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sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Como falar francês sem falar francês II - Provérbios


Segundo a Wikipedia, um provérbio é "uma sentença de caráter prático e popular, que expressa em forma sucinta, e não raramente figurativa, uma idéia ou pensamento."

É verdade que é complicado traduzir provérbios. Ainda mais incluí-los no meio de uma conversa em outra língua. Mas se você seguiu as dicas anteriores, já está apto a empregá-los e, com isso, dar um novo passo rumo ao domínio do idioma de Victor Hugo.

Para ilustrar o emprego dessas pérolas vertidas do português, criei algumas situações hipotéticas, mas bem reais: uma paquera no meio de uma balada, uma fofoca sobre a vida dos outros e uma ida ao restaurante.

Mais uma vez, você não precisa falar francês. Mas como a lição é mais avançada, é necessário que você entenda um pouco do que estão falando. Lembre-se que a sua comunicação será feita apenas por provérbios, o que lhe dará um status de semi-intelectual, muito valorizado na França. Por isso é fundamental decorar bem cada uma das frases a seguir.

É importante frisar que os exemplos aqui descritos podem - e devem - ser utilizados em outras oportunidades. Experimente e descubra novas maneiras de empregá-los.


Cantando a gatinha


Essa lição pode ser empregada em uma festa, uma boate, um bar ou em qualquer outro agito. Para valorizar mais o seu ar intelectual, tenha sempre um copo de vinho na mão. E solte as frases quase ao pé do ouvido do seu alvo.

- Bon soir.
- Bon soir.


Quebrado o gelo inicial, chega a hora da verdade. De dizer aquela frase mágica, capaz de mover o mundo. De encantá-la com todo o seu conhecimento do francês e do universo feminino.

- Tu sais que chaque pot à son couvercle? (Você sabe que cada panela tem sua tampa?)
- Pardon?
- Je te dire que tu es la belle fille dont maman a toujours revée.
(Tô te dizendo que você é a nora que mamãe pediu a Deus.)
- Você acha que essa conversa mole me convence?
- Bah oui... Qui ne pleure pas, ne tete pas.
(Acho. Quem não chora não mama.)

Agora tem duas possibilidades. A primeira, mais provável, é ela não gostar muito.

- Que grosseria!
- Je le savais. Le pain du pauvre tombe toujours du côté du beurre...
(Eu sabia. Pão de pobre cai sempre com a manteiga para baixo...)

A outra é ela rir e cair no seu papo-aranha.

- Gostei do seu bom humor. Vamos tomar alguma coisa em outro lugar?

E você solta o grand finale. Depois, contenha-se para não abrir mais a boca e não estragar tudo.

- Oui! C'est l'heure de la panthère boire de l'eau. (Vamos! Chegou a hora de a onça beber água).


Falando da vida dos outros

Não é só no Brasil que a fofoca é um esporte nacional. Falar da vida dos outros é uma atividade praticada nos quatro cantos do mundo. E nada como uma boa festa para botar esse velho hábito em dia. Pode até ser a mesma citada acima, na qual você tentou azarar - sem sucesso - a menina.

O procedimento consiste em chegar de mansinho em uma roda onde haja conhecidos. É batata: logo alguém vai contar um episódio de corno.

- Eu não acredito o Jacques traía a Florence há tanto tempo.
- Moi non plus. Mais trahir et gratter ce n'est que commencer.
(Eu também não. Mas trair e coçar é só começar).
- Todo mundo sabia, menos a pobre coitada.
- C'est comme ça... le cocu est toujours le dernier à savoir.
(É assim... o corno é sempre o último a saber).
- Ele falou que está pensando em separação.
- Mieux vaut être seul que mal accompagné.
(Antes só do que mal acompanhado).

Agora cuidado! As pessoas vão começar a prestar atenção no que você está falando. É a hora de preparar a saída estratégica, antes que você tenha que entrar em conversas mais profundas.

- Ela ainda vai se arrepender disso.
- Oui. Un jour de la chasse, l'autre du chasseur.
(Vai sim. Um dia é da caça, o outro é do caçador).

Certamente alguém vai se dirigir a você.

- E você, o que acha disso tudo?
- Moi?
- Sim, você.


Pausa dramática. Respire fundo.

- Qui se marie ne pense pas. Et qui pense ne se marie pas.
(Quem casa não pensa. E quem pensa não casa.)

Hora da retirada.


No restaurante

Em Paris, no verão, conseguir uma mesa na varanda pode ser uma tarefa difícil. Mas você vê uma vazia, que pega exatamente aquele solzinho bom. Nada mais natural do que sentar-se ali. Depois de 5 minutos, acomodado, pedido já feito, descobre que a mesa estava ocupada. Quem estava ali antes tinha apenas ido ao banheiro.

- Monsieur, eu estava aí.
- C'est dommage mais qui va à la chasse perd sa place.
(É uma pena, mas quem vai ao ar perde o lugar).
- Eu gostaria de pegar meu lugar de volta.
- Il faut mieux sortir le petit cheval de la pluie.
(É melhor tirar o cavalinho da chuva).
- Eu só tinha ido ao banheiro.
- Je vois... Mais l'excuse d'handicapés est une béquille.
(Sei... Mas desculpa de aleijado é muleta).
- Olha, estou ficando nervoso!

Aí você faz cara de impaciente e bate na mesa.

- Moi aussi. Le cobra va fumer! (Eu também. A cobra vai fumar!)

Reze para que nessa hora a "turma do deixa disso" resolva agir para impedir que a confusão aumente. Ou então para que o antigo ocupante desista de vez da mesa.

- Chega. Vou procurar outro lugar.
- Oui. Chaque singe sur sa branche.
(Isso. Cada macaco no seu galho)

Quando o sujeito estiver saindo, solte a última.

- Attention! Pour mourrir il suffit de vivre.
(Cuidado! Para morrer basta estar vivo).

Pronto! O lugar é seu e o cara não vai mais te incomodar.


Viu como é fácil? Com um pouco de treino você vai soltar provérbios e pensamentos com a maior naturalidade do mundo, causando espanto em todos ao redor.


Colaboraram: Henriette Gallo e Constance Boutrolle

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Como falar francês sem falar francês


Quando cheguei a Paris meu francês não era grandes coisas. E mesmo quando não entendia o que falavam, sempre mantive a pose de totalmente fluente, fruto de algumas técnicas que desenvolvi.

É verdade que existem livrinhos de consulta rápida com frases prontas em diversas línguas. Normalmente divididos por temas, como 'chegando na cidade', 'saindo pra jantar' ou 'pedindo informações', são ótima opção para garantir ao menos uma comunicação básica.

Mas se o que você quer é fazer todos acreditarem que você aprendeu francês na Sorbonne, anote as dicas a seguir. Para ser tão didático quanto o Monsieur Gérard, dividi os ensinamentos em capítulos.


Cinq minutes de merde

O que é

A primeira técnica, batizada de "Cinq Minutes de Merde", foi criada por causa de um fato estranho que acontecia comigo. Mesmo que o assunto fosse fácil e as pessoas não falassem muito rápido, eu demorava cinco minutos pra dar um boot no meu sistema operacional interno e ajustar o cérebro à conversa. Era como um rádio meio fora da estação, onde você pesca algumas palavras mas não consegue entender o contexto.

O que fazer

Primeiro, fique com um leve sorriso na cara o tempo todo. Dá um ar de quem está por dentro do assunto. Mas não exagere, pra não ter expressão de idiota. Olhe para quem está falando, mas não muito, pois ele pode te pedir uma opinião. O ideal é balançar um pouco a cabeça e ficar atento às outras pessoas da roda. Se elas rirem, ria também. Se fizerem cara de espanto, coçe o queixo.

Quando entender um pouco, solte um "je vois" ou um "oui" de tempos em tempos. São os equivalentes ao nosso "sei, sei...", que não quer dizer nada, mas diz tudo.

Mas quanto boiar completamente, marque um ponto no horizonte e fixe o olhar. Se te perguntarem alguma coisa, arregale os olhos e repita a seguinte frase: "pardon, j'ai été inattentif". Em bom português, "desculpa, estava desatento". Mas NUNCA peça pra repetir. É o momento ideal de procurar o banheiro.


Faisant des ronds dans l'espace

O que é

É o tradicional circular pelo ambiente. Técnica fundamental, pois ninguém te pega no canto pra tentar desenvolver uma conversa. Se for uma festa é mais fácil. Mas se for uma mesa de bar o problema é maior.

O que fazer

Há duas possibilidades para essa situação: ambientes onde você pode e onde você não pode se locomover.

Na primeira categoria encaixam-se festas, aperitivos, recepções e afins. É moleza se livrar. Basta circular com um copo quase vazio na mão. Quando alguém se aproximar, antecipe o passo e pergunte se ainda tem vinho. A frase-chave é "il y a encore du vin?". Sirva-se e depois dê o sumiço. Claro que você pode trocar pela sua bebida preferida. Um rápido guia de referência: cerveja é bière, água é eau e coca é coca mesmo.

A segunda possibilidade é mais complicada, e ocorre em jantares, mesas de bar e ocasiões onde todo mundo fica sentado. Torça para ninguém te perguntar nada. E quando houver uma pausa na conversa, lance você um assunto. Aliás, lance e em seguida vá ao banheiro. O banheiro é fundamental em todas as situações descritas aqui. É lá que você vai se refugiar por alguns preciosos minutos. O tempo suficiente para que se esqueçam um pouco da sua presença. Mais detalhes sobre lançar um assunto no capítulo seguinte.


En disant des courgettes

O que é

Conhecida em português como "falando abobrinhas", é uma técnica avançada, para aqueles que já têm ao menos uma pequena noção de francês. Consiste em preparar alguns tópicos para usar no momento certo.

O que fazer

Se você souber que vai sair, separe 30 minutos do seu dia para buscar umas palavras no dicionário e organizar um ou dois temas com os quais você tenha familiaridade. Uma boa dica é falar de futebol, pois eles não perdem a chance de se vangloriar em cima dos brasileiros, e você não precisará dizer muita coisa. Frases fundamentais: "C'est vrai, mais le Brésil est cinq fois champion du monde" (é verdade, mas o Brasil é cinco vezes campeão do mundo) e "Pelé a marqué plus de mille buts. Et Zidane?" (Pelé marcou mais de mil gols. E o Zidane?). Solte na hora em que você desconfiar que todo mundo está falando das derrotas de 1998 e 2006.

Um outro tema interessante é caipirinha. Os franceses adoram a bebida. Se algum deles não provou ainda, certamente conhece alguém que já o fez e contou maravilhas a respeito. Boa pra soltar ali pelo meio da noite, quando o nível alcóolico das pessoas deverá estar mais elevado. Frases fundamentais: "J'aime bien boire de la caipirinha sur la plage d'Ipanema" (eu adoro tomar caipirinha na praia de Ipanema) e, se você for do tipo polêmico, solte uma "la caipirinha c'est mieux que le vin" (a caipirinha é melhor do que o vinho). Mas aí você vai precisar estar preparado pra responder.


Com essas técnicas, aplicadas nas horas certas, posso garantir que seu francês será elogiado por todos. Quando isso acontecer, faça um ar meio blasé e tenha outra frase na ponta da língua: "merci beaucoup, mais j'espere que la prochaine fois on parlera en portugais" (muito obrigado, mas tomara que da próxima vez a gente converse em português). E saia.