quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Alô, Hugo


- Alô?
- Alô.
- Quem fala?
- Mais fácil você dizer pra quem ligou.
- É o Hugo, mexicano?
- Não. É o Daniel, brasileiro.
- Brasileiro?
- Sim, do Brasil.
- Não é o mexicano?
- Não, esse vem do México, por acaso.
- Mas você fala espanhol?
- Não.
- Claro, claro. Que estúpida eu sou. Você fala brasileiro, né?
- Também não.
- E você fala o quê, afinal?
- Português.
- Como em Portugal?
- Vejo que a senhora pega as coisas rápido.
- Tem certeza de que não é brasileiro?
- Até onde eu sei é português mesmo.
- Português?
- Sim.
- Ah, Hugo, você quase me enganou dessa vez. Quase mesmo.
- Acho que a senhora está realmente se confundindo.
- Deixa de bobagem. Reconheço esse seu sotaque mexicano em qualquer lugar. Jacques, Jacques, escuta aqui a nova do Hugo...

- Alô?
- Alô.
- Hugo?
- Daniel.
- Daniel? Essa é boa. Há quanto tempo, Hugo!
- É. Parece que nunca nos falamos.
- Hugo, a sua capacidade de imitar sotaques me impressiona.
- Tem coisa nessa conversa que me impressiona bem mais.
- Incrível. Quase chego a acreditar que você consegue falar brasileiro.
- Português.
- Espera aí que eu vou te passar pra alguém que quer muito ouvir sua voz. Marie, corre, é o Hugo no telefone.

- Alô?
- Alô.
- Hugo?
- Eu mesmo.
- Tudo bem?
- Indo.
- E essa história de Brasil, hein?
- A gente tem que inovar.
- Então fala um pouco de brasileiro pra eu ouvir.
- "Caipirinha?"
- Nem está tão bom assim.
- Não?
- Eu vi o Julio Iglesias na TV. Ele puxa mais o "r".
- Mas o Julio Iglesias não é brasileiro.
- Hugo, você precisa se informar melhor. Tenho certeza que você vai falar brasileiro perfeitamente se escutar os discos do Julio Iglesias.
- Deixa os discos pra lá.
- Bom, Hugo, a família toda te abraça e deseja um feliz ano novo.
- Em espanhol a gente diz "feliz año nuevo".
- E em brasileiro?
- Não faço idéia.
- Viu? Precisa estudar mais.
- Eu vou, juro.
- Beijos.
- Beijos. E muchas gracias.
- Esse Hugo...

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Brico-o-quê?


Existem palavras em francês que não têm equivalência em português. Algumas até estão presentes nos dicionários, mas com a ressalva de serem galicismos. Ou seja, termos franceses tomados de empréstimo por outra língua.

Uma delas é "mijoter". Ao contrário do que possa parecer, significa cozinhar lentamente em fogo baixo, com a panela tampada. Não dá pra empregá-la sem o risco de um mal entendido.

- Filho, coloca o frango pra mijoter.
- Mas ele vai fazer a maior lambança na cozinha, mãe.


"Breveter" também não tem correspondente na flor do Lácio. Quer dizer obter o brevê, o diploma de vôo. É uma palavra das mais inúteis, a não ser que você tenha um amigo que está se formando piloto de avião. O que, convenhamos, não é uma situação muito comum.

- Você sabia que o Antônio brevetou?
- Coitado... Foi de repente ou tava doente?


Mas a que tem me causado problemas é "bricoleur". Bricoleur é o cidadão que curte fazer pequenos reparos e trabalhos caseiros, como consertar a pia que está vazando, montar o armário comprado na Ikea ou lixar e pintar as paredes da sala. Os franceses gostam tanto disso que existem lojas e lojas só com produtos de bricolage.

Um dia um sujeito veio reparar as placas elétricas da cozinha, que substituem o fogão.

- Olha, ela não funciona mais. O senhor vai precisar passar na loja, pegar uma placa nova, tirar o plástico, desligar a eletricidade, colocar o fio verde no outro verde, o azul no azul, o vermelho no vermelho, passar fita em volta, religar a eletricidade, girar o primeiro botão, esperar um minuto, desligar tudo e, só depois, usar.
- Como?
- Ah, mas antes precisa serrar aqui, pregar um pedaço de madeira ali e meter um adesivo naquele cantinho.
- Hein?
- Fácil, né? Ainda mais se o senhor for um bricoleur.


Eu não sou um bricoleur. E nesse dia eu tive certeza disso. Só de escutá-lo passando a lista de tarefas a cumprir me deu vontade de ligar pro Seu Luís, o faz-tudo que me salvou umas vezes quando morei no Rio. Mas como qualquer serviço na França custa quase o valor da dívida externa brasileira, eu mesmo tive que encarar a parada. Encarei.

Uns meses depois, pintou uma nova bricolagem: precisei trocar o silicone que impermeabilizava o rejunte da banheira. Adiei a tarefa o tanto quanto pude, mas um dia não deu mais. Então peguei a caixa de ferramentas, coloquei uma roupa velha e, sentindo-me um Mario Bros, encarei a missão. "É simples", eu repetia o tempo todo para mim mesmo, tentando acreditar. Só precisava tirar o silicone antigo, raspar, botar fita crepe delimitando o espaço, colocar o novo e deixar secar 12 horas.

Com meu apurado senso lógico, decidi preparar logo o material, pra ter tudo em mãos quando precisasse. Fui encaixar o tubo de silicone na pistola apropriada. Movimento falso, o bicho escorrega e arranca um naco da pele da minha mão. Sangue por todo lado. Procurei esparadrapo, mas não achei. Então tive a brilhante idéia de colocar um pedaço da fita crepe pra estancar o ferimento.

Dedo meio imóvel, percebi que não tinha a ferramenta certa para tirar o silicone velho. E nem sei se ela existe. O instrumento mais próximo era um estilete. Quanto mais forçava, mais pedaços da lâmina voavam, fazendo uma lambança geral.

Mas pelo menos agora restava só colocar o novo, que já estava enfim na pistola. Apertei uma vez. Nada. Apertei de novo. Nada ainda. Apertei com muita força. E como uma represa que arrebenta, o treco explodiu e caiu em todo lugar, incluindo minhas roupas, a banheira, as paredes e a fita crepe que envolvia meu machucado. E ainda fez uma gosma com os pedaços de lâmina que tinham voado. Coletei o que dava pra salvar e apliquei no lugar certo.

Passei mais tempo limpando o caos do que fazendo o conserto. No fim, sonhava com um banho. E só então lembrei que tinha que esperar 12 horas pra tudo ficar seco. Apelei pra pia, pois precisava urgentemente tirar aquela meleca toda de cima de mim. Comecei pelo curativo improvisado, meio sólido com todo o silicone que caiu. Tentei tirar devagar, mas doía. Então puxei de uma vez. Urrei de dor e de raiva e jurei nunca mais me meter nesses assuntos.

À noite:

- Ficou ótimo! Você é realmente um bricoleur de primeira.
- Essa palavra, a partir de hoje, está proibida nessa casa.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Jingle bells


Natal é Natal em qualquer lugar, não é mesmo? Lojas infernalmente cheias, ruas lindamente iluminadas, preços lá em cima e o espírito capitalista a todo vapor. Tá certo que Papai Noel vem vestido de vermelho, evocando na cor o ideal comunista, mas vale lembrar que foi a Coca-Cola que criou esse personagem do bom velhinho como o conhecemos hoje.

Enfim, tem essas coisas que são comuns aos natais do mundo todo. Não importa se você está em Brasília, em Caracas, em Tóquio ou em Paris. Por isso, apesar da beleza do Champs-Élysées cheio de luzes e do frio que já bate forte, remetendo aos filmes natalinos, a melhor surpresa não é o que encontrei na França. É o que não encontrei.

Falo dele, que nessa época está presente na quase totalidade dos lares. Que ocupa um papel de destaque nas mesas das famílias brasileiras. Que dá as caras em todos os intervalos comerciais da TV. Dele, que é onipresente, e cuja existência eu não consigo compreender.

Falo do panettone, claro.

Nessa época do ano, o panettone prolifera no Brasil na mesma velocidade que o vírus da gripe multiplica-se na França. Mas creio piamente que o segundo é menos nocivo. A gripe vem sem avisar e te deixa de cama uma semana, mas um dia vai embora. E você fica mais forte depois.

O panettone você compra. Você paga por um pão sem graça recheado de frutas cristalizadas. E há poucas coisas no mundo mais inviáveis do que frutas cristalizadas. Pickles, talvez. E o pior é que o panettone não vai embora depois. Fica lá um ano, se deixarem. Eu nunca vi um ser inteiramente devorado. Normalmente alguém diz: "olha que delícia, um panettone". E tira um naco nababesco. Uma semana depois você encontra o prato do mesmo cidadão com a fatia quase inteira, abandonado embaixo do sofá ou atrás da estante. E o resto da iguaria - se é que podemos aplicar essa palavra ao caso - permanece imóvel, tal qual a Vênus de Milo. E como ela, assim deveria ficar para sempre, de preferência restrita aos museus.

Um dos traumas da minha infância aconteceu em uma véspera de Natal, quando estava com a minha avó em um shopping. Não bastasse aquela ambiência de formigueiro, ela inventou de fazer compras no supermercado. Aí saímos trombando com milhares de desesperados que tinham deixado pra procurar presentes na última hora, enquanto carregávamos sacolas cheias de... panettones. Tinha os clássicos, com as temidas frutas cristalizadas; os de chocolate, para enganar as crianças; e provavelmente uma versão gremlin - porque o panettone, assim como o vírus da gripe, agora é mutante - com doce de leite, goiabada ou outra aberração qualquer.

Pra não dizer que não tem panettone por aqui, ontem eu vi um. Estava num cantinho do supermercado, perto dos venenos contra baratas e dos sprays que destroem a camada de ozônio. A coisa boa de se estar na França é que aqui eles não brincam com comida.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Pain dur


- Quanto custa?
- Quinze.
- E pra mim?
- Quinze.
- Mas eu compro sempre aqui.
- Então você deveria saber que custa quinze.
- Sim, eu sei.
- Alors...
- Você poderia fazer um desconto.
- O preço tá ali, na placa.
- Com uma placa desse tamanho dá pra ver bem o preço.
- Você quer ou não quer?
- Querer eu quero. Mas acho que você precisa cativar os clientes.
- Eu posso contar uma piada.
- Olha lá, o carinha do lado vende por doze.
- Compra dele.
- Não é tão bom.
- Ah... Agora você entende porque cobro quinze.
- E se eu levar duas de uma vez?
- Aí sai por trinta.
- Tá difícil.
- Não, tá fácil. Duas vezes quinze dá trinta.
- Mas não pode ser tão exato assim.
- Eu tenho calculadora. Quer conferir?
- Eu sei quanto dá duas vezes quinze. A questão não é essa.
- E qual é?
- É a pechincha.
- É o quê?
- Essa coisa de negociar preço. É meio esporte nacional no Brasil.
- Pois na França não.
- Tenho um amigo que é capaz de pedir desconto em ônibus.
- C'est vrai?
- Ele pechincha tudo e junta as economias em um porquinho. Quando está cheio, quebra e pega o dinheiro.
- E o que faz depois?
- Compra outro porquinho.
- Vocês são estranhos.
- Bem, vou indo.
- Não vai levar?
- Hoje não.
- Tá bom, pega aqui a sua maçã, por conta da casa. Não vamos brigar por quinze centavos.
- De graça?
- De graça.
- Mas eu preciso de duas. Faz desconto na segunda?

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Bico chato




- C'est "chiant".
- Chi...
- Chiant! A boca fica meio fechada.
- Chien?
- Não, não. Chien é cachorro. Chato é chiant.
- É difícil.
- Nada. Olha quando eu falo.
- Tô olhando.
- Chiant.
- Fala o outro agora.
- Chien.
- Pra mim é igual.
- É diferente, bem diferente.
- Sei, como dois japoneses.
- Hein?
- Nada.
- Vamos lá, tente de novo.
- Chient.
- Melhorou, mas ainda não tá lá.
- É esse diabo desse biquinho que eu não consigo fazer.
- Biquinho?
- É, o biquinho que vocês fazem quando falam.
- Que biquinho?
- Ué, todo mundo sabe que francês faz biquinho pra falar.
- Não estou entendendo.
- Fala a palavra de novo.
- Qual?
- A que você tava me dizendo há pouco.
- Chiant?
- Isso! Vai falando devagar.
- Chi...
- Deixa a boca parada quando disser a última sílaba.
- ...ant.
- Pára! Tá vendo o biquinho?
- Não!
- Olha no espelho ali.
- ?
- Olha.
- !
- Tá vendo o biquinho? A boca um pouco pra frente, meio fechada, como você disse.
- C'est normal. Vocês não fazem isso?
- Não.
- E por que não?
- Porque a gente não precisa em português.
- Mas pra falar francês tem que fazer esse... como é mesmo?
- Biquinho?
- Biquinho!
- É por isso que eu digo que aprender francês é chiant!
- Viu? Viu? Agora foi perfeito!

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

É fogo


Além do cachorro, o parisiense também não vive longe do seu segundo melhor amigo: o cigarro. O fumacê é barra pesada e invade bares, lares e demais ares da capital francesa. Impossível sair à noite e não voltar pra casa com aquela incômoda sensação de ser um queijo roquefort ambulante, plenamente consciente da própria fedentina.

Mesmo que um maço custe cerca de 5 euros, o preço de um prato de comida, isso parece não inibir os habitantes da cidade-luz. A diferença é que muitos agora preferem carregar seus kits filosoficamente punks, estilo "do it yourself" - ou seja, "enrole você mesmo" -, compostos de um pacote de tabaco e um bloquinho de papel pra cigarros, e saem tragando seus próprios cones por todos os cantos.

Às vezes alguém se sensibiliza.

- Incomoda se eu fumar?

Mas essa é uma pergunta apenas retórica. Porque mesmo que você diga "sim" pra um, os outros 236 fumantes do lugar não dão a menor bola pra sua rinite alérgica. E menos ainda pro fato de que aquela fumaça vai direto pro seu belo prato de salada, que passa automaticamente a ganhar o adjetivo "defumada".

Só que a partir de 1º de janeiro isso vai mudar. É quando começa a vigorar a lei que proíbe cigarro em locais públicos. Pitadinha no restaurante? Não mais. Tragada na boate? Necas. Teoricamente não vai mais poder. Teoricamente, já que eles trataram de inventar um "jeitinho francês" pra resolver a situação. Agora o bofe que não conseguir abrir mão (com trocadilho, por favor) do cigarro, deverá se associar a uma espécie de clube fechado, e pagar caro por isso.

No fundo, é apenas uma parte do restaurante ou do bar, reservada para os amantes da fumaça. Pode ser um pouco um olhar de índio sobre o colonizador, mas eu acho muito estranha essa história de pagar pra freqüentar um fumódromo. Se bem que eu conheço pessoas que pagam pra fazer aulas de aeróbica, o que, em termos de esquisitice, pra mim está bem próximo.

O fato é que com essa restrição eu devo conseguir resolver a questão Tostines que me persegue há algum tempo: afinal, os franceses fumam mais porque fazem biquinho ou fazem biquinho porque fumam mais?

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

É fria


As Vélibs' são as bicicletas públicas de Paris. Você assina um serviço e pode usar o quanto quiser, sendo a primeira meia hora gratuita. Basta pegar em uma estação e devolver em qualquer outra.

Acontece que nessa semana os transportes públicos da cidade estão em greve. Metrôs e ônibus escassos e engarrafamentos dignos de São Paulo fizeram os parisienses lotarem as ruas de bicicletas. Eu incluso.

Saindo do curso de francês, resolvi usar uma delas pra ir pra casa. Tava chuviscando, mas nada muito sério. O pior mesmo é o frio. O inverno oficialmente ainda não começou. Mas para mim, que morei dois anos no Rio de Janeiro, já estamos na nova era glacial.

Fiz o check list da roupa que usava pra ver se dava pra encarar o pedal.

. Camiseta por baixo - ok.
. Camisa de manga longa - ok.
. Calça por baixo - ok.
. Calça por cima - ok (essa era meio evidente, não precisava checar).
. Duas meias, sendo uma de lã - ok.
. Casaco - ok.
. Sobretudo - ok.
. Cachecol - ok.
. Gorro - ok.
. Luvas - ok.

Achei que tava de bom tamanho e montei na bike, tomando cuidado pra desviar das pequenas poças no caminho. Tudo perfeito, fora um pouquinho de água que entrou no tênis.

- Bom, ça va... Tô quase lá. É só tomar um banho quente depois.


Cheguei à estação do lado de casa. Lotada. A chuva tinha apertado. E um cara aguardava, ensopado, que alguém pegasse uma bicicleta, para liberar espaço pra dele.

- Monsieur, tem outra estação logo ali. Se quiser me seguir, sei como chegar lá.
- Merci.


Nada adiantou. Lotada também. E aí percebi que na verdade meu tênis estava encharcado. Pra piorar, as duas meias faziam um efeito de gelatina, e meu pé dançava dentro do calçado. Precisava me mexer para ele não congelar.

- Vou até uma outra estação.
- Eu fico,
respondeu.

A água que caia do céu mudou de categoria, virou toró. O jornal dizia que a temperatura chegaria perto dos 5 graus. E pra piorar ainda tinha o vento. Como quando você passa de fase no video-game, tudo ficou mais difícil. A luva e da parte de baixo da calça estavam encharcadas. Com isso, minhas mãos já não obedeciam muito bem, e eu tinha que mordê-las pra que voltassem à vida. Enquanto uma segurava o guidom, a outra era levada à boca.

Cheguei à 3a estação. Nenhum lugar livre. Logo depois aparece meu companheiro de infortúnio, molhado e descabelado como um pinto. Como se olhasse para um espelho, entendi que eu não deveria estar muito melhor do que aquilo.

Aí ferrou. Bateu uma rajada mais forte de vento, e doeu até o dedinho do pé. Eu acho que era o dedinho, mas não tinha certeza. Podia ser o joelho. Ou a orelha. Tava tudo semi-congelado mesmo.

Logo chegou a vez dos lábios paralisarem. Já não dava mais pra morder a mão. Minha fala começou a se limitar aos fonemas pronunciáveis de boca aberta, porque a articulação era impossível.

- ...amos ocurar ôtra?

Como dois soldados em missão suicida, encaramos a tempestade (até porque era muito pior ficar parado). Achei que não desse pra ficar mais molhado, mas percebi meu erro ao passar por uma poça maior. A água entrou por baixo do sobretudo, fazendo da minha barriga uma filial do Pólo Norte.

Depois de rodar um pouco mais, finalmente encontramos vagas. O sujeito que ia comigo tinha uma cara horrível, mistura de frio, tristeza e pânico. Mas ele ainda estava em melhor situação, já que conseguiu falar.

- Lição aprendida: nunca pegar uma velib' quando estiver chovendo.
- ...erdade. ...em azão.


Pensei em fazer a óbvia piada do "é... acho que entramos numa fria", mas minha boca e meu cérebro estavam congelados demais pra articular em francês. 

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Salamaleque!

















Depois de 8 meses aqui, achei que já falava francês razoavelmente. Conseguia me comunicar sem problemas e entendia tudo o que as pessoas diziam. Mas um dia percebi que ainda tinha um longo caminho a percorrer.

No saguão do meu prédio, dei de cara com o sexagenário dono de um pequeno comércio de "alimentation générale" da minha rua. Ele estava vestido em disdasha, a tradicional roupa árabe, e levava as mãos à cabeça, afoito, enquanto checava os nomes nas caixas de correio e no interfone.

A minha comunicação com ele, até então, ocorria apenas quando eu ia à sua loja, e limitava-se a perguntar se tinha tal produto.

- Tem ovos frescos?
- Oui monsieur.
- Dá pra cozinhá-los
à la coque?
- Oui monsieur.


Mas nesse dia o bicho pegou. Ao me ver saindo do elevador, reconheceu-me e veio pedir ajuda.

- Bonjour monsieur.
- Bonjour.


Totalmente irrequieto, andando para lá e para cá, ele começou a falar o francês mais cheio de 'r' que já ouvi. Eu não compreendi absolutamente nada. Nadica de nada.

- Désolé. Eu não entendi.

Alheio ao meu estado flutuante naquela suposta conversa, ele coçava a barba, falava à beça e colocava um 'r' onde podia e onde não podia. Eu virei mero espectador da cena, restando-me apenas pedir ajuda a Maomé. Eis que um minuto depois consegui ajustar um pouco o ouvido pra aquela nova freqüência e pesquei umas palavras. Duas na mesma frase: motocicleta e Edith. Juntei isso ao fato de ele apertar sem parar o interfone da minha vizinha e deduzi que ela devia ter guardado a chave da moto do cidadão, sei lá por que diabos. Mesmo que a história não fizesse nenhum sentido, decidi levar a conversa como se essa fosse a verdade. E entramos num jogo de doidos: cada um falava o que queria.

- Bra bra bra Edith bra bra bra bra bra?
- Não, senhor. Faz tempo que não a encontro.
- Bra bra bra bra bra motocicleta bra?
- De que cor ela é?


Ele foi se empolgando.

- Bra bra bra domingo bra bra.
- Nossa! Já tem quase uma semana?
- Viagem bra bra bra bra?
- Não sei se ela saiu de Paris esses dias. Mas por que o senhor não volta depois do feriado?

Como por milagre, o sujeito acalmou-se um pouco e parou de saracotear pelo saguão. Ainda apertou umas quinze vezes o interfone, mas logo depois desistiu. Veio lamentar-se comigo, com cara de bebê chorão.

- Bra bra bra minha mulher bra bra bra bra.
- Eu sei, eu sei. Também acharia estranho o fato de a moto sumir.
- Bra bra bra bra bra loja.
- Entendo que você precise dela pro seu comércio, mas o melhor a fazer é esperar a Edith aparecer.
- Gentil bra bra.
- Que isso... Precisando é só chamar.


Outro dia passei em frente à sua loja. Ele estava na porta e sorriu discretamente pra mim. Ou os meus conselhos realmente serviram de alguma coisa ou ele ainda achava graça nossa conversa de malucos. Retribuí, mas pelo segundo motivo.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Cachorrada


Tem cachorro em todo canto em Paris. Aí você vai dizer que existe cachorro em todo canto no mundo. E eu vou dizer que você tem razão. Mas aqui eles estão dominando a cidade. O cachorro é uma instituição sacra na capital francesa, algo como a mamma na Itália. Só que enquanto as mammas ficam em casa preparando a macarronada, os parisienses não saem de casa sem o seu melhor amigo.

Outro dia, no metrô, senti uma lambida na mão. Antes de acusar a senhora ao lado de assédio sexual, percebi a presença canina, com toda a sua baba e olhar lânguido em minha direção.

- Ele é manso.

Não me preocupei com a ferocidade, mas em como eu ia me livrar daquela gosma que me colava os dedos. O melhor era limpar no próprio bicho. Alisei sua cabeça, mas os pêlos soltos grudaram na minha mão, deixando-a como um ser estranho a mim mesmo, como se o braço do Tony Ramos me tivesse sido implantado.

A presença canina é tão sufocante que já vejo o dia em que os bichos vão sair em passeata exigindo seus direitos, abocanhando faixas com dizeres como "cão também é gente" ou "não faça cachorrada: cuide bem do seu melhor amigo". Mas cachorros e passeatas não causam mais espanto em Paris, e essa manifestação só atrairia alguns poucos curiosos, como os vendedores de ração.

Além de presentes em metrôs, supermercados, cinema, restaurantes, elevadores e exposições, os cães daqui mostram que estão mesmo integrados e latem em bom francês. Fazem "ouaf ouaf" ao invés de "au au". Mas ainda não aprenderam alguns modos abolidos há séculos, e insistem em deixar suas cacas pelas ruas. Normalmente seus melhores amigos, os donos, vêm atrás, limpando a sujeira. Mas de vez em quando você pisa numa que ficou e, voilà, percebe-se totalmente integrado à cidade:

- Merde!

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Station: La Merde


Regra número um de Paris: jamais encare alguém no metrô. Na rua ainda vai. Se for pego, dá pra fingir que estava olhando pra paisagem. Mas no metrô não tem escapatória. Você estava encarando o sujeito, e pronto. E ele certamente não vai gostar.

Numa madrugada, metrô vazio, eu morrendo de sono e completamente distraído, olhava para o nada. Só que entre mim e o nada havia um sujeito. Na verdade, um sujeitão. Um sujeitaço de 2 metros de altura, com uma cara que faria o Freddy Krueger parecer o Brad Pitt.

- Algum problema, mon frère?
- Pardon?
- Eu perguntei se há algum problema.


Não existia, até aquele momento, nenhum problema. Mas o fato de ele me fazer essa pergunta imediatamente me fez perceber que havia um. E dos grandes.

- Por que você me pergunta isso?
Tentei ser valente.
- Por que VOCÊ me encara? Ele era mais, sem a menor dúvida. E pelo menos umas oito vezes mais forte. Só o seu hálito secular já me fez recuar dois passos.

Eu não o encarava. Na verdade, meu olhar ia em direção a ele, mas minha mente estava em outro universo.

- Desculpe, eu não estava te encarando. Você está se enganando.
- Então eu sou louco? É isso?


Ele não era louco. Ou era. Ou eu era. Ou não. A situação era tão delicada que coloquei todos os meus neurônios para trabalhar em busca de um só objetivo: achar em um segundo a frase certa, no tom correto, para encerrar aquele impasse. Pensei ter encontrado a saída, e tentei me colocar mais próximo do seu universo, abrindo um debate pseudo-filosófico sobre as mazelas da sociedade.

- Somos todos loucos nesse mundo doido, mon frère.


Eu não poderia ter sido mais estúpido.

- Alors, você me encara, me chama de doido e ainda acha que é meu irmão?


Ele quase urrava colado na minha cara. Eu me sentia um domador de leões, que enfia a cabeça na boca da fera. A diferença é que a fera é que enfiou a boca na minha cabeça.

- É isso mesmo????


Preparei-me pra levar um sopapo histórico, sem testemunhas, na madrugada parisiense. Fechei um dos olhos. O cidadão levantou o braço. Encolhi-me. Ele cresceu. Mordi a língua. Preparou o golpe. Pensei na minha família querida em Brasília, nos amigos que deixava pra trás, na minha coleção de discos de vinil. E vi que tudo aquilo estava prestes a terminar. Com um golpe daquele quilate eu seria o primeiro decapitado na França depois da extinção da guilhotina. Ele se aproximou mais e soltou... uma gargalhada.

- Hahahahahahahahahahahahahahahaha! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! HA HA HA HA HA HA HA HA HA HA HA HA HA!

Ele e seu cupixa choravam de rir. Eu também quase chorava, mas por outros motivos. Esforcei-me para esboçar um riso sem graça.

- Fica assim não, mon frère. Estamos brincando. Somos mesmo todos loucos nesse mundo doido. Os únicos conscientes somos eu, meu irmão aqui do lado e agora você. Parabéns por ver a luz.


O negão de dois metros disse isso e saiu do metrô. Eu fiquei mais um tempão ali e passei a estação da minha casa. Acho que tanta luz me fez perder um pouco o rumo.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

A morte do Bacalhau


Um grande amigo meu veio visitar a França pela primeira vez. Músico talentoso e conhecedor de história, quis dar uma passeada pelo famoso cemitério do Père Lachaise, onde estão os túmulos de Jim Morrison, Chopin, Oscar Wilde e outras personalidades mundiais. Vamos chamá-lo de Bituca.

Seguimos a turba de cabeludos e maltrapilhos e chegamos ao endereço eterno do ex-vocalista do The Doors que, dizem, já não está mais lá. Uma história meio confusa, que me fez imediatamente lembrar de outra, protagonizada pelo próprio Bituca, também envolvendo músicos e cemitérios. Foi alguns anos atrás.

Eu estava um dia em casa, ainda em Brasília, quando o telefone toca. Era um companheiro de banda de Bituca.

- Tenho uma notícia horrível. O Bacalhau morreu!
- Como?
- O Bacalhau, baterista do Little Quail, morreu.
- Quem te disse?
- O Bituca foi ao enterro.


Nessa manhã, Bituca lia o jornal e viu na página de óbitos: "A família do músico Marco Aurélio, consternada, agradece às manifestações de solidariedade e convida para o enterro, a realizar-se hoje, no Cemitério Campo da Esperança". Não teve dúvidas de que tratava-se do amigo. Correu para a capela mas, avesso a velórios, não teve coragem de chegar perto do corpo.

Indignado, constatou que nenhum dos roqueiros da cidade estava lá. "Pessoal mais sem consideração", pensou. De longe, avistou um senhor que não conhecia, mas soube tratar-se do pai do falecido.

- Meus pêsames.
- Obrigado.


No local, ficou sabendo da causa mortis: acidente de carro. Como não viu a namorada do amigo por perto, achou que ela também havia ido dessa para uma melhor. Mas não teve coragem de perguntar sobre seu paradeiro.

Notícia ruim corre a cavalo, já dizia a minha avó (ou talvez minha bisavó). E essa espalhou-se rapidamente. Em poucos minutos, todos os músicos da cidade já estavam a par da tragédia e lamentavam a passagem do amigo e excelente músico.

- Não é só a gente que perde, é a música brasileira.


Inconsolável, Bituca digiriu-se com sua banda para Goiânia, onde tocou à noite. Antes do fim, dedicou a apresentação.

- Pessoal, esse show é em homenagem ao nosso querido Bacalhau, que morreu hoje.

Palmas gerais. Comoção no palco e na platéia. Uma aura de solidariedade e tristeza pairou sobre o ambiente.

- Pausa dramática -

- Fim da pausa dramática -


No dia seguinte, de manhã, outro telefonema, do mesmo amigo que tinha ligado antes.

- Oi, Daniel.
- E aí, muito triste?
- Não.


"Sujeito mais frio", pensei.

- O Bacalhau não morreu.
- É, a obra dele continua pra sempre...
- Não, ele tá vivo.
- O quê?
- Tá vivo.


Tipo em um filme do Quentin Tarantino, as coisas só se explicaram depois. Querendo prestar solidariedade à família, alguns colegas de bandas ligaram para a casa do verdadeiro Bacalhau. Qual a surpresa quando o próprio atendeu e jurou que não havia abotoado o paletó de madeira.

E logo tudo fez sentido: o Marco Aurélio que se foi era um homônimo do baterista, e não o próprio. Não havia nenhum amigo presente ao enterro porque simplesmente não era quem Bituca pensava que era.

Bacalhau passou algum tempo desmentindo sua morte, até em outros estados. Mas a assombração mesmo foi pra Bituca, que aguentou brincadeiras durante anos.


PS: Para provar que está vivo, Bacalhau é hoje baterista do Ultraje a Rigor.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

La Liberté




Outro dia passei no La Liberté pra tomar uma cerveja depois de um show.

O La Liberté é talvez o bar de Paris que mais parece os famosos "pés sujos" brasileiros. Com a diferença de que não é sujo. Bem, não muito. Mas todo o resto está lá: cerveja barata, portas abertas até mais tarde, ótima música e, o principal, uma fauna de freqüentadores das mais esquisitas. Tudo o que faz um bom boteco.

Depois de uma certa luta, consegui chegar ao balcão.

- Um chope, por favor.
- Voilà.

Pedi, paguei e bebia tranqüilamente. Já estava no finzinho quando um loiro semi-gigante, meio vesgo de tanta birita, aproximou-se, pegou minha tulipa e virou o resto de uma vez só, provavelmente pensando que era dele. Ou talvez nem pensando mais. Achei que devia reclamar, mas o cidadão era tão grande que a minha voz demoraria uns 2 minutos para chegar lá em cima. A comunicação partiu dele.

- E aí, o que você está festejando hoje?
- Nada.
- Eu também não.


Com a boca mais mole do que gelatina e um olho em mim e outro no teto, disse isso, pegou um chope e brindou com meu copo vazio.

- Ao nada.
- Ao nada.


E saiu tropeçando para o outro lado do bar.

Continuei ali pelo balcão. O balcão é sempre onde você escuta as melhores histórias. E um cliente reclamava com um dos donos.

- Mas eu não bebi nada na 4a feira.
- Não interessa. Se você levanta o dedo e pede uma cerveja, eu presumo que seja pra você e coloco na sua conta.
- Sim, eu levantei o dedo, mas não bebi. Era pro meu amigo.
- Então não levante mais o dedo pedindo.


O balconista disse isso e foi atender outra pessoa. Quando virou-se novamente, o mesmo carinha que reclamava estava com o dedo em riste.

- Uma cerveja.


Nesse meio tempo, a música muda. E Aretha Franklin sai das caixas de som. O sujeito que pediu a bebida deixa o balcão antes de recebê-la, começa a se sacudir e vai pra improvisada pista de dança. Um clone mais velho do Elymar Santos já dominava o ambiente, rodopiando com uma loira com cara de bem comportada.

O cliente reclamão volta, pega a bebida que pediu e fica secando a loira. Na verdade, a bunda da loira. Elymar Santos percebe e abre o botão de cima de sua própria camisa, assegurando que o macho adulto branco no comando era ele.

No meio disso tudo, entra um vendedor de flores, com as rosas mais feias e murchas que já vi.

- Quer comprar?
- Não, obrigado.


Diz isso e vai pro fundo do bar, uma região para onde apenas os iniciados vão. E some na muvuca.

A música muda novamente. Entra a versão original de "conheci um capeta em forma de guri", famosa no Brasil na voz do grande filósofo Sérgio Mallandro, o mesmo de "vem fazer glu-glu".

Elymar Santos cover está infernal. Enquanto passa a mão na bunda da loira, acena para uma outra que está encostada na parede. Ele percebe que saquei seu movimento e faz um "high five", batendo na minha mão no alto. Não sei se elas notaram, mas ele parece não se importar nem um pouco.

Aparece um segundo vendedor de flores.

- Quer?
- Não... Ah, o seu companheiro está lá atrás.
- Merci.


E também some na fumaça de cigarro que empesteia o ambiente. Logo depois vejo dois buquês sacudindo no alto, no ritmo da música, com pétalas voando pra todo lado.

A loira sai, talvez para ir ao banheiro. O Elymar Santos francês não perde tempo e chega na outra. Logo abre um segundo botão. Em poucos segundos - em uma performance que mataria Jece Valadão de inveja - conseguiu fazer a mocinha beijar seu peito pela camisa semi-aberta. A loira volta e, como se aquilo fosse muito normal, pede uma cerveja e fica observando a cena. O reclamão tenta se aproximar, mas ela não dá a menor bola. Aquele pedaço - já está claro - pertence ao outro sujeito.

Já era tarde, e depois de mais um chope resolvi ir embora. Os dois floristas saem também, totalmente embriagados. Na mão, umas hastes com as poucas pétalas sobreviventes.

- Quer comprar flores?

Eu olho pra o que restou delas e também para o que restou deles.

- Que flores?

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O ganso e o mico


Uma refeição na França costuma ser uma experiência inesquecível. Para os amantes da culinária requintada, é sem dúvida a oportunidade de provar pratos deliciosos e super elaborados. Porém, para os não iniciados nos hábitos alimentares locais, pode ser traumático.

O foie gras, por exemplo, é uma iguaria muito apreciada em terras gaulesas. Mas pouca gente sabe que se trata de fígado de ganso gordo. A maneira de preparar tem requintes de crueldade: o bicho é amarrado e alimentado, por uma espécie de sonda que vai diretamente no estômago, até quase explodir. Depois, seu fígado é tratado, conservado e vendido a preço de ouro.

Em viagem pelo interior do país, um amigo foi convidado para um jantar típico. Como entrada, uma bela fatia de foie gras, que ele nunca havia provado.

- É foie gras.
- Merci!


O anfitrião Patrick, um francês que morou no Brasil, explicou o processo de fabricação daquilo. Meu amigo já estava com o primeiro pedaço na boca, e chocou-se com o que estava prestes a comer. E aí entalou. Não descia de jeito nenhum. Não descia e nem subia. Ficou ali, preso. E ele sem saber o que fazer. O primeiro naco tinha que passar de qualquer maneira. Pro bem dele, seria bom descobrir logo como fazer isso. Pra acabar com a agonia, pegou a taça de vinho e virou-a inteira, com os olhos cheios de lágrimas.

- C'est bon?
- Delicioso...


Tentando ser diplomático, elogiou o que havia detestado. E como recompensa ganhou mais um pouco. Tarde demais. Nessa hora não dava pra devolver e muito menos pra deixar de lado. Então dividiu em pedaços homeopáticos, que colocava pra dentro à base de muito vinho.

Meio bêbado, continuou a sorver altos goles de álcool quando veio o prato principal. Dessa vez, nenhum susto. Apenas uma massa ao molho bolonhesa. O estranho veio depois.

Na França, o queijo é parte quase obrigatória de qualquer refeição. E servido sempre depois da comida. É normal para eles. Mas esquisito para um brasileiro. Ainda mais para um já embriagado.

- Quer queijo?
- Desce!

Queijos franceses podem ser muito fedidos. Aliás, quanto mais fétidos, mais eles parecem gostar. Se houvesse uma disputa para saber qual tem o maior futum, o camembert seria uma espécie de Pelé, imbatível. E foi exatamente esse que serviram depois do jantar.

Totalmente sem noção e já estupidamente bêbado, meu amigo, um contumaz piadista de boteco, começou a soltar suas pérolas:

- O que fede mais: um camembert ou a cueca do Patrick?
- Um conhecido jogou perfume francês em cima do camembert e comeu. Hoje seu peido é vendido engarrafado como arma de guerra.
- Um camembert incomoda muita gente. Dois camemberts incomodam, incomodam muito mais...


Depois desse festival de micos, um verdadeiro planeta dos macacos, ele nunca mais foi convidado para um jantar francês. Entre amigos, agradece por não mais ter que passar por isso. Por outras fontes sei que o anfitrião Patrick pensa igualzinho.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Le Marché D'aligre


Na minha rua tem uma feira. Tá lá todo dia, menos segunda. E é um dos mais conhecidos lugares de Paris para se comprar frutas, verduras, flores, peixes e tudo mais que se encontra em uma feira de rua.

O Marché D'aligre é uma aula de sociologia. Das dezenas de bancas, só uma pequena parte é de franceses. O resto é de senegaleses, argelinos e de outros povos por eles colonizados. E é curioso observar as diferenças.

À procura por legumes, passei pelo estande de um marroquino que se esganiçava para anunciar o preço único de seus produtos. Uma versão velho mundo do nosso "é tudo um real". O sujeito atendia dez pessoas ao mesmo tempo. Um caos que o fazia repetir sintomaticamente a mesma sentença.

- Bonjour monsieur.
- Deux euros! Deux euros!
- O senhor tem abobrinha?
- Oui. Deux euros!
- Estão boas?
- Deux euros!


Ele apontava que nem um louco para o produto, enquanto pesava as compras de outro cliente.

- Quero meio quilo.
- Um quilo é deux euros, deux euros!.


A comunicação dele era simplória, mas funcionava. Dizendo apenas "deux euros" se entendia com todos à sua volta.

- E aqueles pêssegos?
- Deux euros!
- Quero saber se são bons.
- Ótimos. Só deux euros.
- Vou escolher alguns.

Esse foi o único momento em que olhou na minha cara.

- Non, non. C'est pas possible. Não pode escolher.
- Não pode?
- Não. Mas pode comprar um quilo por deux euros. DEUX EUROS! TOUT EST DEUX EUROS!!!


Disse isso e voltou aos seus afazeres múltiplos. Daí até o momento em que paguei, cerca de um minuto depois, devo ter escutado "deux euros" mais umas 37 vezes.

Satisfeito com o preço mas um pouco contrariado pelo atendimento, passei em uma banca capitaneada por uma francesa. Ao contrário da anterior, tinha uma fila grande, e a dona conversava com uma pessoa por vez, calmamente, levasse o tempo que levasse.

- Bonjour madame. A senhora tem champignons frescos?
- Oui monsieur. Eles estão ótimos. Olhe como são bonitos.
- É verdade.
- O senhor pode prepará-los na manteiga ou colocar numa salada.
- Fica bom?
- Fica delicioso. Mas não se esqueça de lavá-los muito bem antes.
- E essas cerejas?
- Acabaram de chegar.
- Estão doces?
- Prove uma.
- Merci beaucoup. Quero essas aqui.
- Très bien.
- Quanto dá?
- Alors... 200g de champignons e 200g de cereja. Algo mais?
- Non. C'est tout. Merci.


A mão que afaga é a mesma que apedreja. Se a gastronomia é coisa séria para os franceses, a hora de apresentar a conta não é diferente. E ela responde sem o menor constrangimento.

- Fica 8 euros.


Oito euros por um punhado de fungo e umas frutinhas vermelhas. Vinte reais! "Minha senhora, com vinte reais no Brasil eu compro metade de uma frutaria", pensei em voz alta, morrendo de vontade de largar o pacote ali e sair correndo.

- Pardon?
- Nada, nada. Embrulha
- Merci monsieur. Tenha um bom dia e uma ótima refeição.


Minha porção Paul Bocuse se sentia feliz com as iguarias adquiridas. Mas o lado Tio Patinhas estava semi-deprimido pela facada no bolso. Súbito, tive a idéia de passar em um outro estande.

- Quanto tá a banana?
- 80 centavos o quilo.


Comprei logo três quilos. Não sabia se ia comer aquilo tudo, mas agora estava certo de que faria uma refeição balanceada. Pelo menos no critério financeiro.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Efeito Paris


Uma das coisas mais interessantes de morar em Paris e visitar o Brasil é observar os diversos efeitos que isso causa nas pessoas. Alguns conhecidos passaram a me ver como se, de repente, eu tivesse ganho mais uma perna.

- Lembra do Daniel? Ele agora mora em Paris.
- Nossa! Em Paris?
Aí a pessoa vinha me tocar pra ver se ainda era eu. Me olhava, pegava no cabelo, no nariz.

Mas o mais curioso aconteceu em duas ocasiões: em um médico e em um dentista. A primeira foi quando fiz meu exame de renovação de carteira de motorista.

- Telefone de contato?


Passei o de casa, em Brasília.

- Tem um celular?
- Tenho, mas não vou mais usar, pois não moro mais aqui.
- Mora onde?
- Em Paris.


O cidadão arregalou os olhos, meio deslumbrado.

- Mais ça c'est très chique! J'aime Paris. Conheço um pouco o idioma.

E aí continuou a consulta falando apenas francês. Chegou a hora do exame de vista.

- Quelle couleur?
- Amarelo.
- Non! En français!!!
- Jaune.
- Très bien!
- Quels caractères?
- A, cê, agá
- Non, non, non! Pas de portugais.
- Pardon. A, cê, ache.


Depois que contei um pouco da minha vida na capital francesa, ele deu o veredito.

- Seu francês está muito bom. Mas sua vista pode melhorar um pouco. Recomendo que você use óculos pelo menos à noite.
- Obrigado.
- Hein?
- Merci...


E pegou um lenço branco e acenou pra mim. Uma cena meio melancólica.

- Au revoir! Au revoir! Embrasse Paris...


Sai de lá direto pro dentista. O mesmo que me atendeu a vida inteira. Ao chegar, lembrei-me porquê sempre tive pavor do sujeito.

- Olá, Daniel. Tá sumido. Senta.

Acomodei-me na cadeira e abri a boca. Ele deu uma olhada. E já ligou aquele motorzinho que me assombra desde a infância.

- Sua mãe falou que você tá morando em Paris. Encostou o motor no meu dente.
- Aahhhhh.
- Tá gostando?
E começou a raspar. Doeu pacas.
- Aaaaaahhhhh.

O carniceiro não dava trégua. E logo trocou o aparelho de tortura. Pegou uma espécie de foice pequena, pra limpar entre os dentes. Com a metade da mão na minha boca, sobrava pouco espaço pra articular as palavras.

- E o que você faz lá?
- Eu ...abalho ...uma ...evista.
- Hein?
- ...uma ...evistaaaahhhh.
- Olha. Não dá pra fazer bem feito se você continuar falando.


Ele não queria que eu falasse, mas também não parava de perguntar.

- Onde você mora lá?
- ...astilha.
- Não entendi nada.
E forçou tanto com o aparelho que me machucou a gengiva.
- ...as-ti-lhaaaai ai ai ai...
- Ah, Bastilha.


Balancei a cabeça afirmativamente, enquanto uma lágrima corria. Não tentei mais emitir nenhum som. Era mais seguro.

Terminada a sessão de maldades, meu dentista me fez lembrar de um outro trauma que adquiri na infância: as suas brincadeiras totalmente sem graça.

- Voilà. Agora é seu teste final de francês: quero ver você fazer o biquinho com toda essa anestesia na boca.


É claro que não consegui. Ele se divertiu à beça com isso. Eu me satisfiz em sair vivo de lá.

Na manhã seguinte, ainda sob o efeito de tantos choques emocionais, não conseguia mais fazer o biquinho direito. Pensei em procurar um psicólogo pra me ajudar. Francês, claro.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Como falar francês sem falar francês II - Provérbios


Segundo a Wikipedia, um provérbio é "uma sentença de caráter prático e popular, que expressa em forma sucinta, e não raramente figurativa, uma idéia ou pensamento."

É verdade que é complicado traduzir provérbios. Ainda mais incluí-los no meio de uma conversa em outra língua. Mas se você seguiu as dicas anteriores, já está apto a empregá-los e, com isso, dar um novo passo rumo ao domínio do idioma de Victor Hugo.

Para ilustrar o emprego dessas pérolas vertidas do português, criei algumas situações hipotéticas, mas bem reais: uma paquera no meio de uma balada, uma fofoca sobre a vida dos outros e uma ida ao restaurante.

Mais uma vez, você não precisa falar francês. Mas como a lição é mais avançada, é necessário que você entenda um pouco do que estão falando. Lembre-se que a sua comunicação será feita apenas por provérbios, o que lhe dará um status de semi-intelectual, muito valorizado na França. Por isso é fundamental decorar bem cada uma das frases a seguir.

É importante frisar que os exemplos aqui descritos podem - e devem - ser utilizados em outras oportunidades. Experimente e descubra novas maneiras de empregá-los.


Cantando a gatinha


Essa lição pode ser empregada em uma festa, uma boate, um bar ou em qualquer outro agito. Para valorizar mais o seu ar intelectual, tenha sempre um copo de vinho na mão. E solte as frases quase ao pé do ouvido do seu alvo.

- Bon soir.
- Bon soir.


Quebrado o gelo inicial, chega a hora da verdade. De dizer aquela frase mágica, capaz de mover o mundo. De encantá-la com todo o seu conhecimento do francês e do universo feminino.

- Tu sais que chaque pot à son couvercle? (Você sabe que cada panela tem sua tampa?)
- Pardon?
- Je te dire que tu es la belle fille dont maman a toujours revée.
(Tô te dizendo que você é a nora que mamãe pediu a Deus.)
- Você acha que essa conversa mole me convence?
- Bah oui... Qui ne pleure pas, ne tete pas.
(Acho. Quem não chora não mama.)

Agora tem duas possibilidades. A primeira, mais provável, é ela não gostar muito.

- Que grosseria!
- Je le savais. Le pain du pauvre tombe toujours du côté du beurre...
(Eu sabia. Pão de pobre cai sempre com a manteiga para baixo...)

A outra é ela rir e cair no seu papo-aranha.

- Gostei do seu bom humor. Vamos tomar alguma coisa em outro lugar?

E você solta o grand finale. Depois, contenha-se para não abrir mais a boca e não estragar tudo.

- Oui! C'est l'heure de la panthère boire de l'eau. (Vamos! Chegou a hora de a onça beber água).


Falando da vida dos outros

Não é só no Brasil que a fofoca é um esporte nacional. Falar da vida dos outros é uma atividade praticada nos quatro cantos do mundo. E nada como uma boa festa para botar esse velho hábito em dia. Pode até ser a mesma citada acima, na qual você tentou azarar - sem sucesso - a menina.

O procedimento consiste em chegar de mansinho em uma roda onde haja conhecidos. É batata: logo alguém vai contar um episódio de corno.

- Eu não acredito o Jacques traía a Florence há tanto tempo.
- Moi non plus. Mais trahir et gratter ce n'est que commencer.
(Eu também não. Mas trair e coçar é só começar).
- Todo mundo sabia, menos a pobre coitada.
- C'est comme ça... le cocu est toujours le dernier à savoir.
(É assim... o corno é sempre o último a saber).
- Ele falou que está pensando em separação.
- Mieux vaut être seul que mal accompagné.
(Antes só do que mal acompanhado).

Agora cuidado! As pessoas vão começar a prestar atenção no que você está falando. É a hora de preparar a saída estratégica, antes que você tenha que entrar em conversas mais profundas.

- Ela ainda vai se arrepender disso.
- Oui. Un jour de la chasse, l'autre du chasseur.
(Vai sim. Um dia é da caça, o outro é do caçador).

Certamente alguém vai se dirigir a você.

- E você, o que acha disso tudo?
- Moi?
- Sim, você.


Pausa dramática. Respire fundo.

- Qui se marie ne pense pas. Et qui pense ne se marie pas.
(Quem casa não pensa. E quem pensa não casa.)

Hora da retirada.


No restaurante

Em Paris, no verão, conseguir uma mesa na varanda pode ser uma tarefa difícil. Mas você vê uma vazia, que pega exatamente aquele solzinho bom. Nada mais natural do que sentar-se ali. Depois de 5 minutos, acomodado, pedido já feito, descobre que a mesa estava ocupada. Quem estava ali antes tinha apenas ido ao banheiro.

- Monsieur, eu estava aí.
- C'est dommage mais qui va à la chasse perd sa place.
(É uma pena, mas quem vai ao ar perde o lugar).
- Eu gostaria de pegar meu lugar de volta.
- Il faut mieux sortir le petit cheval de la pluie.
(É melhor tirar o cavalinho da chuva).
- Eu só tinha ido ao banheiro.
- Je vois... Mais l'excuse d'handicapés est une béquille.
(Sei... Mas desculpa de aleijado é muleta).
- Olha, estou ficando nervoso!

Aí você faz cara de impaciente e bate na mesa.

- Moi aussi. Le cobra va fumer! (Eu também. A cobra vai fumar!)

Reze para que nessa hora a "turma do deixa disso" resolva agir para impedir que a confusão aumente. Ou então para que o antigo ocupante desista de vez da mesa.

- Chega. Vou procurar outro lugar.
- Oui. Chaque singe sur sa branche.
(Isso. Cada macaco no seu galho)

Quando o sujeito estiver saindo, solte a última.

- Attention! Pour mourrir il suffit de vivre.
(Cuidado! Para morrer basta estar vivo).

Pronto! O lugar é seu e o cara não vai mais te incomodar.


Viu como é fácil? Com um pouco de treino você vai soltar provérbios e pensamentos com a maior naturalidade do mundo, causando espanto em todos ao redor.


Colaboraram: Henriette Gallo e Constance Boutrolle

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Carga pesada


Seis meses depois de chegar em Paris, voltei para visitar o Brasil. Em Brasília ficou grande parte das minhas roupas. Uma coisa prática, pois quando viesse à minha cidade-natal poderia viajar com uma mala não muito grande, sem parecer um retirante que coloca toda a casa em cima de um burro.

Semanas antes de partir já sabia o que levar: umas camisas, dois casacos, três calças, três pares de tênis e alguns pequenos presentes. Tudo deveria caber numa valise de tamanho médio.

Mas a visita do meu caro amigo DJ começou a desmontar meus planos. Marinheiro de primeira viagem, ele foi pra Europa com duas malas tamanho monstro. Ao chegar em Paris, não aguentava mais tanto peso.

- Posso deixar aqui algumas poucas peças de roupa pra você levar pra mim quando for ao Brasil?
- Pode, claro.
- Já está até separado ali no canto.


As "poucas peças de roupa" a que ele se referia se tratavam de três sacolas esturricadas de bermudas, camisas, cuecas, meias e calças em um estado tal que fogueira seria pouco pra tirar a nhaca acumulada.

Esse imprevisto me fez mudar de estratégia, que passou a incluir uma segunda valise. E foi aí que tudo degringolou de vez.

Agora com espaço sobrando, pensei que poderia levar mais presentes, algumas Brazucas e ainda aceitar encomendas de amigos. Um dia antes de fazer a mala, me sentia um muambeiro do Paraguai. Minha sala estava tomada por 3 chaleiras elétricas, um moderno filtro de aquário (e eu nem sabia que existiam modernos filtros de aquário), 5 vidros de perfume, roupas para todos os bebês da família e de agregados, 15 sabonetes de Marseille, 2 garrafas de vinho, 2 geléias, 2 salames, 3 sacos de vestimentos fétidos do meu amigo e, pra fechar com chave de ouro, 50 revistas Brazuca.

Separei duas malas gigantes pra caber tudo. Em uma acomodei os pútridos trajes do sujeito e as bugigangas elétricas, esperando que não derretessem com a fedentina. Na outra coloquei todo o resto e as revistas. Como moro perto da Gare de Lyon, de onde sai o ônibus pro aeroporto, acreditava que a missão não seria das mais difíceis.

- Acho que vai dar pra levar.

Uma das valises ainda estava num estado razoável. Mas a outra já merecia ter sido aposentada há alguns anos. E o pior: a alça estava a um triz de arrebentar.

Em frente do meu prédio tem uma feira de rua, sempre movimentada. Quando saí, me vi no inferno. Centenas de pessoas e eu querendo passar por elas com toda a bagagem e ainda uma mochila nas costas.

- Pardon Monsieur.
- Olha por onde anda, rapaz.
- Pardon Madame.
- Vê se não vai jogar essas malas em cima de alguém.


Pra piorar, só faltava arrebentar a alça. Mas isso logo se resolveu. Dei um passo em falso, a maldita rompeu-se de um lado. Fui então puxando devagarinho, pra tentar administrar o problema. Mas não adiantou, pois ela partiu-se totalmente antes de eu conseguir atravessar a feira.

Se carregar duas malas grandes e lotadas já é uma tarefa ingrata, carregar uma sem alça é uma experiência desastrosa. O caminho até a Gare de Lyon, normalmente vencido em menos de dez minutos a pé, nunca pareceu tão longo.

Respirei fundo e tentei seguir em frente. As pessoas passavam por mim olhando com um misto de pena e preocupação. Eu estava com a cara tão vermelha - de esforço e de raiva - que deviam pensar que iria implodir a qualquer momento.

Eu rezava para que um transeunte se propusesse a me ajudar. Mas o máximo que consegui foi um apoio verbal de um velhinho que caminhava a passos de escargot.

- Não desista, meu jovem.


Apesar do incentivo, quase já não conseguia mais andar. E ainda faltava um tanto pra chegar ao objetivo. Tracei uma nova tática: passei a alternar a mão com a qual carregava a mala mais pesada, que deveria ser invariavelmente levantada para poder sair do lugar.

Pega com a mão direita, levanta, anda vinte e poucos metros. Pára. Descansa. Respira. Pega com a mão esquerda, levanta, anda mais um tanto. Pára. Descansa. Respira, respira. Pega com a direita, prende o fôlego e avança. E assim foi durante minutos que pareciam sem fim.

A coisa ia devagar, mas ia. Ao avistar o ponto de ônibus, fiquei tão feliz que distraí. Foi fatal. A mala pesada escorregou e num esforço idiota para segurá-la no ar dei um baita mau jeito no ombro. Enquanto doía pacas, a outra saiu rolando em direção à rua. Com o ombro latejando, corri para evitar o atropelamento da minha bagagem. Mas a vontade mesmo era jogar as duas embaixo do primeiro caminhão que passasse.

Exausto, descabelado, suado e de péssimo humor, cheguei à parada e coloquei tudo no bagageiro. Desci no Aeroporto Charles de Gaulle e fui ao balcão da Air France fazer o check-in. A mala-sem-alça (em todos os sentidos) pesava 28 quilos. A rebelde das rodinhas, 21. O atendente fez um comentário infeliz.

- Pesadas, hein? Ainda bem que essas malas mais novas são fáceis de carregar.


Olhei com a cara mais séria do mundo e levantei o canto direito da boca, num esforço para ser simpático. Mas naquela hora tava difícil.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Barrados no Baile


O meu amigo DJ, personagem do último post, teve mesmo uma passagem memorável por Paris.

Depois do episódio da bomba na FNAC, ele só queria saber de se divertir um pouco para esquecer os contratempos em terras napoleônicas. E me chamou pra ir a uma festa.

O nome "The Grand Summer Party Funk" (assim mesmo, em inglês), o cartaz em cores berrantes e a promessa de se escutar Jackson 5 e Stevie Wonder, entre outros, não deixava dúvida: era uma festança para todos que curtissem o estilo. Tipo uma Criolina francesa.

Escolhemos nossos melhores All Stars e as adequadas camisetas de bandas e partimos para o La Scene Bastille.

No meio do caminho, pausa pra comprar cerveja.

A impressão que dá é que em Paris essa coisa de beber na rua é a maior paranóia. Ninguém faz isso. Aliás, tem quem faça, mas sob o olhar reprovador dos outros. É uma falta de finesse imperdoável por aqui.

Sem nos preocuparmos muito com isso, entramos na única loja que vende cerveja em lata por perto. É de um chinês completamente louco. Apesar de fornecer bebida alcóolica até altas horas da madrugada, ele só tem permissão pra comercializá-la de dia.

- Duas cervejas, por favor.
- Não temos,
responde com um olhar de lamento.
- Mas e aquelas todas ali atrás?

O sujeito olha pros dois lados e consulta a mulher, que está na porta vendo o movimento da rua. Ela responde algo, provavelmente dando um sinal positivo. Ele corre no freezer, busca duas cervejas e tenta enfiar dentro do casaco do meu amigo DJ, que recusa a investida. Tento ajudar.

- Me dá aqui que eu levo na mão.
- Não pode, não pode. Coloca cerveja casaco. Casaco, casaco.


A esposa, que a essa altura berrava com dois outros clientes que provavelmente também não queriam esfriar a barriga com uma lata, chega perto.

- Tem que ser mais rápido. Mais rápido. Coloca cerveja casaco rápido.

Pra escaparmos daquela situação maluca, pagamos, guardamos as duas nos bolsos da calça e saímos. O casal continuava falando.

- Assim não bom. Cerveja casaco melhor.


Com a bebida - quente - em mãos, nos dirigimos para a festa, perto dali.

A fila tava grande. Ficamos do lado de fora, encostados em um carro, bebericando. Ao contrário do que a gente previa, nenhum negão com cabelo black power por perto. Todos os que chegavam estavam invariavelmente de pullover, calça escura e sapato social. Parecia mais convenção da Amway do que festa funk.

Depois de um tempo resolvemos entrar. Uma mulher e dois gigantes controlavam o acesso.

- Boa noite.
- Boa noite.
- Vocês têm uma lixeira aí pra gente jogar essas latas? Não tem nenhuma na rua.
- Lixeira tem sim. Só não tem ingresso pra vocês.
- Como?
- Vocês não vão entrar.
- Por quê?
- Porque já tem muito homem aqui dentro.


Aceitamos meio contrariados e ficamos um pouco de lado. Logo atrás da gente vinham 8 homens. Esperei para vê-los sendo barrados também. Para minha surpresa, todos entraram e ainda ganharam sorrisos dela. Cheguei perto.

- Por que eles entraram e a gente não?


Os gigantes se aproximaram e formaram uma Muralha da China entre a moça e nós, os brasileiros barrados.

- Os senhores não vão entrar. Agora afastem-se, por favor.


Esse "por favor", traduzindo, não significava um pedido. E sim "ou os senhores saem ou vou esquentar a orelha dos dois com uma mãozada só". Ele era capaz, acreditem.

A verdade é que estávamos totalmente em desacordo com aquele ambiente, estética e eticamente. Inconformado, meu amigo lamentava não saber falar francês para dizer umas boas. Trocamos umas idéias e ele aprendeu rapidamente o necessário para se fazer entender. Começou um discurso em português e, quando o Trio Parada Dura da porta prestava total atenção, provavelmente achando bizarro, deu de ombros e evocou ironicamente o slogan da Revolução Francesa.

- Liberté? Egalité? Fraternité?

A comissão de entrada arregalarou conjuntamente os olhos, antes do grand finale.

- Sarkozistes!

Sarkozy é o presidente francês. Um mini-Hitler segregacionista, apesar de filho de imigrantes. Chamar alguém de Sarkoziste é como dizer que ele é racista, malufista e collorido. Tudo ao mesmo tempo.

Os guardiões da esbórnia calaram-se simultaneamente. Saímos rápido, antes que um daqueles brutamontes ficasse realmente furioso, o que provavelmente não seria muito engraçado.

Como Christopher Lambert, meu amigo sentiu-se um highlander cortando a cabeça de outro. Troco dado na mesma moeda, propus uma esticada.

- Outra cerveja?
- Melhor irmos pra casa. Chineses estranhos, festas francesas de funk com nome inglês e cara de Amway, os três patetas na porta. Acho que já tivemos muita diversão por hoje.


Concordei na hora.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Detonando em Paris


Um amigo meu, viajando pela Europa, ficou uns dias aqui em casa. Saiu pra andar pela cidade e entrou num restaurante que lhe indicaram.

- Bonjour.

O bonjour dele é ótimo, sempre acompanhado de um sorriso. Mas é tudo o que sabe de francês.

- Bonjour, respondeu a garçonete, também sorridente.
- Você fala inglês?

A moça, que no início mostrava todos os dentes, fechou a boca como um bico de pato. E a cara também.

- Não.

Respondeu e ficou olhando séria pra ele. E ele pra ela. E ela pra ele. E ele pra ela. E nenhum dos dois desviava o olhar.

- Que-ro co-mer, falou devagar o meu amigo, fazendo mímica com a mão perto da boca, num esforço para ser entendido.
- Comida, food, fome, hungry!

Ela nem ligou.

Enfezado, o sujeito apontou no cardápio qualquer coisa e esperou. Comeu e pagou o que devia, sem deixar gorjeta para a garçonete.

De cabeça quente, foi visitar umas lojas. Como ele é DJ, aproveitou para comprar uma moderníssima aparelhagem de discotecagem. Com medo de ser assaltado, pediu pro atendente embrulhar. O vendedor podia ter toda a boa vontade do mundo, mas revelou-se um péssimo empacotador. E fez uma gambiarra com pedaços de papel e fita crepe que deixaram o pacote muitíssimo mais suspeito do que antes.

Depois andou até a FNAC para comprar uns discos. Encantado com o tamanho da loja, foi se metendo pelas seções, bisbilhotando aqui e ali, olhando os lançamentos, escutando trechos de músicas. E esqueceu o embrulho num canto.

Na França, como em toda a Europa, há um verdadeiro pavor de pacotes abandonados. Eles já foram vítimas de atentados com bombas deixadas em mochilas e latas de lixo, então destroem tudo o que é potencialmente perigoso.

O meu amigo, cabeludo, barbudo e longe de ser o cara mais bem vestido do mundo, passaria como terrorista até no Afeganistão. Bin Laden mudaria de lado na rua se o visse passar. Na França, então, devia ser suspeito desde que chegou ao aeroporto.

De repente ele percebe uma movimentação estranha na loja. Atendentes apressados, pessoas tensas, um clima esquisito no ar.

- Que pessoal estressado.

Súbito, uma das atendentes passa correndo por ele. Mas o reconheceu e soltou uma mistura de inglês com mímica e alguns saltitos semi-histéricos.

- É seu o pacote abandonado lá atrás? É seu? É seu?
- Vixe!!! É meu.


A moça o pegou pela mão e saiu atravessando as seções de clássicos, jazz, blues, soul, reggae... Um longo caminho até chegar no rock, seu ponto de partida.

- É dele! É dele. Deixa aí.
- É mine. It's meu!
Meu pobre amigo já confundia até os idiomas.

O embrulho estava sendo encaminhado para uma sala isolada, mas eles chegaram a tempo. Um dos caixas pegou o pacote e entregou pra ele, sem esboçar o menor sorriso.

À noite eu o encontrei em casa.

- Como foi seu dia? Tá se virando bem no francês?
- Olha, posso dizer que eu tô quase detonando.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Como falar francês sem falar francês


Quando cheguei a Paris meu francês não era grandes coisas. E mesmo quando não entendia o que falavam, sempre mantive a pose de totalmente fluente, fruto de algumas técnicas que desenvolvi.

É verdade que existem livrinhos de consulta rápida com frases prontas em diversas línguas. Normalmente divididos por temas, como 'chegando na cidade', 'saindo pra jantar' ou 'pedindo informações', são ótima opção para garantir ao menos uma comunicação básica.

Mas se o que você quer é fazer todos acreditarem que você aprendeu francês na Sorbonne, anote as dicas a seguir. Para ser tão didático quanto o Monsieur Gérard, dividi os ensinamentos em capítulos.


Cinq minutes de merde

O que é

A primeira técnica, batizada de "Cinq Minutes de Merde", foi criada por causa de um fato estranho que acontecia comigo. Mesmo que o assunto fosse fácil e as pessoas não falassem muito rápido, eu demorava cinco minutos pra dar um boot no meu sistema operacional interno e ajustar o cérebro à conversa. Era como um rádio meio fora da estação, onde você pesca algumas palavras mas não consegue entender o contexto.

O que fazer

Primeiro, fique com um leve sorriso na cara o tempo todo. Dá um ar de quem está por dentro do assunto. Mas não exagere, pra não ter expressão de idiota. Olhe para quem está falando, mas não muito, pois ele pode te pedir uma opinião. O ideal é balançar um pouco a cabeça e ficar atento às outras pessoas da roda. Se elas rirem, ria também. Se fizerem cara de espanto, coçe o queixo.

Quando entender um pouco, solte um "je vois" ou um "oui" de tempos em tempos. São os equivalentes ao nosso "sei, sei...", que não quer dizer nada, mas diz tudo.

Mas quanto boiar completamente, marque um ponto no horizonte e fixe o olhar. Se te perguntarem alguma coisa, arregale os olhos e repita a seguinte frase: "pardon, j'ai été inattentif". Em bom português, "desculpa, estava desatento". Mas NUNCA peça pra repetir. É o momento ideal de procurar o banheiro.


Faisant des ronds dans l'espace

O que é

É o tradicional circular pelo ambiente. Técnica fundamental, pois ninguém te pega no canto pra tentar desenvolver uma conversa. Se for uma festa é mais fácil. Mas se for uma mesa de bar o problema é maior.

O que fazer

Há duas possibilidades para essa situação: ambientes onde você pode e onde você não pode se locomover.

Na primeira categoria encaixam-se festas, aperitivos, recepções e afins. É moleza se livrar. Basta circular com um copo quase vazio na mão. Quando alguém se aproximar, antecipe o passo e pergunte se ainda tem vinho. A frase-chave é "il y a encore du vin?". Sirva-se e depois dê o sumiço. Claro que você pode trocar pela sua bebida preferida. Um rápido guia de referência: cerveja é bière, água é eau e coca é coca mesmo.

A segunda possibilidade é mais complicada, e ocorre em jantares, mesas de bar e ocasiões onde todo mundo fica sentado. Torça para ninguém te perguntar nada. E quando houver uma pausa na conversa, lance você um assunto. Aliás, lance e em seguida vá ao banheiro. O banheiro é fundamental em todas as situações descritas aqui. É lá que você vai se refugiar por alguns preciosos minutos. O tempo suficiente para que se esqueçam um pouco da sua presença. Mais detalhes sobre lançar um assunto no capítulo seguinte.


En disant des courgettes

O que é

Conhecida em português como "falando abobrinhas", é uma técnica avançada, para aqueles que já têm ao menos uma pequena noção de francês. Consiste em preparar alguns tópicos para usar no momento certo.

O que fazer

Se você souber que vai sair, separe 30 minutos do seu dia para buscar umas palavras no dicionário e organizar um ou dois temas com os quais você tenha familiaridade. Uma boa dica é falar de futebol, pois eles não perdem a chance de se vangloriar em cima dos brasileiros, e você não precisará dizer muita coisa. Frases fundamentais: "C'est vrai, mais le Brésil est cinq fois champion du monde" (é verdade, mas o Brasil é cinco vezes campeão do mundo) e "Pelé a marqué plus de mille buts. Et Zidane?" (Pelé marcou mais de mil gols. E o Zidane?). Solte na hora em que você desconfiar que todo mundo está falando das derrotas de 1998 e 2006.

Um outro tema interessante é caipirinha. Os franceses adoram a bebida. Se algum deles não provou ainda, certamente conhece alguém que já o fez e contou maravilhas a respeito. Boa pra soltar ali pelo meio da noite, quando o nível alcóolico das pessoas deverá estar mais elevado. Frases fundamentais: "J'aime bien boire de la caipirinha sur la plage d'Ipanema" (eu adoro tomar caipirinha na praia de Ipanema) e, se você for do tipo polêmico, solte uma "la caipirinha c'est mieux que le vin" (a caipirinha é melhor do que o vinho). Mas aí você vai precisar estar preparado pra responder.


Com essas técnicas, aplicadas nas horas certas, posso garantir que seu francês será elogiado por todos. Quando isso acontecer, faça um ar meio blasé e tenha outra frase na ponta da língua: "merci beaucoup, mais j'espere que la prochaine fois on parlera en portugais" (muito obrigado, mas tomara que da próxima vez a gente converse em português). E saia.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Táxi! Táxi!


Quando morei no Rio de Janeiro, era comum pegar táxi. Além de ser barato, ainda havia uma diversão gratuita inclusa: o taxista.

Taxista no Rio sabe tudo sobre qualquer assunto. E, se não sabe, fala assim mesmo, com toda a propriedade, como um profundo conhecedor. Do tempo à situação econômica do país, não há tema que não possa ser abordado. Teve um que jurou ter levado o Parreira para o aeroporto.

- Eu dei uma bronca nele, por ter perdido a Copa do Mundo. Fiz isso em nome de todos os brasileiros. O Parreira precisava escutar umas verdades.

Da parte que me cabia, agradeci, mesmo duvidando da veracidade do fato. Mas quem é que procura a verdade numa conversa que dura apenas alguns quilômetros?

Em Paris peguei táxi poucas vezes. O suficiente para perceber que taxista é igual em qualquer lugar. Voltando de Montmartre, fiz sinal para um que passava. Parou.

- Bonsoir.
- Bonsoir. O senhor teve sorte de me encontrar. Normalmente não há muitos táxis a essa hora da noite.
- C'est vrai. Foi sorte mesmo.
- Desculpe perguntar, mas seu sotaque é diferente. De onde você é?
- Sou brasileiro.

O sujeito abriu um sorriso do tamanho do retrovisor.

- Eu amo a seleção brasileira. Adoro o time de 58, com Garrincha, Vavá, Zagallo, Nilton Santos...
- O de 70 foi o melhor de todos os tempos. Jairzinho era matador!
- E o de 82, que pena terem perdido. O Zico merecia ganhar uma copa.

O cidadão foi desfilando seu conhecimento enciclopédico sobre o futebol canarinho. Mesmo quando tínhamos chegado, ele não parava de falar.

- Ah, e fiquei sabendo que o Romário chegou aos mil gols. Só ele e o Pelé têm isso. A propósito, a corrida deu 10 euros.
- Merci monsieur.
- Merci à vous. E boa sorte pra sua seleção da próxima vez que enfrentar a França.

Em cinco meses na cidade, já perdi a conta de quantas vezes escutei essa brincadeira. Acabei desenvolvendo uma técnica para lidar com ela e encerrar o assunto.

- Cuidado que eu posso te dar uma cabeçada, viu?

O motorista recuou. Um segundo de silêncio, interrompido por uma gargalhada.

- Os brasileiros são mesmo muito divertidos.

Eu também ri, mas no fundo ele não imagina o risco que correu.

E se existe o chofer de praça que sabe tudo, existe também aquele que cria teorias mirabolantes. Conheci um desses ao voltar de uma festa de madrugada. Pra puxar assunto, ofereci um chiclete.

- Aceita?
- Não, obrigado. Não como açúcar e nem sal.
- Nada?
- Nada. Essas coisas fazem mal pro organismo.
- Mas você come os alimentos sem salgar?
- Sim. E vou te contar um segredo que poucas pessoas sabem: se você coloca um frango pra assar, sem água, sem sal, sem nada, no final ele sai de lá salgadinho.


Fiquei espantado.

- Como assim?
- É verdade, a carne do frango forma seu próprio sal.


Pensei em telefonar pra Sadia pra propor que abrissem uma fábrica de sal, sabor galinha. Queria mais detalhes.

- Quer dizer que você não tempera? Coloca no forno e pronto?
- Isso. Fica delicioso.

Resolvi dar corda pro sujeito. E o papo, que já era surreal, entrou em uma esfera quase mística.

- Aposto que o mesmo acontece com os peixes do mar.
- Aí que todo mundo se engana. Os peixes têm uma proteção que impede que o sal entre.
- Mas como os frangos formam sal e os peixes do mar não?
- Esse é o grande mistério...


Ele esticou a mão e me passou um cartão.

- Me liga se você solucionar essa questão. Podemos ganhar muito dinheiro juntos.

Eu não sei se achei mais estranha a teoria do cidadão ou o fato de ele pensar que pode ganhar dinheiro com isso. Mas de uma coisa eu sei: em matéria de taxistas, Paris não tá devendo nada ao Rio de Janeiro.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Mexilhões e mexidas latinas


Fui a Bruxelas com o pessoal da Brazuca. A revista é distribuída também por lá, e isso acaba gerando uma rotina mensal de reuniões e afazeres diversos na cidade, capital ao mesmo tempo da Bélgica e da União Européia.

E eu descobri que há três coisas que todo visitante precisa provar: a cerveja, o chocolate e as moules frites. As cervejas e os chocolates belgas estão certamente entre os melhores do mundo, e é possível encontrá-los em qualquer lugar na cidade.

Já as moules frites são um caso à parte.

Também fáceis de achar, pois estão em todos os restaurantes do centro, a questão é simplesmente de escolher onde comê-las. Pra ter certeza de que estava tendo uma razoável amostra e, principalmente, para saciar minha porção Homer Simpson, pedi o prato duas vezes. Um em cada dia, claro.

Moules frites é uma modalidade de orgia culinária. Trata-se de uma panela enorme com mexilhões cozidos, acompanhados de uma nababesca porção de batatas fritas.

Sem precisar consultar o cardápio, todos pedimos esse prato. Pouco depois, a garçonete chegou com a monstruosidade em uma bandeja e a colocou sobre a mesa. "É muito!", pensei. Logo ela trouxe outros dois. Chocado, descobri que a porção tamanho gorila, que eu jurava ser coletiva, era individual.

Respirei fundo e encarei a tarefa. Comecei a traçar, um por um, aquele genocídio de mexilhões. Tenho certeza de que famílias inteiras foram dizimadas para um homo sapiens - eu - satisfazer a gula. E a verdade é que é muito bom.

Mas algo estava incomodando. Não era comida, claro, e sim a música. Das caixas de som do restaurante, Julio Iglesias sussurrava com sua voz de eterno latin lover. Tava duro aguentar aquilo. Tão duro que, olhando de relance, tive a impressão de ver uns dois ou três mexilhões fechando suas conchas. Eles iam ser comidos, mas escutar Julio Iglesias era certamente pior do que ir pro inferno dos frutos do mar.

- Senhora, seria possível trocar a música?
- Mas vocês não gostam dele?


A atendente fez bico e, contrariada, colocou numa rádio qualquer. Tempos depois, após uma verdadeira batalha, terminamos a refeição.

No dia seguinte, andando sozinho pelo centro, a fome bateu. Parei em um simpático (leia-se barato) restaurante e repeti a pedida.

- Moules frites, s'il vous plaît.


Assim que o prato pousou na mesa, como em um filme, alguém ligou a música ambiente. Entre uma mordida em mexilhão-avô e uma dentada numa batata, reconheci a voz que embalaria a minha refeição. E era ele, o mela-cueca mor, o pai espiritual do Wando, a trilha sonora da fabricação de bebês por todo mundo. Ele, Julio Iglesias.

Quase engoli a concha do mexilhão por engano. Por que cargas d'água aquilo acontecia de novo? Chamei o garçom marroquino.

- Senhor, seria possível trocar a música?
- Sinto muito, mas não dá.
- Por quê?
- Porque todo mundo aqui adora Julio Iglesias.
- E eu posso saber por quê?
- Você não entende? É que ele canta com uma mão aqui em cima, segurando o microfone, e outra aqui embaixo, segurando os bagos.


Nisso, o outro garçom, também marroquino, repetiu o gesto. Súbito me vi ali, sentado, com um mexilhão-primo na boca, enquanto os dois sujeitos seguravam seus próprios sacos e faziam um bizarro karaokê do cantor espanhol. Um deles utilizou uma faca como um falso microfone. Fiquei tão constrangido que enfiaria minha cabeça na panela de moules, se ela não estivesse tão quente.

Acabei de comer, pedi a conta e saí. No meu caderno de anotações escrevi em letras grandes: "Bruxelas - cerveja Leffe, chocolate Godiva e moules frites. Lembrar de pedir a última SEM Julio Iglesias acompanhando".

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Ocupado


- Então a gente se encontra na loja de papéis na galeria do Louvre.
- Tô lá em meia hora.

Era simples. Só pegar o metrô aqui ao lado, descer na estação certa e andar alguns poucos metros. Como eu tinha tempo de sobra, resolvi saltar antes e caminhar. Assim estaria lá exatamente na hora marcada e ainda pegaria um pouco de sol no percurso. Sol que não deu muito as caras no verão parisiense.

Não existia possibilidade de dar errado. Mas deu.

Cheguei lá. Porta fechada. Todos os museus do mundo fecham na 2a feira. Só o Louvre na 3a. É verdade que até a Mona Lisa precisa descansar, mas na 3a feira, diabos? Diante do impasse, a opção mais lógica era telefonar e marcar outro ponto de encontro.

Como não tenho celular, fui procurar um orelhão. "O Louvre é um lugar turístico, então não vai ser difícil achar um por perto", pensei. Mas simplesmente não existe um ali pelas redondezas.

Sol na cabeça, andei como um peregrino até encontrar um simples telefone público. Entrei, saquei o cartão telefônico e disquei. Ao invés do habitual sinal de ligação completada, uma gravação estilo disco arranhado.

- O seu cartão perdeu a validade. Favor comprar outro. O seu cartão perdeu a validade. Favor comprar outro. O seu cartão perdeu...

Agora o óbvio passo seguinte era ligar a cobrar. E quem disse que na cabine está explicado como fazer? Tentei perguntar para a senhora ao lado.

- A senhora saberia como ligar a cobrar?


Ela abriu o olho, olhou-me de cima a baixo, segurou a bolsa com mais força e saiu em passo apertado, sem dizer nada. Faz parte da cultura brasileira empurrar a dívida. No país do fiado todo mundo liga a cobrar. Mas experimenta perguntar pra um parisiense se ele sabe fazer isso. A pobre senhora, vendo um cidadão suado falando um francês de 2a categoria, deve ter imaginado se tratar de uma nova modalidade de assalto importada dos trópicos. E deu no pé.

Eu já estava quase 30 minutos atrasado. Fui procurar uma loja de lembrancinhas pra turistas pra comprar um cartão novo.

- Não vendemos. Mas temos uma camiseta linda escrita "I Love Paris" na promoção.

Entrei em outra.

- Só temos miniaturas da Torre Eiffel. Quer?


Fui em uma terceira.

- Cartão telefônico? Não! Isso você só encontra em lojas de tabaco - riu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
- E o senhor sabe onde tem uma?
- Não faço idéia.


Depois de caminhar longos minutos feito um beduíno no deserto, com o sol castigando a moleira, avistei no horizonte o que parecia uma miragem: uma loja de tabaco. Entrei. Logo na porta, um painel do cigarro Camel, com um camelo sorridente piscando com o canto do olho. Senti que era uma provocação, mas minha pressa me impediu de ter uma reação mais enérgica. Comprei o que precisava e saí. Então me lembrei que precisava voltar pra aquele orelhão que ficou umas 20 linhas aí pra trás, e que eu não fazia mais idéia de onde ficava.

Deu vontade de sentar na calçada e chorar. Mas segui adiante na minha missão, pedindo ajuda ao inexplicável. Eis que ela aparece: virei a esquina e dei de cara com uma cabine de telefone. Entrei, liguei, marquei um novo ponto de encontro. Dessa vez consegui chegar, suado, cansado, quase duas horas atrasado e de péssimo humor.

- Nossa. Que cara é essa? Precisa de alguma coisa?
- De uma cerveja... E um celular.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Pinga ni mim


Um dia desses apareceu uma goteira na cozinha de casa. Era na parede, no alto, em cima de um armário. Provavelmente uma infiltração vindo do apartamento do vizinho de cima.

Quando morava no Rio aconteceu uma situação semelhante. E o meu banheiro ficou inundado. Apesar da lentidão e da falta de boa vontade do habitante do andar superior, a situação se resolveu com alguns telefonemas. Eu liguei pra ele, que chamou a imobiliária. Alguns dias depois o Seu Luís, um simpático pedreiro e pintor da Tijuca, estava lá consertando tudo. Foi simples, como deve ser.

Aqui na França a coisa tomou uma outra proporção.

Assim que vi a goteira, liguei pro vizinho, que não atendeu. Deixei recado. Como o cara já tem um histórico de causador de problemas no prédio, todo mundo tem o telefone dos pais dele. Liguei lá também, outra vez sem sucesso. Então me restou chamar os bombeiros, antes que minha casa virasse uma extensão do Rio Sena.

- Vamos passar aí amanhã de manhã.
- Merci.


Na dia seguinte, batem à porta. Três bombeiros entram. Não eram hidráulicos, mas os de salvamento. Eu achei exagerado. Mas como não sou daqui, não disse nada a respeito.

- É aquela goteira ali?
Enquanto um deles apontava, os outros dois faziam cara de preocupados, segurando o queixo.
- Sim.
- Sai água fria ou quente?


Sei lá a temperatura da água que sai da goteira. Não costumo ficar embaixo, esperando pingar.

- Acho que é fria.
- O vizinho está aí?
- Não.
- Vamos ter que entrar na casa dele pela janela.
- Hein?
- Você não quer parar a infiltração?
- Bem, quero...


Dito isso, saíram em fila indiana. Pouco depois, voltaram. Agora eram seis, e carregavam capacetes, cordas, lanternas e uma escada que se acoplava à varanda, pelo lado de fora do prédio. A SWAT francesa.

Montaram uma operação de guerra. Um segurava a escada. Outro subia. E um terceiro gritava ordens pela sacada. O restante contemplava o fio d'água que escorria desafiador. Logo veio a sentença, com voz soturna.

- O registro dele estava fechado. A infiltração parece vir pela tubulação comum do prédio. Não há nada que possamos fazer. Você vai ter que chamar um bombeiro hidráulico. Sentimos muito.


Os seis saíram, um atrás do outro. Dois minutos depois, batem à porta. Eram eles de novo, agora acompanhados por três policiais. Estavam se multiplicando como gremlins. Fiquei pensando no que podiam fazer. Interrogar a goteira? "Desde quando você começou a perturbar esse pessoal, hein? Por que não vai pingar em outro lugar? Circulando, circulando!".

Entraram, anotaram algumas coisas e pegaram nossos dados. Enquanto um escrevia, os oito restantes ollhavam pra parede. Tinha tanta gente admirando os pingos que tombavam, como se fosse uma instalação, que se eu abrisse umas cervejas pareceria um vernissage.

Aquela mísera goteira já tinha mobilizado metade da defesa pública de Paris e ninguém foi capaz de dar cabo. Restou chamar os bombeiros hidráulicos. Chegaram com seus cintos de utilidades equipados de machado, martelo, alicates e dezenas de outros apetrechos, tipo batman, e foram decididos ao banheiro. Olharam pra cima, pra baixo, atrás do vaso, embaixo da banheira, desmontaram a estante, examinaram os canos e deram o veredicto.

- Não dá pra fazer nada agora. Só verificando os canos do apartamento de cima. A única solução é esperar o morador de lá chegar.


Vejam que situação: agora tenho que torcer para o vizinho voltar. O mesmo que eu desejei que sumisse.

Só por via das dúvidas eu tô contando minhas economias. Acho que vai ser mais fácil pagar uma passagem pro Seu Luís da Tijuca vir aqui resolver isso.