sexta-feira, 4 de maio de 2007

68 + 1




Domingo acontece o 2º turno das eleições presidenciais na França. Ségolène Royal é a candidata da esquerda. Nicolas Sarkozy é o da direita. Ela, meio insossa, com um discurso que daria sono até no Alckmin. Ele, uma mistura de Collor e Maluf.

A verdade é que ninguém parece muito empolgado com a Ségo, como ela é chamada aqui. Mas a possiblidade de vitória do mini Hitler fez as pessoas irem às ruas. Eu fui também.

Havia duas semanas que estava em Paris, e o processo eleitoral começava a esquentar. Recebi um panfleto de uma passeata anti-Sarko, organizada por um grupo chamado ‘Act Up Paris’. Não li tudo, mas o motivo já me animava. Tava louco para viver os resquícios de maio de 68.

Cheguei ao local marcado um pouco antes da hora. Havia algumas centenas de pessoas e uma grande faixa escrita “Des fleurs, des pailletes, Sarkozy à la retraite”. Algo como “flores e purpurinas, aposentadoria a Sarkozy”. Não gostei do slogan. O que tinha a ver flores e purpurinas com as eleições?

Enquanto isso, a praça ia enchendo. Os organizadores se cumprimentavam com bitocas na boca. Depois pegavam o megafone e davam gritos histéricos, rapidamente correspondidos com entusiasmo pelos presentes.

Achei aquilo um pouco estranho. “Mas é o jeito deles. São os filhos de 68, afinal”, pensei.

A verdade é que estava fascinado em participar de um ato político em Paris. Imaginei que fôssemos caminhar triunfalmente até o Champs-Elysées, como De Gaulle fez quando a França foi retomada após a derrota dos alemães na 2ª Guerra Mundial.

Meu pensamento estava longe, longe. Acordei quando apareceu uma flor em frente ao meu nariz. Demorei um pouco pra entender que era pra mim.

- C’est pour toi.
- Merci beaucoup. C’est gentil. E abri o maior dos sorrisos, olhar fixo na flor, sem ver quem oferecia.
- De rien... Disse a voz masculina. Aí percebi que quem a segurava era uma figura que mesclava um militante do MR-8 e o Clóvis Bornay, e dava uma piscadinha de canto de olho pra mim.

Meu cérebro começou rapidamente a fazer as conexões e logo chegou à obvia conclusão: eu estava em uma passeata gay! Aí que fui notar as bandeiras lilás, os homens de mãos dadas, a purpurina voando e a farta distribuição de rosas.

Continuei por ali e mostrei minha indignação contra Sarkozy, aplaudindo tudo o que eles falavam, apesar de não entender a metade. Mas vi que não iríamos marchar pelas ruas da cidade. Fiquei um pouco frustrado. Pra quem foi esperando ver 68, o máximo que conseguiria seria um 69.

Mas pelo menos cheguei em casa cheio de flores.

9 comentários:

sabrina disse...

oi dani! pra variar, mais uma boa história!! a repercursão brasileira é sempre das melhores: onde eu vou com sua irmã esvuto as pessoas comentando do seus feitos parisienses. é, você está sempre presente! :)) beijo grande!

Priscila disse...

rsrsrs....
olá dani passei para dar um alô!
Esqueceu de dizer também q chegou em ksa cheio de purpurinas....
Bjos.

CY disse...

Tré bian, Daniê! Tô sempre por aqui, me divertindo com suas francesices. Vive la purpurriná!

Janaina disse...

deus do ceu... ainda bem q eles não são mais avancadinhos, senão a experiência seria mais traumática!

Muito bom o bolg viu?

:*

Gabriel disse...

Estou orgulhoso de ti, mon cherry Cariello! É bom saber que vc dá pra manifestante!
Beijos do Coaraceto.

Pequena disse...

Daney Mon Cher... morri de rir!
Cada vez mais vontade de fazer as malas e te visitar!
Por enquanto só consigo acompanhar virtualmente e torcer para que vc tenha ainda muita história pra contar!
Bjocas

mami disse...

oi daniel, como sempre muito bom texto. Ri muito.
beijos e saudades de :
mami

Juliana disse...

Vc achou muito normal..afinal fomos crianças criadas no Clube da Imprensa...onde funcionava a sede do Pacotão e até Cássia Eller já serviu pastel naquele bar de quinta categoria..kkkkkk

Carol Valadares disse...

essa história é tão boa quanto a do Cristian que chamava Daniel...rs..bjs Carol