sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Autour de Paris IX - Les Galeries Lafayette


No 3º andar da megaloja Galeries Lafayette, um homem com seus 50 anos e barba por fazer passa por uma mulher da mesma idade, que passeia ao lado de um jovem adulto. Os dois param, se encaram e parecem não acreditar no que estão vendo.

- Nicolas?
- Leila?
- É você? Pensei que tivesse morrido. – Dizem ao mesmo tempo.
- Quanto tempo faz? Onze anos?

Nicolas olha a data no relógio. Deve ser a última pessoa na Terra a fazer isso.

- Faz onze anos amanhã, exatamente às 15h32.
- Seu safado, crápula, sem caráter. Me deixou esperando.
- Peraí, Leila. Você que fugiu. Eu fui ao banheiro e quando voltei você não estava mais aqui.
- Ao banheiro? Fiquei te esperando e você nunca mais voltou.
- Estamos nas Galeries Lafayette, Leila. Isso é um monstro que te engole e você nem percebe. Olha o tamanho da loja. Você já viu alguém encontrar qualquer coisa aqui em menos de quatro horas? Sabe quanto tempo demorei pra achar o banheiro? Dois dias. E depois mais três pra voltar ao nosso ponto de encontro.
- Isso é mentira, fiquei aqui plantada uma semana. Até porque nunca consegui achar a saída dessa loja.
- Você também?
- Como assim eu também?
- Você também não conseguiu? Passei onze anos procurando a saída desse lugar.
- Assim como você, também estou presa aqui desde o Natal de 1999, quando você teve a infeliz idéia de vir "comprar um presentinho" pra família Dupont, com quem íamos jantar.
- Não se preocupe com os Dupont, Leila. Eu avisei que chegaríamos atrasados.
- Teve uma vez que pensei ter encontrado a saída, mas era a despensa.
- A do 5º andar?
- Essa mesma. Fiz amizade com o controlador de estoque, que sempre me descola uns enlatados quase vencidos.
- Eu já eu tentei escapar seguindo um cliente.
- E aí?
- Ele se perdeu também.
- Pobre homem.
- Mas calma aí, Leila. Tem algo estranho nessa história. Como é que a gente nunca se encontrou?
- Você já viu o tamanho dessa loja, Nicolas? É um monstro que te engole e você nem percebe.
- Ei, essa frase é minha.
- Sua e de todo o pessoal do 3º subsolo.
- Você conhece o pessoal do 3º subsolo?
- Claro. Eles são os piores, coitados. Vieram pra inauguração e até hoje não conseguiram voltar pra casa. Acabaram locados por lá, fazendo serviços administrativos. Pelo menos pararam de morder os clientes.
- Ouvi falar desses casos.
- E você, Nicolas, trate de me explicar o que fez durante esses onze anos.
- Já que tava por aqui, arrumei uns bicos. Trabalhei um tempo na seção de gravatas e agora me instalei na divisão de bebidas. Área perigosa pra quem curte um copinho, como eu. Durante cinco anos cheguei até a ser o Papai Noel do 4º andar. Ou será que foi do 6º?
- Deve ser por isso que a gente não se esbarrou. Eu comecei nas lingeries e depois fui promovida pra seção de vestidos de noiva, aqui no 3º andar, onde tô até hoje.
- Carreira ascendente, a sua.
- Ô.
- Que orgulho de você, Leila.
- Você até também não se saiu mal. E eu pensando que tinha fugido com uma sirigaita qualquer...
- É claro que não. Mas você parece que se arranjou, né? Esse aí do seu lado tem idade pra ser seu filho.
- E é, Nicolas. Aliás, é seu também. Não o reconhece?
- Louis?
- Papai!

Emocionados, os três se abraçam e se beijam, enquanto o som ambiente da loja toca Love me Tender. A cena é interrompida por um cliente que os cutuca, pois eles estão atrapalhando o bom andamento da fila da seção de meias e cuecas.

- Vamos juntos procurar a saída? – Sugere Nicolas.
- Tenho uma idéia melhor: e se fôssemos à cobertura ver a mais linda vista de Paris? Conheço um ótimo atalho.
Esse texto faz parte da série "Autour de Paris", de crônicas dedicadas a cada um dos bairros da cidade. Para ler os outros, clique aqui.

9 comentários:

Júlia disse...

Hahahaha... Eu estava precisando de umas boas gargalhadas!

Pra variar, adorei! (:

Gustavo disse...

Ótima história,que fortuna encontrar esse blog na imensidão da internet!

mami disse...

Dani, nada mais verdadeiro. Quem conhece as galerias Lafayette sabe como é difícil entrar e sair de lá. Ri muito.
Tenho certeza que ninguém sabe ao certo o que tem lá dentro. É um mundo a ser explorado.
Beijos, mami

Pápi disse...

Daniel, ao que fui informado (por você mesmo), segundo François Mitterrand, a melhor vista de Paris não é a do terraço das Galerias Lafayette, mas a do 56º andar da Torre Montparnasse, único lugar da cidade de onde não se vê a Torre Montparnasse. Como ficamos?

Chéri disse...

Olá a todos. Obrigado pelos comentários.

Papi, foi o Jacques Chirac que disse essa frase, se não me engano.

Andrea Hughes disse...

Muito bom Daniel,

texto delicioso, merci!

beijo procê, Charlotte e Louise

Anônimo disse...

Que maravilha encontrar esse blog! Estou amando ler suas crônicas. Estava falando pra minha amiga que acabou de me apresentar o blog que, eu também quando fui a Galerie Lafayette me perdi procurando o banheiro e, até hj acho que fui no banheiro dos funcionários...rs Parabéns pelos ótimos textos!

india disse...

Lindo!

Havacci disse...

Blog muito bom ! Fez o meu dia!