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sexta-feira, 19 de março de 2010

Vizinhanças musicais


Quando eu morava no Rio de Janeiro, no Largo do Machado, tinha um vizinho que tocava clarineta o dia inteiro. Começava de manhã cedinho e não era raro ir até a noite. De vez em quando ficava horas fazendo a mesma escala, subindo e descendo. Às vezes arriscava uma música inteira. Ocasionalmente praticava em duo com um flautista, provavelmente ensaiando para alguma apresentação.

Vizinhos de músicos não costumam ser as pessoas mais tolerantes do mundo, principalmente se os instrumentistas ainda forem debutantes. Na minha carreira de roqueiro adolescente amador, em Brasília, tive a sorte de contar com o apoio e a compreensão meus pais, que cediam a varanda e as tardes de sábado para os ensaios do Sendero Luminoso, glorioso grupo do qual fiz parte, batizado em homenagem à famosa organização revolucionária peruana. Os habitantes das casas da redondeza também compareciam. No começo olhavam meio feio, quando ainda não conseguíamos tocar uma música inteira. Mas depois passaram a participar dos encontros e de vez em quando até a arriscar um “ié ié” nos backing vocals.

Com poucos meses de vida e alguns shows na bagagem, dissidências internas, por mim denominadas de pelegas, pressionaram para que reduzíssemos o nome do grupo para apenas Sendero, ato que gerou reprovação de alguns amigos e principalmente dos vizinhos, em grande parte filiados a partidos comunistas. Depois de alguns anos de carreira e da criação de clássicos inesquecíveis dos quais ninguém se lembra, como Nostradamus e a A guerra e a vida, a banda acabou. Mas não sem antes explodir uma bomba. Ou melhor, quatro, no fatídico ano de 1990, quando quase todos os integrantes tomaram pau no colégio, ao priorizar os divertidos e longos ensaios e uma animada campanha política em detrimento de chatas fórmulas de química e entediantes nomenclaturas de biologia vegetal.

O Sendero Luminoso de Brasília não conseguiu revolucionar o rock, assim como a matriz peruana não foi bem sucedida na tarefa de tomar o poder naquele país. Mas por todo esse apoio que me foi dado, e principalmente por ser um amante da música, aprendi não apenas a respeitar os instrumentistas que moram ao lado, como também a prestar atenção no que eles fazem.

O clarinetista do Rio acabou virando amigo. Hoje ele toca com nomes de peso, como o violonista Maurício Carrilho e o Rancho Flor do Sereno, do carnaval carioca. E se a sua música invadia diariamente o meu quarto pela janela, descobri que os ensaios acústicos do Phonopop, outro grupo do qual fiz parte e que se reunia no meu apartamento, também ecoavam na sua sala de estar.

Dia desses, aqui em Paris, resolvi tirar o violão do armário e tocar de noite a altos volumes com o Nicolas, um amigo colombiano que é a cara do Marcelo D2. Na manhã seguinte, ao acordar, escutei ao longe um som doce de clarineta. Abri a porta da varanda e a melodia tomou conta da casa.
Trilha sonora desse texto: Ama teu vizinho como a ti mesmo (Sá, Rodrix & Guarabira)