sexta-feira, 10 de abril de 2009

Os ídolos de Mané le coiffeur

Mané le coiffeur, o engenheiro capilar baiano que chegou a Paris em 1969 - "pra entrar de cabeças no desbunde da época" -, nunca mais voltou ao Brasil. Ele ainda guarda na lembrança a imagem do país que deixou há quarenta anos. Tanto é que no seu bureau d'esthétique, que é como ele chama o salão no bairro de Montmartre, as paredes recebem fotos de personalidades dos anos 60 e 70, das quais fala com reverência. E não admite atitude contrária dos clientes. Como a de um brasileiro com seus 20 e poucos anos, de passagem por Paris, que foi aparar as madeixas.

- Véio, quem é aquele cabeludo ali?
- Não reconhece? É o maior roqueiro brasileiro, um símbolo de contestação, o eterno rebelde Roberto Carlos.
- Roberto Carlos rebelde? Maluco, a maior indisciplina que ele fez nos últimos 30 anos foi deixar de atender um telefonema da mãe.

E o Mané foi ficando bravo.

- Você fala isso porque nunca o viu com o seu parceiro, o Tremendão.
- Tremendão é o meu bisavô com parkinson.
- Cuidado com o que você fala, rapaz. Eles são da pesada. C'est de la braise, tu copies?
- Hein?
- Eu disse "É uma brasa, mora?".
- O quê?
- Mas você não entende nada mesmo. Vou te mandar um papo firme...
- Brother, não peguei nada desse teu caô. Pra mim é tudo grego. Mas vou contar um segredo: o Brasil evoluiu desde que você zarpou de lá. A língua portuguesa também, sacou?
- O que não evoluiu muito foi essa língua aqui, ó - E Mané le coiffeur abriu a navalha - Dá o pira!
- Hã?
- Some, pirralho.

Outra vez aconteceu quando uma senhora da alta sociedade francesa, atrasada para um jantar beneficente, precisou fazer uma escova de última hora.

- Como vai ser, madame?
- Uma escova, rápido.
- Calma. Chez moi não é tão simples. Escovas aqui existem aos montes. A mais pedida da casa é o Escargot à la mer. Mas, no seu caso, eu aconselho a BB toujours.
- BB toujours?
- Oui, madame. BB é Brigitte Bardot. Brigitte para sempre. Eu deixo seu cabelo i-gual-zi-nho ao dela naquela foto ali, tirada na praia de Búzios.
- Não tem nada mais moderno não?
- Madame, a Brigitte Bardot é sempre moderna.
- Era na sua época. Agora ficou horrorosa.

Mané sai um instante e volta com um pequeno espelho na mão.

- Olha aqui.
- Comment?
- Olha aqui no espelho. O que você vê?
- Meu reflexo.
- Pois eu não. Eu vejo uma pessoa, essa sim, hor-ro-ro-sa. A Brigitte Bardot será sempre a Brigitte Bardot. E você será sempre essa mocréia descabelada. Na sua época ou em qualquer outra.

Sem escolha, a mulher saiu, com os cabelos ainda mais arrepiados do que quando chegou. E Mané le coiffeur respirou aliviado. Atrás do pequeno espelho de mão leu uma frase que escrevera há anos, em francês e em português, e que norteia (ou desnorteia, dependendo do ponto de vista) seu trabalho.

"Je peux perdre mes clients mais pas le déhanchement"
"Eu posso perder os clientes, mas jamais o rebolado"

E foi correndo ligar pro JP.

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Conheça a origem de Mané le coiffeur.

8 comentários:

André disse...

Hilário! Realmente excelente. Mas me diga uma coisa: o Mané existe de verdade?

Rafael Perfeito disse...

hahaha! Adorei o conflito de gírias e expressões!

Um abraço!!!

coldcafe disse...

kkk...Seu Mané deve ter usado sunga de croché em Búzios.Provavelmente corta muito cabelo igual do Ronnie Von...ou trabalha mais no estilho mulherão chacrete!

Juliana disse...

Eu tbm sou Coldcafe.bj

Amanda disse...

Adorei a parte do Roberto Carlos como simbolo de contestação! Muito engraçado o texto, parabéns!

Fabi.Catarse!! disse...

...chapinha ali, nem a pau, né?! hehehehehehehe

Roberto Carlos rebelde foi a melhor piada dos últimos tempos!!! kkkkkkkkkkkkkkk

Natália Vaz disse...

Olha só como a internet é Jesus! Eu não sei se sabia, mas devo ter ligado os sobrenomes. Na época que encontrei a banda, acho que foi através do myspace, eu até quis ouvir mais coisas mas nem consegui baixar nem nada. Mas, como você tocou no assunto, agora eu quero saber como faço pra ouvir mais músicas. Eles têm CDs disponíveis?

Ah, preciso do endereço do Mané! Ao que tudo indica, próximo ano estou por aí e não posso deixar as madeixas defasadas, né? =P

Abraços, Daniel!

Rhiannon disse...

aushuaha
Foi muito engraçado, ainda mais essa brincadeira com as girias, mostra de forma descontraída o quando a lingua muda. Acho que essas girias ainda voltam ^^

A parte do RC foi hilária mesmo, contetação?! aushuaha

=*