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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Procura-se pão francês

- Três pães, s'il vous plaît.
- Qual?
- Pão francês. Queria três, bem assados.
- Pão francês?
- Não tem?
- Aqui na França, tecnicamente falando, todos os pães são franceses.
- É aquele pãozinho pequeno assim, ó.
- O croissant?
- Não, não. É um que parece um zepelin, sabe?
- Baguete?
- Não, a baguete parece mais um submarino, e é grande. Esse é como uma baguete que encolheu.
- Voilà! É a mini-baguete.
- Menor ainda.
. É a mini-baguete cortada ao meio?
- Mas aí continua sendo uma mini-baguete, só que cortada ao meio.
- Tem razão.
- Imagina que a baguete é o pai.
- Tô imaginando.
- O pão francês é o filho gordinho.
- Nunca ouvi falar.
- É o pão do dia-a-dia no Brasil.
- E vocês o chamam de pão francês?
- Sim.
- Olha, acho que ele não existe na França.
- Quer dizer que temos sido enganados esse tempo todo?
- Lamento te revelar isso assim, de supetão.
- Estou chocado.
- Ainda temos a baguete. Quer?
- Vai, me dá uma.
- Qual? Normal, tradicional, integral, com cereais?
- Mas é difícil comprar pão por aqui, hein?
- O que você queria? Estamos na França. Temos dezenas de pães diferentes.
- Só não tem o pão francês.
- Esse não.
- Me dá uma baguete com cereais, então.
- Aqui está.
- Pode embrulhar?
- Hã?
- Colocar num saco.
- Aqui não...
- Já sei, não tem saco pro pão também.
- Isso.
- Vai me dizer que tenho que levá-lo debaixo do braço?
- Exatamente.
- Olha, mudei de idéia. Dá pra sair um misto-quente?

sexta-feira, 13 de julho de 2007

O pão nosso de cada dia


Em 4 meses de Paris já deu pra desmistificar algumas histórias que escutei antes de vir pra cá. Uma delas é sobre o humor dos franceses, supostamente grossos e antipáticos. Eu não tenho queixas quanto a isso. Sou sempre bem tratado e bem recebido onde quer que vá.

Até mesmo em lojas, ao tentar explicar com mímica orangotânica alguma coisa para a qual não tenho as palavras necessárias, sou ajudado com paciência pelos vendedores.

Mas é claro que existem as exceções pra confirmar a regra.

Saindo tarde do cinema, nada pra comer em casa, passei em frente a uma padaria, última baguette exposta. Quis me certificar de que não era velha.

- Bonsoir madame.
- Bonsoir monsieur.
- Essa baguette é de hoje?


A pergunta banal mudou a cara da até então simpática senhora. Ali descobri que se tem uma coisa na França com a qual não se pode mexer é o pão.

- Não senhor. A gente nunca vende pão de hoje. Esse deve ter uns 3 dias que tá aí. Quer assim mesmo?
- Embrulha, vai.


Na hora fiquei meio irritado com a grosseria. Mas o pão era bom e voltei lá uns dias depois. Tinha um outro cara no balcão e o lugar tava bem cheio. Chegou a minha vez.

- Bonjour.
- Une baguette, s'il vous plaît.
- Voilà. Mais alguma coisa?

Eu nem ia falar nada, mas ele abriu o espaço.

- Só uma pergunta: ela foi feita hoje?

O sujeito respondeu calmamente, sem olhar na minha cara.

- Monsieur, o nosso pão nunca é fresco. Olha pra essa fila. Todos vêm aqui porque ele é o pior da região.


Olhei pra fila. Alguns riam. Outros, sérios, observavam-me fixamente.

- Quero duas.


A coisa virou um desafio. Quando via algum atendente novo, entrava e fazia a mesma pergunta. E as respostas eram tão inconvenientes quanto a minha questão. Mas sempre criativas, devo confessar.

- Senhor, eu não compraria esse pão. Tá aí há 15 dias.
- De hoje? Tá brincando?
- Baguette nova é na padaria ao lado. Aqui só tem velharia.
- Claro que não. Nosso patrão proibiu de fazer pão todo dia.


Uma vez reconheci uma funcionária que já tinha visto antes.

- Bonsoir!
- Queria uma baguette, por favor. Ela é de hoje, né?
- Que tipo de pergunta é essa? Todo mundo sabe que nossas baguettes são da Idade da Pedra.
- Então me dá uma.

Ela me entregou o pão com uma cara tão cínica quanto a minha. Cheguei em casa e passei uma boa camada de manteiga. No que mordi com vontade, um 'croc' estranho, uma baita dor no dente e uma pequena pedra na minha boca. Eu acredito que foi azar, mas nessa hora juro que meu 6º sentido me dizia fortemente que naquela padaria alguém comemorava.

Depois disso ainda passei pela porta mais algumas vezes. Mas, olha, já faz um tempo que não entro ali...