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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Pimenta


Sylvain saiu correndo pelo Faubourg St. Antoine, entrou na GAP e subiu pro 2º andar da loja, parando na seção feminina. Pegou as três primeiras calcinhas que viu e desembestou pro caixa. Os trinta e quatro euros pagos pareceram no início uma gorda soma, mas depois, pensando melhor, deu-se conta de que era barato até demais.

Oitenta e dois, rue Pigalle, disse pro taxista. Por onde? Pelo céu, se puder, precisava estar lá dez minutos atrás.

O chofer fez um retorno proibido e arrancou decidido em direção ao Périph, o boulevard périphérique, anel que dá a volta na cidade e a separa dos seus subúrbios. Costurando mais torto do que madame com parkinson, ultrapassou um ônibus pela direita, tirou fina de dois ciclistas distraídos e já ia freando pro sinal recém-amarelado, quando o passageiro gritou não pára, não pára. Ele não parou e por isso aqui escapou de atropelar um casal que fazia jogging.

O passageiro não tinha a menor ideia do passado do seu motorista, cujo currículo na profissão mais parecia ficha policial, mas não estava gostando nem um pouco do presente e já começava a temer pelo futuro próximo, do qual fazia parte. Não precisa correr tanto, também não é o fim do mundo se eu chegar atrasado, falou já mudando de ideia.

Mas o outro nem escutou, tão concentrado estava em seus cálculos para ver se dava pra passar entre os dois caminhões que ocupavam simultaneamente as faixas da direita e da esquerda da pista, deixando apenas uma parte da central livre. Dá, ele disse. Dá sim, repetiu, eu vou.

Sylvain não teve tempo de gritar não vai passar, pois o taxista já tinha enfiado o carro naquele espaço mínimo e acelerado fundo, e se beliscou bem umas cinco vezes para acreditar que ainda estava ali. Os caminhoneiros não entenderam como não deu uma merda daquelas, pois tinha tudo pra dar.

Tem um pouco de trânsito ali na frente, vou pegar um atalho por uma rua pequena à esquerda, avisou o condutor, que tomou a falta de uma resposta por um sinal de positivo. Entrou e ignorou a faixa de pedestre, dando um baita susto em um careca de bigode e seu poodle, que já latia muito e passou a fazê-lo em dobro depois desse trauma.

Roendo a quarta unha seguida, o passageiro não conseguia articular nem pensamento, quanto mais palavras pra tentar conter o ímpeto de fórmula um daquele sujeito com sotaque estranho do banco da frente.

O sujeito com sotaque estranho do banco da frente passou à toda por dois cruzamentos sem nem piscar, agora imagina se ele olhou pro lado, e continuou a disparada rumo ao oitenta e dois, Rue Pigalle. Chegou e o passageiro sobressaltou quando olhou o relógio de ponteiro de cabeça pra baixo e achou por um segundo que tinha chegado antes da partida.

Quanto deu a corrida? Vinte e dois euros. Tá aqui vinte e cinco, pode guardar o troco. Obrigado. Aliviado por estar completamente inteiro, quis descobrir o nome do sujeito que ele não sabia se classificava como o pior ou o melhor piloto de táxi que já cruzara.

Raimundô Batistá.

De onde?

Brasil, Bahia, Salvador, com a graça de Deus e do Senhor do Bonfim.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Táxi! Táxi!


Quando morei no Rio de Janeiro, era comum pegar táxi. Além de ser barato, ainda havia uma diversão gratuita inclusa: o taxista.

Taxista no Rio sabe tudo sobre qualquer assunto. E, se não sabe, fala assim mesmo, com toda a propriedade, como um profundo conhecedor. Do tempo à situação econômica do país, não há tema que não possa ser abordado. Teve um que jurou ter levado o Parreira para o aeroporto.

- Eu dei uma bronca nele, por ter perdido a Copa do Mundo. Fiz isso em nome de todos os brasileiros. O Parreira precisava escutar umas verdades.

Da parte que me cabia, agradeci, mesmo duvidando da veracidade do fato. Mas quem é que procura a verdade numa conversa que dura apenas alguns quilômetros?

Em Paris peguei táxi poucas vezes. O suficiente para perceber que taxista é igual em qualquer lugar. Voltando de Montmartre, fiz sinal para um que passava. Parou.

- Bonsoir.
- Bonsoir. O senhor teve sorte de me encontrar. Normalmente não há muitos táxis a essa hora da noite.
- C'est vrai. Foi sorte mesmo.
- Desculpe perguntar, mas seu sotaque é diferente. De onde você é?
- Sou brasileiro.

O sujeito abriu um sorriso do tamanho do retrovisor.

- Eu amo a seleção brasileira. Adoro o time de 58, com Garrincha, Vavá, Zagallo, Nilton Santos...
- O de 70 foi o melhor de todos os tempos. Jairzinho era matador!
- E o de 82, que pena terem perdido. O Zico merecia ganhar uma copa.

O cidadão foi desfilando seu conhecimento enciclopédico sobre o futebol canarinho. Mesmo quando tínhamos chegado, ele não parava de falar.

- Ah, e fiquei sabendo que o Romário chegou aos mil gols. Só ele e o Pelé têm isso. A propósito, a corrida deu 10 euros.
- Merci monsieur.
- Merci à vous. E boa sorte pra sua seleção da próxima vez que enfrentar a França.

Em cinco meses na cidade, já perdi a conta de quantas vezes escutei essa brincadeira. Acabei desenvolvendo uma técnica para lidar com ela e encerrar o assunto.

- Cuidado que eu posso te dar uma cabeçada, viu?

O motorista recuou. Um segundo de silêncio, interrompido por uma gargalhada.

- Os brasileiros são mesmo muito divertidos.

Eu também ri, mas no fundo ele não imagina o risco que correu.

E se existe o chofer de praça que sabe tudo, existe também aquele que cria teorias mirabolantes. Conheci um desses ao voltar de uma festa de madrugada. Pra puxar assunto, ofereci um chiclete.

- Aceita?
- Não, obrigado. Não como açúcar e nem sal.
- Nada?
- Nada. Essas coisas fazem mal pro organismo.
- Mas você come os alimentos sem salgar?
- Sim. E vou te contar um segredo que poucas pessoas sabem: se você coloca um frango pra assar, sem água, sem sal, sem nada, no final ele sai de lá salgadinho.


Fiquei espantado.

- Como assim?
- É verdade, a carne do frango forma seu próprio sal.


Pensei em telefonar pra Sadia pra propor que abrissem uma fábrica de sal, sabor galinha. Queria mais detalhes.

- Quer dizer que você não tempera? Coloca no forno e pronto?
- Isso. Fica delicioso.

Resolvi dar corda pro sujeito. E o papo, que já era surreal, entrou em uma esfera quase mística.

- Aposto que o mesmo acontece com os peixes do mar.
- Aí que todo mundo se engana. Os peixes têm uma proteção que impede que o sal entre.
- Mas como os frangos formam sal e os peixes do mar não?
- Esse é o grande mistério...


Ele esticou a mão e me passou um cartão.

- Me liga se você solucionar essa questão. Podemos ganhar muito dinheiro juntos.

Eu não sei se achei mais estranha a teoria do cidadão ou o fato de ele pensar que pode ganhar dinheiro com isso. Mas de uma coisa eu sei: em matéria de taxistas, Paris não tá devendo nada ao Rio de Janeiro.