
De passagem por Brasília, fui convidado a ir à UnB, a universidade onde estudei, conversar com os alunos do curso de laboratório de publicidade e propaganda. Em homenagem a eles publico aqui essa crônica, escrita para a revista nunca publicada de uma agência de propaganda.
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Todo publicitário sonha com um mundo ideal, no qual o diretor de criação diria docemente:
- Tá aqui o briefing. Mas não tem pressa, a campanha é só pra daqui a um mês. Nesse tempo, toma um cafezinho. E se precisar de cafuné, é só chamar.
Quem é da área sabe que é mais fácil o Suriname ser campeão da Copa do Mundo do que isso acontecer. E se acontecesse, nós não saberíamos o que fazer, pois simplesmente não conseguimos trabalhar com tanto prazo.
Apesar de termos que estar sempre antenados com o que rola de mais moderno, acredito que uma parte dos cérebros dos publicitários ainda é meio "old-fashioned", e opera como as velhas máquinas a vapor: quanto mais pressão, melhor. Daria para descrever o seu funcionamento com uma equação como C=P2/∆t, onde C é o cérebro, P é a pressão e ∆t é o deadline.
Imagino o desfecho da situação irreal proposta ali em cima.
- Ô, Juca. Chegou um briefing grande aí, ó.
- Eu vi, mas tem uma coisa que eu não saquei bem.
- O público-alvo?
- Não. Isso é moleza. São as senhoras de 60 anos que já se desquitaram 4 vezes e agora resolveram se dedicar aos esportes radicais.
- É a escolha da mídia?
- Também não, Pedrosa. É verdade que achei estranha a idéia daquela peça promocional, o batom que você aperta e ejeta uma corda de rapel. Mas o resto tá ok.
- Então só pode ser o slogan, que já veio pronto do cliente.
- Nada, eu até gostei. "Radical é a sua avó" é bem apropriado.
- E o que é que você não entendeu, então?
- O deadline.
- O deadline?
- Tem um número errado ali. Tá dizendo que o trabalho é pro 15 do 9, quinze de setembro.
- Isso.
- Mas estamos em julho, mês 7. Hoje é só 23 do 7.
- Isso.
- Temos quase dois meses pra fazer a campanha?
- Isso.
- Não tá certo, Pedrosa. Quem é que consegue criar assim, com todo esse prazo?
- Eu é que não.
- Não dá mesmo.
- E o que a gente faz?
- Vamos deixar o job no fundo da gaveta, pra só tirar de lá 5 dias antes do dia final.
- Genial.
- Agora dá licença que vou ali pedir explicações pro chefe.
- Sobre o trabalho?
- Não. Sobre a história desse deadline. Ele tá pensando que a gente é o quê?


