sexta-feira, 12 de outubro de 2007

La Liberté




Outro dia passei no La Liberté pra tomar uma cerveja depois de um show.

O La Liberté é talvez o bar de Paris que mais parece os famosos "pés sujos" brasileiros. Com a diferença de que não é sujo. Bem, não muito. Mas todo o resto está lá: cerveja barata, portas abertas até mais tarde, ótima música e, o principal, uma fauna de freqüentadores das mais esquisitas. Tudo o que faz um bom boteco.

Depois de uma certa luta, consegui chegar ao balcão.

- Um chope, por favor.
- Voilà.

Pedi, paguei e bebia tranqüilamente. Já estava no finzinho quando um loiro semi-gigante, meio vesgo de tanta birita, aproximou-se, pegou minha tulipa e virou o resto de uma vez só, provavelmente pensando que era dele. Ou talvez nem pensando mais. Achei que devia reclamar, mas o cidadão era tão grande que a minha voz demoraria uns 2 minutos para chegar lá em cima. A comunicação partiu dele.

- E aí, o que você está festejando hoje?
- Nada.
- Eu também não.


Com a boca mais mole do que gelatina e um olho em mim e outro no teto, disse isso, pegou um chope e brindou com meu copo vazio.

- Ao nada.
- Ao nada.


E saiu tropeçando para o outro lado do bar.

Continuei ali pelo balcão. O balcão é sempre onde você escuta as melhores histórias. E um cliente reclamava com um dos donos.

- Mas eu não bebi nada na 4a feira.
- Não interessa. Se você levanta o dedo e pede uma cerveja, eu presumo que seja pra você e coloco na sua conta.
- Sim, eu levantei o dedo, mas não bebi. Era pro meu amigo.
- Então não levante mais o dedo pedindo.


O balconista disse isso e foi atender outra pessoa. Quando virou-se novamente, o mesmo carinha que reclamava estava com o dedo em riste.

- Uma cerveja.


Nesse meio tempo, a música muda. E Aretha Franklin sai das caixas de som. O sujeito que pediu a bebida deixa o balcão antes de recebê-la, começa a se sacudir e vai pra improvisada pista de dança. Um clone mais velho do Elymar Santos já dominava o ambiente, rodopiando com uma loira com cara de bem comportada.

O cliente reclamão volta, pega a bebida que pediu e fica secando a loira. Na verdade, a bunda da loira. Elymar Santos percebe e abre o botão de cima de sua própria camisa, assegurando que o macho adulto branco no comando era ele.

No meio disso tudo, entra um vendedor de flores, com as rosas mais feias e murchas que já vi.

- Quer comprar?
- Não, obrigado.


Diz isso e vai pro fundo do bar, uma região para onde apenas os iniciados vão. E some na muvuca.

A música muda novamente. Entra a versão original de "conheci um capeta em forma de guri", famosa no Brasil na voz do grande filósofo Sérgio Mallandro, o mesmo de "vem fazer glu-glu".

Elymar Santos cover está infernal. Enquanto passa a mão na bunda da loira, acena para uma outra que está encostada na parede. Ele percebe que saquei seu movimento e faz um "high five", batendo na minha mão no alto. Não sei se elas notaram, mas ele parece não se importar nem um pouco.

Aparece um segundo vendedor de flores.

- Quer?
- Não... Ah, o seu companheiro está lá atrás.
- Merci.


E também some na fumaça de cigarro que empesteia o ambiente. Logo depois vejo dois buquês sacudindo no alto, no ritmo da música, com pétalas voando pra todo lado.

A loira sai, talvez para ir ao banheiro. O Elymar Santos francês não perde tempo e chega na outra. Logo abre um segundo botão. Em poucos segundos - em uma performance que mataria Jece Valadão de inveja - conseguiu fazer a mocinha beijar seu peito pela camisa semi-aberta. A loira volta e, como se aquilo fosse muito normal, pede uma cerveja e fica observando a cena. O reclamão tenta se aproximar, mas ela não dá a menor bola. Aquele pedaço - já está claro - pertence ao outro sujeito.

Já era tarde, e depois de mais um chope resolvi ir embora. Os dois floristas saem também, totalmente embriagados. Na mão, umas hastes com as poucas pétalas sobreviventes.

- Quer comprar flores?

Eu olho pra o que restou delas e também para o que restou deles.

- Que flores?

15 comentários:

paulo disse...

Guri, esse bar é o BAR dessa regiao pariense. O rapper portugues colecionador de VHS tava esse dia?

prolixa disse...

Très bien, mon ami!!! Sempre mandando muito bem. BJIM CY

Figueira disse...

My friend,

Conheci hoje seu blog, quer dizer, li de fato. Fiquei simplesmente boqueaberto e feliz por depois de tantos anos em que fazíamos quando crianças todo tipo de merda possível ver que você está fazendo da sua experiência de vida algo tão nobre e à sua altura.

Faço questão de te reencontrar no velho mundo. Parto semana que vem pra Londres, quem sabe a gente não esvazia umas Pints ou umas boas garrafas de Bojolais sob trilha sonora de boas gargalhadas sobre o passado...

Enfim, gostei tanto do seu blog que no meu último post no meu, presenteei os visitantes com o link do seu.

Fica com Deus e vê se liga, seu sacripanta!

Abs,
Ric

isabelle disse...

hahhahahahahahaha
esse eu TENHO a conhecer qdo for praih de novo!!
ps.: como foi no Brasil?
beijooooooooooo

tresporquatro disse...

Pelos deuses... um anexo do Bar Capela (http://www.overmundo.com.br/agenda/bloco-esquina-do-capela) em plena realidade parisiense?!?!?!? hahahahah...

Cheri disse...

Recado geral:

Paulo - O português doido não tava não. Depois voltei lá outro dia e não o vi também. Preocupante...

Cy - Valeu! Bjos.

Rick - Fiquei super feliz com seu comentário. Deixei um lá no seu blog também.

Belle - Pena que não deu pra irmos lá. Mas vamos na próxima.

Thiago - Eu não conheço o Bar Capela. Mas já simpatizei só de saber da semelhança.

Cristovao disse...

Sambiba, com toda a Nouvelle Cuisine da França à disposição, tu tens que ir atrás de um Bar do Luís, né?

Adriane Cruz disse...

Oi Daniel, nos conhecemos no samba do arena (eu "exalando", lembra?)
Hehehehehehehe

Como eu te falei naquele dia, adoro seus textos... os adjetivos são precisos e as comparações impagáveis!

Adorei as descrições das figuras do pé sujo, principalmente do semi-gigante. Muito bom! Dei muita risada também com o “filósofo” Sérgio Malandro.

Depois dá uma passada no meu blog. Estou começando e não tenho ainda um estilo bem definido. Até lá, vou me arriscando a escrever de tudo um pouco.

Foi um prazer ler seu texto! Um beijo,

Adriane

Anônimo disse...

Achei que já tinha sido proibido fumar em ambientes públicos em Paris, como em Londres...

Bojolais = Beaujolais... :(

Little Girl Blue disse...

Adorei o texto.

Abs!

Cheri disse...

Oi, Adriana e Little Girl. Obrigado pelas mensagens!

Caro anônimo, em teoria tem alguns lugares em que já são proibidos (por exemplo, não se pode fumar em ambiente de trabalho). Mas nos bares e restaurantes ainda é liberado. Acho que a lei começa a valer no ano que vem.

Pagu disse...

Eu, primeiramente, assisti o pirata. Mas foi totalmente sem querer. Estava na casa de uns amigos e eles me chamaram pra ver. Fui toda animada, adorei o filme e tal... pensando q era um desses filmes brasileiros que só se vê em DVD ou na TV aberta (pq as coisas, quando n demoram a chegar ao cinema de Teresina, elas simplesmente não vêm). Quando acabou, todo mundo achando lindo aí de repente alguém fala: cara, esse aí vale a pena ir ver no cinema. E eu: ahn? :| como assim? eu to pirateando filme brasileiro. MORRAM! Então, decidi limpar minha alma e dar um troco pros caras no cinema mesmo. Valia a pena. Fui ontem e é muito melhor na tela grande.

Mas, eu entendo vc... ele realmente n deve chegar aí... pelo menos não agora. Pode baixar! =P

Little Girl Blue disse...

Olá, Cheri! Que engraçado, né? Eu já tinha lido o Chéri à Paris há alguns meses, mas só retornei recentemente. Sou pernambucana, amiga do Felipe e acho que me viciei nas palavras virtuais dos outros. Pode? E escrevo umas bobagens tb, como vc viu...

=)

Bjs e tb agradeço a visita!

Tati biTati disse...

Descobri absolutamente por acaso (na verdade, tentando buscar o endereço do Liberté pra uma amiga) seu blog falando da minha segunda casa...rs
Esse bar é realmente qualquer coisa de MUITO bom! E o gentil garçon (Momô) é realmente gentil, mas detesta bêbados que não sabem o seu lugar...kkkk

Quando voltar la, sera sempre bem recebido, mesmo por desconhecidos... Alias, hoje é dia!

Bjs,

Tati

PS: Otima escrita rapaz! ;)

liliana disse...

Lol portugues doido, pois ora bem daqui sou eu o doido eu mesmo a escrever na conta da minha mulher n sabia que era tao conhecido, lol mais vale doido que espertalhao, n se preocupem ganhei juizo parei com a maconha e voltei para portugal,tenho uma filha e voila e assim a vida, abraço.