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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Teses musicais 6 - Hamilton das Cévennes


Esse é o último texto da série “teses musicais”, pois finalmente terminei de escrever o mémoire do mestrado (ueba!). É uma crônica feita há 3 semanas, no estilo “redija durante uma música”, quando ainda estava na linda região das Cévennes, no sudoeste francês.

Aperta o play aí.



Lugar paradisíaco esse da foto ao lado. Faz bem uma pausa na tese, para respirar, dar um mergulho e esfriar a cabeça. Quando eu digo esfriar, não é força da expressão. A água estava a 15ºC!

01 byte 10 cordas é o nome da música e de um disco de Hamilton de Holanda. Escute-a com atenção. Quantos instrumentistas tocam? Por incrível que pareça, um só. Esse álbum é o primeiro no mundo gravado com o bandolim de 10 cordas, que Hamilton mandou fabricar para poder fazer acompanhamento e solo ao mesmo tempo. Consagrado no Brasil, ele é amado na França, onde a imprensa o apelidou de “príncipe do bandolim”. A revista Bravo! não quis ficar atrás e o promoveu “de príncipe a rei”. Nos Estados Unidos, a comparação é com Jimi Hendrix. Segundo os críticos, o músico brasiliense (tá, nasceu no Rio, mas cresceu em Brasília, minha cidade) promove a maior revolução no instrumento desde Jacob.

O céu aqui está de um azul incrível, e faz um belo contraste com a vegetação impressionantemente verde das Cévennes. No inverno, imagino, tudo deve ficar na mais alva brancura. Será que esse riacho congela? Dá (quase) vontade de vir ver. Ao meu lado, Louise cochila na sua tenda. Ela cresceu – a Louise, não a tenda. Eu sou capaz de ficar o dia inteiro olhando pra ela, pra não perder um só instante das rápidas mudanças pelas quais ela passa.

Os jornalistas franceses tem uma certa dificuldade em definir a música de Hamilton de Holanda. Pra eles é choro, apesar de o bandolinista ter ultrapassado as fronteiras desse gênero há muito tempo. E o pepino pra imprensa aumenta na hora de explicar o instrumento que ele usa, "uma versão brasileira do velho mandolim europeu, ao qual ele acrescentou um par de cordas". Parte da culpa disso é da grande produtividade do músico, que lançou quinze discos em treze anos de carreira, sempre olhando pro futuro. Ele mesmo diz que precisa “fazer evoluir as formas tradicionais em direção à modernidade, pois quem anda pra trás é caranguejo”.

Quanto a mim, esticado numa cadeira de praia mas longe do mar, observando o riacho, suas pedras e a pequena barragem, fico pensando que essa música poderia durar um pouco mais, pois assim que ela terminar eu vou dar o mergulho diário nessa água gélida e retornar à minha tese. Daqui a alguns dias volto pra Paris. É bom ir pra casa, mas nesse momento gostaria de ficar um pouco mais por aqui. Gostaria que o verão durasse pra sempre.



Aproveito pra colocar aqui a música Bandolim, que o meu irmão, Pedro Cariello, compôs em homenagem ao Hamilton de Holanda, seu amigo de escola. Foi gravada pelo grupo Batucada de Bamba, do qual ele fazia parte, e tem participação do próprio Hamilton.




Leia os outros textos das teses musicais:

. Baden Powell
. Villa-Lobos
. Hamilton de Holanda
. Rolling Stones
. Orfeu Negro