
Em viagem aos Estados Unidos, um grupo de amigos do qual faz parte Ronald Walker combinou o seguinte código: nas intermináveis visitas a shoppings e centros comerciais, quando se perdessem uns dos outros, levantariam a mão e gritariam "Argentina! Argentina!" com força. Assim, além de se encontrarem mais facilmente, contribuiriam para a difamação da terra de Maradona, alimentando um pouco mais a bem humorada peleja que travamos eternamente com nossos vizinhos.
Essa pequena história contextualiza a que vem a seguir.
Como o inverno tá chegando, o novo endereço da pelada do Paristeama é um campo sintético, coberto e cobrado. Fica longe pacas, depois de onde Judas perdeu as chuteiras. Então combinamos de nos encontrarmos em Bastille para fazer o trajeto de metrô de quase uma hora juntos. Normalmente vamos em pé, mas um dia desses conseguimos pegar um vagão vazio e sentamos em cadeiras viradas umas pras outras, ambiente propício para uma conversa animada. Claro que o assunto não poderia ser outro se não futebol: comentários sobre nossa última partida, o campeonato brasileiro e o vídeo mostrando o Ronaldinho Gaúcho tocando pagode em Paris com um dos atacantes do nosso time. O clima era de mesa de boteco. Só faltava mesmo abrir umas cervejas e pedir pro Márcio (conheço bem uns 10 garçons que se chamam Márcio) trazer uma nova porção de pastéis.
O papo seguia descontraído e certamente alguns decibéis acima de um dos critérios estabelecidos pelo PaPaI, o Padrão Parisiense de Inverno. O curioso é que mesmo sendo um padrão, o PaPaI é variável. Provavelmente pelo fato de ter sido elaborado por um brasileiro, eu mesmo. Tratarei dele com mais detalhes em um texto futuro. Por ora basta saber que quanto mais frio faz, mais o Parisiense fica ranzinza. E a relação parece ser recíproca, pois quanto mais o Parisiense fica ranzinza, mais frio faz.
Nesse dia os termômetros deviam marcar uns 10ºC e todos os passageiros portavam seus grossos casacos. Uns liam os jornais e bufavam, outros conversavam com amigos e bufavam. E ainda havia aqueles que só bufavam, como uma senhora acompanhada de uma criança pequena, sentada perto da gente. A cada elevação do nosso tom de voz, ela nos olhava com cara de entediada e expirava o ar pelas ventas com grande vontade.
Acontece que assim como a gente ela seguiu no metrô até o último ponto da linha. E quando o trem preparava-se para chegar à estação final, com o volume da conversa já bem elevado, ela não resistiu e interveio.
- Mas como vocês gritam, hein?
Alguém do nosso grupo começou um discurso sobre o mau humor francês, que não pareceu emocionar a senhora. Mas um outro, também amigo de Ronald Walker, teve a grande sacada que comandou o resto da conversa. Ao mesmo tempo que soube lidar com a dona reclamona, escreveu mais um capítulo da eterna e recíproca provocação com o país de Juan e Evita Perón.
- Desculpe, senhora. Não deu pra controlar. É que no nosso país a gente fala alto mesmo.
- Mas aqui tem que ter respeito.
- O problema é que na Argentina, de onde viemos, estamos acostumados a gritar. - Disse, reforçando o "Argentina".
- Só que a França não é a Argentina.
- Sentimos muito. Mas nós, argentinos, não conseguimos nos controlar. - E saiu do vagão gritando "Argentina! Argentina!".
O próximo passo já está decidido: aprender o hino.



