
Quando morei no Rio de Janeiro, era comum pegar táxi. Além de ser barato, ainda havia uma diversão gratuita inclusa: o taxista.
Taxista no Rio sabe tudo sobre qualquer assunto. E, se não sabe, fala assim mesmo, com toda a propriedade, como um profundo conhecedor. Do tempo à situação econômica do país, não há tema que não possa ser abordado. Teve um que jurou ter levado o Parreira para o aeroporto.
- Eu dei uma bronca nele, por ter perdido a Copa do Mundo. Fiz isso em nome de todos os brasileiros. O Parreira precisava escutar umas verdades.
Da parte que me cabia, agradeci, mesmo duvidando da veracidade do fato. Mas quem é que procura a verdade numa conversa que dura apenas alguns quilômetros?
Em Paris peguei táxi poucas vezes. O suficiente para perceber que taxista é igual em qualquer lugar. Voltando de Montmartre, fiz sinal para um que passava. Parou.
- Bonsoir.
- Bonsoir. O senhor teve sorte de me encontrar. Normalmente não há muitos táxis a essa hora da noite.
- C'est vrai. Foi sorte mesmo.
- Desculpe perguntar, mas seu sotaque é diferente. De onde você é?
- Sou brasileiro.
O sujeito abriu um sorriso do tamanho do retrovisor.
- Eu amo a seleção brasileira. Adoro o time de 58, com Garrincha, Vavá, Zagallo, Nilton Santos...
- O de 70 foi o melhor de todos os tempos. Jairzinho era matador!
- E o de 82, que pena terem perdido. O Zico merecia ganhar uma copa.
O cidadão foi desfilando seu conhecimento enciclopédico sobre o futebol canarinho. Mesmo quando tínhamos chegado, ele não parava de falar.
- Ah, e fiquei sabendo que o Romário chegou aos mil gols. Só ele e o Pelé têm isso. A propósito, a corrida deu 10 euros.
- Merci monsieur.
- Merci à vous. E boa sorte pra sua seleção da próxima vez que enfrentar a França.
Em cinco meses na cidade, já perdi a conta de quantas vezes escutei essa brincadeira. Acabei desenvolvendo uma técnica para lidar com ela e encerrar o assunto.
- Cuidado que eu posso te dar uma cabeçada, viu?
O motorista recuou. Um segundo de silêncio, interrompido por uma gargalhada.
- Os brasileiros são mesmo muito divertidos.
Eu também ri, mas no fundo ele não imagina o risco que correu.
E se existe o chofer de praça que sabe tudo, existe também aquele que cria teorias mirabolantes. Conheci um desses ao voltar de uma festa de madrugada. Pra puxar assunto, ofereci um chiclete.
- Aceita?
- Não, obrigado. Não como açúcar e nem sal.
- Nada?
- Nada. Essas coisas fazem mal pro organismo.
- Mas você come os alimentos sem salgar?
- Sim. E vou te contar um segredo que poucas pessoas sabem: se você coloca um frango pra assar, sem água, sem sal, sem nada, no final ele sai de lá salgadinho.
Fiquei espantado.
- Como assim?
- É verdade, a carne do frango forma seu próprio sal.
Pensei em telefonar pra Sadia pra propor que abrissem uma fábrica de sal, sabor galinha. Queria mais detalhes.
- Quer dizer que você não tempera? Coloca no forno e pronto?
- Isso. Fica delicioso.
Resolvi dar corda pro sujeito. E o papo, que já era surreal, entrou em uma esfera quase mística.
- Aposto que o mesmo acontece com os peixes do mar.
- Aí que todo mundo se engana. Os peixes têm uma proteção que impede que o sal entre.
- Mas como os frangos formam sal e os peixes do mar não?
- Esse é o grande mistério...
Ele esticou a mão e me passou um cartão.
- Me liga se você solucionar essa questão. Podemos ganhar muito dinheiro juntos.
Eu não sei se achei mais estranha a teoria do cidadão ou o fato de ele pensar que pode ganhar dinheiro com isso. Mas de uma coisa eu sei: em matéria de taxistas, Paris não tá devendo nada ao Rio de Janeiro.
