sexta-feira, 23 de maio de 2008

Um quadro, três histórias

Jean Novion, francês no nome, argentino na nacionalidade e brasileiro no local de nascimento, visitou o Louvre em 1996, antes que O Código da Vinci tranformasse o célebre museu em filial da Disneylândia e a Mona Lisa em uma espécie de "New Mickey". Não era o frenesi que é hoje, mas milhares de pessoas já se acotovelavam diariamente em frente ao quadro, muito mais para tirar fotos dele do que para realmente observá-lo. Isso apesar de uma placa em letras garrafais prevenir em diversas línguas que "é proibido fotografar".

Mas vai tentar controlar 200 japoneses e seus aparelhos.

Pois bem, Jean seguiu as indicações e chegou, junto com a delegação asiática, à pintura mais famosa do mundo. Estranhou o tamanho.

- É aquela titica ali?

Verdadeiros samurais modernos, munidos de máquinas fotográficas ao invés de espadas, os japoneses não se importaram com as dimensões da obra e nem com o aviso, e saíram clicando em uma velocidade digna de Guiness. Do livro dos recordes, claro, não da cerveja.

Só que a Mona Lisa é o único quadro do Louvre com um guarda de plantão ao lado. Um carinha pago para dar esporro, que fica lá o dia inteiro. E ao ver metade de Tóquio dentro da sala, ele tratou de iniciar uma sessão de bronca multilíngüe.

- Pas de photos! No photos! Sem fotos! いいえ写真!

Gesto imediato, os japoneses viraram-se todos para o sujeito e, de forma sincronizada, dispararam centenas de flashes em sua direção. Aproveitando o momento de cegueira do rapaz, voltaram-se novamente para La Gioconda e bateram mais trocentas fotos. Satisfeitos, viraram-se e foram embora, com aquele sorriso Made in Japan.

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Ronald Walker, ex-punk, nascido na Inglaterra, quase trinta anos de Brasil, aproveitou uma viagem à França e deu uma passada no Louvre. Chegando à sala onde a Mona Lisa repousa, ou tenta repousar, ficou de costas para a obra.

- Não vou olhar.
- Tá doido?
- Não vou.
- Por quê?
- Quero ser o primeiro a vir aqui e não ver o quadro.
- É a Mona Lisa, tem que ver.
- Tem que ver por quê?
- Porque tem. Saiu em livro.
- Não li.
- E em filme.
- O unico cinema verdadeiro é o turco, legendado em aramaico.
- Tá em milhares de camisetas.
- Só uso camiseta do Sex Pistols, de preferência com uns dois ou três furos.
- Tem música que fala dela.
- Se os Ramones não gravaram, não presta.
- Você é chato, hein? Vamos nessa.
- Peraí, peraí. Vamos fazer o seguinte: eu vou olhar de relance, mas você não conta pra ninguém, viu?
- Combinado! Não abro o bico.

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Asdrúbal Inocêncio, cearense há 12 gerações, também conheceu a pintura de Da Vinci.

- Ô muié feia da peste, diabo!

8 comentários:

Patricia Baldez Americo disse...

Recuso-me a assistir ET (e sim, de relance, passando pela porta, sei como era a Drew aos 5 anos) só para dizer que não vi - dá um orgulho besta ser do contra.
Maranhense de pai e mãe tb não vejo nada que justifique o agito em torno da Mona, mesmo lendo e relendo alguns que o justificam. Deve ser aquela coisa meio Preta Gil, o pai fez...
Já seu blog, leio sempre e adoro!
Bjo.

Anônimo disse...

Muito bom, mais uma vez!

Adriana

FabiCatarse!! disse...

...não assisti nenhum da série do Senhor dos Anéis... nem Harry Potter... nem Matrix. Me recuso a ler Paulo Coelho. Não gosto da Ivete Sangalo. Meu Deus.... será que sou do contra??!!

Jú Fuscaldi disse...

Ah, mas se for por Senhor dos Anéis, os dois últimos Matrix, Paulo Coelho e Ivete Sangalo, então somos duas do contras!

Ótimo texto!
Há alguns dias descobri suas crônicas no site do Le Monde, apaixonei! Ótimas! Muito boas mesmo! Parabéns!

Nandinha... disse...

Que isso... rsrsrsr

Internauta véia disse...

Somos três!
Adorei seus escritos!
Parabéns!

Diego Vargas disse...

hahahaha Ainda não decidi qual das três 'óticas' mais me agrada.

Muito bom o blog.

Abraços,
Diego Vargas

Tati disse...

Peste bubônica? Ou era só feia da gota serena? heheheh