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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Três vezes sete


Sete respostas para quando alguém perguntar "aquela é a torre Eiffel?"
1 . Não, é um poço de petróleo. A França também está investindo no pré-sal.
2 . De jeito nenhum. É o arco do triunfo. Não sei por que todo mundo insiste em trocar o nome dos dois.
3 . Hã? Aquilo não estava ali ontem. Corre, corre, antes que ela cresça ainda mais e pegue a gente.
4 . Você precisa saber de uma coisa. Não existe torre Eiffel, não existe Paris, não existe a França. Segundo a teoria espírita, o mundo material é o plano moderador do caráter individual. Traduzido para a linguagem dos nossos dias, isso significa que a cada segundo ídolos, torres, totens e McDonald's são criados e destruídos. Quanto a mim, prefiro meu McChicken com mais maionese, mesmo sabendo que corro o risco de ter um enfarte. Mas, pensando bem, McChicken, maionese, enfarte e gols do Zidane são coisas que só existem na sua cabeça. Fui claro?
5. Torre Eiffel? Não é o Coliseu? Não estamos em Roma? Vou matar aquele agente de viagens.
6. Você pode chamá-la de torre Eiffel. Eu a chamo de Marta. Assim, só porque é mais bonitinho.
7. Rapaz, não é que é ela mesmo? Como é que eu nunca tinha visto?

Sete desculpas para não ir novamente ao Louvre e ver as mesmas obras de sempre, dessa vez acompanhando um cunhado do seu primo que está de passagem por Paris.
1. Minha religião proíbe visita a museus que mostram coisas velhas.
2. Não gosto de japoneses.
3. Putz, tô com uma gripe A lascada hoje.
4. Mona Lisa? Maior baranga. Investe a grana da entrada na última Playboy.
5. Quem precisa do Louvre quando se tem o Dicão? Não conhece o Dicão? Claro, claro, o nome dele é Argemiro das Dores Fortes. Conhece agora? Não? É um amigo meu, e ele tem um conhecimento tão grande sobre tudo que a turma do Biruta passou a chamá-lo de Dicionário. Depois virou Diciozão e, agora, Dicão. Pensando bem, acho que nunca te falei na turma do Biruta, um pessoal que frequentava o Bar do Biruta, lá perto de casa. Olha, acho que vou ao museu com você sim. Aí posso te contar em detalhes a história do Dicão, da turma do Biruta e da Margarida, de quem ainda não falei. Tem conversa pra uma semana aí. Desistiu de ir? Mas por quê?
6. Eu ia te propor exatamente de irmos lá hoje, mas acabei de receber uma ligação e vou ter que viajar às pressas pro Longequistão. Mó pena...
7. Não ficou sabendo? Ainda ontem transferiram o Louvre inteirinho pra Catolé do Rocha, na Paraíba.

Sete comidas exóticas francesas
1. Escargot
2. Carne moída de cavalo
3. Foie gras
4. Gafanhotos fritos
5. Linguiça de sangue
6. Coxas de rã
7. Brigitte Bardot aos 70

sexta-feira, 14 de março de 2008

Roteiro de viagem

- Museu do Louvre.
- Ok.
- Catedral de Notre-Dame.
- Ok.
- Jardim de Luxemburgo.
- Ok.
- Sacré Coeur, em Montmartre.
- Ok.
- Bastilha.
- Ok.
- Arco do Triunfo.
- Ok.
- Les Invalides.
- Ok.
- Torre Eiffel.
- Essa não.
- Não?
- Não!
- Não quer visitar a Torre Eiffel?
- Quero não.
- Mas todo mundo que vai a Paris visita.
- Pois eu vou ser o primeiro a não ir.
- Por quê?
- Porque não quero. Ponto.
- Mas já tem mais de 100 anos que é um dos principais símbolos da cidade.
- Mais um motivo pra não ir. Vai que esse monte de arame despenca.
- Não vai cair. É um prodígio da engenharia da época.
- Pra mim é um monstro metálico. Sabia que os franceses não queriam que ela fosse erguida? Os artistas até fizeram manifestos contra sua construção.
- Mas agora ela está lá, e com um bando de artista em volta.
- Já não se fazem mais artistas como antigamente...
- Se quiser, você pode até subir.
- E esperar 3 horas na fila? Tá doido.
- Você não tem curiosidade de ver Paris de cima?
- Pra ver telhado eu vejo no Brasil.
- Ok, não precisamos subir. Mas passamos na frente.
- Pra quê?
- Se tiver sol, podemos fazer um pique-nique no Champs de Mars.
- Já disse que não vou. Você nunca ouviu aquela música que fala "você não vê a torre"?
- Mas você é chato, hein? A música é sobre a torre de Brasília.
- Pois se encaixa perfeitamente no caso.
- É sua última palavra?
- É.
- Bom, então a gente se encontra mais tarde, num café.
- Como assim?
- Eu vou.
- Vai?
- Claro que vou.
- Eu não.
- Já entendi.
- Mas, olha...
- Sim?
- Tá aqui minha câmera. Dá pra fazer umas duas ou três fotos pra mim?

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Ocupado


- Então a gente se encontra na loja de papéis na galeria do Louvre.
- Tô lá em meia hora.

Era simples. Só pegar o metrô aqui ao lado, descer na estação certa e andar alguns poucos metros. Como eu tinha tempo de sobra, resolvi saltar antes e caminhar. Assim estaria lá exatamente na hora marcada e ainda pegaria um pouco de sol no percurso. Sol que não deu muito as caras no verão parisiense.

Não existia possibilidade de dar errado. Mas deu.

Cheguei lá. Porta fechada. Todos os museus do mundo fecham na 2a feira. Só o Louvre na 3a. É verdade que até a Mona Lisa precisa descansar, mas na 3a feira, diabos? Diante do impasse, a opção mais lógica era telefonar e marcar outro ponto de encontro.

Como não tenho celular, fui procurar um orelhão. "O Louvre é um lugar turístico, então não vai ser difícil achar um por perto", pensei. Mas simplesmente não existe um ali pelas redondezas.

Sol na cabeça, andei como um peregrino até encontrar um simples telefone público. Entrei, saquei o cartão telefônico e disquei. Ao invés do habitual sinal de ligação completada, uma gravação estilo disco arranhado.

- O seu cartão perdeu a validade. Favor comprar outro. O seu cartão perdeu a validade. Favor comprar outro. O seu cartão perdeu...

Agora o óbvio passo seguinte era ligar a cobrar. E quem disse que na cabine está explicado como fazer? Tentei perguntar para a senhora ao lado.

- A senhora saberia como ligar a cobrar?


Ela abriu o olho, olhou-me de cima a baixo, segurou a bolsa com mais força e saiu em passo apertado, sem dizer nada. Faz parte da cultura brasileira empurrar a dívida. No país do fiado todo mundo liga a cobrar. Mas experimenta perguntar pra um parisiense se ele sabe fazer isso. A pobre senhora, vendo um cidadão suado falando um francês de 2a categoria, deve ter imaginado se tratar de uma nova modalidade de assalto importada dos trópicos. E deu no pé.

Eu já estava quase 30 minutos atrasado. Fui procurar uma loja de lembrancinhas pra turistas pra comprar um cartão novo.

- Não vendemos. Mas temos uma camiseta linda escrita "I Love Paris" na promoção.

Entrei em outra.

- Só temos miniaturas da Torre Eiffel. Quer?


Fui em uma terceira.

- Cartão telefônico? Não! Isso você só encontra em lojas de tabaco - riu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
- E o senhor sabe onde tem uma?
- Não faço idéia.


Depois de caminhar longos minutos feito um beduíno no deserto, com o sol castigando a moleira, avistei no horizonte o que parecia uma miragem: uma loja de tabaco. Entrei. Logo na porta, um painel do cigarro Camel, com um camelo sorridente piscando com o canto do olho. Senti que era uma provocação, mas minha pressa me impediu de ter uma reação mais enérgica. Comprei o que precisava e saí. Então me lembrei que precisava voltar pra aquele orelhão que ficou umas 20 linhas aí pra trás, e que eu não fazia mais idéia de onde ficava.

Deu vontade de sentar na calçada e chorar. Mas segui adiante na minha missão, pedindo ajuda ao inexplicável. Eis que ela aparece: virei a esquina e dei de cara com uma cabine de telefone. Entrei, liguei, marquei um novo ponto de encontro. Dessa vez consegui chegar, suado, cansado, quase duas horas atrasado e de péssimo humor.

- Nossa. Que cara é essa? Precisa de alguma coisa?
- De uma cerveja... E um celular.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

O filme que Fellini não fez


Recebi de uma amiga uma missão muito esquisita.

- Será que dá pra você comprar 10 miniaturas da Torre Eiffel pra mim? Daquela que acende e fica piscando. E não paga mais do que 3 euros em cada uma, viu?
- Pra que você quer 10 miniaturas da Torre Eiffel?


Não entendi bem o sentido da encomenda. Essas miniaturas são feias e sem graça. E, quando acende as luzes, fica ainda pior.

Mas já que topei fazer, aproveitei a vinda de uns amigos a Paris e fomos visitar a verdadeira Torre Eiffel. Lá, procurei um camelô ("camelô" não parece uma palavra francesa?) que vendesse o artefato. Encontrei um, que julguei ser paquistanês.

- Bonjour, monsieur.
- Bonjour.
- Quanto custa uma dessas?
- 7 euros.
- Tá caro.
- 6, só pra você.
- Não pago.
- 5, pra levar agora e virar freguês.


É incrível como papo de camelô é igual em todo lugar. Como é que eu vou virar freguês dele? Eu não costumo precisar de miniaturas como essas de forma muito freqüente.

- É o seguinte: eu pago 3 euros, mas quero 10 unidades.
- E pra que você quer 10 miniaturas da Torre Eiffel?


O cara olhou de lado, fez bico, coçou a cabeça e, por fim, chamou uns amigos que estavam por perto, tentando empurrar uns postais da Mona Lisa pra turistas endinheirados. Alguns desses postais eram meras reproduções do quadro. Outros, diferentes. O melhor era um dela com a língua de fora e olho arregalado, tipo Einstein.

Os ambulantes começaram a conversar. Enquanto o nosso novo brother explicava alguma coisa, os outros olhavam pra gente com uma cara muito estranha, provavelmente não acreditando que alguém podia pechinchar ali. Logo ali, um dos templos mundiais do turismo e do consumismo.

- D'accord. 10 torres por 30 euros.


Ele abriu a sacola. Só tinha 6 unidades. Chamou um outro, que tinha mais duas. E logo apareceu mais um com as que faltavam. Eu não tinha reparado, mas eles estavam juntos.

O sujeito me entregou todas, com uma cara não muito contente. Rapelamos o estoque de miniaturas da redondeza. Satisfeito, peguei o pacote e saímos andando. Um pouco atrás vieram dois amigos do nosso vendedor, no mesmo passo.

- Acho que eles estão seguindo a gente, alguém disse.

Paramos. Eles pararam. Fomos pro gramado. Eles foram.

- Será que querem as torres de volta?


Demos meia volta. Eles também voltaram e passaram mandando um beijinho. As caras deles, que já não eram as mais simpáticas, ficaram meio assustadoras.

O meu amigo sugeriu de montarmos rápido no primeiro táxi. Feito. Pedimos pro taxista se dirigir a Montparnasse e, só por segurança, subimos os vidros.

- Vocês são brasileiros, né?
- Como você sabe?
- Ninguém mais sobe os vidros aqui...


Aquilo tudo parecia muito surreal. A encomenda estranha, os paquistaneses, a negociação, a experiência genética Mona Lisa-Einstein, a perseguição, o beijinho. Já estava me perguntando se era real mesmo ou se eu imaginava tudo.

Minhas elocubrações foram interrompidas por outra questão do taxista.

- Sei que não é da minha conta. Mas pra que alguém precisa de 10 miniaturas da Torre Eiffel?
- Olha, eu também não sei. Mas depois de viver essa situação bizarra, eu acho que a minha amiga me deve pelo menos uma boa explicação. E bem real.