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sexta-feira, 15 de abril de 2011

En train de râler


Um casal parisiense sai atrasado de casa para pegar um trem na gare de Lyon.

- Cinco minutos, faltam cinco minutos.
- Não fala, corre!
- Tô correndo, tô correndo. Ufff.
- Merde!
- Que foi?
- Pisei num cocô de cachorro.
- Chegando no trem você limpa na cadeira no vizinho.
- Ele vai reclamar do cheiro.
- Do cheiro? Alô, estamos em Paris!
- Isso se a gente conseguir chegar. O trem sai pontualmente em quatro minutos.
- Putain! Tanta coisa pra copiar da Inglaterra, como o rock, o ônibus de dois andares e a Naomi Campbell, e a França copia essa maldita pontualidade.
- Podia ser pior. Podia copiar a família real, com o príncipe Charles incluso.
- O príncipe Charles tem seus méritos. É o único homem no mundo que teve uma amante com cara de esposa e uma esposa com cara de amante.
- Vamos parar de gracinha e apertar o passo, só temos três minutos agora.
- Não vai dar tempo, não vai dar.
- Se você reclamar menos a gente consegue correr mais.
- Se eu reclamar menos a minha existência perde o sentido.
- Allez, allez! Não vamos desistir, a estação está logo ali na frente.
- Quem falou em desistir? Se não pegarmos o trem pelo menos vou ter um motivo pra bater boca com a companhia ferroviária. Uma boa discussão pontuada por bufadas e palavrões bem colocados pode ser melhor do que uma viagem.
- Dois minutos!
- Tô vendo o trem, é aquele ali.
- Não. É o outro, mais longe.
- Corre!
- Tô correndo, só que tem fila pra entrar.
- Mais quelle bande de connards.
- Um minuto, falta um minuto!
- Fura a fila.
- Mas já tá cheio de gente furando.
- Até parece que você não é parisiense. Fura a fila dos que estão furando a fila, pela direita.
- Vamos lá.

- Conseguimos! Estamos no trem, sentados.
- Ufa...
- Mas e aí, essa carroça sai ou não sai? Ei, chauffeur, não temos o dia todo. Allez, allez!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

A trezentos quilômetros por hora

Paris, Gare du Nord, Eurostar em direção a Londres. O trem liga as capitais em duas horas e quinze minutos. Exatas. Britânicas. Pros franceses, o Eurostar é o TGV inglês. Pros ingleses, o TGV é que é o Eurostar francês. Pra mim não faz a menor diferença, e o impressionante é que ambos correm pacas. Trezentos quilômetros por hora. É quilômetro à beça. Só lamento que essa tecnologia toda tenha feito desaparecer pra sempre aqueles momentos heróicos quando o good guy, ou le gentil pros franceses, vem galopando alucinadamente e salta a bordo do trem já em movimento. Mas na verdade já tem um tempo que não se vê nas ruas alguém galopando alucinadamente.

A bordo, o comandante francês (não tem piloto em trem, então o cidadão no comando deve ser o comandante) dá as instruções nas duas línguas. Franceses adoram falar mal inglês. Eles fazem questão de pronunciar as palavras da pior maneira possível, no limite do compreensível.

- Leidís et gentlemêns, zis tram goes to londôn.

No banco à esquerda, uma menina lorinha e sardenta saca o celular e começa a tagarelar com alguém do outro lado da linha. Primeiro em francês, depois em inglês. E acaba por embaralhar as duas línguas. Ela fala alto, ri alto e quase chora alto, numa mistura de semi-catarse poliglota e terapia do desabafo, se isso lá existe.

O sujeito da frente, de bigodinho estilo malandro carioca anos 40, cordão de ouro no pescoço, bermuda e aquelas sandálias abomináveis que se fecham com velcro quase na altura da canela, também telefona, querendo passar a alguém o número de uma terceira pessoa. No meio da operação, a ligação cai, e ele solta um "merde". Tenta uma segunda vez, cai de novo, outro "merde". Empreende uma terceira investida e junto vem o terceiro "merde". Algo não cheira bem, literalmente. E de fato a senhora ao lado dele levanta-se em direção ao banheiro. Todos aqueles "merdes" a inspiraram, parece.

- Leidís et gentlemêns, zis tram is goíng to pass ze tunnél.

E a gente entra no túnel que passa por debaixo do Canal da Mancha. Uma obra impressionante. No meu bairrismo brasileiro, com aquela mania de querer ser o maior do mundo em tudo, questiono-me se ele é mais extenso do que o Rebouças, no Rio. E repito o desafio - contando agora me parece um pouco idiota - feito toda vez que atravesso o túnel carioca, mesmo se estou ao volante: prendo a respiração até o limite, para ver se saio do outro lado em um só fôlego. O máximo que consegui foi uma considerável quantidade de xingamentos, quando o carro já começava a ziguezaguear. Constato empiricamente que esse buracão que liga a Inglaterra à França (segundo franceses) ou a França à Inglaterra (segundo ingleses) é realmente mais extenso. Fato definitivamente comprovado ao ter minha vizinha me sacodindo após eu, já meio roxo em decorrência da apnéia, bater a cabeça no banco da frente pela 4a vez. Certas manias não se perde nunca.

- Laidís et gentlemêns, zere are two restaurants in zis tram: one at ze couche numbêr twelve et one at ze couche numbêr zeven.

Atrás, escuto uma voz feminina contando uma história qualquer a alguém, concluindo que "os três não vão chegar na hora, pois perderam o trem. Mas devem pegar o próximo". Cinco minutos depois, a mesma sujeita começa a repetir a mesma história à mesma companheira. Talvez esquecera algum detalhe. Talvez queira compartilhar a angústia com os outros cinquenta passageiros do vagão. Ou talvez seja só uma chata de galochas mesmo, possibilidade por mim imediatamente aceita como verdadeira. Incomoda esse pessoal que fala a mesma coisa várias vezes. Me exacerba, sabe?, quem reproduz o mesmo discurso infinitamente. Treco mais irritante é essa idéia de repetir para certificar-se de que a pessoa entendeu mesmo. E no auge da empolgação da supracitada dama, quando chegou à parte do "devem pegar o próximo trem", o comandante interrompe a programação normal para mais um anúncio.

- Laidís et gentlemêns, zis tram is arrivíng at ze Saint Pancras Statiôn. Ze local time is eití o'clock. Ave a gud night.

Yes, we'll ave. And zank you.