sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

La vie à Paris

Mudar de país significa mudar de hábitos, muitas vezes sem a gente se dar conta. Fiquei meio chocado quando me peguei comendo um croque-monsieur, nosso singelo e básico misto-quente, de garfo e faca. E o pior: como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Aí percebi que tenho soltado impunemente várias palavras e frases que aqui fazem todo sentido, mas no Brasil soariam meio esquisitas. Fiz uma lista de algumas delas.


. Hoje nem tá tão frio assim. (Ao sair de casa com apenas 2 casacos, ao invés dos 3 ou 4 habituais)

. 35 metros quadrados? Você vive numa mansão? (Espantado com o tamanho da casa do amigo felizardo, que mora em um quarto e sala)

. Hoje vai ter um aperô lá em casa. (Convidando para um aperitivo, que é um jantar sem ser um jantar)

. Garçom, esse vinho está bouchonné. (Eu não sabia que vinho estragava, confesso. Agora "bouchonné" é uma palavra do dia-a-dia, tipo leite).

. Tem um bar baratinho lá perto de casa. O chope só custa o equivalente a 8 reais.

. Não, de boi mesmo. (Respondendo ao açougueiro, que pergunta se eu quero carne moída de cavalo)

. Amanhã vai ter um aperô na casa da Léa.

. É fácil: você pega a 8, troca pela 6 e depois pela 13. Ou então pega a 2, a 11 e a 4. (Tem 14 linhas e 386 estações de metrô em Paris, mas todo mundo conhece a melhor rota para cada destino. Ou diz que conhece.)

. Buf! (Quando acha ruim, o parisiense bufa)

. Merde! (Quando acha ruim, o parisiense diz "merde")

. Putain! (Quando acha ruim, o parisiense diz "putain")

. Génial! (Quando não acha ruim, o parisiense acha tudo "génial")

. Sábado tem um aperô na casa do Jacques.

. Eu prefiro na manteiga. E você? (Conversando com um amigo sobre como ele gostava de comer escargot)

. É português. (Só pra lembrar que não falamos brasileiro)

. O que é aquele objeto estranho, amarelo, ali no horizonte? (Ao apontar o sol)

. Não, uma caipirinha feita com 51 não vale 25 reais.

. Tudo isso por causa do meu pequeno atraso de 2 horas?

. A Marie perguntou se a gente está livre na 3a feira. Ela quer fazer um aperô.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Lembranças parisienses


Sentado em um banco da Place des Vosges, um frio dia de inverno, um octogenário vê o tempo passar, como vem fazendo diariamente na última década. Seu silêncio é interrompido pela chegada de um outro senhor, da mesma idade.

- Lembra de mim?

Sem se desviar completamente da leitura do jornal, levanta um olho e tenta buscar em uma gaveta empoeirada da memória qualquer
registro que se assemelhe àquela figura esguia. Em vão.

- Acho que não, pardon.
- Da turma de remo de 1947!
- Eu jamais remei em toda a minha longa vida.
- Não era você o timoneiro da nossa equipe imbatível da Sorbonne? Aquela que, no pós-guerra, foi apelidada de "Explosivos do Remo".
- Lamento, mas acho que você está me confundindo.
- Zut, alors! Jurei que era você. Posso sentar ao seu lado?
- O banco é público.
- Já sei!
- Que ele é público?
- Não. Já sei de onde te conheço. Do Les Deux Magots, nos anos 50, o bar que Sartre freqüentava. Todo mundo ia lá.
- Nunca fui. Não tinha paciência pra Sartre.
- Será então que é das manifestações de maio de 68?
- Talvez.
- Sim, sim, agora vejo claramente a cena: a gente com os estudantes, atirando pedras naqueles policiais idiotas.
- Eu estava lá, mas era um desses policiais idiotas.
- Pardon.
- C'est pas grave.
- Lembrei! Nos anos 70 você era o dono daquela loja de discos na Rue de Rivoli, especializada em rock progressivo. Comprei toda a coleção do Yes lá.
- Eu passei a maior parte dos anos 70 desempregado e não tinha dinheiro nem pra um disco.
- Então não foi com você que eu tomei aqueles ácidos escutando Pink Floyd?
- A coisa mais forte que tomei na vida foi uma bronca da minha mulher.
- Pauvre homme!
- Olha, acho que não nos conhecemos mesmo.
- Não pode ser. Você é tão familiar pra mim. Será que é da TV?
- Não.
- De alguma revista de fofoca?
- Não.
- Dos tabuleiros de dama aos domingos, no Jardim de Luxemburgo?
- Também não.
- Então você é um político famoso, é isso?
- Minha única relação com política é uma camiseta da campanha do Jacques Chirac, que uso pra dormir.
- Mas você não é o Gregoire, a quem chamávamos de o aventureiro?
- Não, não. Meu nome é Pierre, e meu apelido sempre foi soneca.
- Sinto muito, Pierre. Desculpe te incomodar.
- Não tem problema.
- Até logo.
- Ei, ei!
- Diga, Pierre.
- Sabe, pode me chamar de Gregoire. Não quer voltar amanhã e contar um pouco mais dessa nossa vida aí?

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Procura-se pão francês

- Três pães, s'il vous plaît.
- Qual?
- Pão francês. Queria três, bem assados.
- Pão francês?
- Não tem?
- Aqui na França, tecnicamente falando, todos os pães são franceses.
- É aquele pãozinho pequeno assim, ó.
- O croissant?
- Não, não. É um que parece um zepelin, sabe?
- Baguete?
- Não, a baguete parece mais um submarino, e é grande. Esse é como uma baguete que encolheu.
- Voilà! É a mini-baguete.
- Menor ainda.
. É a mini-baguete cortada ao meio?
- Mas aí continua sendo uma mini-baguete, só que cortada ao meio.
- Tem razão.
- Imagina que a baguete é o pai.
- Tô imaginando.
- O pão francês é o filho gordinho.
- Nunca ouvi falar.
- É o pão do dia-a-dia no Brasil.
- E vocês o chamam de pão francês?
- Sim.
- Olha, acho que ele não existe na França.
- Quer dizer que temos sido enganados esse tempo todo?
- Lamento te revelar isso assim, de supetão.
- Estou chocado.
- Ainda temos a baguete. Quer?
- Vai, me dá uma.
- Qual? Normal, tradicional, integral, com cereais?
- Mas é difícil comprar pão por aqui, hein?
- O que você queria? Estamos na França. Temos dezenas de pães diferentes.
- Só não tem o pão francês.
- Esse não.
- Me dá uma baguete com cereais, então.
- Aqui está.
- Pode embrulhar?
- Hã?
- Colocar num saco.
- Aqui não...
- Já sei, não tem saco pro pão também.
- Isso.
- Vai me dizer que tenho que levá-lo debaixo do braço?
- Exatamente.
- Olha, mudei de idéia. Dá pra sair um misto-quente?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O garçom de Marseille


O Mendes adora maltratar garçons. Se eu acreditasse no inferno, apostaria que ele iria pra lá numa via expressa, sem direito a estágio no purgatório. Não que faça atrocidades físicas, mas aluga os atendentes de tal maneira que já senti vontade de enfiar sua cabeça numa panela de feijoada. É sempre constrangedor.

- Seu chope, senhor.
- Pedi suco.

- Pronto! Seu suco.
- Tá muito doce.

- Aqui o novo suco.
- Traz açúcar?


A única vez que tive saudades do Mendes durante uma refeição foi num feriado em Marseille, maior frio e só um restaurante aberto.

- Bonjour.
- Mesa pra quantos?
- Cinco.
- Aqui.
- É perto da porta, tem corrente de ar.
- Você não vai ficar doente não.
- Já tô um pouco.
- Não devia ter saído de casa.
- Agora é tarde.
- Muito.
- E esse vento vai esfriar a comida.
- É raro ela vir quente.
- Bom, nós vamos sentar ali no outro canto.
- Eu não tenho nada a ver com isso.


Eu nunca tinha visto um garçom páreo para o Mendes, mas esse tinha talento. Transformava o ato de atender numa coisa tão desagradável que beirava a arte. Tive vontade de ir embora, mas fiquei muito mais para apreciar o espetáculo do que simplesmente para comer.

- Escolheram?
- O que você indica?
- Indico uma olhada no cardápio. Tá cheio de coisa ali.
- E como está o peixe hoje?
- Morto.
- Isso é um alívio.
- Ô.
- Mas ele é bom?
- Eu não como.
- Hã?
- Não como peixe nem forçado.
- E a pizza?
- Pizza no almoço?
- Tem quem goste no café da manhã.
- Não na Itália.
- Aqui é a França.
- A Itália é ao lado.
- Traz só um vinho tinto por enquanto.


Saiu, demorou um século e voltou com o vinho. Não serviu os copos, claro. Deixou a garrafa, deu as costas e foi ser desagradável na mesa ao lado. Quando nos ouviu chamá-lo, virou devagar, com a cara mais impaciente, como se ele é que estivesse sendo servido. Mal servido.

- Garçom!
- Hã.
- Acho que esse vinho virou vinagre.
- Acha?
- Prova.
- Nem.
- Gostaríamos de trocá-lo.
- Eu troco, sapateio e até canto pra vocês. Só não me peça pra beber vinho tinto.


A comida do lugar era melhor do que o atendimento, o que realmente não era muito difícil. Acabamos e pedimos a conta. Nessa hora ele se esforçou para ser mais simpático, talvez visando a gorjeta. Mas carisma não era sua praia mesmo, e o máximo que ele conseguiu foi soltar umas frases secas, que saíam pelos cantos do sorriso pálido.

- Como foi?
- Uma experiência. Tenho um amigo que vai adorar o lugar.
- Bom pra ele.


No mesmo dia mandei um e-mail pro Mendes, que prontamente respondeu, animadíssimo, prometendo para ainda esse ano uma visita a Marseille. A conta, já disse, é minha.