Mostrando postagens com marcador monsieur gérard. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador monsieur gérard. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 1 de junho de 2007

3ª Guerra Mundial


- Quais são os pontos que delimitam a Avenida de Champs-Elysées? Perguntou Monsieur Gérard.
- O Arco do Triunfo e a Praça de La Concorde, respondeu rapidamente um argelino que entrou na turma não faz muito tempo e logo se revelou um metido a sabe-tudo.
- Très bien! E alguém sabe quantas ruas chegam ao balão do Arco do Triunfo?
- Seis, com certeza!
Afirmou o sujeito.

Todo mundo conhece um sabe-tudo. É aquele chato que se acha mais esperto que os outros e fala sem parar. Principalmente quando ninguém pergunta nada. O dito cujo é um engenheiro, no alto de seus 60 e poucos anos, que mora em Paris há muito tempo e fala um francês mais fluente do que Napoleão. Não tenho idéia do que faz naquela sala.

Animado com a atenção de todo mundo, ficou de pé e começou a enumerar as ruas, enquanto ia fazendo a conta nos dedos das mãos.

- Tem a Avenida do Champs-Elysées, a Wagram, a Mac Mahon...
Seus olhos brilhavam de felicidade, e ele passou a desfilar comentários.
- Sabe, eu trabalhei em La Grande Armée, nas obras do metrô.
- Na Avenida d'Iéna tem uma padaria maravilhosa, bem do lado de um bar super simpático.
- Ah, a Marceau chega pertinho do Sena.


Quanto mais fornecia informações não solicitadas, mais enchia o peito. E a sua voz saía mais firme e forte.

- São doze ruas. Alguém interrompeu.
- Hein?
- São doze ruas, com certeza.


Como num jogo de tênis, todo mundo virou ao mesmo tempo a cabeça para o outro lado da sala, para ver quem desafiava. Era uma russa, que até então eu não sabia que falava. Não só falou como abriu um baita sorriso, revelando uma meia dúzia de dentes de ouro. Tinha cara de vilã de filme de 007, mas todo mundo passou a torcer por ela.

A aula começava a ficar mais interessante, e até uns dois que cochilavam acordaram para acompanhar o embate.

- A senhora está completamente enganada.
- São doze ruas.
- Tem a Champs-Elysées, a Wagram, a Mac Mahon, a La Grande Armée, a d'Iéna e a Marceau.
- São doze ruas.
- Eu trabalhei lá durante anos. Tem a Champs-Elysées, a Wagram...


O sujeito começou a se embolar nos próprios dedos. E a russa, monocórdica, repetia a mesma frase. De súbito, sacou um mapa da bolsa.

- Vamos contar, decidiu Monsieur Gérard, naturalmente alçado ao posto de juiz.
- Un, deux...

O argelino suava. Sua hegemonia estava em jogo. Se tivesse razão, teria o ego tão inflado que voltaria voando pra casa. Se estivesse errado, perderia o posto de professor de Deus, que ele mesmo se concedeu.

- Trois, quatre...

A russa só ria, mostrando sua milionária arcada dentária para a turma.

- Cinq, six...

A voz de Monsieur Gérard ecoava no mais profundo silêncio em que a sala se encontrava. Dava pra ouvir as respirações.

- ...onze, douze. São doze mesmo. Madame Galina tem razão.

O argelino desabou. Sentou. Levantou. Pediu pra ver o mapa. Contou. Recontou. Passou a mão na cabeça. E percebeu que realmente tinha perdido a batalha. Mas, provavelmente lembrando do passado de seu país, viu que ainda podia ganhar a guerra. E desferiu um rápido contra-golpe.

- Madame Galina, eu ainda acho que tenho razão. A senhora não quer ir lá comigo depois da aula pra gente contar juntos?
- Oui, vamos...


Tímida, a russa mostrou todos os dentes e exibiu o sorriso mais dourado que já vi. Mas fez questão de deixar claro que pelo menos aquela peleja na sala de aula já estava decidida.

- Mas que são doze, são doze.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Monsieur Gérard



Monsieur Gérard é meu professor de francês. Meu e de quase meio mundo, literalmente, pois dá aula para estrangeiros. Na sala tem de tudo: búlgaros, guatemaltecas, peruanos, indianos, paquistaneses, romenos, espanhóis e brasileiros, claro. Tem brasileiro em todo canto.

Monsieur Gérard é tudo o que você puder imaginar de um professor à moda antiga. Está sempre de terno, tem um cavanhaque grisalho, usa óculos e trata os alunos por “vous” (que equivale a “senhor”) e, ele que não leia isso, é chato pacas.

Não que seja inconveniente. Pelo contrário. É super educado. Mas parece viver no começo do século passado, em um filme mudo preto-e-branco.

Em uma aula dessas a professora da sala ao lado faltou. Então tivemos que juntar duas turmas. Monsieur Gérard no comando, querendo saber o nome dos novos alunos.

- Bonjour. Quel est votre prénom?
- Eu me chamo Sasha. Vim da Rússia.


O mestre, então, ficou olhando infinitos segundos pro quadro. Sem dizer uma palavra. Nada. Total silêncio. Tensão no ar. Enfim, soltou.

- Alguém sabe qual a nacionalidade de quem vem da Rússia?
- Ils sont Russes,
alguém respondeu.

Monsieur Gérard virou para o sujeito, cerrou os olhos e assim ficou. E ficou. Nem piscava. De repente, voltou à vida.

- Très bien! Voltou-se para o quadro, levantou o giz e escreveu “Russes”.

Esse episódio levou uns 3 minutos. Considerando que era o começo da aula, e ela dura 2 horas, ainda tínhamos bem mais de 100 minutos de tortura.

Lá pelas tantas, a sala, que já estava calada, emudeceu de vez. Monsieur Gérard estava imerso em mais alguma introspecção e, eu contei, 9 alunos dormiam. Éramos 15 na classe. O outro brasileiro, que trabalha o dia inteiro em um restaurante, estava há tempos nos braços de Morfeu, com os olhos semi-abertos. Nem ouviu quando o professor lhe fez uma pergunta e depois, muito pacientemente, ainda repetiu. Como não acordava, um colega ao lado o cutucou. E ele respondeu num susto.

- Oui, Flamengô!

Flamengo? Não sei quem viajava mais, o professor ou o meu compatriota. E o mais bizarro é que tudo pareceu normal. Ninguém falou nada. Nenhum aluno. Nem Monsieur Gérard. O máximo que ele fez foi olhar fixamente para o brasileiro. Esse, por sua vez, esfregou o sono e olhou de volta para o mestre.

Monsieur Gérard deu um pequeno sorriso, virou as costas e passou o longo resto da aula explicando a diferença entre liqüidação e promoção. Eu nem imaginava que havia tantas. E o meu colega, um cearense que se mudou pra São Paulo, torce pro Flamengo e agora trabalha em um restaurante indiano em Paris, levantou-se para lavar o rosto. No fim da aula, veio falar comigo.

- Rapaz, será que o professor percebeu que eu tava dormindo?
- Ué, ele não tava também?