
Em Paris é assim: virou a esquina, trombou com uma equipe de cinema. Às vezes uma rua inteira fica isolada para uma filmagem. E enquanto os técnicos preparam o set, o diretor e o elenco aguardam tranquilões na van. De vez em quando vou bisbilhotar.
- Quem tá na van?
- Lesse Hallström.
- A cachorra?
- Não, o diretor sueco.
Não tenho o menor talento pra representar. Acredito que estaria facilmente entre os 4 ou 5 piores atores da história, talvez na frente apenas do cigano Igor (abraço pra ele) e do Maurício Mattar. Mas ainda assim às vezes me pego imaginando se com um papel adequado e bem dirigido eu não descobriria um talento escondido e viraria um desses fenômenos que já chegam arrepiando, faturando Cannes, Oscar, Berlim e o escambau.
Daí que outro dia tinha um pessoal filmando em frente à creche da Louise, no square Léo Ferré. Passei por eles na ida e na volta e parei um pouco pra observar. Fiquei uns bons 10 minutos, puxei uma conversa fiada com um dos produtores sobre a enorme quantidade de produções cinematográficas simultâneas em Paris e sobre o que era aquele filme.
- Basicamente é o encontro de uma francesa com um estrangeiro.
No dia seguinte, eles estavam outra vez lá, na mesma hora. Eu butuquei de novo.
- É pra pegar a mesma luz, me contou o produtor. Filmaremos aqui a semana inteira.
Toda manhã eu passava com a Louise e na volta fazia um aceno pro carinha, que já me reconhecia.
- Bonjour!
- Precisando de um sotaque brasileiro, tamos aí. Se já tem um estrangeiro, por que não dois?
Na sexta-feira era o último dia das filmagens. Preparei Louise no seu carrinho, coloquei meu sobretudo novo, estilo Sgt. Peppers, e deixei-a na creche. Na saída, levantei as abas do casaco, fazendo um gênero meio Gainsbourg dos trópicos, coloquei as mãos no bolso e atravessei tranquilamente o set de filmagem. Se fumasse, era a hora perfeita de acender um cigarro. Aquele produtor tinha nas mãos a chance entrar pra história como o revelador do meu dom de ator. O figurino já estava pronto. Bastava uma ou duas frases bem colocadas, com um sotaque sob medida, e eu chamaria imediatamente a atenção do universo cinematográfico.
Ele grita.
- Ô, brasileiro.
- Opa, eu?
- É, você.
- Diga aí.
- Dá pra acelerar o passo, s'il vous plaît? Estávamos filmando e como você entrou no meio vamos precisar refazer a cena.
- Ah, claro, respondi, tropeçando.
Esse texto faz parte da série "Autour de Paris", de crônicas dedicadas a cada um dos bairros da cidade. Para ler os outros, clique aqui.
