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sexta-feira, 21 de março de 2008

Não tinha teto, não tinha nada


Ano passado, uma infiltração d'água estragou as pinturas da sala e da cozinha e reuniu metade da defesa pública de Paris no meu apartamento. Pouco tempo depois começou um vazamento na caixa de descarga e na pia do banheiro. Uma verdadeira crise aquática. Apesar dos apelos encharcados, só agora, 8 meses depois, o seguro autorizou a reparação dos problemas. Se as coisas demoram no Brasil, na França podem demorar, demorar, demorar muito mais.

Duas pessoas foram escaladas para o conserto. Luís, o sorridente pintor, se diz um refugiado político colombiano. Tem uns 20 e poucos anos, e está na França há 2. Previu 5 dias de trabalho pra raspar e pintar 25m2. Já Rollin, um simpático senhor francês, é bombeiro hidráulico há 43 anos. Enquanto o primeiro espalhou plásticos, latas e pincéis pela casa, o outro se fechou no banheiro. A dupla não inspirava muita confiança, e resolvi sair pra tomar um ar.

Quando voltei, Rollin falava no celular, que estava apoiado entre a cabeça e o ombro, enquanto tentava arrancar a pia na marra. E Luís tinha sacado um videogame PlayStation portátil. Achei que ele fosse sentar no chão e iniciar um jogo, e eu já estava até pensando em pedir pra ficar de próxima. Mas aí apertou uns botões e começou a sair música do aparelho.

- Es la música colombiana. ¿Te molestas?
- Vai fundo. Não incomoda nada.

A salsa comia a todo volume. No meio de vários "arriba", um "ai", mais alto. Achei que fizesse parte da canção, mas logo ele se repetiu, dessa vez fora do ritmo. A porta do banheiro se abre e Rollin escapa saltando, com o dedo na boca e cara de bebê-chorão. A cena, se não era patética, chegava muito perto disso.

- Merde! Cortei o dedo.
- Quer um band-aid?

- Oui, merci!


O trabalho havia acabado de começar, mas a primeira pausa já era necessária. Rollin, chupando o dedo, viu uma foto do Senegal na estante e perguntou se eu conhecia o país. Logo alternou uma tese sobre o lugar e o lamento pelo machucado.

- No interior, as pessoas dormem em casas de palha.

- Meu dedo...

- Tem muita pobreza lá.

- Ai, tá sangrando ainda.


30 minutos de histórias e "ai ai ai" depois, ele voltou ao trabalho. Aliás, ele e o Luís, que também parou o que fazia para participar do debate. Rollin acabou o último causo e se trancou no banheiro. Exatos 26 segundos depois, saiu pra atender o telefone. E voltou. E o telefone tocou. E ele saiu. E voltou de novo. E tocou de novo. E saiu de novo.

Indiferente ao vai-e-vem do bombeiro, Luís raspava a parede e se sacudia no compasso do som.

- ¿Conoces Maná? Es un grupo mexicano.
- Não, do méxico só conheço Café Tacuba.

-
¿Café Tacuba? Je les adore.
- Eu gosto também.
- Mas do que gosto mesmo é do carnaval brasileiro.
- Ah, legal. Já foi?
- Eu? Nunca.

Mais uma vez, Rollin abre a porta de supetão, tipo o Kramer, do Seinfeld. Levei um susto. "Agora vou precisar chamar a emergência", pensei. Mas ele só queria avisar que tinha terminado o trabalho.

- Acabei.
- Já?

- Troquei a pia.
- Ótimo.
- E também a caixa de descarga. Olha aqui: o botão menor solta água suficiente para pequenos problemas. E o maior para problemas mais sólidos, entende?

- O senhor não poderia ser mais claro.

Trabalho feito, um dos trapalhões foi embora. Luís, o outro, continuou na labuta um pouco mais. Mas não por muito tempo, pois Dedé sem Didi não faz sentido.

- Acabei por hoje. Já raspei toda a tinta velha e passei um impermeabilizante.
- Tá ok.

- Você vai ver como o trabalho vai ficar bom. A nova pintura vai durar 5 anos .

- 5 anos?

- Bom, entre 3 e 4 eu garanto.
- Como?

- Olha, tenho certeza absoluta que 2 anos ela segura, pois...

Interrompi o raciocício do sujeito. No passo que a coisa ia, era capaz de ele querer refazer mesmo antes de estar pronto.

- Obrigado. E até semana que vem.
- Semana que vem?
- Claro, pra acabar de pintar.
- Ah, é.

Agora já não sabia se ficava feliz, porque ele voltaria pra acabar o serviço. Ou se ficava triste, exatamente pelo mesmo motivo.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Pinga ni mim


Um dia desses apareceu uma goteira na cozinha de casa. Era na parede, no alto, em cima de um armário. Provavelmente uma infiltração vindo do apartamento do vizinho de cima.

Quando morava no Rio aconteceu uma situação semelhante. E o meu banheiro ficou inundado. Apesar da lentidão e da falta de boa vontade do habitante do andar superior, a situação se resolveu com alguns telefonemas. Eu liguei pra ele, que chamou a imobiliária. Alguns dias depois o Seu Luís, um simpático pedreiro e pintor da Tijuca, estava lá consertando tudo. Foi simples, como deve ser.

Aqui na França a coisa tomou uma outra proporção.

Assim que vi a goteira, liguei pro vizinho, que não atendeu. Deixei recado. Como o cara já tem um histórico de causador de problemas no prédio, todo mundo tem o telefone dos pais dele. Liguei lá também, outra vez sem sucesso. Então me restou chamar os bombeiros, antes que minha casa virasse uma extensão do Rio Sena.

- Vamos passar aí amanhã de manhã.
- Merci.


Na dia seguinte, batem à porta. Três bombeiros entram. Não eram hidráulicos, mas os de salvamento. Eu achei exagerado. Mas como não sou daqui, não disse nada a respeito.

- É aquela goteira ali?
Enquanto um deles apontava, os outros dois faziam cara de preocupados, segurando o queixo.
- Sim.
- Sai água fria ou quente?


Sei lá a temperatura da água que sai da goteira. Não costumo ficar embaixo, esperando pingar.

- Acho que é fria.
- O vizinho está aí?
- Não.
- Vamos ter que entrar na casa dele pela janela.
- Hein?
- Você não quer parar a infiltração?
- Bem, quero...


Dito isso, saíram em fila indiana. Pouco depois, voltaram. Agora eram seis, e carregavam capacetes, cordas, lanternas e uma escada que se acoplava à varanda, pelo lado de fora do prédio. A SWAT francesa.

Montaram uma operação de guerra. Um segurava a escada. Outro subia. E um terceiro gritava ordens pela sacada. O restante contemplava o fio d'água que escorria desafiador. Logo veio a sentença, com voz soturna.

- O registro dele estava fechado. A infiltração parece vir pela tubulação comum do prédio. Não há nada que possamos fazer. Você vai ter que chamar um bombeiro hidráulico. Sentimos muito.


Os seis saíram, um atrás do outro. Dois minutos depois, batem à porta. Eram eles de novo, agora acompanhados por três policiais. Estavam se multiplicando como gremlins. Fiquei pensando no que podiam fazer. Interrogar a goteira? "Desde quando você começou a perturbar esse pessoal, hein? Por que não vai pingar em outro lugar? Circulando, circulando!".

Entraram, anotaram algumas coisas e pegaram nossos dados. Enquanto um escrevia, os oito restantes ollhavam pra parede. Tinha tanta gente admirando os pingos que tombavam, como se fosse uma instalação, que se eu abrisse umas cervejas pareceria um vernissage.

Aquela mísera goteira já tinha mobilizado metade da defesa pública de Paris e ninguém foi capaz de dar cabo. Restou chamar os bombeiros hidráulicos. Chegaram com seus cintos de utilidades equipados de machado, martelo, alicates e dezenas de outros apetrechos, tipo batman, e foram decididos ao banheiro. Olharam pra cima, pra baixo, atrás do vaso, embaixo da banheira, desmontaram a estante, examinaram os canos e deram o veredicto.

- Não dá pra fazer nada agora. Só verificando os canos do apartamento de cima. A única solução é esperar o morador de lá chegar.


Vejam que situação: agora tenho que torcer para o vizinho voltar. O mesmo que eu desejei que sumisse.

Só por via das dúvidas eu tô contando minhas economias. Acho que vai ser mais fácil pagar uma passagem pro Seu Luís da Tijuca vir aqui resolver isso.