sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Táxi! Táxi!


Quando morei no Rio de Janeiro, era comum pegar táxi. Além de ser barato, ainda havia uma diversão gratuita inclusa: o taxista.

Taxista no Rio sabe tudo sobre qualquer assunto. E, se não sabe, fala assim mesmo, com toda a propriedade, como um profundo conhecedor. Do tempo à situação econômica do país, não há tema que não possa ser abordado. Teve um que jurou ter levado o Parreira para o aeroporto.

- Eu dei uma bronca nele, por ter perdido a Copa do Mundo. Fiz isso em nome de todos os brasileiros. O Parreira precisava escutar umas verdades.

Da parte que me cabia, agradeci, mesmo duvidando da veracidade do fato. Mas quem é que procura a verdade numa conversa que dura apenas alguns quilômetros?

Em Paris peguei táxi poucas vezes. O suficiente para perceber que taxista é igual em qualquer lugar. Voltando de Montmartre, fiz sinal para um que passava. Parou.

- Bonsoir.
- Bonsoir. O senhor teve sorte de me encontrar. Normalmente não há muitos táxis a essa hora da noite.
- C'est vrai. Foi sorte mesmo.
- Desculpe perguntar, mas seu sotaque é diferente. De onde você é?
- Sou brasileiro.

O sujeito abriu um sorriso do tamanho do retrovisor.

- Eu amo a seleção brasileira. Adoro o time de 58, com Garrincha, Vavá, Zagallo, Nilton Santos...
- O de 70 foi o melhor de todos os tempos. Jairzinho era matador!
- E o de 82, que pena terem perdido. O Zico merecia ganhar uma copa.

O cidadão foi desfilando seu conhecimento enciclopédico sobre o futebol canarinho. Mesmo quando tínhamos chegado, ele não parava de falar.

- Ah, e fiquei sabendo que o Romário chegou aos mil gols. Só ele e o Pelé têm isso. A propósito, a corrida deu 10 euros.
- Merci monsieur.
- Merci à vous. E boa sorte pra sua seleção da próxima vez que enfrentar a França.

Em cinco meses na cidade, já perdi a conta de quantas vezes escutei essa brincadeira. Acabei desenvolvendo uma técnica para lidar com ela e encerrar o assunto.

- Cuidado que eu posso te dar uma cabeçada, viu?

O motorista recuou. Um segundo de silêncio, interrompido por uma gargalhada.

- Os brasileiros são mesmo muito divertidos.

Eu também ri, mas no fundo ele não imagina o risco que correu.

E se existe o chofer de praça que sabe tudo, existe também aquele que cria teorias mirabolantes. Conheci um desses ao voltar de uma festa de madrugada. Pra puxar assunto, ofereci um chiclete.

- Aceita?
- Não, obrigado. Não como açúcar e nem sal.
- Nada?
- Nada. Essas coisas fazem mal pro organismo.
- Mas você come os alimentos sem salgar?
- Sim. E vou te contar um segredo que poucas pessoas sabem: se você coloca um frango pra assar, sem água, sem sal, sem nada, no final ele sai de lá salgadinho.


Fiquei espantado.

- Como assim?
- É verdade, a carne do frango forma seu próprio sal.


Pensei em telefonar pra Sadia pra propor que abrissem uma fábrica de sal, sabor galinha. Queria mais detalhes.

- Quer dizer que você não tempera? Coloca no forno e pronto?
- Isso. Fica delicioso.

Resolvi dar corda pro sujeito. E o papo, que já era surreal, entrou em uma esfera quase mística.

- Aposto que o mesmo acontece com os peixes do mar.
- Aí que todo mundo se engana. Os peixes têm uma proteção que impede que o sal entre.
- Mas como os frangos formam sal e os peixes do mar não?
- Esse é o grande mistério...


Ele esticou a mão e me passou um cartão.

- Me liga se você solucionar essa questão. Podemos ganhar muito dinheiro juntos.

Eu não sei se achei mais estranha a teoria do cidadão ou o fato de ele pensar que pode ganhar dinheiro com isso. Mas de uma coisa eu sei: em matéria de taxistas, Paris não tá devendo nada ao Rio de Janeiro.

6 comentários:

Patricia Baldez Americo disse...

Uhahahaha!
Só pra constar: tenho amado ler seus textos às sextas-feiras. Bom começo de fim de semana sempre!
Et comment vas tu?

mami disse...

Oi Dani, que sorte conseguir pegar um táxi em Paris, quando estivemos aí, seu pai, sua avó, Andréa e eu, andamos mesmo de ônibus. Mas, c'est la vie !!!
Beijos, mami

FabiCatarse!! disse...

...meu francês é fraquinho, fraquinho... bem mesmo só sai as desculpas por não falar francês muito bem! Mas... começo a achar que o melhor mesmo estudar. Estudar francês?! Que nada! Esudar a história da seleção brasileira de futebol pra ter bastante assunto!! hehehehehehe

Pagu disse...

A propósito... onde você encontra as imagens pro seu blog? São todas tão engraçadas quanto os textos. =)

Quando é mesmo que você volta daí?

Abraços

Natália

Beth B. disse...

Muito legal o seu blog!! Em matéria de teorias mirabolantes, este seu taxista é dez!!Vive la France!

Felipe Campbell disse...

Cara, eles são toscos mesmo. Em qualquer lugar do mundo. Os do Rio de JAneiro conhecem tudo (ou dizem que conhecem) do submundo. Uma vez um desabafou, chorou, disse que a mulher botou ele pra fora de casa. Foi trash demais.

Abs