sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Autour de Paris XII - Square Léo Ferré


Em Paris é assim: virou a esquina, trombou com uma equipe de cinema. Às vezes uma rua inteira fica isolada para uma filmagem. E enquanto os técnicos preparam o set, o diretor e o elenco aguardam tranquilões na van. De vez em quando vou bisbilhotar.

- Quem tá na van?
- Lesse Hallström.
- A cachorra?
- Não, o diretor sueco.

Não tenho o menor talento pra representar. Acredito que estaria facilmente entre os 4 ou 5 piores atores da história, talvez na frente apenas do cigano Igor (abraço pra ele) e do Maurício Mattar. Mas ainda assim às vezes me pego imaginando se com um papel adequado e bem dirigido eu não descobriria um talento escondido e viraria um desses fenômenos que já chegam arrepiando, faturando Cannes, Oscar, Berlim e o escambau.

Daí que outro dia tinha um pessoal filmando em frente à creche da Louise, no square Léo Ferré. Passei por eles na ida e na volta e parei um pouco pra observar. Fiquei uns bons 10 minutos, puxei uma conversa fiada com um dos produtores sobre a enorme quantidade de produções cinematográficas simultâneas em Paris e sobre o que era aquele filme.

- Basicamente é o encontro de uma francesa com um estrangeiro.

No dia seguinte, eles estavam outra vez lá, na mesma hora. Eu butuquei de novo.

- É pra pegar a mesma luz, me contou o produtor. Filmaremos aqui a semana inteira.

Toda manhã eu passava com a Louise e na volta fazia um aceno pro carinha, que já me reconhecia.

- Bonjour!
- Precisando de um sotaque brasileiro, tamos aí. Se já tem um estrangeiro, por que não dois?

Na sexta-feira era o último dia das filmagens. Preparei Louise no seu carrinho, coloquei meu sobretudo novo, estilo Sgt. Peppers, e deixei-a na creche. Na saída, levantei as abas do casaco, fazendo um gênero meio Gainsbourg dos trópicos, coloquei as mãos no bolso e atravessei tranquilamente o set de filmagem. Se fumasse, era a hora perfeita de acender um cigarro. Aquele produtor tinha nas mãos a chance entrar pra história como o revelador do meu dom de ator. O figurino já estava pronto. Bastava uma ou duas frases bem colocadas, com um sotaque sob medida, e eu chamaria imediatamente a atenção do universo cinematográfico.

Ele grita.

- Ô, brasileiro.
- Opa, eu?
- É, você.
- Diga aí.
- Dá pra acelerar o passo, s'il vous plaît? Estávamos filmando e como você entrou no meio vamos precisar refazer a cena.
- Ah, claro, respondi, tropeçando.
Esse texto faz parte da série "Autour de Paris", de crônicas dedicadas a cada um dos bairros da cidade. Para ler os outros, clique aqui.

7 comentários:

Camila disse...

Adorei.

Engraçado como somos tão gigantes no nosso universo particular e tão pequenos no universo sideral.

Mas sabe que adoro me sentir protagonista da minha insignificância?

Mirelle Siqueira disse...

hahahaha, me enganou! ja estava achando que ia te conhecer através das telas do cinema francês.

Renata Inforzato disse...

É duro, mas é engraçado, muito bem contado
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Beatriz disse...

Hilário! Essa foi por um fio, não!? Quem sabe uma próxima vez, numa outra esquina, outra rua....
Bia
www.biaviagemambiental.blogspot.com

Caso me esqueçam disse...

o twitter disse pra eu te seguir. dai vim aqui e achei que deveria seguir depois que vi que voce tbm conhece a amanda (petit journal) e, sobretudo, depois da homenagem ao "cigano Igor" HAHAHAHAHAHHAHAA

Caso me esqueçam disse...

oxe, agora que eu fui ver no teu twitter: tu conhece benzina, clara japiassu... tu eh pernambucano?

Anônimo disse...

kkkkk muito bom.