sexta-feira, 17 de abril de 2009

Voilà, é a primavera!

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A partir dessa semana, sempre que possível indicarei músicas para serem escutadas enquanto se lê o texto (de preferência abrindo-as em uma outra janela, claro). Começo com as seguintes:

. Moon after berceuse (Fredo Viola)
. I Love Paris (Ella Fitzgerald)

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A primavera é a redenção dos parisienses. É quando eles deixam para trás todas aquelas camadas, que protegem tanto o corpo do frio quanto as almas de um contato tornado difícil pelo inverno. E ao dizer "parisienses", estou me incluindo também. Afinal, parisiense é quem mora em Paris, e não apenas quem nasceu na cidade. E assim como todos os outros, também me livro das couraças de roupas e das carapaças da irritabilidade que ergui em torno de mim mesmo ao longo dos últimos meses. Aquela coisa que te leva a atitudes meio estranhas, como a de se controlar para não morder o sujeito ao seu lado no metrô, só porque ele tem alguma coisa parecida com um sorriso no rosto. Verdadeira ofensa à instituição do mau humor francês, oras.

Nesse último mês, tenho escutado muito o Fredo Viola - homem orquestra inglês e minha nova descoberta musical -, que multiplica-se em suas próprias canções. Ele é tenor, soprano, contralto e baixo, tudo ao mesmo tempo. E mostra que podemos nos transformar em vários, mas sendo sempre nós mesmos (afinal, todas aquelas notas angelicais vêm da mesma pessoa). Vivemos um pouco esse processo quando passamos as quatro estações em um país onde realmente faz frio. No outono, como acontece com as folhas das árvores, nosso moral cai. No inverno, recolhemo-nos e economizamos energia, até no contato humano. Na primavera, florimos em gentilezas e sorrisos. E, no verão, brilhamos e vivemos o auge pelo qual esperamos tanto tempo, e que merecemos bem.

Os franceses, esses seres curiosos, dizem gostar do fato de terem as estações bem definidas, pois "ajuda a se localizar no tempo". E isso é verdade. Se você quer se lembrar de quando foi àquele determinado restaurante, por exemplo, é só pensar na roupa que usava no dia. Saiu de casa disfarçado de esquimó? Era inverno. Vestindo bermuda? Verão. Mas se usava apenas um casaco, há duas opções: se estava meio puto, devia ser outono; mas, se ria, provavelmente era porque a primavera havia chegado. Essas do casaco são colaborações empíricas minhas à teoria, vale ressaltar.

O curioso é que para mim, um brasiliense, o normal mesmo é o ano dividir-se em duas estações: quando chove pacas e quando não chove nada. É verdade que em Brasília no mês de julho existe algo parecido com o frio, e os termômetros podem marcar 10ºC. Mas, acredite, eu já comemorei 10ºC em Paris, ligando pra um amigo pra festejar o tempo agradável, querendo fazer até piquenique. Minha mãe vai se arrepiar só de ler isso.

Mas agora, como o mutante Fredo Viola, Paris está transformando-se, e assume sua agradável personalidade primaveril. As varandas dos cafés estão cheias. Os gramados dos parques foram liberados. As vélibs tomam o espaço dos carros nas ruas. As flores estão coloridas. As mulheres já ousam os primeiros vestidos. A cerveja ficou mais gelada. Os amigos encontram-se com maior frequência. Acho que a cidade merecia um pouco mais de primavera. Eu também, d'ailleurs.

11 comentários:

Mila disse...

Adorei essa "inovação" do blog indicando uma trilha sonora de tão bom gosto. Abraços.

Juliana disse...

A trilha p/ inverno em Paris é Nina Simone...arrasada...congelada

Gigi disse...

Oi Dani!!!
menino, deu certinho essa música da Ella, até me senti aí na primavera de Paris (invejinha!).
aqui em SF eu tmb já comemorei não 10, mas 12 graus sim. Tmb me lembro um dia que fazia a mesma temperatura aqui e em Brasília, acho que eram uns 14 graus, só que eu estava comemorando o "calor" e minha irmã de cachecol reclamando do "frio". É... tudo é relativo!
E vc sempre mandando bem nos textos, parabéns!

Rafael Perfeito disse...

Problema é quando aparece a primavera e tiramos nossos casacos, mas o relógio psicológico ainda nos cobre com mantos carrancudos.

Rafael Martins disse...

Olá!
Estou visitando o blog pela primeira vez e estou adorando!
Muito legal.Já sou fã!Um abraço!Rafa

Fabi.Catarse!! disse...

...Sou sagiatariana e por isso não sou muito fã dos meios termos. Mas devo admitir que a primavera é a melhor e mais perfeita expressão do meio termo nas estações do ano: não é frio de rachar, nem calor de matar. Não chove muito, mas tem lá suas garoinhas e seus dias de cabelo sem fios arrepiados. A luminosidade é perfeita. As temperaturas são amenas... Adoro!

(ps: li o post num pc sem caixas de som... argh... mas relerei, amo Ella... [com direito a cacofonia!!hehehe])

Natália Vaz disse...

Teresina é a cidade que quando chega a 20°C todo mundo falta é morrer de frio. Uma madrugada fez 19° e foi o dia mais frio do ano. oO

Eu gostaria de viver onde tem primavera.

Ah, eu escolhi a Ella.

Soraya Salomão disse...

A sua nova descoberta musical é agora minha também. Fredo Viola. Admirável e inspirador como ele faz acontecer suas músicas e vídeos. Gostei muito. A dica foi ótima e acompanha perfeitamente o seu texto primaveril sobre as possibilidades de experimentarmos várias facetas de nós mesmos.

E aqui é também tempo de primavera. Ela ressurge lustrosa. Aprendo muito com a vida que levo. Ou diria com a vida que me leva. Aprendo como nunca a dar valor ao calor e à luz do sol. Tem sido bonito.

Final de semana, 7 graus e um céu muito azul. Claro que sim, um ótimo dia para piquenique. E fomos nós, 5 mulheres, fazer piquenique e música folclórica na floresta.

Transformemo-nos.

Soraya Salomão

Henrique disse...

E viva Paris! Via a primavera! E as transformações!

Gabi disse...

Oi, Daniel ! Mas ainda vale lembrar da maxima 'en avril ne te découvre pas d'un fil !'
Tudo fica melhor mesmo ... até meu prédio, que esta vazio por conta das férias !!
Beijos e aproveite !

Chéri disse...

Oi, Gabi.
É verdade, tem essa máxima mesmo. Mas lembre-se também que maio está chegando. E, com ele, a expressão irmã, "en mai, fais ce qu'il te plaît". É a volta das bermudas fedidas de mofo!