sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Pílulas

A menos de dez minutos a pé da minha casa tem seis livrarias e cento e vinte cafés (desde a última contagem, há quinze dias, mas é possível que já haja uns dois ou três novos). Isso é reflexo de um dos programas preferidos dos parisienses: abrir um livro em uma mesa de um café – na varanda, se o clima for favorável – e ficar ali horas a fio, lendo compenetradamente, pensando na vida.

Nesse mesmo perímetro tem também três farmácias, que são pequenas, fecham aos domingos e vendem... medicamentos. E apenas medicamentos.

Tô contando isso porque na semana passada visitei o Rio de Janeiro e, precisando comprar dois livros, dirigi-me à minha livraria preferida, a Letras & Expressões, em Ipanema. Um lugar que me acostumei a frequentar, pois era também um ponto de encontro, com uma casa de shows e um restaurante simpático.

Era. Porque agora virou farmácia. Ou melhor, vai virar, está em obras.

A drogaria que vai abrir no lugar da Letras & Expressões fica exatamente em frente a uma outra, enorme, e a cinco minutos a pé de outras noventa e três (ou já seriam noventa e quatro?). Essa região eu apelidei de "shopping da ziquizira", pois com tantas farmácias, funcionando dia e noite, você começa a se perguntar se é normal estar em boa saúde. Aí conclui que não. E entra em uma delas pra comprar um “remedinho pra curar essa coisa estranha que tá me dando hoje, sabe?”.

Então sai com um carregamento que “vai te fazer sentir melhor, seja lá o que você tenha, bastando tomar duas cápsulas desse aqui e três glóbulos daquele ali antes do jantar”. E já que está em uma farmácia brasileira, você aproveita para levar para casa duas coca-colas, uma lata de sorvete e três pacotes de biscoito de polvilho. Afinal, os shoppings da ziquizira espalhados por aí te vendem a cura, mas também a garantia da sua breve volta ao estabelecimento.

Ao dar de cara com a enorme placa que dizia “Em breve, para a sua comodidade, mais uma farmácia do grupo X”, fiquei pensando que ao invés de tantos comprimidos deveríamos era tomar mais pílulas literárias, de preferência sentados em um café por longas horas. Talvez assim livremos a cabeça desse tanto de doença que a gente adora inventar. Ou pelo menos, ao fim do livro, teremos uma boa história para contar.

4 comentários:

Sue Ellen disse...

como sempre, excelente texto!

Anônimo disse...

Eu sou uma "pharmacy addicted". Mas confesso que prefiro livrarias. Beijos!

Adriana Silva

Paula Rabacov disse...

a letras e expressôes do leblon também virou uma farmácia.....

Analuka disse...

Concordo completamente contigo, caríssimo: se, como sugeriu Baudelaire, nos embriagássemos mais de virtude, ou vinho, ou poesia, não precisaríamos destas "pílulas da felicidade" (ilusória, aliás), vendidas pelas drogarias...(o que enriquece os laboratórios de muitos países). Mais livros, mais literatura, mais arte, mais música, mais alegria, mais afeto!!!... e menos pílulas ou química para fazer dormir, sorrir ou sonhar...