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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Estranho pra cachorro


Uma amiga brasileira me pediu pra comprar pro cachorro dela um remédio que só existe na França. Eu tentei.

- Olá, queria esse remédio aqui.
- É pra cachorro.
- Eu sei.
- E ele tá onde?
- Não pôde vir, mas me deixou seu cartão de crédito.
- Como eu vou saber se ele está doente?
- Você pode ligar pra ele. Se der um latido longo, está gripado. Dois roucos pode indicar uma crise asmática. Mas se não der nenhum talvez já tenha morrido.
- Que horror!
- É verdade. Mas a senhora pode evitar toda essa tragédia me vendendo o remédio.
- Talvez seja só um problema alimentar. O que ele come?
- Quando os donos não estão em casa, de sofá a samambaias.
- E quando estão?
- Aí fica na ração mesmo, sempre dando preferência para as lights, já que entrou numas de manter a linha.
- E os hábitos dele? Sai muito?
- Só pelas redondezas. O coitado foi reprovado na prova de direção.
- Falando assim ele parece normal.
- É normal, senhora. Normalíssimo. Só precisa desse medicamento.
- Sinto muito, pra isso é necessário que o exemplar canino se apresente no recinto.
- Pas possible, madame. Ele está no Brasil.
- Ah bon? Brésil?
- Isso, Brasil, samba, Pelé.
- Julio Iglesias?
- Esse aí a gente expulsou pra Espanha bem novinho.
- Tem que trazê-lo aqui.
- O Julio Iglesias?
- O cachorro.
- No fundo é a mesma coisa.
- O quê?
- Deixa pra lá. Como a gente pode resolver isso?
- Não tem como.
- Se eu dar uma latidinha serve?
- Não.
- E se colocar a língua de fora?
- Também não.
- Com três ou quatro pulgas saltando em cima de mim, você vende?
- Hum, se bem que...
- Não, minha senhora, não adianta olhar pra aquele poste ali fora.
- Volta aqui, te dou um osso!

Leia também as histórias em quadrinhos de Belle & Chico. Em www.bellechico.com.br

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Alô, Hugo


- Alô?
- Alô.
- Quem fala?
- Mais fácil você dizer pra quem ligou.
- É o Hugo, mexicano?
- Não. É o Daniel, brasileiro.
- Brasileiro?
- Sim, do Brasil.
- Não é o mexicano?
- Não, esse vem do México, por acaso.
- Mas você fala espanhol?
- Não.
- Claro, claro. Que estúpida eu sou. Você fala brasileiro, né?
- Também não.
- E você fala o quê, afinal?
- Português.
- Como em Portugal?
- Vejo que a senhora pega as coisas rápido.
- Tem certeza de que não é brasileiro?
- Até onde eu sei é português mesmo.
- Português?
- Sim.
- Ah, Hugo, você quase me enganou dessa vez. Quase mesmo.
- Acho que a senhora está realmente se confundindo.
- Deixa de bobagem. Reconheço esse seu sotaque mexicano em qualquer lugar. Jacques, Jacques, escuta aqui a nova do Hugo...

- Alô?
- Alô.
- Hugo?
- Daniel.
- Daniel? Essa é boa. Há quanto tempo, Hugo!
- É. Parece que nunca nos falamos.
- Hugo, a sua capacidade de imitar sotaques me impressiona.
- Tem coisa nessa conversa que me impressiona bem mais.
- Incrível. Quase chego a acreditar que você consegue falar brasileiro.
- Português.
- Espera aí que eu vou te passar pra alguém que quer muito ouvir sua voz. Marie, corre, é o Hugo no telefone.

- Alô?
- Alô.
- Hugo?
- Eu mesmo.
- Tudo bem?
- Indo.
- E essa história de Brasil, hein?
- A gente tem que inovar.
- Então fala um pouco de brasileiro pra eu ouvir.
- "Caipirinha?"
- Nem está tão bom assim.
- Não?
- Eu vi o Julio Iglesias na TV. Ele puxa mais o "r".
- Mas o Julio Iglesias não é brasileiro.
- Hugo, você precisa se informar melhor. Tenho certeza que você vai falar brasileiro perfeitamente se escutar os discos do Julio Iglesias.
- Deixa os discos pra lá.
- Bom, Hugo, a família toda te abraça e deseja um feliz ano novo.
- Em espanhol a gente diz "feliz año nuevo".
- E em brasileiro?
- Não faço idéia.
- Viu? Precisa estudar mais.
- Eu vou, juro.
- Beijos.
- Beijos. E muchas gracias.
- Esse Hugo...

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Mexilhões e mexidas latinas


Fui a Bruxelas com o pessoal da Brazuca. A revista é distribuída também por lá, e isso acaba gerando uma rotina mensal de reuniões e afazeres diversos na cidade, capital ao mesmo tempo da Bélgica e da União Européia.

E eu descobri que há três coisas que todo visitante precisa provar: a cerveja, o chocolate e as moules frites. As cervejas e os chocolates belgas estão certamente entre os melhores do mundo, e é possível encontrá-los em qualquer lugar na cidade.

Já as moules frites são um caso à parte.

Também fáceis de achar, pois estão em todos os restaurantes do centro, a questão é simplesmente de escolher onde comê-las. Pra ter certeza de que estava tendo uma razoável amostra e, principalmente, para saciar minha porção Homer Simpson, pedi o prato duas vezes. Um em cada dia, claro.

Moules frites é uma modalidade de orgia culinária. Trata-se de uma panela enorme com mexilhões cozidos, acompanhados de uma nababesca porção de batatas fritas.

Sem precisar consultar o cardápio, todos pedimos esse prato. Pouco depois, a garçonete chegou com a monstruosidade em uma bandeja e a colocou sobre a mesa. "É muito!", pensei. Logo ela trouxe outros dois. Chocado, descobri que a porção tamanho gorila, que eu jurava ser coletiva, era individual.

Respirei fundo e encarei a tarefa. Comecei a traçar, um por um, aquele genocídio de mexilhões. Tenho certeza de que famílias inteiras foram dizimadas para um homo sapiens - eu - satisfazer a gula. E a verdade é que é muito bom.

Mas algo estava incomodando. Não era comida, claro, e sim a música. Das caixas de som do restaurante, Julio Iglesias sussurrava com sua voz de eterno latin lover. Tava duro aguentar aquilo. Tão duro que, olhando de relance, tive a impressão de ver uns dois ou três mexilhões fechando suas conchas. Eles iam ser comidos, mas escutar Julio Iglesias era certamente pior do que ir pro inferno dos frutos do mar.

- Senhora, seria possível trocar a música?
- Mas vocês não gostam dele?


A atendente fez bico e, contrariada, colocou numa rádio qualquer. Tempos depois, após uma verdadeira batalha, terminamos a refeição.

No dia seguinte, andando sozinho pelo centro, a fome bateu. Parei em um simpático (leia-se barato) restaurante e repeti a pedida.

- Moules frites, s'il vous plaît.


Assim que o prato pousou na mesa, como em um filme, alguém ligou a música ambiente. Entre uma mordida em mexilhão-avô e uma dentada numa batata, reconheci a voz que embalaria a minha refeição. E era ele, o mela-cueca mor, o pai espiritual do Wando, a trilha sonora da fabricação de bebês por todo mundo. Ele, Julio Iglesias.

Quase engoli a concha do mexilhão por engano. Por que cargas d'água aquilo acontecia de novo? Chamei o garçom marroquino.

- Senhor, seria possível trocar a música?
- Sinto muito, mas não dá.
- Por quê?
- Porque todo mundo aqui adora Julio Iglesias.
- E eu posso saber por quê?
- Você não entende? É que ele canta com uma mão aqui em cima, segurando o microfone, e outra aqui embaixo, segurando os bagos.


Nisso, o outro garçom, também marroquino, repetiu o gesto. Súbito me vi ali, sentado, com um mexilhão-primo na boca, enquanto os dois sujeitos seguravam seus próprios sacos e faziam um bizarro karaokê do cantor espanhol. Um deles utilizou uma faca como um falso microfone. Fiquei tão constrangido que enfiaria minha cabeça na panela de moules, se ela não estivesse tão quente.

Acabei de comer, pedi a conta e saí. No meu caderno de anotações escrevi em letras grandes: "Bruxelas - cerveja Leffe, chocolate Godiva e moules frites. Lembrar de pedir a última SEM Julio Iglesias acompanhando".