sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Praias, pandeiros e limoncelos

Paris fica a centenas de quilômetros do oceano. Mas no verão, ou no que eles chamam de verão, tem sua própria praia, a Paris Plage, nas margens do rio Sena. E tem tudo a que se tem direito: areia, corpos bronzeados, espreguiçadeiras, cerveja gelada e uma grande programação de espetáculos e eventos. Só falta mesmo o mar, esse pequeno detalhe.

Fui lá um dia desses, à noite, pra um show. Cheio pacas. Não dava pra chegar perto do palco. E nem pra ouvir de longe, pois não havia caixas de som espalhadas pelo lugar. Ou pagava uma de sardinha e me enlatava lá na frente ou desistia. Fiquei com a segunda opção. Assim como os amigos com quem estava.

Yasir, um desses amigos, carrega um pandeiro aonde vai. Ele pode esquecer os documentos, o dinheiro e até o próprio nome, o que já vi acontecer algumas vezes. Mas o pandeiro ele não esquece jamais.

Sem ter o que fazer, sentamos à beira do rio. Rapidamente, o a partir de agora chamado psicopata do pandeiro sacou seu instrumento, numa velocidade digna de pistoleiro. E antes que eu pudesse impedir, passou a tocar e cantar seu repertório repleto de hits. O cara é animado. Se começar, não pára. É do tipo que, se tivesse uma banda, só sairia do palco expulso. Se fizesse um filme, colocaria cenas depois dos créditos. Se escrevesse um livro, faria a enciclopédia Barsa parecer gibi.

Nesse dia, porém, ele disputou os holofotes com outro figura.

Entre uma pandeirada e um "la la iá", surge do nada um sujeito com um violão em uma das mãos e uma garrafa de limoncelo em outra. Bandana na cabeça, pose de roqueiro, bigode, era a cópia francesa do Santana. Sua chegada na roda foi impactante. Todos silenciaram e o encararam. "Deve tocar muito", era o pensamento comum. Sem dizer nada, posicionou o violão, levantou a palheta e mordeu a ponta da língua, preparando-se para atacar as seis cordas. Tensão geral. A palheta continuou levantada, agora refletindo a luz da lua. Estávamos ansiosos pelo desfecho daquilo, pela reencarnação de Hendrix. Sua mão começou a se mover. E a palheta lentamente escorregou pelos seus dedos e caiu, enquanto a língua continuava meio de fora, já com um pouco de baba. Nosso guitar hero ficou assim longos segundos, travadão da silva.

Sem titubear, o psicopata do pandeiro puxou logo uma versão de Mas Que Nada, acompanhado alegremente pelos diversos franceses que já tinham se enturmado, e batiam palmas e cantavam a plenos pulmões.

Santana cover, de volta da sua viagem tipo miojo, instantânea e pessoal, não encontrava a palheta desaparecida. Então sacou de um canivete que trazia no bolso e cortou uma garrafa pet, improvisando um novo artefato. Com isso, resgatou um pouco do respeito que havia conquistado e perdido tão rapidamente. Observando o movimento, o psicopata do pandeiro não parecia disposto a fazer outra concessão no seu set list, e continuou a surrar o couro.

Vendo que não dava pra competir, Santana cover esperou o fim da música, deu um gole do limoncelo e pediu a palavra.

- Vou tocar uma pra todo mundo. E você, com o pandeiro, pode acompanhar.

As primeiras notas foram facilmente reconhecidas. E todos entraram juntos no refrão de No Woman No Cry. Todos, menos o próprio violeiro, que ficou novamente pelo caminho, mais estático que a Vênus de Milo. Sem perder tempo, o psicopata do pandeiro fez um rápido medley, e passou de Bob Marley a Camille, para a alegria dos franceses.

Com a apresentação inevitavelmente comprometida, Santana cover, mais uma vez de volta, deu outro gole da garrafa e levantou-se, determinado. Foi em direção a Yasir, que aumentou a intensidade das pancadas no instrumento. O guitarrista continuou andando. O pandeirista, pandeirando. Um olhava pro outro, fixamente. Eis que, no meio do caminho, o viajante solitário mudou bruscamente de direção e foi rumo ao rio. Despencaria tal uma âncora, não fosse a pronta intervenção de um dos presentes, que e o aparou e ainda o convenceu a voltar pra casa.

- Tá bom, nós vamos.

Disse isso, pegou o violão, virou o resto do limoncelo e saiu conversando animadamente com alguém que só ele via. Aproveitei e fui também, mas pro outro lado. Só o psicopata do pandeiro ficou. Afinal, com ou sem Santana, Hendrix ou Bob, o show tinha que continuar.

9 comentários:

Gisele Naconaski disse...

Daniel:

Saí das páginas do Le Monde direto para o seu blog e o prazer de te ler não acaba.
J'adore Paris e aterrar por aí com suas divertidas impressões é um presente.
Parabéns pelo olhar, pela linguagem.
Saudações desde Curitiba.
Cordialmente,
Gisele

Pápi e Mami disse...

Daniel,
Essa crônica de hoje poderia se chamar "Aventuras de um candango na terra de Chatotorix". E põe Chatotorix nisso, hem? Existem deles por toda parte, de todas as nacionalidades, credos e etnias, além de opções ideológicas e sexuais.
Só uma pergunta: você viu se o limoncello era autêntico, isto é, italiano?

rinaldo disse...

A pergunta do ignorante: o que vem a ser limoncelo?

(Imaginando mais ou menos o que seja e com água na boca pra experimentar)

Anônimo disse...

Engrosso a fila. Também quero saber o que é limoncelo... Se tem algo a ver com limão, e imagino que tenha, já gostei!Acredite, é minha fruta preferida! De repente rola uma crônica dobre a tal bebida, hein!
Adorei, como sempre, seu texto! Saudades de você... Nos vimos pouquíssimo! :(
Besos
Flor do México
PS: Psicodelicamente falando, essa de limoncelo levou minha mente insana a viajar num instrumento muito louco feito com limão! Pense!Juajuajuajaujaujaujau

Carol Nogueira disse...

Daney, dava tudo pra ver mais essa peripécia de Yakelle. Tô com muitas saudades dessa farras.

FabiCatarse!! disse...

...aaah, só faltou tocarem Raul!!! Seria uma parceria típica: o bêbado e o chato a cantarolar um clássico de todas as praças(talvez uma versão francesa...)!!

Bj!

PS: Rinaldo e Flor do México, Limoncello é um licor de limão!

Rico disse...

Olá, Daniel, peguei a Brazuca aqui em Paris e achei bem divertida, lembrei bastante do Chéri, que, dispensando elogios, é sempre mais do que bacanudo.

Um grande abraço de um outro expatriado.

Ricardo

www.opequi.com

Rafael Cunha disse...

Provavelmente o Santana cover foi quem soltou um "toca Raul" do anterior Joue-nous Raoul

Charmain disse...

Fantastic!