sexta-feira, 21 de maio de 2010

Pais modernos


- Tá contando as contrações?
- Tô.
- Na mão?
- Claro que não. No aplicativo que baixei pro iPhone.
- Qual o tempo? Qual o tempo?
- Quatro minutos e vinte e quatro segundos, exatos.
- De intervalo entre as contrações?
- Não, quatro minutos e vinte e quatro segundos é a duração da música que estou ouvindo. Ramble On, do Led Zeppelin, cacetada na moleira!
- Desliga esse treco agoooora!
- Pô, bem no meio do solo do Page...
- Seu bebê tá chegando, tô sentindo. Vai chamar a enfermeira.
- Envio um SMS?
- SMS? Ela tá na sala ao lado.
- Vou deixar o telefone aqui, se ele tocar você...
- Se essa joça tocar agora eu sou capaz de ter um filho.
- Mas não é pra isso que você está no hospital?
- Aaaaaaargh.
- Fui.
- (Longos suspiros).
- Voltei.
- Demorou, hein?
- Aproveitei que a enfermeira estava na internet e enviei uns tweets e umas fotos pro Facebook. Aliás, já preparei a câmera pra hora do nascimento.
- Não vai tirar foto do parto não.
- Ih, caretice. Se depender de você essa criança vai ser tecnofóbica.
- Vixe, aconteceu algo.
- Não me diga que a bateria da filmadora acabou!
- O bebê tá saindo, tá saindo, saiu...
- Unhéééé.

Mais tarde

- Tá na hora de sairmos da sala de parto pra irmos pro quarto. Você cuida de pegar tudo?
- Já peguei. Conferindo: iPhone, caixinhas de som, filmadora, máquina fotográfica, laptop. Ok!
- E o bebê, seu lunático? Esqueceu do bebê?
- Ah, mas você também quer que eu pense em tudo.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Muguet


Esse texto foi escrito no dia 01/05, algumas horas antes do nascimento da Louise, quando ainda não sabíamos se teríamos um filho ou uma filha. Semana que vem prometo alguma bobagem sobre baguetes ou o interminável inverno francês. Mas nesse momento gostaria de compartilhar com vocês esse recito, redigido na sala de espera da maternidade.

Sacumé, né, father feelings...


Querido filhotinho (ou querida filhotinha). Hoje, voltando de um jantar com amigos, a sua mãe me deu um buquê de muguet, os lírios do vale, como é costume em toda a França no dia 1º de maio. Era por volta de 1 da madrugada, e foi o primeiro presente que ela me daria hoje. Nesse momento, a gente não desconfiava ainda que o outro, o mais bonito que alguém pode receber, um filho, você, anunciaria a chegada logo pela manhã.

É sábado e faz sol. Há pouco o marché d'Aligre estava apinhado de gente, como costuma ficar nos fins de semana. Alguns foram comprar frutas e legumes, outros passear, e há ainda os que deram as caras apenas para tomar um thé à la menthe em um dos muitos bares das redondezas. Cada um com seus afazeres, suas preocupações, suas vidas.

Saímos de casa sem pressa. Ao fecharmos a porta pelo lado de fora, nos demos conta de que ali éramos só dois, mas quando tornaremos a abri-la, daqui alguns dias, já seremos três.

Lentamente, fui puxando pela rua a mala com as suas roupinhas dentro, avançando em meio ao mar de comerciantes e transeuntes, desviando das pessoas mas aceitando de bom grado os aromas do café, da framboesa, do pão quente, do melão, dos queijos, do kiwi.

De repente, como se o mundo parasse por um segundo, a multidão abriu sutilmente espaço para sua mãe e eu passarmos e alcançarmos o táxi que nos levaria à maternidade. Nesse momento, um raio de sol bateu no meu rosto e me dei conta de que era a pessoa mais sortuda do mundo. E certamente a mais feliz.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Louise


Quero que você cresça logo pra você dar seus primeiros passos e poder andar de mãos dadas comigo na rua, você se esticando toda e eu me abaixando, até você ficar cansada e abrir os bracinhos pra mim, pedindo colo sem precisar dizer uma só palavra.

Quero que você cresça logo pra gente passear no parque, fazer piquenique, montar na gangorra, girar no roda-roda até ficar tonto e sair tropeçando, bater um pique-pega, construir castelo de areia, destruir castelo de areia, subir no escorregador pela parte de descer, esquecer o baldinho e a pazinha num canto, voltar mais tarde pra procurá-los e aproveitar pra brincar um pouquinho mais, e à noite eu te contar mais uma história pra você dormir e depois deixar a luz do corredor acesa, pois você tem medo dos monstros.

Quero que você cresça logo pra te levar com a sua mãe pro cinema e ler pra você as legendas em voz alta, atrapalhando todo mundo ao lado, inclusive a sua mãe, enquanto a gente ataca um balde de pipoca com muita manteiga, deixando mais da metade cair no chão, e depois sair da sessão com a barriga doendo de tanto rir daquele filme bobo, procurar uma barraquinha de cachorro-quente e devorá-lo andando na rua, a gente nem se importando que o molho escorra e meleque as nossas camisas.

Quero que você cresça logo pra te ensinar a tabuada do 7, a conjugação do verbo cavalgar no pretérito mais que perfeito, a história dos Beatles, a localização do planeta Júpiter e a importância de comer alface.

Quero que você cresça logo pra gente ir à praia fazer mais uma etapa do campeonato mundial de jacarés, seguida do famoso concurso de quem come mais picolés de côco e, ao voltar pra casa, realizar a tão esperada finalíssima do torneio de video game, com todas as suas amigas pulando freneticamente e gritando mais alto do que uma turbina de avião.

Quero que você cresça logo pra eu me fingir de malvado para todos aqueles garotos da rua que querem te namorar porque você é uma linda mocinha, assim como se fingiam de malvado os pais das meninas por quem fui apaixonado, mas que depois se revelavam pessoas bacanas e até me convidavam pra ficar pro lanche.

Quero que você cresça logo pra ficar emocionado, num misto de alegria e nostalgia, quando você for embora de casa para morar em um apartamento do tamanho de uma caixa de ovos e achar isso o máximo, super orgulhosa da sua total independência, até o dia em que a pia do banheiro começa a vazar às 3 da manhã e você se lembra de ligar pro velho pai e pedir aquela forcinha na bricolagem de emergência do cano furado.

Quero que você cresça logo para um dia você descobrir que não existe felicidade maior do que ter seus próprios filhos e vê-los crescer, mudar e evoluir, e nesse dia é bem provável que eu seja um avô dos mais deslumbrados.

Pensando bem, quero mesmo é que você cresça bem devagar, pra eu poder aproveitar muito desses e de tantos outros tantos momentos ao seu lado, minha filha Louise.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Chico


Em três anos de existência (and counting) esse blog publicou uma nova crônica todas as sextas. Hoje é a primeira vez que isso não acontece. E o motivo está aí ao lado. É que a Brazuca, revista da qual sou editor em Paris, acabou de lançar uma edição inteira dedicada ao Chico Buarque, contando um pouco de tudo o que ele já fez.

Tem matérias sobre sua música, sua literatura, seu pai e até sobre as suas peladas (o jogo!, o jogo!) semanais. Mas o melhor é que conseguimos uma entrevista exclusiva, a primeira que ele dá em muito tempo.

E você pode ler tudo isso, em português e em francês, baixando o PDF da edição no site da Brazuca.

Pra não ficar aquela sensação chata de vazio por aqui, reproduzo abaixo o editorial que escrevi para a revista.

Boas leituras!


O mais desconcertante em Chico Buarque não são suas músicas. Já sei, é a literatura, alguém pode dizer. Também não, afirmo. Então é o posicionamento político na época da ditadura, outro arrisca. Ainda não está lá, ainda não. É o futebol, o futebol!, um fã empolgado sugere. E mais uma vez eu diria não, negando pela 3ª vez.

Mas o que é, então?


É a sua simplicidade atordoante.
Chico é uma espécie de Deus no Brasil, e a gente fala disso com ele na entrevista. E ele mostra que essa ideia é uma grande bobagem. E a gente acredita nele, porque ele acredita no que diz.

A sua criação artística é tão importante para a cultura brasileira que parece sempre ter estado lá, à nossa disposição. E
Chico conversa sobre a sua obra como se não a conhecessemos de cor, não com falsa modéstia, mas sincera humildade.

O mais desconcertante em
Chico Buarque é que ele parece não saber que é Chico Buarque. E é exatamente isso o que o faz sê-lo.

A mãe de Belle & Chico também suspira pelo compositor - www.bellechico.com.br