sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Tudo bem na rue d'Aligre

Hoje de manhã, tudo ia bem na rue d’Aligre. Os feirantes disputavam os clientes matinais, oferecendo a altos brados frutas e legumes locais, mexericas espanholas, mangas peruanas e limões tupiniquins. Como sempre, logo cedo tudo já estava a postos, menos a peixaria do sujeito com rabo de cavalo e cara de traficante de filme B, que é sempre o último a arrumar sua loja. Toda vez que passo em frente tenho a impressão que a polícia não vai tardar desembarcar ali após ter descoberto que o cidadão vendia atuns alucinógenos e dourados psicodélicos. Vou pedir pros amigos franceses me manterem informado do assunto.

O meu barbeiro careca conversa sobre futebol com um cliente e me faz um aceno quando passo: “Salut Kaká. Você viu o jogo de ontem?”. O carinha da barraca da frente também me cumprimenta: “Bom dia, le bandit”. Paro pra papear e tentar convencê-lo pela 20a vez que o Hulk não é atacante para a seleção canarinho, que o Brandão – ídolo do Olympique de Marseille - é um tremendo perna de pau completamente desconhecido no Brasil e, mais importante de tudo, que o Maradona não chega aos pés do Pelé. As discussões futebolísticas da calçada da rue d’Aligre perderão o meu sotaque brasileiro e a minha eterna crença de que um dia bateremos a França por 6 x 0, pra descontar as últimas derrotas.

Falando em sotaque, a portuguesa me dá um bom dia lisboeta, enquanto organiza na sua épicerie os salames e presuntos que vêm de sua terra natal, assim como os irresistíveis pastéis de nata, estes produzidos localmente, “para estarem sempre frescos, ô pá”. A tunisiana da padaria pergunta se eu quero a tradition avec céreales. Respondo sim com a cabeça. Ela entra por uma porta e volta com uma baguete quentinha: “Acabou de sair. Louise vai adorar”. Agradeço, pago e tiro um naco. Louise reclama e dou pra ela. “Tá quente, Loulou, sopra antes de comer”. “Chaud, papa, chaud”. Tiro outro pedaço, dessa vez pra mim.

Peço ao dono da minha cave à vins preferida para embalar duas boas garrafas pra viagem. “É hoje que você vai?”. “Não, domingo”. “Boa sorte, vai dar tudo certo”. “Merci, mec, mando um postal de lá”. Ao fromager solicito um pedaço de velho comté e um do troll, “un fromage formidable, feito exclusivamente por um pequeno produtor, aposto que não tem nada parecido no Brasil”.

Esbarro por acaso na Edith, que começa instantaneamente a falar. “Tá feliz de partir, Daniel? É pra Brasília que você vai? Manda um abraço pros seus pais. Manda também pros seus irmãos. Manda logo pra toda a família de uma vez. É verão por lá? Que sorte a sua. A gente congela nesse inverno europeu. Não sei como você aguentou tanto tempo. Eu adoraria ir ao Brasil. Minha avó nasceu em São Paulo. Uma vez eu tomei guaraná Antártica. Copacabana é linda pela televisão. Etc e tal. Foi ótimo conversar com você. Não deixe de dar notícias. Beijos grandes”.

Continuo meu périplo até o estande onde compro meus legumes. “Salut le brésilien. Tudo bom?”, grita um dos vendedores. “Salut les marrocains. Tudo, e vocês?”. O diálogo em português termina aí. Escolho uma fatia de abóbora e dois alhos porós e ganho um ramo de salsa de presente. “Choukran", agradeço, gastando todo o árabe que sei. "Não se esqueça de voltar pra nos visitar". "Pode deixar, em breve tô por aqui". "Incha’Allah!".

Hoje de manhã, tudo ia bem na rue d’Aligre, como tem sido desde sempre, com seus personagens mudando constantemente, chegando cheios de histórias pra contar e indo embora com tantas outras mais.


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Caros amigos.

O blog segue até fins de março, quando completa 5 anos, já trazendo minhas primeiras impressões do retorno ao Brasil. Depois ele pára de ser atualizado. Em abril retomo a vida de blogueiro, com um projeto completamente diferente. Até lá, nos vemos por aqui. Abraços!

3 comentários:

Orlando disse...

Daniel, bem-vindo aos trópicos. Mas se eu, que não passei nem um mês por aí -- somando viagens --, já estou com saudades da rue d'Aligre, imagine vocês. É um lugar precioso, uma população interessantíssima e muito simpática. Loulou teve sorte de viver por aí nos primeiros tempos de vida. Mas quando vamos aí todos nós, matar saudades?
Até segunda-feira.
Abraços, Papi
P.S.: Avise à Edith que a portuguesa vende guaraná Antártica na birosca dela (cai muito bem com os bolinhos de bacalhau), e que no café da esquina, às vezes tem choro e samba.

Elói disse...

Deu saudade em mim tbm, cara. Bom, tudo pronto, se despediu de todo mundo... agora só falta fazer um hashtag #ficadaniel e virar meme pra aparecer no Jornal Hoje (ou no 20h da TF1). Eu vou postar no twitter :) Abraço

Mirelle Siqueira disse...

Snif