sexta-feira, 20 de abril de 2007

Tagarelice à francesa



Conheci a Edith de uma maneira pouco usual.

Moro no sexto e estava na sacada pintando uma das pernas da mesa, ainda desmontada, que tinha acabado de comprar na Ikea. Movimento brusco, o pedaço de madeira soltou-se no espaço e despencou lá de cima. Menos mal que no primeiro andar, onde ela mora, as varandas são enormes e com grandes jardins.

Como era de noite, não dava pra ver bem onde tinha caído. No dia seguinte, bati na porta. Abriu uma simpática e sorridente senhora, cabelo pintado de vermelho, sessenta e poucos anos.

- Bonjour madame.
- Bonjour.
- Moro no sexto andar e deixei cair um pé de mesa ontem. Acho que está no seu jardim.
- Ah bon?


Aí ela me convidou pra entrar e não me deixou mais abrir a boca. Desembestou. Falou por longos minutos. Sem respirar, aposto. Fomos procurar a madeira na varanda, ela falando. Achamos, ela falando. Entramos de volta, ela falando. Me mostrou a casa, ela falando.

E falava. Do perigo que era eu ter derrubado aquilo, pois podia cair na cabeça de alguém. Da sorte da peça não ter se quebrado. Do tanto de lixo que os vizinhos jogam pela janela e que acabam no seu jardim. Do ano de construção do edifício. Eu mudo.

Tomou um gole d’água. Era a brecha que eu precisava.

- Merci pour tout madame. Tenho que ir.
- Já?
- Já!
- C’est dommage...
- Oui. Mas obrigado.
Disse em português, pra ser simpático.

Foi um erro. Sua mão, que já estava na maçaneta, recuou.

Perguntou de onde eu era. "Bresilien?". Arregalou os olhos e iniciou um outro monólogo, enquanto me mostrava as reformas que fazia em casa.

- Tenho muitos amigos no Brasil.
- Esse banheiro foi todo quebrado pra construir um novinho.
- Adoro o café de lá.
- E a música.
- E a comida.
- Aqui na sala eu vou trocar o piso.
- Já tomei Guaraná Antártica.
- Minha bisavó era brasileira.
- Quero conhecer o Rio.
- A cozinha tá cheia de poeira.
- Acho Copacabana linda pela televisão.
- Pena que eu não fale português.


Pena nada, pensei, enquanto a metralhadora verbal atirava sem dó. Vinte e três mil palavras depois, consegui a segunda trégua.

- Madame, merci. Mas preciso vazar agora mesmo.
- Quer mais alguma coisa, mais água?
- Não, obrigado. A propósito, Je m’appelle Daniel.
- Ah, prazer. Je m’appelle Edith.
- Obrigado,
ela disse em português, invertendo quem devia agradecer. Pensei em corrigir, mas acho que mostrava gratidão por ter alugado meus ouvidos.
- De nada. A bientôt.

Na outra semana vi Edith na feira perto de casa. Achei mais seguro acenar de longe.

15 comentários:

Anônimo disse...

Cher Daniel,

Je voudrais vous inviter à prendre un verre à la maison.

A bientôt,

Edith

sandra disse...

Realmente, eu nao canso de ler as aventuras de "cheri a Paris". Daniel, se prepare, ha milhares de Edith espalhadas pela Franca. A isso chamamos "la solitude de nos petits vieux", e realmente eles estao muito sos. Se cuida, abracos e beijinhos do chico e da sandra

sandra disse...

Daniel,

esse anonimo acho que sei quem e: o nome dele comeca por F e termina por O.

Pequena disse...

Cher ami Daniel, adoro seus relatos e aventuras. A cada texto mais vontade de te visitar.
Bjocas

Txotxa disse...

edith, velha muito doida.
muito bom, fish.

Nandico disse...

Fala Mestre =) Tive um sonho esquisito hoje: tu e mais um bocado de brothers que estão fora voltavam todos para o Brasil de uma vez, mas no sonho era por coincidência. Abraços...

GallÔôÔô disse...

Meu Deus, Edith sou eu amanhã???
Cabelos vermelhos, falando pelos cotovelos...ai!

Miss you a lot, dear friend.

Beijo.

dELáPRaCá disse...

Ediths sempre haverá por aí, não evite, inviter.

Daniel Duende disse...

Hahahaahaha... aventuras e desventuras adoráveis, hein meu xará? :D

Passou pela sua cabeça(!?) bancar o Zidane com a jovem senhora também? :D
Uma reedição cabeceadora de Bob Cuspe e afins... :D

Abraços do Verde.

Eduardo disse...

Daniel!

Quanto tempo…

Adorei os textos, como sempre!

Abração,

Maria Goretti disse...

Daniel
Acho muito boa as tuas historias, ou sera estoria????? Mas muito legal mesmo!!!!!
A bientôt!!!!!

Paula Ferraz disse...

O pior é que eu me identifiquei com a dona edith. Muito simpática a tua vizinha :)

Raphinha disse...

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................................oi

Saudades sempre mestre
Obrigado............XV

obs: tou sempre aqui!!!

Carol Nogueira disse...

Ai que eu ri um bocado. Pena, nada!, você diz. Tadinha da Edith.

Ronaldo disse...

Daniel, tu escreve bem demais. Me senti lá com a Edith.