sexta-feira, 11 de maio de 2007

Monsieur Gérard



Monsieur Gérard é meu professor de francês. Meu e de quase meio mundo, literalmente, pois dá aula para estrangeiros. Na sala tem de tudo: búlgaros, guatemaltecas, peruanos, indianos, paquistaneses, romenos, espanhóis e brasileiros, claro. Tem brasileiro em todo canto.

Monsieur Gérard é tudo o que você puder imaginar de um professor à moda antiga. Está sempre de terno, tem um cavanhaque grisalho, usa óculos e trata os alunos por “vous” (que equivale a “senhor”) e, ele que não leia isso, é chato pacas.

Não que seja inconveniente. Pelo contrário. É super educado. Mas parece viver no começo do século passado, em um filme mudo preto-e-branco.

Em uma aula dessas a professora da sala ao lado faltou. Então tivemos que juntar duas turmas. Monsieur Gérard no comando, querendo saber o nome dos novos alunos.

- Bonjour. Quel est votre prénom?
- Eu me chamo Sasha. Vim da Rússia.


O mestre, então, ficou olhando infinitos segundos pro quadro. Sem dizer uma palavra. Nada. Total silêncio. Tensão no ar. Enfim, soltou.

- Alguém sabe qual a nacionalidade de quem vem da Rússia?
- Ils sont Russes,
alguém respondeu.

Monsieur Gérard virou para o sujeito, cerrou os olhos e assim ficou. E ficou. Nem piscava. De repente, voltou à vida.

- Très bien! Voltou-se para o quadro, levantou o giz e escreveu “Russes”.

Esse episódio levou uns 3 minutos. Considerando que era o começo da aula, e ela dura 2 horas, ainda tínhamos bem mais de 100 minutos de tortura.

Lá pelas tantas, a sala, que já estava calada, emudeceu de vez. Monsieur Gérard estava imerso em mais alguma introspecção e, eu contei, 9 alunos dormiam. Éramos 15 na classe. O outro brasileiro, que trabalha o dia inteiro em um restaurante, estava há tempos nos braços de Morfeu, com os olhos semi-abertos. Nem ouviu quando o professor lhe fez uma pergunta e depois, muito pacientemente, ainda repetiu. Como não acordava, um colega ao lado o cutucou. E ele respondeu num susto.

- Oui, Flamengô!

Flamengo? Não sei quem viajava mais, o professor ou o meu compatriota. E o mais bizarro é que tudo pareceu normal. Ninguém falou nada. Nenhum aluno. Nem Monsieur Gérard. O máximo que ele fez foi olhar fixamente para o brasileiro. Esse, por sua vez, esfregou o sono e olhou de volta para o mestre.

Monsieur Gérard deu um pequeno sorriso, virou as costas e passou o longo resto da aula explicando a diferença entre liqüidação e promoção. Eu nem imaginava que havia tantas. E o meu colega, um cearense que se mudou pra São Paulo, torce pro Flamengo e agora trabalha em um restaurante indiano em Paris, levantou-se para lavar o rosto. No fim da aula, veio falar comigo.

- Rapaz, será que o professor percebeu que eu tava dormindo?
- Ué, ele não tava também?

11 comentários:

Soracha disse...

huahauhauahuahauhauah! j'aime beaucoup VOTRES histoires =P

Anônimo disse...

flamengô!! :) o mundo em clima de campeonato carioca (e não ouse em me lembrar da libertadores, ahn!!!)! beijos, dani! sabrina.

Pequena disse...

My dear friend, nesse ritmo vc não aprenderá francês tão cedo.
Sugiro umas aulas de conversação com a Edith!
Kisses!

CY disse...

Morri de rir aqui, Dani! Esse monsieur Gérard deve ser parente de um professor insuportável que eu tinha aqui na Aliança. Pelo menos o seu ainda rende uma estorinha engraçada. :o) BJIM

Anônimo disse...

Muito bom o artigo, espero que vc aprenda rapido o francês, pelo menos a outra professora é mais competente......

Pê disse...

Flamengo? Eu, hein.

Sara disse...

Tu continua escrevendo pacas. Me deu saudades dos tempos daquele zine... sabe, aquele!!!
abs,
Fernando.

sandra disse...

Monsieur Daniel ...

Monsieur Poppe anda por ai, querendo visita-los ... Ve se consegue marcar um encontro com tua cherie tambem ... Beijos
Gostei do Monsieur Gerard, porem acho que as minhas aulas nao conseguem ser tao chatas. Bonne sieste !

tresporquatro disse...

Caro Daniel,

engraçadíssimas tuas aventuras pela França. Espero que esteja tudo em paz. BSB começa a encontrar o frio dos meses de seca. Tento manter o overmundo a par de todas as boas festas da Capital.

Aquele abraço
Thiago Perpétuo

FabiCatarse!! disse...

Na faculdade, eu tinha um professor de Literatura Portuguesa que precisava de legenda para se fazer entender. Ele fez o doutorado em Portugal, por isso morou lá alguns anos, mas corre na boca pequena que ele viajou no tempo e viveu uns bons anos no início do século XIX. Nem mesmo os outros professores (tão doutores quanto ele) falavam daquele modo. Um dia, a professora de Filologia Românica chegou na sala rindo alto... perguntamos o motivo, ela explicou: "Estávamos na sala dos professores e, vendo o movimento de professores saindo, o Juarez levantou num pulo e perguntou assustado: 'já se fez soar a sineta?'". Entenda-se: ele queria saber se o sinal do fim do intervalo já tinha tocado! Meu Deus... que língua é essa??!!! hehehehehhe Imagina como eram as aulas dele!! O dia que ele, pra falar de uma certa puta de um livro, referiu-se a ela como "a piriquita mais rodada do bairro"... depois de um silêncio de total espanto... a sala veio a baixo... Acho que foi a coisa mais chula que ele já disse em toda a vida!

O DIÁRIO LOUCO disse...

Gostei imensamente seu blog....rsrrsrs
principalmente pelo fato de estar fazendo francês e pensar em dar uma voltinha algum dia pela França....rsrsr
assim tomei a liberdade de segui-lo...
d'accord?!