sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Adivinhe quem não vem para o jantar?

Fazer um jantar na França é uma arte por vezes complicada. Há uma lista enorme de coisas a se cuidar, como entrada, prato, sobremesa, vinho, pão, queijo, lista de convidados e até a posição deles na mesa. Mas há um outro item que muitas vezes ocupa mais tempo do que todos os outros juntos: é a lista dos não convidados.

- Então, Émilie, vamos chamar quem?
- Começamos pela Julie. E o Jean também, o novo namorado dela.
- Não tá sabendo? A Julie e o Jean terminaram. Ela tá deprimida, e nem sai de casa.
- Sendo assim, o Jean também está cortado.
- E o Alex?
- Bem lembrado, o Alex é legal.
- Podemos chamar a Marie, que o paquerava
- A Marie não, Greg. Outro dia, discutindo Sartre e Beauvoir, ela brigou feio com o Marc. E o Marc, com raiva ou ciúmes, descontou no Alex, que ficou achando que tudo era culpa da Marie.
- Não sei se entendi muito bem, mas acho melhor deixarmos esses três de lado.
- Melhor.
- E se a gente chamasse a Sylvie, o Pierre, a Sonia e o Anthony, o quarteto inseparável da sua época de faculdade?
- Não dá mais. A Sonia fofocou do Pierre pra Sylvie. E o Pierre contou umas mentiras sobre o Anthony para a Sonia. No fim, a Sylvie também falou mal de todo mundo. O quarteto inseparável está hoje separadíssimo. Nem sei por onde andam.
- E a Lola?
- A Lola? Não lembra? A gente quase se matou ano passado. Ela me disse aquela coisa horrível, que não dá pra esquecer.
- E o que ela te disse?
- Esqueci agora. Mas não quero que ela venha assim mesmo. Prefiro convidar o Bernard.
- Bernard mudou pro campo. E a Léa?
- Aquela que te paquera? De jeito nenhum.
- O Raoul.
- Perdi o contato.
- A Sophie?
- Pirou no meio do ano passado. Tá internada.
- A Hélène e a Brigitte?
- A Hélène parou de falar com a Brigitte depois do episódio do casamento do Henry, quando a Brigitte derrubou vinho nela.
- Só por isso?
- Pois é. E a garrafa nem estava tão cheia quando a Brigitte, bêbada, a despejou na cabeça da Hélène.
- Liga pro seu irmão.
- Anos que não nos falamos. Mas com o primo Paul ainda falo.
- Ah, não. O Paul é um chato de galochas.
- Podemos convidar a Beth.
- A vizinha depressiva? Da última vez ela chorou a noite inteira.
- Coitada, o gato dela tinha morrido.
- É, mas tinha morrido 6 anos antes, e ela continuava de luto.
- Greg, não sobrou ninguém.
- Ninguém?
- Ninguém.
- Sabe de uma coisa, Émilie? Cancela o jantar. Vamos comer um crepe ali na esquina.
- Não, vamos em outro. Aquele da esquina eu não gosto.

7 comentários:

Falando nisso... disse...

Ai que difícil!!!!
Acho que aqui não é muito diferente, não, hein! Tirando a parte dos preparativos, que chega a ser quase um problema científico, aqui temos os mesmos embroglios diplomáticos!
Bem diferente disso foi o maravilhoso jantar que a Char preparou! Lembra?
Frango ao molho de chocolate mexicano! Vinho perfeito, assim como tudo! Me lembrarei por toda a eternidade! :D
Beijos Chéri e beijos na Char também!

Flô

Anônimo disse...

Que saga! Gostei...mas a gente consegue comer cachorro quente na esquina em Paris?
Julie

FabiCatarse!! disse...

Beth, querida, eu te entendo, viu?! Há 17 anos choro de saudades de minhas duas gatas da infância... eram lindas, carinhosas... snif... mal consigo pensar nelas sem sentir o nó na garganta... A minha tática, Beth, pra continuar sendo chamada pra jantares na casa dos amigos é a seguinte: quando começam a falar de momentos tristes da infância, peço pra mudar de assunto imediatamente, caso contrário conto, de novo, a história das minhas gatas... é incrível, todos passam a falar do tempo,das eleições, da crise na bolsa... na mesma hora! Tenta, querida... sua vida social depende disso! Nem todas as pessoas são capazes de entender nossa dor. Snif...

Admirável mundo disse...

Acho que esse texto resume bem os meus finais de semana. Não referente a jantares, mas a saídas em si e à escolha das companhias e dos lugares.

bruno e.a. disse...

Daniel,

Voriques quem lhe escreve.
Chegarei amanhã a paris mas não tenho comigo o seu contato.

Se puder, me envie o seu contato para o meu email.
voriques@terra.com.br

abraços,

à demain.

Interaubis disse...

Que povo chato, inda bem que tá todo mundo bem longe daqui, hehe.
:)

Corine disse...

Brilhante. Bravo!!!!!