusa, algo como "não perca o Jornal Hoje amanhã", mas o fato é que fui novamente bater uma bola com o Paristeama. Na verdade, contra o Paristeama.

Apesar de ainda me faltarem apetrechos como chuteira, caneleira, meião e talento, não refuguei o segundo chamado. Afinal, o recém-criado time, que já tem até hino, brasão e uniforme, precisa treinar. Ou arrumar um outro motivo para a cerveja de depois. Não chegará a Tóquio, é verdade, mas a proximidade com a torre Eiffel já nos é suficiente. Reparem que ao usar o pronome oblíquo "nos", incluo-me de maneira sorrateira na trupe. É a história do "se colar, colou".

Já na chegada, era impossível não reparar que o quórum havia aumentado de forma significativa de uma semana para a outra, tanto no número de jogadores quanto no de torcedores. De torcedoras, pra ser mais justo. Todas devidamente munidas de máquinas fotográficas. Não sei como descobriram o local do jogo, mas não era difícil adivinhar o motivo que as levou lá.

Impassível em relação ao público, 100% a favor da equipe que seria minha adversária, como um Coalhada moderno comecei o aquecimento com um pique no lugar. Um só, pra não me cansar muito antes do embate. Chutei ainda umas duas ou três bolas, mas achei de bom tom parar quando uma delas pegou uma direção completamente oposta à minha intenção e foi parar no meio da rua. Era melhor guardar meu famoso e inimitável chute com defeito, também conhecido como "perna seca", para o jogo.

Começada a peleja, os times se estudavam reciprocamente. Segundos depois, revelando apurado senso de percepção, um dos companheiros define nossa tática: "chuta a bola pra frente que eu vou me enfiar na banheira". Tá ok. Se o Paristeama mantém a invencibilidade em parte graças à habilidade do artilheiro Márcio Jacuzzi, ou à falta da mesma na nossa zaga, não temos porque nos intimidar. Chutão pra onde o nariz apontar ao menos afasta o perigo da área. Se bem que sempre há o risco de o nariz estar virado para nosso próprio gol, digo isso por experiência própria.

A partida seguia morna, até que ali pelos 15 minutos a bola sobrou pra mim. Saí num pique tresloucado, não sem antes me assegurar de que ia na direção correta. Agora eu arrebento, pensei. E arrebentei mesmo. A virilha. Com uma baita dor, precisei abandonar a arena, instalando-me perto da torcida feminina.

Durante um tempo as atenções voltaram-se para mim. Machucou?, perguntaram. Não, respondi, dando uma de durão. Mas aí alguém passou a bola pro Chico Buarque, uma dúzia de meninas gritou "ai", e meus 15 segundos de glória acabaram-se.

Das gerais, acompanhei o massacre: 6 x 2 pro Paristeama. Cinco gols de Márcio Jacuzzi e um do Chico, de calcanhar. E foi só acabar o jogo para ter início a invasão do campo. Logo formou-se uma fila para tirar fotos com o ídolo. Para minha surpresa, uma das meninas acenou pra mim, olhando pelo visor da câmera.

- Ei, você.
- Eu?
- Sim, você mesmo.
- Pois não? Quer uma foto minha, pensei. Dessa vez ele vai ter que dividir os holofotes.
- Dá pra sair da frente, pra eu poder enquadrar melhor o Chico?

Leia também "Para estufar esse filó" - Primeiro texto deste blog sobre o Paristeama

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Para estufar esse filó

Um dia o telefone toca.

- Daniel, vai fazer o quê 4a feira que vem, ali pelas 3 da tarde?

Como todo cara que tem tempo livre à beça, sempre acho que não tenho nenhum.

- Putz, tenho dentista.
- Mas você tinha me falado que o dentista era na 6a.
- Pois é, mas na 4a já começa a preparação espiritual, sabe?
- Bom, então tá. Vou arrumar outra pessoa pra pelada com o Chico Buarque.

Deu um "tchuns" na minha cabeça, seguindo de um "tchans" e de um "ziriguidum". Achei que tava ficando doido.

- Cumequié? Futebol com o Chico Buarque?
- Isso, aquela pelada que tinha te falado. Tem uma vaga sobrando. Mas vou ligar pro...
- Vai ligar pra ninguém coisa nenhuma. 4a feira, 3 da tarde, tô lá.

E só aí me lembrei, havia bem uns 8 anos que não chutava uma bola. Desde que o Felipão cometera duas injustiças, e não convocara o Romário e eu para a Copa de 2002. Ali decidi pendurar o Kichute e tentar esportes menos frustrantes, como corrida de pombos e arremesso de atum.

Pois bem. Na 4a feira, no bat-local e na bat-hora marcados, já havia algumas pessoas, mas nada do Chico. Deve chegar de helicóptero, tipo o Papai Noel no Maracanã, pensei. Ou então com batedores da polícia abrindo caminho, ou de barco pelo... No meio do meu devaneio, alguém me cutuca e apresenta um sujeito de short e chuteira, pronto pro jogo.

- Daniel Cariello, Chico Buarque. Chico Buarque, Daniel Cariello.

Eu havia pensado em várias coisas para dizer nesse momento, imaginado todas as possibilidades. Tinha preparado piadas, frases inteligentes, postura blasé, citações de Platão e o escambau. Uma delas, a boa, seria acionada na hora das apresentações. Só não havia previsto o imprevisto. E acabei dizendo a coisa mais estúpida.

- Chico Buarque? Acho que já ouvi falar...

Que imbecil eu sou, falei pra mim mesmo. Cretino, cretino!

Enquanto me recuperava, as equipes foram divididas, seis de cada lado. Chico e eu ficamos em times opostos. Logo alguém passa a bola para ele, que vem em minha direção.

- Vai lá, Daniel.
- Eu? E faço o quê?
- Marca em cima.
- Uai, e pode?

Podia. E fui. Tomei a bola.

- Desculpa, foi sem querer.

Não sei se era perseguição pelas idiotices que eu havia falado, mas ele vinha atacando sempre pelo meu lado. Ou seja, eu precisava marcá-lo, era minha tarefa. E se eu fizesse uma entrada mais dura? Já imaginava as manchetes dos jornais - todos os jornais - do dia seguinte: "Campeão mundial da idiotice quebra Chico Buarque em partida de futebol. Músico nunca mais poderá tocar violão".

- Ei, vamos trocar. Você fica na direita e eu na esquerda. Jogo melhor pelo lado de lá. - Propus a um companheiro de equipe, mentindo descaradamente, pois jogo igual, igualmente mal, em qualquer posição.

Imaginando que a partida não duraria mais do que 30 ou 40 minutos, dei pra correr tudo o que podia. Alguns elogiaram minha capacidade de me desmarcar, mas mal sabem eles que fugia era da bola. E ela, teimosamente, sempre acabava nos meus pés. Acabava mesmo, pois qualquer possibilidade de jogada morria ali.

Aí passa uma hora, uma hora e vinte, e nem sinal do fim do jogo. Enquanto Chico Buarque deslizava feito uma gazela, eu não tinha mais força nem pra ficar em pé. Apesar de mim, o placar ainda nos era favorável: 5 x 4.

- Quando termina? - Perguntei.
- Quando a gente estiver ganhando - Alguém do outro time respondeu.

Achei o critério justo. E juntei as últimas energias para "dar o melhor de si e ajudar a equipe". A equipe deles, no caso. Logo em seguida Chico marcou o gol de empate.

- Bom, vamos parar, né? - Ele mesmo sugeriu. Ninguém discordou.

Pronto! A invencibilidade do Paristeama, a filial francesa do Politheama, estava assegurada. Se a minha vaga na pelada também estiver, vou fazer sempre o meu melhor para isso se manter. Não importa em que equipe jogue.


Coincidência ou não, exatamente um ano atrás escrevi um outro texto sobre o Chico Buarque, que está bem aqui.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O caso dos aviões

Fiquei imaginando como deve ter sido a conversa do Lula com o Sarkozy, em Brasília, quando quase fecharam o acordo envolvendo os aviões de guerra Rafale. Foi o Lula quem puxou assunto, num canto reservado, se esforçando no francês.

- Sarkô, tá todo mundô falandô do seu avion.
- Mon avion?
- Oui. Seu avion. Desculpe a intimidade, mas ele é bonitô, hã?
- Très bonitô.
- Você sabe, nós também temos beaucoup d'avions no Brésil.
- Oui, oui.
- Eles sont bons, ça va, mas dizem que o seu é insuperravél.
- Modestie à part, c'est vrai.
- Mas tem gente por aqui que prefere os amerricanôs.
- Amerricanôs?
- Fazem muito sucesso, principalmente entre os mais novos.
- C'est de la merde.
- É o que eu sempre digo. Ainda por cima bebem demais, a traseira é larga e as turbinas sont très grandes, se é que você me entende.
- Oui, parfaitement.
- O seu é mais elegante. Tem classe.
- Technologie européene, cher Lulá.
- E aí a gente queria saber se você tem alguns avions iguais pra trazer pro Brésil.
- Mais bien sûr. Ça, c'est facile. Combien?
- Ah, vamos começar discretamente. É que nunca na historriá dessa republicá se fez um acordo desses com a França. Manda uns 30.
- Avec plaisir.
- O prazer será do povô brasileirrô, pode acreditar.

No dia seguinte, o Celso Amorim chega ao gabinete do Lula, acompanhado do assessor de finanças do governo.

- Lula, o Sarkozy mandou a fatura.
- Que fatura?
- Dos aviões.
- Que história é essa?
- Ué, ele disse que você ficou interessado em comprar da França 30 aviões de guerra Rafale.
- Ô, diacho, eu tava falando era da Carla Bruni.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Turismo parisiense poético

Rimbaud, Baudelaire e Verlaine foram apenas alguns dos poetas a retratar Paris em seus versos. No entanto, por mais bonito que sejam os escritos destes e de outros, nenhum procurou mostrar a cidade sob uma visão turística.

Eis, enfim, que alguém resolve a questão. Ou não.


Paris-Tókio
Andando nos Champs-Elysées
Com tantos turistas a clicar
Na foto de um japonês
Na certa você vai parar


Pinturas
Em Montmartre tem a igreja
E também pintor na praça
Tem gente que paga caro
Tem gente que quer de graça
Um desenho do senhor
Não falta ali quem faça
Agora, se não ficou bom,
Se ficou uma desgraça,
"A culpa, cher monsieur,
É da sua feia carcaça"


Tókio-Paris
Ao Louvre me dirigi
Pra visitar a Mona Lisa, mas
Tudo, enfim, o que vi
Foram nucas de orientais


Jardim de Luxemburgo
Bem em frente ao senado
Uma bela fonte há
Mas não se pode ali banhar
E jogar moeda é vetado

Em uma tarde de abril,
disse um guarda, bem faceiro:
"Você quer lavar dinheiro?
Vá ao senado do Brasil"


Notre Dame
As gárgulas, pobre coitadas,
Não basta nascerem empedradas
Agora encaram um problema

Viraram também um produto
Miniatura, camisa, charuto
Chega até a dar pena

Enquanto as estátuas encararam o frio
E até congeladas passaram aniversários
As suas cópias mais novas, sem brio,
Acabam os dias no fundo de armários


Cena no Sena
Um passeio pelo Sena,
que programa mais feliz!
Não vá torcer o nariz
E nem ter a mente pequena

Você pode ir de batêau
Ou então pode andar
Pode até ir de velô
Só não pode reclamar

É que há um mico, não condene,
inevitável durante a ronda,
um verdadeiro King Kong.

Se estiver a bordo, acene.
Se estiver a pé, responda.
É o tchauzinho em pingue-pongue.


Subindo
Num dia azulado assim
Subi na torre Eiffel
O meu nome é Daniel
E o versinho ficou ruim

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Em busca do risoto perdido

Uma hora ou outra alguém acaba tocando no assunto "qual o melhor prato que você já comeu?". E nessa mesma hora ou outra sempre aparece um engraçadinho que responde "o prato eu não comi, só a comida que veio nele". A vontade de aplicar uma bifa no pé do ouvido do distinto só não é maior do que a de falar da felicidade em forma gastronômica a mim servida - ou melhor, revelada, pois um prato assim só se encontra uma vez na vida - na minha primeira passagem por Roma, em 2006.

Dividindo um quarto de albergue e muitos roncos com uma turma de neo-zelandeses, um deles sugeriu jantarmos todos no Trastevere. O Trastevere é um bairro afastado da parte turística da cidade, do outro lado do rio responsável por banhar a capital italiana, o Tevere. E o local onde habitam os romanos tradicionais, segundo os romanos supostamente tradicionais que habitam por lá. Os moradores da parte histórica da cidade seriam por eles classificados como cidadãos semi-inferiores, juntamente com os indianos donos dos cyber cafés e os paquistaneses vendedores de camisetas "I Love Coliseu".

Fomos, então, e escolhemos um restaurante a esmo, depois de andarmos alguns minutos pelo simpático bairro. O único critério, estabelecido pelas meninas do grupo, era simplório: queriam um lugar com toalhas quadriculadas de vermelho e branco, como em uma cantina italiana. Não foi difícil encontrarmos um do agrado geral.

Quando viajo, procuro provar o que nunca comi antes. O risoto com melão e pimenta daquele cardápio parecia exótico, e talvez por isso mesmo tenha sido minha escolha. As meninas dividiram uma pizza. E o namorado de uma delas, decepcionado de escutar da garçonete que macarrão com catchup e maionese não era especialidade da casa, contentou-se com um espaguete à bolonhesa.

O prato chegou à mesa - "o prato sozinho ou o prato e a comida?", diria o babaca supracitado -, e eu confesso ter passado um minuto apenas apreciando o cheiro exalado. O sujeito do catchup preparava-se para picotar seu espaguete, cortá-lo impiedosamente em pedaços, mas foi impedido a tempo pela namorada. "É quase um crime aqui", disse ela, acertando na intenção, mas errando no "quase". Caius Mortus, o último a cometer tal barbaridade, no século II D.C., virou sobremesa de leão.

Enquanto o cidadão aceitava o fato de ter que papar um "macarrãozinho sem graça", sem saber que sua vida acabara de ser salva, eu dava a primeira garfada do risoto. Descrevendo assim vai parecer meio aboiolado, mas a verdade é que nunca havia provado algo parecido. Uma mistura de sabores única, incrível e surpreendente (falei que iria parecer aboiolado). Saí de lá com um enorme sorriso no rosto, mesmo se o carinha do espaguete insistisse em comparar sua refeição à promoção número 4 do McDonald's, "mas sem as fritas, pra não ser injusto".

Passei anos falando desse risoto, e me prometi que, se um dia retornasse à Roma, voltaria ao mesmo restaurante e o pediria novamente. Melhor ainda seria se fosse servido pela mesma garçonete. Mas se não fosse, tudo bem mesmo assim.

Eis que a caravana dos Cariello chegou ao reino de César, e eu prontamente pirulitei-me em direção ao Trastevere e ao reencontro do famoso prato. É claro que eu, na desorganização inerente à minha pessoa, não havia anotado seu nome ou endereço, então só me restava procurar às cegas. Fui onde achava que o restaurante estava, mas não encontrei. Fui onde achava que ele não estava, e, é claro, também não encontrei. Nessa noite contentei-me com um outro risoto, com frutos do mar. Bom, mas não chegava aos pés do outro. Não satisfeito, voltei ao bairro na noite seguinte, e mais uma vez nem sinal da cantina. Nesse dia provei uma massa ao vôngole, espécie de mexilhão. Bom também, apesar de ainda aquém do meu objeto de desejo.

Como era minha última noite em Roma, e ainda me restavam quase duas semanas de viagem, lancei-me o desafio de encontrar nas minhas peripécias italianas uma especialidade local à altura do risoto com melão e pimenta. As anchovas no azeite de San Giovanni a Piro tiveram ótima cotação. A pizza margherita do Trianon, em Nápoles, está certamente entre as melhores que já provei. O risoto ao funghi de Florença decepcionou, apesar de que a lasanha do dia seguinte estava boa. As alcachofras e o fucus com molho de carne e champignons de San Gimignano surpreenderam, assim como o pequeno e belo vilarejo, localizado no alto de uma montanha e cercado de torres.

Agora, a poucos dias da volta à Paris, ainda me restam algumas tentativas. Não sei mesmo se provarei algo tão marcante como o mítico prato de 2006. Mas, durante esse caminho, uma coisa já encontrei: 5 quilos extras, testemunhas e companheiros da minha busca quase religiosa pelo risoto perdido.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

San Giovanni a Piro

Começada em Paris, a caravana dos Cariello passou por Marseille e depois chegou a Roma, a partir de onde veio a ser reforçada com a presença do meu pai. O rumo seguinte e de onde escrevo nesse instante, a pequena San Giovanni a Piro, no sul da Itália, é uma espécie de Meca da família. Foi daqui que partiram meu bisavô e minha bisavó, há um século, em direção ao Brasil. Chegaram a São Paulo e depois instalaram-se no Rio de Janeiro, onde nasceu meu avô paterno. E mais tarde mudaram-se para Vitória, terra natal do meu pai.

San Giovanni a Piro é um vilarejo do qual ouço falar desde pequeno. E no meu universo infantil construí a imagem de um lugar velho e escuro. Afinal, se meus antepassados o abandonaram é porque devia haver algo errado. Mais velho descobri que esse "algo errado" era a forte crise pela qual a Itália passava na época, causa de um enorme êxodo populacional, principalmente em direção ao Brasil e aos Estados Unidos. Mas a pintura construída na infância permaneceu na minha mente.

Nossa chegada ao vilarejo, perto da meia-noite, ajudou a reforçar essa impressão de abandono. Poucos dos cerca de dois mil habitantes estavam na rua, o que é bem compreensível em um lugar desse tamanho.

Na manhã seguinte, o sol brilhava. E os rostos e espíritos foram se mostrando aos poucos. Como na casa de Francesco Cariello, um primo distante. Meus pais já haviam estado um par de vezes na cidade, com dois dos meus três irmãos, e conhecem muitos endereços e pessoas. É meu pai quem toca a campainha. Vincenza, esposa de Francesco, atende. Ela abre a porta e um enorme sorriso.

- Orlando!
- Vincenza!
- Comme stai?
- Tutto benne. E voi?
- Tutto benne. Há quanto tempo... Francesco não está, mas volta logo.

No mesmo instante, nosso primo vira a esquina em seu velho carro. Nem bem acabamos os cumprimentos e já haviam chegado mais parentes. E logo outros mais. Não sei como ou de onde vieram. Em poucos minutos éramos quinze Cariellos conversando (ou tentando) animadamente, como velhos conhecidos. Ou como a família que somos. Fomos embora deixando abraços efusivos e a promessa de voltarmos a nos encontrar.

Depois do almoço, instalamo-nos na varanda do Albergo La Pergola, o maior (senão único) hotel local. E as visitas, de surpresa ou não, sucederam-se em perfeita sincronia. Vincenzo, que está aprendendo português para falar com o ramo brasileiro da família. Rosalia, a moça simpática que não é prima, mas é como se fosse. Filippo e sua esposa Maria, famosos no nosso núcleo familiar por terem oferecido uma refeição de 7 pratos na primeira visita dos meus pais, em 2003.

Entre uma aparição e outra, Charlotte e eu decidimos dar uma volta de reconhecimento da cidade, fundada em torno do ano 900, em uma área elevada (a Piro significa "no alto") e perto do Mediterrâneo. A vista para o belo Golfo de Policastro é de emocionar. Ainda mais quando penso que desse mesmo mar meus bisavôs partiram para o Brasil, há mais de 100 anos. E neste país distante e desconhecido fundaram uma família. A minha família.

Embrenhamo-nos nas ruelas de San Giovanni a Piro, entre escadas, pequenos becos e varais com roupas secando. Entre velhos conversando e crianças brincando. Entre cachorros e gatos aparentemente sem donos. Entre grandes sobrados e pequenas moradas, todos com as portas abertas. E cumprimentando os que cruzávamos.

- Buona sera!
- Buona sera!

Um pouco ao longe, avistei uma pequena família. Os pais sentados no batente em frente a uma casa. O filho divertindo-se com seu carrinho.

- Buona sera!
- Buona sera!

Na hora, pensei nos meus bisavós, nunca mais retornados à terra natal, e principalmente no meu avô, que morreu sem ter conhecido suas origens. Se tivessem permanecido em San Giovanni a Piro, talvez se parecessem com aqueles ali. E não é que havia mesmo uma semelhança daquele bambino com as antigas fotos do pai do meu pai?

Olhei para trás, para vê-los mais uma vez. O menino parou de brincar e passou a me fitar. Também fixei a vista nele, que sorriu pra mim e piscou com o canto do olho, em uma cumplicidade ancestral. Virei pra frente e continuei meu caminho, sorrindo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Um pateta na Eurodisney

Tá bom, eu confesso: fui à Eurodisney. Se os franceses, que se orgulham de um suposto antiamericanismo, podem, eu posso também. Não é bem um programa que eu tenha planejado fazer. Mas aconteceu de a família vir me visitar, e a Gabriela, minha sobrinha, veio também. No alto de seus quase 3 anos, ela decidiu sozinha e antecipadamente o roteiro do primeiro passeio coletivo: "eu quero visitar a casa do Mickey!". Ninguém ousou discutir.

Despencamos então rumo à filial européia do reino de Walt Disney. E, olhem que legal!, outras 50 mil pessoas fizeram o mesmo, compartilhando conosco um dos dias mais quentes dos últimos anos em Paris, quando os termômetros beiravam os 40 graus. Se o sol a pino garantia a temperatura alta, todos os milhares de amigos do Pluto e do Pinóquio asseguravam um pouco mais de calor, dessa vez humano.

Ali, todos os detalhes remetem a um mundo de magia e de sonho. Mas as filas, essas, são bem reais. Uma volta nas orelhas do Dumbo, por exemplo, exige 60 minutos em pé. A rodada nas xícaras do Chapeleiro Maluco requer outros 45, além de um estômago forte. E se um visitante mais aventureiro desejar explorar as cavernas de Indiana Jones a bordo de uma montanha russa, precisará antes encontrar o Santo Graal da paciência, pois a sentada no carrinho que sobe, desce e dá loop não ocorre antes de uma hora e meia de espera. "Quatre-vingt-dix minutes, monsieur".

A porta da Fantasy Land, a terra da fantasia e ala dos brinquedos infantis, é o castelo da Bela Adormecida. Aquele que a gente vê soltando fogos de artifício nos programas de tevê. Só que enquanto a perua dorminhoca fica lá dentro, roncando por 100 anos, a patetada toda se acotovela do lado de fora. A quantidade de gente amontoada é tão grande que levaria um desavisado a pensar tratar-se da distribuição do sopão comunitário. Mais do que "pagar um mico", quem se aventura por ali acaba mesmo por "pagar um Mickey".

Mas o mais bacana é o lado democrático daquela parada toda. Qualquer um pode levar para casa um pouco da atmosfera onírica lá encontrada. Basta dizer "alakazumba" e abrir a carteira para sacar o cartão de crédito. Aí o sujeito compra para o filho aquela fantasia bacana do Peter Pan, por módicos 70 euros, que vai pinicar o moleque e acabar os dias mofada no fundo de uma gaveta. Mas se o cidadão possuir economias mais modestas, ainda assim terá a chance de presentear o pimpolho com uma lembrança. Como uma miniatura esquecida da Clarabela, em promoção por menos de 20 euros. E não importa se o coitado não conhece a Clarabela. "Não reclama, pirralho, é da Disney!".

Todo esse ambiente vai te inebriando, tomando conta de você, até chegar a hora do clímax: o show com os personagens criados pelo honorável senhor Walt. Eles cantam, eles dançam, eles falam em francês e em inglês, e eles são apenas... eles. Isso mesmo. Não há sinal de Minie, Margarida ou qualquer figura feminina. Apenas o macho adulto branco (ou o rato adulto preto e branco) no comando. Se na França as mulheres conquistaram direitos iguais aos dos homens há algumas décadas, no país Disney, sem fronteiras físicas, a revolução ainda não chegou.

No fim da jornada, a Gabriela exibia um sorriso lindo de felicidade, que fez tudo valer a pena. Mesmo assim, na terra do rato Mickey, tive a impressão de que o pato era eu.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A impressionante Edith

Nas nossas conversas, quase monólogos, a Edith costumava abrir o hypertexto "imprimantes".

- Daniel, você conhece um pouco sobre impressoras?
- Sim, eu...
- Ótimo. Poderia me ajudar a escolher uma?
- É claro. Basta a gente...
- Que bom! Sabia que podia contar com você. Quando estaria disponível?
- Me liga quando você...
- Tu es un gentil garçon. Isso me fez lembrar de uma história que não te contei ainda. Tem tempo pra um café?

O "tem tempo para um café" é uma senha que significa, por baixo, mais uns 30 minutos de papo. A não ser que a minha vizinha faça uma improvável pausa no meio, onde dê para encaixar um "pardon, preciso ir agora, estou atrasadíssimo". Geralmente não dá.

O curioso é que, apesar de sempre mencionar a necessidade de uma impressora, ela acabou nunca me telefonando. Então eu acreditava ser esse apenas mais um dos assuntos do seu repertório, vasto repertório.

Se tagarelar é a atividade preferida da Edith, a segunda é sem dúvidas cuidar para que o mundo funcione bem. Isso inclui participar de forma engajada da associação do bairro, onde ajuda a organizar refeições slow food, projeções seguidas de debates ou ateliers de pintura abstrata. Marcar presença em todas as manifestações possíveis, pois, "a gente tem que protestar contra esse governo, contra a tirania americana, contra a exploração do povo, contra esses políticos corruptos, contra...". E ainda assumir a administração sindical do prédio no qual mora, onde morei também, mesmo que não seja paga para isso. Afinal "esse síndico é um banana, não faz nada, bla bla bla".

Ela é a única pessoa a ter as chaves do quadro de avisos do imóvel, e constantemente há novas mensagens, sempre manuscritas. Por ela, claro. Coisas como "Por favor, separe adequadamente o lixo. O gari não é pago para fazer o serviço que VOCÊ deveria fazer" ou "Não atire objetos pela janela. Se alguém se ferir, você será responsabilizado".

Eis q'um dia precisei voltar ao meu antigo prédio, a apenas 100 metros de onde moro atualmente, para aguar as plantas de uma amiga em viagem. E deparei-me com um enorme recado, desta vez fixado dentro do elevador. Mas a principal diferença é que estava impresso e em cores.

O conteúdo era algo sobre não deixar os objetos velhos nas partes comuns do edifício, visto que no verão muita gente aproveita para comprar móveis novos e acaba largando os antigos na garagem. A mensagem terminava com "Não nos deixe seus móveis de lembrança. Ligue para o serviço da Prefeitura de Paris. É fácil e gratuito". Assim mesmo, gratuito em destaque.

Dias depois cruzei com a minha vizinha na rua.

- Edith, você comprou enfim uma impressora?
- Comprei. Como você sabe?
- Palpite.
- A propósito, Daniel, tem tempo pra um café?
- Um café? É que hoje...
- Ótimo. Vamos lá no Omar. É por minha conta. Tenho mesmo várias coisas pra conversar com você. Não sei se já te contei que uma vez provei Guaraná Antártica, que minha avó era brasileira, que adoraria conhecer o Rio...

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Agosto em Paris

É agosto em Paris. Estranhamente, é agosto em todo canto do mundo. Em Brasília, época da seca de rachar lábios. No Rio, fim de um inverno de poucos dias. Aqui, período da diáspora, quando grande parte dos parisienses faz as malas e parte rumo ao sul.

As ruas estão vazias. O marché d'Aligre conta com metade dos feirantes, e estes gritam ainda mais forte na disputa pelos clientes que ficaram. O vendedor de frutas exóticas - exóticas para eles - como mamão e manga dirige-se a mim em um português simpático e carregado de sotaque e de esforço.

- Tudo bom?
- Tudo. E você?
- Um manga hoje? Muito bom o manga.
- Não, obrigado. Outro dia.
- Comment?
- Un autre jour. Merci e um abraço.
- Um abraço!

Andando pelo Faubourg St. Antoine, rumo à Bastilha, há espaço de sobra nas calçadas normalmente disputadas. Pedestres caminham despreocupadamente. O sol, outrora fugido e agora fúlgido, garante a temperatura de 31ºC. A maioria escolhe o lado do passeio abrigado pela sombra. Eu e mais alguns poucos preferimos receber seus raios diretamente no rosto. Duas amigas, na casa dos 70 anos, atravessam aflitas e cansadas em busca de um refúgio contra o calor, e deixam um pouco de seu lamento pelo caminho.

- Vamos entrar naquele café. Todo esse sol me cansa.
- Concordo. Eu prefiro o inverno.
- O inverno também me cansa.

A metade das lojas está fechada e exibe um singelo manuscrito afixado na parte de dentro da vitrine: "Estamos de férias. Voltamos no fim de agosto. Cordialmente". No verão a França divide-se perante uma questão existencialista. De um lado os juilletistes, que viajam em juillet, julho. Do outro os aoutiens, que preferem partir em août, o mês de agosto. Não há dúvidas, os aoutiens são maioria. Com a curta duração da estação, há uma fuga em massa das grandes cidades e de seus engarrafamentos nos bulevares, metrôs lotados e filas no Franprix. E como todo mundo partiu para as mesmas praias, lá criam novos engarrafamentos nas avenidas costeiras, superlotam os metrôs e ônibus e se font chier com as filas no Franprix.

Os franceses das mais diversas regiões adoram dizer que Paris é muito melhor em agosto, quando os parisienses não estão na cidade. Eu também gosto dessa época, principalmente porque a vida acontece nas ruas, nos parques, em Paris Plages, nos festivais diversos e gratuitos, no cinema ao ar livre, nos passeios descompromissados de Vélib', num almoço na varanda, em dias com luz até 10 da noite.

- O que a gente faz hoje?
- Sugiro irmos à esquina dar um alô pro verão.
- Ótima pedida!

Até o fim do mês a cidade continua assim. Muitas empresas e órgãos públicos trabalham em sistema de meia jornada. Cinemas estão vazios. Netos partem para ver os avós. Políticos e ladrões diversos saem de recesso. Ônibus circulam com menos frequência. Imigrantes vão visitar as famílias em seus países de origem.

Se em um certo país da América do Sul o ano, dizem, começa depois do carnaval, na França, la rentrée de estudantes, padeiros, chômeurs, presidente, médicos, professores de matemática, ministros de estado, pintores de paredes e de quadros, músicos, feirantes e biscateiros só ocorre em setembro, depois de uma pausa de dois meses para aproveitar do verão.

Sim, é verdade: somos todos iguais sob o sol.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Mané le Coiffeur - Com ou sem emoção?

Mané le Coiffeur sempre começa suas esculturas capilares, que é como chama um singelo corte de cabelo, com uma pergunta:

- C'est avec ou sans emotion?

Enquanto o cliente reflete, ele improvisa um balé, piruetando com uma tesoura em cada mão e cantando um trecho de Back in Bahia, do Gil: "puxando o cabelo, nervoso querendo ouvir Celly Campelo pra não cair naquela fossa". Música da qual Mané garante ser co-autor. Mas não exige direitos por na época ter ficado bravinho, como diz, com o compositor baiano, que teria mudado a letra originalmente pensada. Era "pintando o cabelo, e depois passando um cremezinho pra não sair aquela palhoça", jura, de tamancos juntos, assegurando no entanto não haver mais nenhuma ponta de mágoa entre os dois. O assunto fora superado "com o passar dos anos, muitos anos".

No seu bureau d'esthétique, a alternativa sem emoção é a mais pedida. E foi a escolhida por um conhecido antropólogo francês que entrou ali de forma meio desprevenida. Mané prontamente sentou-o na cadeira e sacou o cardápio com as opções de corte, divididas por tipo, extensão, cor e inspiração.

- E você, pensador. Como posso satisfazê-lo?
- Queria alguma coisa meio brasileira, meio exótica. Tem?
- Tem eu, fofo. Brasileiríssimo, dos pés ao último fio de cabelo alisado. Serve?
- Tô falando do corte.
- Ai, essa gente sem imaginação... Olha aqui, pra você existem várias possibilidades chi-que-tér-ri-mas. La Tour Eiffel des Tropiques, por exemplo, é um hit. Trata-se de uma elevação cônica das madeixas no centro do cocuruto, com uma singela aplicação de gel. Combinado com uma tintura especial verde e amarela dá um efeito deslumbrante. E até emagrece.
- Esse não é pra mim.
- E o Je Vous Salue Piauí? Primeiro a gente corta tudo bem curtinho. Depois coloca você naqueles secadores gigantes, tipo chapéu, sabe?, na temperatura máxima, até você começar a transpirar como a tampa de uma chaleira. Vai até apitar.
- E aí?
- Aí você se sente no verão piauiense, nem que seja por alguns minutinhos.
- Também não. Queria algo mais ousado.
- Hmmm. Então sugiro o Tropicaliagain.
- Trop quoi?
- Tropicaliagain, Jesus! O preferido de teatrólogos marginais, escritores marginais e estudantes de ciências sociais da Sorbonne.
- Marginais também?
- Sonha, baby. Esses aí só ficam à margem quando vão à beira do rio Sena tocar violão e encher a cara.
- Parece interessante.
- É sim. Dá aquele ar de manifestante do terceiro mundo que você procura, mas sem perder a classe. Classe é tudo, meu bem.
- E como é?
- É todo um processo. Primeiro uma avolumada, depois uma ligeira caracolizada e, no fim, um banho de lama.
- Gostei. E você tira a lama com xampu neutro?
- Tirar a lama? Acorda! Santa, a lama faz parte do look. Você a deixa lá até o cabelo ficar duro. Aí o visual vai estar completo. É como se a Tropicália fosse revista pelo MST.
- Perfeito! Vou fazer o maior sucesso já na próxima reunião de condomínio. Quanto custa esse?
- Depende de quanto você está disposto a pagar.

Disse isso e foi se aproximando, com a boca meio aberta e o olhar lânguido. O antropólogo deslizou pela cadeira com a agilidade de uma cobra coral e ganhou rapidinho a rua.

Não é muito comum clientes escolherem o corte com emoção. Mas às vezes acontece. Como no caso do músico tímido. Tão tímido que só tocava violão dentro do armário. Depois de alguns anos de terapia, ele encheu-se de coragem e decidiu ser mutcho loco, pirar no palco, radicalizar mesmo. E a mudança começaria pelos cabelos.

- Com emoção. E muita. Aproveita que hoje tô valente.
- Valente? Ó-ti-mo. Enfim uma franga intrépida.

Mané le Coiffeur tratou de colocar uma máscara tapando a vista do sujeito. Em seguida, vestiu-o com o avental que impede a roupa de se sujar. O músico não via nada, mas escutava tesouradas, sprayzadas e vários "humm" e "ohh". De vez em quando fazia-se também silêncio, logo interrompido por barulhos vindos dos fundos da loja. Após alguns minutos, o engenheiro capilar baiano fez dois buracos na máscara do cliente, na altura dos olhos.

- Alors, gostou?

Antes de conseguir perceber o corte, o músico reparou que Mané estava em pé ao seu lado, vestido de índia americana, de tanga, cocar e arco e flecha de plástico na mão, e a saliente barriga à mostra. Mas não demorou notar que ele mesmo tinha sido transformado em um Zorro. O avental, preto, era a capa. E a máscara completava a vestimenta.

- Tá valentérrimo. E ainda tem uma espada esperando por você ali atrás, viu? Ou melhor, por nós.

O músico até gostou da mudança. E decidiu ali mesmo montar um grupo com influências country e mexicana. No começo, convidou Mané le Coiffeur para fazer a dança da chuva nos intervalos. Mas foi só ficar um tiquinho famoso e logo esqueceu-se do cabeleireiro. Este lamentou um pouco, mas deu uma jogada de cabelos para trás e decidiu seguir adiante.

- Esses ingratos. Primeiro o Gil, agora o Zorro. Pelo menos no bureau d'esthétique o astro sou eu. Pra consolar, vou ver se o JP não está afim de uma noitada hoje, com muita emoção.

Quem é Mané le Coiffeur?

. Descubra aqui suas origens (e quem é JP).
. E aqui seus ídolos.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Buttes Chaumont, 30ºC

O Buttes Chaumont é um dos mais bacanas parques de Paris. E ao mesmo tempo um dos menos cheios, talvez pelo fato de ficar afastado do centro e dos pontos mais turísticos da cidade. Durante a semana, mesmo no verão, é fácil encontrar lugares praticamente desertos para se esticar na grama, sob o sol.

Eis que havia esse piquenique com amigos, plena 3a feira à tarde. Preparei a mochila com a comida e fui de vélib, a bicicleta pública daqui. Paris é praticamente plana, portanto perfeita para adeptos do pedal. Só que o Buttes Chaumont fica em Belleville, uma parte alta da cidade. E a subida da rue de Belleville é uma das mais ingratas experiências ciclísticas da existência. De qualquer existência. Ali o cidadão descobre uma sensação totalmente única, mistura de calor, raiva, dor, frio, medo, tristeza e, no fim da ladeira, saudade do programa do Sílvio Santos. Ainda não entendi isso muito bem, mas o dono do Baú da Felicidade me veio à cabeça na hora.

Cheguei, tarde como de costume, e meus amigos já me esperavam. Eles, também brasileiros, tinham me ligado avisando que não estariam lá na hora previamente marcada. Então consegui a façanha de atrasar mais o já atrasado. Se tem um coisa na qual sou especialista é na arte de chegar tarde.

Vale dizer, uma diferença básica entre franceses e brasileiros é a organização. O francês mediano chega sempre na hora marcada, programa a agenda com no mínimo 6 meses de antecedência, reserva as passagens e hotéis para as férias de 2023 no Zimbabwe, "para garantir o melhor preço", e sabe o que vai jantar no primeiro sábado de maio do ano seguinte. Em um piquenique, então, ele está no paraíso. Tem certeza de que do cardápio constarão damasco, tomate cereja, queijo de cabra temperado, presunto parma, iogurte de pêssego, melão fatiado e salada de massa com um toque de tomilho. E sabe quem levará o quê, mesmo sem combinar antes.

No piquenique brasileiro todo mundo atrasou e só eu levei comida. Quando abri a mochila e tirei o que havia preparado, todos me olharam com aquela cara de "diacho, sabia que estava esquecendo algo". Tem problema não, onde come um, comem 12. Mesmo com o último pedaço de baguete sendo disputado à base do tapa na mão.

Pra compensar o fato de terem chegado tarde, meus amigos resolveram ir embora mais cedo. E aí fiquei sozinho por lá, com um quarto de maçã semi mordida, um livro e uma colônia de férias de crianças que chegou do nada e se instalou perto de mim.

Três garotos de 6 ou 7 anos jogavam futebol, enquanto a irmã mais nova de um deles insistia em abraçar a bola na hora do chute. Ao lado, quatro japonezinhas brincavam de casinha. Ou talvez fossem chinesas, não tenho tanta certeza. Mais ao longe, um menino puxava o cabelo de uma menina, e ela puxava de volta o cabelo dele. Os dois gritavam muito alto, mas uma das monitoras berrava mais alto ainda para eles pararem. E logo todas as crianças estavam gritando em um volume que eu imaginava inalcançável.

Um dos garotos marcou um gol, e saiu comemorando correndo pela grama, de braços abertos. No caminho, deu sem querer um cascudo na menina loirinha que pulava corda. Ela começou a chorar. A monitora tentou acalmá-la. Mas logo vendo que não adiantava decidiu aplicar os mais modernos métodos da pedagogia: abriu o bocão e tornou a berrar. Todas as crianças seguiram novamente o exemplo, batendo outra vez o recorde mundial de mais barulho em menos espaço. Só os dois que se arrancavam os cabelos pouco antes não participaram da terapia do grito primal. Eles agora divertiam-se esfregando terra um no outro.

A monitora histérica pediu ajuda para o monitor tiozão, que servia de montanha para as crianças subirem em cima, e decidiram puxar o barco. Logo todos estavam alinhados em fila dupla. O tiozão assoviava, a histérica dava um berro ou dois a mais. E o grupo foi caminhando para a saída.

Quanto a mim, comi o pedaço de maçã que restava, catei o lixo e dirigi-me à estação de vélib. A volta para casa era só descida. Mas se subisse de novo não havia problema. Afinal, it's summertime, and living is easy.

Escrito no auge do verão, este texto é de certa forma um contraponto ao Praça da Bastilha, -5 ºC, feito na semana mais fria no ano, em janeiro.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Ela estava lá

Um dia ele olhou pro lado e ela estava lá. Não sabia de onde tinha vindo, mas ela estava lá. Perguntava-se como aquilo podia ter acontecido. Buscava na memória se ela havia sido convidada. Ou se chegara de mansinho. Ela simplesmente estava lá.

Suas gavetas estavam tomadas de peças estranhas. De cheiros raros. De cores impensáveis.

Ela estava lá.

Ele olhou para o teto, e ela estava lá. Olhou para o chão, e estava lá. E como já não bastasse preencher o espaço exterior, um dia ele olhou para dentro de si mesmo e percebeu, atônito, que ela também estava lá.

Sua cabeça fora ocupada por diferentes histórias. Por outras referências. Por novo idioma.

Ela estava lá, era tudo o que ele sabia.

Um dia ele olhou pro lado. E ela olhava para ele. E um dia, então, não esse, mas um outro, olharam para a mesma direção. E ainda que essa direção apontasse para muito longe, não havia dúvidas: era de fato uma direção. E deles, só deles.

Ela estava lá. E ele estava com ela.

Um dia ele olhou pro lado e disse:

- Boa noite, Charlotte.

E ela respondeu:

- Boa noite, Daniel.

Abraçaram-se. E dormiram.

Há um novo podcast do Connexion Française ao lado. Dessa vez dedicado à fase jazz de monsieur Serge Gainsbourg.
Para escutar, nada mais simples: basta clicar no botão 'play'.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Një Peja, të lutem

Nunca imaginei que um dia acabaria no Kosovo. Saca o Kosovo? O mais novo país do mundo, mesmo se nações como o Brasil ou a Espanha não o reconheçam. Aquele sobre o qual os jornais sempre dão manchetes tipo: "Confusão no Kosovo", "OTAN bombardeia Pristina" e coisas do gênero.

Então. É daqui mesmo que escrevo esse texto. Mas não pra falar de guerras ou de processos conturbados de independência. E sim de bares. E justifico.

É que depois do estranhamento inicial da chegada, não demorei a me sentir em casa em Pristina, a capital. Um pouco pelo fato de as ruas estarem cheias de flanelinhas e lavadores de pára-brisa nos sinais. Uma tecnologia que julgava brasileira e, descobri, é comum nos bálcãs. Mas principalmente por que já tenho meu bar aqui. Aliás, tenho um bar, um celular e uma agenda cheia de nomes de pessoas bacanas. Elementos que, combinados na dose certa, podem significar felicidade. Na dose errada podem significar cirrose. Ou ao menos uma dor de cabeça desgraçada.

E como se ainda fosse pouco, tenho também uma teoria. De boteco. Diz que o cara cria raízes indeléveis com um lugar quando ali elege seu bar preferido. Como o Beirute em Brasília, o Bar do Mineiro no Rio, o La Liberté em Paris ou o Strip Depot em Pristina. Uma escolha desse calibre é etapa importante na vida social de qualquer cidadão.

Pois o Strip Depot, então. É uma mistura de pub inglês, café francês e preço brasileiro. Quase uma filial do paraíso. E apesar do nome não tem nada a ver com esses lugares de strip tease. Ao menos até onde eu tenha visto. O Strip Depot é um dos poucos lugares de Pristina onde há um equilíbrio na quantidade de homens e mulheres. E ponto de encontro de músicos, artistas e descolados em geral.

Mas um sujeito não é feito apenas do bar que ele escolhe. Vale lembrar da outra angústia que consome a vida de pagadores de impostos ao redor do globo, do Peru à Croácia, do Canadá ao Uzbequistão: a decisão de qual é a cerveja preferida. Eu já tenho a minha. Tá, as minhas. No Brasil, Antártica Original, faz favor. Na França, Leffe, s'il te plaît. E no Kosovo, Peja, të lutem. Alguém sem cerveja preferida é um eclético da cevada. E ecléticos, sabe-se disso mundialmente, são aqueles que não escolhem. Seja por preguiça, comodidade ou falta de noção.

Fiquei pensando nisso tudo quando, no meu terceiro dia em Pristina, voltei pela terceira vez ao Strip Depot. Sentei, abri meu caderno de anotações e rabiscava alguma coisa. Então o garçom dirigiu-se a mim. Não em albanês, como faz normalmente com os clientes. Mas em inglês. Reconheceu-me. "How are you today? Is everything fine?". Nessa hora, pensei se estava bebendo demais esses dias. Pensei se devia estar ali mesmo, ao invés de ir ao hotel terminar um trabalho. E pensei ainda que aquela cevada cedo ou tarde (mais cedo do que tarde, certamente) acabaria concentrando-se na minha região abdominal, criando os inevitáveis pneus. E num golpe de esperteza, resolvi todas essas questões com a frase certa, dirigida à pessoa certa:

- Yes, everything is ok. Can I have a Peja, të lutem?