sexta-feira, 22 de julho de 2011

Os biôs

A última moda em Paris é ser bio. Ou biô, como eles dizem. Ser bio é ser adepto dos alimentos orgânicos, produzidos sem agrotóxicos. É adotar um modo de vida mais são, de mais respeito à natureza e ao produtor. É colocar um pouco mais de saúde no prato.

Tem parisiense que faz qualquer coisa por uma porção de legumes e frutas bio. Conheço um que duas vezes por semana pega o carro, atravessa Paris inteira e engole fumaça de engarrafamento só para vir ao Marché d’Aligre comprar sua cota de bem estar em forma de abobrinhas.

Há aqueles que se amontoam em frente às barracas bio da feira e se acotovelam, se empurram e quase se estapeiam na disputa pelo alho poró mais bonito. E quando descobrem um bom exemplar de funcho perdido entre as endívias, aí é o verdadeiro êxtase, a contemplação do divino, o arrebatamento do espírito e do corpo.

Mas não é qualquer bio que serve, a coisa não é tão simples assim. Pra ser bom, o bio tem que ser caro. Bio em promoção está estragado, não presta, com esse preço aí alguma coisa está errada. E não faz mal se para morder um superfaturado damasco bio é necessário vender os dentes da boca. Afinal, o parisiense sabe bem que bio de pobre não tem tantas vitaminas quanto seus semelhantes inflacionados.

O parisiense verdadeiramente bio só consome produtos bio. Ele acorda de manhã, passa um creme bio no rosto, pra ficar com aquela pele de pêssego bio. Depois, prepara um café bio guatemalteco, morde uma maçã bio, que vez ou outra esconde uma minhoca, também bio (ou seria minhoca bia?) e come uma ou duas tartines de pão bio com manteiga idem.

E então sai pra rua e acende um Malrboro, feliz de sua condição de sujeito saudável.

5 comentários:

Rose Araujo disse...

Hehehehe! adorei o texto!
:)

S. disse...

por mero acaso vim parar a este blog. digo desde já que fiquei encantada! não se trata de um relato aborrecido da vida em Paris, mas sim de quase uma análise sociológica e sempre divertida dos parisienses e da vida parisiense. Os meus parabéns x]

Anônimo disse...

Muito boa essa série de posts decifrando o parisiense. Tomara que continue!

Rose

Lo disse...

Nossa, é EXATAMENTE assim que se passa. Minha chefe usa pasta de dente bio, sabao em po bio pq me disse q o contato com a pele é importante, leite bio, suco bio, fruta bio. Eu acho isso uma febre danada e penso como essas pessoas viveriam no passado, onde nossos pais e avos comiam terra na roça, e curavam machucados no nosso joelho com cuspe! Tudo diferente dessa realidade fresca francesa de ser. Compro tomate e banana bio pelo alto indice de agrotoxico, mas é so! Abaixo à frescura! kkkk! Vou publicar seu texto no meu blog, se me permite! amei!

Caroline Romão disse...

Meu sonho é ser bio - sem malboro - em Paris.