
Natal é Natal em qualquer lugar, não é mesmo? Lojas infernalmente cheias, ruas lindamente iluminadas, preços lá em cima e o espírito capitalista a todo vapor. Tá certo que Papai Noel vem vestido de vermelho, evocando na cor o ideal comunista, mas vale lembrar que foi a Coca-Cola que criou esse personagem do bom velhinho como o conhecemos hoje.
Enfim, tem essas coisas que são comuns aos natais do mundo todo. Não importa se você está em Brasília, em Caracas, em Tóquio ou em Paris. Por isso, apesar da beleza do Champs-Élysées cheio de luzes e do frio que já bate forte, remetendo aos filmes natalinos, a melhor surpresa não é o que encontrei na França. É o que não encontrei.
Falo dele, que nessa época está presente na quase totalidade dos lares. Que ocupa um papel de destaque nas mesas das famílias brasileiras. Que dá as caras em todos os intervalos comerciais da TV. Dele, que é onipresente, e cuja existência eu não consigo compreender.
Falo do panettone, claro.
Nessa época do ano, o panettone prolifera no Brasil na mesma velocidade que o vírus da gripe multiplica-se na França. Mas creio piamente que o segundo é menos nocivo. A gripe vem sem avisar e te deixa de cama uma semana, mas um dia vai embora. E você fica mais forte depois.
O panettone você compra. Você paga por um pão sem graça recheado de frutas cristalizadas. E há poucas coisas no mundo mais inviáveis do que frutas cristalizadas. Pickles, talvez. E o pior é que o panettone não vai embora depois. Fica lá um ano, se deixarem. Eu nunca vi um ser inteiramente devorado. Normalmente alguém diz: "olha que delícia, um panettone". E tira um naco nababesco. Uma semana depois você encontra o prato do mesmo cidadão com a fatia quase inteira, abandonado embaixo do sofá ou atrás da estante. E o resto da iguaria - se é que podemos aplicar essa palavra ao caso - permanece imóvel, tal qual a Vênus de Milo. E como ela, assim deveria ficar para sempre, de preferência restrita aos museus.
Um dos traumas da minha infância aconteceu em uma véspera de Natal, quando estava com a minha avó em um shopping. Não bastasse aquela ambiência de formigueiro, ela inventou de fazer compras no supermercado. Aí saímos trombando com milhares de desesperados que tinham deixado pra procurar presentes na última hora, enquanto carregávamos sacolas cheias de... panettones. Tinha os clássicos, com as temidas frutas cristalizadas; os de chocolate, para enganar as crianças; e provavelmente uma versão gremlin - porque o panettone, assim como o vírus da gripe, agora é mutante - com doce de leite, goiabada ou outra aberração qualquer.
Pra não dizer que não tem panettone por aqui, ontem eu vi um. Estava num cantinho do supermercado, perto dos venenos contra baratas e dos sprays que destroem a camada de ozônio. A coisa boa de se estar na França é que aqui eles não brincam com comida.
