sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Louise, crítica musical

Talvez ainda seja um pouquinho precipitado pra dizer que ela vai seguir a carreira de crítica, mas a Louise, do alto dos seus 18 meses, já deixa claras suas preferências, tanto em músicas que coloco pra tocar quanto em vídeos que assistimos no YouTube. Tem canções que ela adora. Já outras...

. Pintinho Amarelinho – É o hit do momento. A preferida das preferidas, que ela pede em média 43 vezes por dia, fazendo o gesto de bater o indicador de uma mão na palma da outra, em referência ao “pintinho amarelinho” que “cabe aqui na minha mão”. Na parte do “mas tem muito medo do gavião”, ela esconde o rosto. Sucesso absoluto na Radio Louise.

. Les crocodilles – Conta as aventuras de um crocodilo que foi para a guerra às margens do Nilo e, encontrando o elefante inimigo, deu no pira. Quando quer ver essa, ela começa a falar “cro cro cro cro” sem parar. Das duas uma: ou passamos o vídeo, ou colocamos tampões nos nossos ouvidos. Geralmente a Louise vence.

. Marcha soldado – Outra que ela adora. Já aprendeu a bater continência e também aprendeu que isso só deve ser feito de brincadeirinha, afinal ela é de uma família de esquerda. Uma famosa versão na internet troca o trecho “a polícia deu sinal” por “São Francisco deu o sinal”. Nessa hora ela faz careta, pois, assim como o pai, não entendeu e não gostou da profanação da versão original, oras.

. Sereia – Não curtiu. E eu entendo o porquê. Medo da Fafá de Belém na concha...

. La famille tortue – A letra, em francês, fala que “nunca se viu nem nunca se verá a família tartaruga correr atrás dos ratos. O papai, a mamãe e as crianças tartaruga só vão na maciota”.  Bem condizente com o papai real. La famille tortue já ocupou o posto de número 1, mas agora anda meio esquecida. 

. Atirei o pau no gato – Sucesso garantido, em todas as suas variações (apesar de eu não curtir o final moralista e politicamente correto de algumas). Mas, bom, a crítica é ela, que faz questão de dizer o “miau” do final.

. A canoa virou – Polêmica. Ela adora a primeira versão que descobrimos na internet. Ao tentar mostrar uma outra, fui recebido com a mais longa sequência de “non non non non non non” da história.

. Kashmir – Bem, essa ainda não é sua preferida. Pra dizer a verdade, ela nem conhece. Mas meu objetivo é fazê-la chegar ao Led Zeppelin antes do seu segundo aniversário. Afinal, se a Louise quiser seguir a carreira de crítica, é bom passar logo pras coisas sérias. Papel de pai é orientar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Ao vencedor, as batatas de frango

- Quer batata?

A pergunta era pra ser simples, mas revelou-se de uma inesperada complexidade.

- Quero.
- De quê?
- O quê?
- Quer de quê? Tem de frango assado de vitrine, de maminha mal passada puxada no alho, de salsa e cebolinha orgânicas, de pernil ao abacaxi e, última novidade e exclusividade da nossa companhia, de peixe frito com tomate, uma delícia!

Eu demorei entender se a aeromoça estava me oferecendo um prosaico pacote de batatinha ou tirando sarro da minha cara, recitando a um habitante da classe econômica o cardápio da executiva.

- Cumequié?
- Tem de frango assado de vitrine, de maminha mal passada...
- E a batata?
- Então. Esses são os sabores disponíveis, senhor.

Já faz algum tempo que abandonei as batatas fritas de saquinho como a base da minha nutrição, e percebo que não acompanhei as variações pelas quais o produto passou. Como os malditos panettones, elas sofreram mutações e agora vêm em sabores tão diversos quanto improváveis. Tornaram-se verdadeiros gremlins alimentares.

- Moça, não tem batata sabor batata?
- Não entendi.
- Aquela simples, sem nada, só a batata frita com sal, como antigamente.
- Sei não. Peraí que eu vou ver.

Pela expressão de espanto da aeromoça, deduzi que a palavra “antigamente” soava para ela como “na época de Ramsés II”. Ou em um tempo muito distante onde as pessoas – imaginem só! – alimentavam-se de bizarrices inimagináveis nos dias de hoje, do tipo batata com gosto de batata, água sabor água e pizza sem ketchup.

- Senhor, achei isso aqui, ó. Vê se serve.

E me esticou um pacotinho brilhante, onde lia-se “sabor muzarela de búfala light”.

- Só tem isso?
- Não, tem também de frango assado de vitrine, de maminha mal passada puxada no alho, de salsa e cebolinha...
- Sabor batata não tem mesmo, né?
- É claro que não, senhor.

É claro que não. Que ideia mais maluca a minha.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Pílulas

A menos de dez minutos a pé da minha casa tem seis livrarias e cento e vinte cafés (desde a última contagem, há quinze dias, mas é possível que já haja uns dois ou três novos). Isso é reflexo de um dos programas preferidos dos parisienses: abrir um livro em uma mesa de um café – na varanda, se o clima for favorável – e ficar ali horas a fio, lendo compenetradamente, pensando na vida.

Nesse mesmo perímetro tem também três farmácias, que são pequenas, fecham aos domingos e vendem... medicamentos. E apenas medicamentos.

Tô contando isso porque na semana passada visitei o Rio de Janeiro e, precisando comprar dois livros, dirigi-me à minha livraria preferida, a Letras & Expressões, em Ipanema. Um lugar que me acostumei a frequentar, pois era também um ponto de encontro, com uma casa de shows e um restaurante simpático.

Era. Porque agora virou farmácia. Ou melhor, vai virar, está em obras.

A drogaria que vai abrir no lugar da Letras & Expressões fica exatamente em frente a uma outra, enorme, e a cinco minutos a pé de outras noventa e três (ou já seriam noventa e quatro?). Essa região eu apelidei de "shopping da ziquizira", pois com tantas farmácias, funcionando dia e noite, você começa a se perguntar se é normal estar em boa saúde. Aí conclui que não. E entra em uma delas pra comprar um “remedinho pra curar essa coisa estranha que tá me dando hoje, sabe?”.

Então sai com um carregamento que “vai te fazer sentir melhor, seja lá o que você tenha, bastando tomar duas cápsulas desse aqui e três glóbulos daquele ali antes do jantar”. E já que está em uma farmácia brasileira, você aproveita para levar para casa duas coca-colas, uma lata de sorvete e três pacotes de biscoito de polvilho. Afinal, os shoppings da ziquizira espalhados por aí te vendem a cura, mas também a garantia da sua breve volta ao estabelecimento.

Ao dar de cara com a enorme placa que dizia “Em breve, para a sua comodidade, mais uma farmácia do grupo X”, fiquei pensando que ao invés de tantos comprimidos deveríamos era tomar mais pílulas literárias, de preferência sentados em um café por longas horas. Talvez assim livremos a cabeça desse tanto de doença que a gente adora inventar. Ou pelo menos, ao fim do livro, teremos uma boa história para contar.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O estrangeiro

Um dos problemas de já estar há tanto tempo fora do Brasil é que de vez em quando eu me sinto um estrangeiro dentro do meu próprio país.

- Bom dia, posso ajudar?
- Bonjour, madame. Me dá um truc daquele ali, por favor.
- Um pão de queijo?
- Ah, é assim que se chama, tinha esquecido. Como ele é feito?
- Com queijo, oras.
- Sim, mas qual? Comté, gruyère, emmental...
- Sei lá.
- E o polvilho, é orgânico?
- Moço, sei não. Joããão, vem aqui me ajudar. Tem um cliente estranho fazendo umas perguntas mais ainda.

- Bom dia, senhor.
- Bonjour, monsieur. O senhor sabe dizer qual o queijo do pão de queijo?
- Hein?
- O queijo do pão de queijo, qual é?
- É queijo queijado, oras.
- Mas qual queijo? Comté, emmental, Beaufort...
- Pra mim você tá falando grego.
- Não é grego, é francês, muito diferente.
- Pois francês pra mim é grego. E se você continuar me enchendo a situação aqui vai ficar ruça.
- Bom, tá legal, me dá dois.
- Com recheio?
- Qual recheio você tem?
- Hoje só tem manteiga.
- Essa manteiga é manteiga ou é margarina?

- Maria, a manteiga é manteiga?
- Você também pirou, João?
- É esse cliente que já tá me perturbando as ideias. Ele quer saber se a manteiga é manteiga ou margarida.
- Margarina. Eu disse margarina.
- O senhor fica quieto aí no seu canto. Maria, é manteiga ou não?
- É sim, João.

- É manteiga, senhor.
- Quero dois.
- Tá aqui, dois. Mais alguma coisa?
- Um café.
- É pra já.
- Peraí, peraí.
- O que foi agora?
- Não é assim.
- Não é assim o quê?
- Antes de escolher eu preciso saber qual tipo de café harmoniza melhor com esse pão de queijo. É o arábico, o robusto, o...

- Calma, João, calma! Pra que essa violência? Larga o moço.
- Me deixa, Maria. Só quero harmonizar um pouco mais as minhas mãos com o pescoço desse cara. Depois eu solto, eu juro.