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sábado, 3 de maio de 2008

Amigos, amigos, esposas à parte

- Alô.
- Quem é?
- Jacques Bodin.
- Jacques Bodin?
- Sim, eu mesmo.
- O crápula desgraçado?
- Eu também estava com saudades.
- Como você tem coragem de ligar?
- Calma, não precisa ficar assim.
- Não precisa? Você era meu sócio e meu melhor amigo até o dia em que precisei passar uma semana em Lyon e pedi pra você tomar conta da minha casa.
- E eu tomei, não?
- Tomou tão bem que fugiu com a minha esposa.
- É verdade que isso não estava previsto, mas a culpa não foi só minha.
- Você é mesmo um cara-de-pau.
- Eu sei. Estou arrependido.
- É fácil dizer isso três anos depois.
- Puxa, já faz três anos? O tempo voa, né?
- Chega de conversa fiada. Você me ligou pra quê?
- Pra te devolver a Marie.
- Devolver?
- Não a quero mais.
- Não estou entendendo.
- Ela me cansa.
- Agora é tarde. É toda sua.
- Acho que você podia fazer isso em nome da velha amizade.
- Que amizade? Ela se foi quando vocês fugiram para Toulouse.
- A Marie reclama de tudo.
- Novidade.
- Reclama quando eu não faço o jantar.
- Conheço bem essa cantilena.
- E reclama também quando eu faço, pois nunca está do gosto dela.
- Ela continua assim?
- Nem te conto.
- E faz cara feia se você chega atrasado?
- Você não imagina o bico.
- Imagino, vivi isso quinze anos. Mas não tenho que falar disso com você, seu mau caráter.
- Desculpa, desculpa. Minha vida virou um inferno com ela. Nem futebol eu posso assistir.
- Nem futebol?
- Nada, ela vira uma arara. No máximo uma novelinha.
- Novelinha é dose.
- E ela adora as mexicanas, aquelas cheias de chororô.
- A Marie não muda.
- Não mesmo. Então, quer de volta?
- De jeito nenhum.
- Eu pago. Você pega a mulher e ainda fatura um bom troco.
- Tá maluco?
- Ainda não, mas tô ficando. A minha vida virou...
- Já sei, já sei, virou um inferno.
- E se a gente se livrar dela?
- Hein?
- Dar um fim na mocréia, o que acha?
- Olha, Jacques, a idéia não é má. Ela bem que merece. E você também, seu pulha.
- Depois a gente se acerta. Vamos cuidar da bruxa primeiro.
- E como seria?
- Cortamos o cabo do freio do carro. Vai parecer acidente.
- Não funciona. Fica muito na cara. E se colocar veneno na bebida? Aposto que ela ainda bebe duas garrafas de vinho por dia.
- Parece uma esponja.
- A Marie bêbada era barra.
- Era nada, ainda é.
- Então, é fácil. Duas gotinhas de cianureto dão conta do recado.
- Não sei. Talvez a gente possa simular um almoço de reconciliação, nós três, e fazê-la comer uma meia dúzia de ostras estragadas. É tiro e queda.
- Jacques, você é um gênio.
- Você também não é de se desprezar.
- Como pudemos deixar essas pequenezas estragarem nossa amizade?
- Também senti sua falta.
- Bom, vamos tratar de negócios. Onde vai ser o almoço?
- No lugar de sempre, Chez Paul. Amanhã tá bom?
- Amanhã, Chez Paul. Não esquece de levar a Marie.
- Claro, claro. Até amanhã, sócio.
- Até amanhã, sócio.

(Mais ou menos baseado numa história mais ou menos real)