
Tem cachorro em todo canto em Paris. Aí você vai dizer que existe cachorro em todo canto no mundo. E eu vou dizer que você tem razão. Mas aqui eles estão dominando a cidade. O cachorro é uma instituição sacra na capital francesa, algo como a mamma na Itália. Só que enquanto as mammas ficam em casa preparando a macarronada, os parisienses não saem de casa sem o seu melhor amigo.
Outro dia, no metrô, senti uma lambida na mão. Antes de acusar a senhora ao lado de assédio sexual, percebi a presença canina, com toda a sua baba e olhar lânguido em minha direção.
- Ele é manso.
Não me preocupei com a ferocidade, mas em como eu ia me livrar daquela gosma que me colava os dedos. O melhor era limpar no próprio bicho. Alisei sua cabeça, mas os pêlos soltos grudaram na minha mão, deixando-a como um ser estranho a mim mesmo, como se o braço do Tony Ramos me tivesse sido implantado.
A presença canina é tão sufocante que já vejo o dia em que os bichos vão sair em passeata exigindo seus direitos, abocanhando faixas com dizeres como "cão também é gente" ou "não faça cachorrada: cuide bem do seu melhor amigo". Mas cachorros e passeatas não causam mais espanto em Paris, e essa manifestação só atrairia alguns poucos curiosos, como os vendedores de ração.
Além de presentes em metrôs, supermercados, cinema, restaurantes, elevadores e exposições, os cães daqui mostram que estão mesmo integrados e latem em bom francês. Fazem "ouaf ouaf" ao invés de "au au". Mas ainda não aprenderam alguns modos abolidos há séculos, e insistem em deixar suas cacas pelas ruas. Normalmente seus melhores amigos, os donos, vêm atrás, limpando a sujeira. Mas de vez em quando você pisa numa que ficou e, voilà, percebe-se totalmente integrado à cidade:
- Merde!

