sexta-feira, 16 de novembro de 2007

É fria


As Vélibs' são as bicicletas públicas de Paris. Você assina um serviço e pode usar o quanto quiser, sendo a primeira meia hora gratuita. Basta pegar em uma estação e devolver em qualquer outra.

Acontece que nessa semana os transportes públicos da cidade estão em greve. Metrôs e ônibus escassos e engarrafamentos dignos de São Paulo fizeram os parisienses lotarem as ruas de bicicletas. Eu incluso.

Saindo do curso de francês, resolvi usar uma delas pra ir pra casa. Tava chuviscando, mas nada muito sério. O pior mesmo é o frio. O inverno oficialmente ainda não começou. Mas para mim, que morei dois anos no Rio de Janeiro, já estamos na nova era glacial.

Fiz o check list da roupa que usava pra ver se dava pra encarar o pedal.

. Camiseta por baixo - ok.
. Camisa de manga longa - ok.
. Calça por baixo - ok.
. Calça por cima - ok (essa era meio evidente, não precisava checar).
. Duas meias, sendo uma de lã - ok.
. Casaco - ok.
. Sobretudo - ok.
. Cachecol - ok.
. Gorro - ok.
. Luvas - ok.

Achei que tava de bom tamanho e montei na bike, tomando cuidado pra desviar das pequenas poças no caminho. Tudo perfeito, fora um pouquinho de água que entrou no tênis.

- Bom, ça va... Tô quase lá. É só tomar um banho quente depois.


Cheguei à estação do lado de casa. Lotada. A chuva tinha apertado. E um cara aguardava, ensopado, que alguém pegasse uma bicicleta, para liberar espaço pra dele.

- Monsieur, tem outra estação logo ali. Se quiser me seguir, sei como chegar lá.
- Merci.


Nada adiantou. Lotada também. E aí percebi que na verdade meu tênis estava encharcado. Pra piorar, as duas meias faziam um efeito de gelatina, e meu pé dançava dentro do calçado. Precisava me mexer para ele não congelar.

- Vou até uma outra estação.
- Eu fico,
respondeu.

A água que caia do céu mudou de categoria, virou toró. O jornal dizia que a temperatura chegaria perto dos 5 graus. E pra piorar ainda tinha o vento. Como quando você passa de fase no video-game, tudo ficou mais difícil. A luva e da parte de baixo da calça estavam encharcadas. Com isso, minhas mãos já não obedeciam muito bem, e eu tinha que mordê-las pra que voltassem à vida. Enquanto uma segurava o guidom, a outra era levada à boca.

Cheguei à 3a estação. Nenhum lugar livre. Logo depois aparece meu companheiro de infortúnio, molhado e descabelado como um pinto. Como se olhasse para um espelho, entendi que eu não deveria estar muito melhor do que aquilo.

Aí ferrou. Bateu uma rajada mais forte de vento, e doeu até o dedinho do pé. Eu acho que era o dedinho, mas não tinha certeza. Podia ser o joelho. Ou a orelha. Tava tudo semi-congelado mesmo.

Logo chegou a vez dos lábios paralisarem. Já não dava mais pra morder a mão. Minha fala começou a se limitar aos fonemas pronunciáveis de boca aberta, porque a articulação era impossível.

- ...amos ocurar ôtra?

Como dois soldados em missão suicida, encaramos a tempestade (até porque era muito pior ficar parado). Achei que não desse pra ficar mais molhado, mas percebi meu erro ao passar por uma poça maior. A água entrou por baixo do sobretudo, fazendo da minha barriga uma filial do Pólo Norte.

Depois de rodar um pouco mais, finalmente encontramos vagas. O sujeito que ia comigo tinha uma cara horrível, mistura de frio, tristeza e pânico. Mas ele ainda estava em melhor situação, já que conseguiu falar.

- Lição aprendida: nunca pegar uma velib' quando estiver chovendo.
- ...erdade. ...em azão.


Pensei em fazer a óbvia piada do "é... acho que entramos numa fria", mas minha boca e meu cérebro estavam congelados demais pra articular em francês. 

15 comentários:

Pápi disse...

Chéri, meu filho,
Tá louco. Estou convencido de que está na hora de você voltar, a tempo de pegar o verão brasileiro e o carnaval. Avec Charlotte, La Marseillese, claro. Esse negócio de Paris está ficando perigoso: frio, Sarkozy, reforma da previdência etc. (se bem que essa o Lula também faz, pior ainda...). Esstamos esperando vocês.
Pápi

Déia disse...

Dani, que horror! Eu quase congelei só de visualizar essa cema. Já tava morrendo de frio aí..não consigo nem imaginar como está agora: "Que friaca, brother!!!"
Vem passar o carnaval com a gente, vem!
Beijos,
Déia.

mami disse...

Ufa!!!
Já que você escreveu, concluí que sobreviveu. Embora com cidadania italiana nós somos brasileiros, acostumados com muito sol. Portanto tome cuidado com esse frio.
Um beijão. Mami

Anônimo disse...

Dani,

Inclua no seu kit de sobrevivência glacial: tênis e meias com goretex, capa de chuva, chocolate, conhaque ou cachaça. E lembre-se de manter a cabeça bem aquecida, porque perdemos 60% do calor pela cabeça!!

Mariana, Gustavo e Gabriela(que já está andando)

FabiCatarse!! disse...

...deixa ver se entendi: nesses dias em que a capital francesa teve sua dose de China com bilhares de magrelas circulando, você pegou uma bicicleta em Paris e a deixou... na Sibéria????!!! Pelo jeito você pedalou mais pra achar uma vaga do que se tivesse ido do curso a sua casa virando cambalhotas, não??!!! hehehehehhe vida dura essa sua, heim?! Mas pior de tudo na vida é o frio... bruuuu... Apesar dos 28°C de São Paulo hj... senti arrepios só de ler seu post... bruuuuu...

Soraya disse...

"Seu pápi" tem razão. De repente, o verão brasileiro não seria uma má idéia! Ah, que saudade da nossa terra-mãe! Nossa terra-suco-de-maracujá. Dos nossos sabores tantos e delícias tropicais. Minha pele arrepia. Um frio-quente e uma saudade-caju. Ah, o Rio 30 graus, lindo! Rio sol e mar. Aliás, sol aqui é uma raridade nessa época do ano... 16:20h e já não temos mais a luz do dia, acredita? Pois eu não! Tudo escuro em plena tarde. E 5 graus... ui... isso aqui é verão. Ah, e nessa terra nórdica, todo mundo fica feliz com os seus 5 graus-daniel-ensopado!!! Estamos em neve e isso é apenas um outono bom. Inverno mesmo, 20 graus NEGATIVOS e neve até o pescoço. Isso que é fria!!! Mas é lindo também. Lindo e cheio de paz. Adoro ler você, Daniel. Gosto muito mesmo! E todas as semanas você me visita e me faz sorrir. Sim, leio você todas as semanas e gosto tanto!

Te abraço com um carinho sem tamanho. Cuide-se por aí, no outono cinza de Paris.

Um olá, lenha na lareira e uma caneca de chá. Chá bem quentinho com aroma de jasmim

Soraya

Ana Patricia disse...

Daniel, fazendo referência àquelas conversas sobre mudança de vida, etc. e tal, ainda não me organizei o suficiente para colocar a leitura e a pós-leitura (comentários, conversas com os amigos), mas chegarei lá...A respeito do "É fria!", não é difícil dizer que amei! Vc sabe que já li outros escritos seus e que gosto muito do seu trabalho, só ainda não consegui comentar no tempo certo, mas saiba que até tenho, em casa,coisa rascunhada sobre o que vc já escreve. A experiência do frio de matar e de quase emudecer :)) sempre é legal para atentarmos a uma eventual polêmica interna. No seu caso, suponho: "minha casa é Paris, La vie en Rose, Non, Je ne regrette rien ou o meu Brasil, meu Rio de Janeiro, minha Brasília,o Carnaval, os lugares ondeestão meus amigos, minha família, muitos sorrisos e experiências memoráveis?" Na verdade, essa de lhe provocar para questionar é, mais do que tudo, enxerimento meu :)), pois lugar legal é aquele em que vc escolhe estar num período de vida, sabendo-se que, em algum outro momento, essa escolha pode mudar, é claro. Afinal, felizmente, ninguém mandou atarrachar os pregos das cadeiras onde nos sentamos nem nos amarrar na nossa própria cama, né? Outra coisa legal, lembro-me de estar aí quando o projeto da bicicleta de livre circulação começou. Apesar de estar, de antemão, excluída dos passeios de vélo - uma vez que, talvez na 213 sul, eu fosse a única menina de 9 anos que se recusava a aprender a andar de bicicleta por medo de cair e não aceitar a colocar rodinha, pois achava estar velha demais para isso - eu tinha achado que essa "vélolib" (este é o nome?)uma boa idéia...:)) Beijos a vc et Charlotte (vejo vcs em breve :))))

Livre pensar disse...

Estou aqui toda semana, como a Soraya. E tenho a impressão de estarmos diante de um dos maiores novos cronistas (ou seria um dos novos maiores cronistas?) brasileiros.

Já pensastes em lançar um livro?

Pequena disse...

Mon cher,

Não consigo entender a lógica... sem ônibus e metrô as velibs são uma das poucas opções de locomoção, mesmo na chuva. Porque então as estações estavam lotadas?

Volta, aqui tá quentinho. E trás a Charlotte com vc!
Bjs

Maria Elizabeth disse...

Paris é friaca total e chove muuuito, espero que a greve acabe logo e que você possa usufruir dos transportes à prova d'água. Ah, acho que tênis não é a melhor opção, tente um calçado mais pro impermeável. Se bem que a água não é 100% bloqueável.

Anônimo disse...

un conseil pour la prochaine fois!! Ramene le velo chez toi, et rends le lendemain... Ensuite petite reclamation a Velib car ils savent que c'est un pb.. et tu es remboursé...Ça marche, ma soeur l'a fait!!!
bisous a ts les 2

Anônimo disse...

Daney, aqui também tá fueda, companheiro. Tenho planos emergenciais para o inverno que começam com Thanksgiving em Nassau e terminam com carnaval em Ipanema. Acho que você tem que ir para o Rio no carnaval descongelar o dedão do pé. Bora, Daney! A gente é legal, não merece isso não!
Beijocas washingtonians.

Ah!!! Depois te conto do Fetsival de Cinema aqui.

Felipe Campbell disse...

De toda forma, é impressionante imaginar que o povo cogita e efetivamente usa a bicicleta para trbaalhar. Se rolasse greve de ônibus e metrô aqui, seria ruim, mas numa cidade aberrante onde todo mundo tem carreo, não sei até que ponto faria diferença. Vivas as bicicletas. E olha que holandeses e dinamarqueses já fazem muito bom uso delas há tempos.

abração!!!

Henriette disse...

Morri de rir quando li a parte da conversa com o pinto molhado! Que comunicação fantástica! Como você conseguiu? Eu sei! É fácil! Muito treinamento com gelo na boca!
A gente sabe! =D
Saudade tãããooo grande de você!!!
BeijÔ da GallÔ

Thomas disse...

Je suis un Parisien (et cycliste forcené) qui vit aujourd'hui à Brasilia. et ton post me donne surtout la saudade de Paris. je crois bien que c'est le froid qui me manque le plus...

Thomas