sexta-feira, 13 de junho de 2008

Arigatô, monsieur

Em Paris:

. No bairro chinês tem muito mais pessoas vindo do Camboja ou do Vietnã do que da China.
. Apesar disso, todos os letreiros de lojas estão em chinês. Ou talvez não estejam, já que não consigo ler mesmo.
. Lá existe um grande supermercado chamado Irmãos Tang, onde há picanha brasileira, mas não há um só saquinho do suco em pó Tang.
. Os chineses gostam tanto de Paris que construíram uma réplica da cidade no subúrbio de Xangai.
. Eu já comprei café cambojano.
. E feijão japonês.
. E sorvete vietnamita.
. E mala chinesa, que estragou com um mês de uso.
. Em restaurantes vietnamitas há a foto de Ho Chi Mihn. Mas em restaurantes chineses não há a de Mao Tsé-Tung.
. Dos restaurantes japoneses, 90% são comandados por chineses. São japoneses Made in China.
. Já vi pizza no menu de um restaurante tailandês.
. Aliás, há tantos motoboys entregadores de sushi quanto de pizza.
. No Palácio de Tóquio, raramente há um japonês.
. Talvez porque grande parte deles esteja diariamente em frente à Mona Lisa.
. Uma vez presenciei um casamento coletivo chinês embaixo da Torre Eiffel, reunindo 10 casais.
. No bairro chinês tem um McDonalds com cardápio em chinês. Ou em japonês, sei lá.
. Já vi cartaz de uma ópera coreana.
. No meu curso de francês tinha uma coreana que a professora chamava sempre de japonesa.
. Apesar de ter sido criado por um japonês, o Miojo e seus derivados são chamados aqui de "macarrão chinês".
. O bairro chinês, na verdade, fica na Praça da Itália.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Uma volta pelo Marché d'Aligre

Domingo de manhã. Bom, "de manhã" é só força de expressão, pois já devia ser quase meio-dia. Saí do prédio. Dei como sempre um alô pro Omar, dono do bar da frente. Ele retribuiu, como sempre. Edith, que não trabalha com ele mas vive dando uma força, escrevia o menu do dia: cuscuz marroquino. Na varanda do bar, um grupo se esforçava para tocar clássicos do rock apenas com instrumentos de sopro e bateria. Massacraram Smoke On The Water e Born To Be Wild, mas saíram-se um pouco melhor em Billie Jean, principalmente quando o saxofonista tentou fazer aquela andada pra trás do Michael Jackson e quase derrubou uma velhinha desavisada que passava. Deixei um euro no chapéu, mais pela performance cênica do que pela musical.

Vinda da padaria, Edith chegou ao meu lado carregada de baguetes. Ela está em tanto lugar ao mesmo tempo que eu seria capaz de jurar que tem umas duas ou três irmãs gêmeas. Disse que estava super apressada e não podia conversar muito, mas não conseguiu ir embora antes de uns bons 20 minutos de papo. Falou do vizinho que jogou uma bacia de gordura quente pela janela, de um jantar em comemoração aos 40 anos de maio de 68, das cadeiras que comprou numa loja e vieram com defeito e da meteorologia dos próximos dias. "Separa o guarda-chuva, vai chover muito". Anotei o conselho.

Fui subindo a Rue d'Aligre, desviando das pessoas. No fim de semana tem o dobro de gente. Talvez o triplo. Entrei na fila do fromager, o vendedor de queijos. Um cheiro forte surgiu do nada, e achei que o sujeito na minha frente talvez precisasse ir ao banheiro. Olhei pra ele, incomodado com a suposta falta de educação. Mas o mistério foi resolvido quando a atendente entregou um pacote com um gordo pedaço de camembert a uma senhora que passeava com o seu exemplar canino ao lado. Foram os três, a senhora, o cachorro e o camembert, feder longe dali.

Mais na frente, um feirante tentou me empurrar uma abóbora já meio velha. Um outro ofereceu tomates orgânicos. Desviei do sujeito que vende pêssegos espanhóis. São boas suas frutas, mas ele não deixa a gente escolher. Compro ao lado, e faço questão que ele veja. Confesso que agora, escrevendo sobre isso, acho uma atitude meio idiota. Mas vou agir da mesma maneira quando for lá de novo, tenho certeza. Perto tem o chato da banana, que grita "banana" o dia inteiro, das mais variadas maneiras. Faz poesias com o nome da fruta, canta usando uma como microfone, grita fino, grita grosso e até sapateia. Tudo pra vender bananas. Eu o elegi como uma variante francesa do cara do abacaxi da praia de Ipanema, um dos mais conhecidos chatos do Rio de Janeiro.

Tem uma pedinte que todo dia me aborda. Já me disseram que ela rouba carteiras dos mais desavisados. Não sei se é verdade, mas ao passar por ela sempre confiro os bolsos. Nesse dia senti falta de 10 euros e quase voltei pra falar com ela, mas aí lembrei-me que tinha gasto em cerveja na noite anterior, o que explicava também a minha dor de cabeça. Por auto-penitência, resolvi dar uma esmola dessa vez. Pensei em 50 centavos, mas a primeira moeda que veio era de 10. Tava bom.

A descabelada da salada estava no seu posto, acompanhada pela mãe, que também parece não ver um pente há algumas décadas. As duas contrastam enormemente com as alfaces e rúculas impecáveis que oferecem aos clientes. Um pouco mais à frente, outra dupla mãe-e-filha vendia flores. Um dia desses peguei uma discussão braba entre as duas, sobre o tamanho máximo que uma samambaia atinge.

Passei ainda no vendedor de café. Ele tem cafés do mundo inteiro: da Índia, do Brasil, da Colômbia, da Guatemala, da Itália. Cada vez eu compro um diferente, moído na hora. Dizem que café é bom para a memória. Mas no caso dele eu tenho minhas dúvidas, pois vou lá toda semana e ele parece nunca se lembrar de mim. Ou talvez finja, pois sempre chego com um pacote de atum ou salmão, comprado na peixaria ao lado. E café e peixe não fazem lá a melhor combinação, principalmente para os negócios do rapaz, imagino. Fim da feira, meia-volta.

No caminho pra casa, um velho tocava "Chorando Se Foi" no realejo. Essa mesma que você está pensando. O hino da lambada, que virou música de brinquedo de criança na França e buzina de ônibus no Senegal. Eu vi. Ou melhor, ouvi. Ao seu lado, a polícia municipal observava o movimento, enquanto militantes de esquerda distribuíam panfletos de mais uma manifestação anti-Sarkozy. Com a ajuda da Edith, claro.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Pequenos espaços, grandes problemas

Julien Drouot não acreditou quando o cara da tevê anunciou o seu nome, e sacudiu Annie, que dormia ao lado.

- Eu ganhei. Ganhei, Annie. É minha!
- Ganhou o quê, Julien?
- A televisão de 150 polegadas, tela plana, totalmente digital, som estéreo futurista e disco rígido interno. Tem até despertador automático, com uma imagem holográfica do Charles Aznavour cantando La Bohème na nossa própria sala. Uma maravilha tecnológica.
- Que história é essa?
- Eles fizeram uma pergunta, e aí escolheram a resposta mais criativa.
- Que pergunta?
- "Qual a diferença entre a mulher e a televisão?"
- E o que você respondeu?
- O controle remoto!
- Você continua de uma finesse sem par, Julien. Mas me diga então onde vamos colocar essa outra tevê. Não vai caber nos nossos quinze metros quadrados.
- São dezesseis e meio, Annie. E eu já pensei em tudo. A gente pode botá-la no lugar daquele objeto marrom ali na parede, que eu nem sei bem pra que serve.
- Aquele objeto marrom ali na parede é o armário de louça. E você não sabe pra que serve porque nunca lavou um só copo na vida.
- Não é verdade. Semana passada eu lavei dois. Tá certo que um deles escorregou e quebrou, mas o outro ficou inteirinho.
- Foi por essas e outras que ontem comprei um lava-louças.
- Um lava-louças? E em que lugar vamos pôr esse monstro?
- Não se preocupe, Julien. Minha mãe vai ajudar a organizar tudo.
- Sua mãe?
- Ela chega na quinta.
- Agora são dois monstros...
- Dessa vez não fica muito tempo não, só um mês.
- Um mês?
- Chato, né? Eu também queria que fosse mais, mas ela disse que não gosta de incomodar.
- Por mim, tudo bem. Só que a velha vai ter que dividir o sofá com o Clement Diderot, que vem passar uma semana em Paris e pediu pra dormir aqui em casa.
- Clement Diderot, o gordo roncador?
- O próprio. Ele vem defender o título do Campeonato Francês de Arroto.
- Ele é asqueroso! Minha mãe não vai agüentar ficar aqui.
- Olha que sorte: eu conheço um hotel baratinho e super limpo a quatorze estações de metrô daqui. Quinze, talvez. Ela vai adorar.
- Você nunca fica feliz quando minha mãe vem.
- Não é verdade. Ela diz coisas que eu adoro.
- Jura?
- Claro.
- O quê?
- "Estou indo embora", por exemplo.
- Julien, você é um grande cretino.
- Annie, você é uma chata de galochas.
- Amanhã me mudo pra casa da minha amiga Marie.
- Não precisa se incomodar. Vou agora mesmo pro apartamento do Pierre. Sábado passo pra pegar minhas coisas.
- Aproveita e leva as suas cuecas furadas, que só entopem as gavetas.
- Pode deixar. Assim você vai ter mais espaço pra todos aqueles tubos e potes de pastas e pomadas.
- Saiba que são cremes de beleza caríssimos.
- E por que não funcionam?
- Suma!
- Fui.

Julien sai e bate a porta. Mas volta minutos depois, com a voz doce e um sorriso no rosto, e entrega um bilhete à Annie. Ela sorri também.

- Annie, pensei bem e tenho uma coisa super importante pra te dizer.
- Diga, mon amour.
- Você pode mandar a televisão nova pra esse endereço aqui?

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Um quadro, três histórias

Jean Novion, francês no nome, argentino na nacionalidade e brasileiro no local de nascimento, visitou o Louvre em 1996, antes que O Código da Vinci transformasse o célebre museu em filial da Disneylândia e a Mona Lisa em uma espécie de "New Mickey". Não era o frenesi que é hoje, mas milhares de pessoas já se acotovelavam diariamente em frente ao quadro, muito mais para tirar fotos dele do que para realmente observá-lo. Isso apesar de uma placa em letras garrafais prevenir em diversas línguas que "é proibido fotografar".

Mas vai tentar controlar 200 japoneses e seus aparelhos.

Pois bem, Jean seguiu as indicações e chegou, junto com a delegação asiática, à pintura mais famosa do mundo. Estranhou o tamanho.

- É aquela titica ali?

Verdadeiros samurais modernos, munidos de máquinas fotográficas ao invés de espadas, os japoneses não se importaram com as dimensões da obra e nem com o aviso, e saíram clicando em uma velocidade digna de Guiness. Do livro dos recordes, claro, não da cerveja.

Só que a Mona Lisa é o único quadro do Louvre com um guarda de plantão ao lado. Um carinha pago para dar esporro, que fica lá o dia inteiro. E ao ver metade de Tóquio dentro da sala, ele tratou de iniciar uma sessão de bronca multilíngüe.

- Pas de photos! No photos! Sem fotos! いいえ写真!

Gesto imediato, os japoneses viraram-se todos para o sujeito e, de forma sincronizada, dispararam centenas de flashes em sua direção. Aproveitando o momento de cegueira do rapaz, voltaram-se novamente para La Gioconda e bateram mais trocentas fotos. Satisfeitos, viraram-se e foram embora, com aquele sorriso Made in Japan.

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Ronald Walker, ex-punk, nascido na Inglaterra, quase trinta anos de Brasil, aproveitou uma viagem à França e deu uma passada no Louvre. Chegando à sala onde a Mona Lisa repousa, ou tenta repousar, ficou de costas para a obra.

- Não vou olhar.
- Tá doido?
- Não vou.
- Por quê?
- Quero ser o primeiro a vir aqui e não ver o quadro.
- É a Mona Lisa, tem que ver.
- Tem que ver por quê?
- Porque tem. Saiu em livro.
- Não li.
- E em filme.
- O unico cinema verdadeiro é o turco, legendado em aramaico.
- Tá em milhares de camisetas.
- Só uso camiseta do Sex Pistols, de preferência com uns dois ou três furos.
- Tem música que fala dela.
- Se os Ramones não gravaram, não presta.
- Você é chato, hein? Vamos nessa.
- Peraí, peraí. Vamos fazer o seguinte: eu vou olhar de relance, mas você não conta pra ninguém, viu?
- Combinado! Não abro o bico.

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Asdrúbal Inocêncio, cearense há 12 gerações, também conheceu a pintura de Da Vinci.

- Ô muié feia da peste, diabo!