sexta-feira, 6 de maio de 2011

Brasiliá à Paris


Projetada por Oscar Niemeyer, a sede do Partido Comunista Francês é um pedaço de Brasília no meio de Paris. No dia em que inventarem o teletransporte, o viajante que porventura desembarcar ali vai olhar muito desconfiado em volta e pedir reembolso do bilhete, alegando que chegou ao país errado.

- Ué, desci em Brasiliá?
- Non, monsieur, Paris.
- Tá tirando onda comigo, rapaz?

Embora já tivesse passado diversas vezes em frente à incrível construção modernista, ontem finalmente tive a chance de conhecê-lo por dentro, aproveitando que por ali havia um vernissage de uma exposição de quadros justamente sobre a capital brasileira. Assim matei a curiosidade e a fome de uma vez só. E pude apreciar o belo projeto niemeyriano bicando salgadinhos frios e refrigerantes quentes financiados pela bolsa artista dos camaradas franceses, que estão precisando liberar uma nova verba para um microondas e um frigobar. De preferência made in China.

Em frente à recepção havia um sujeito descabelado e com cara de artista incompreendido. Cheguei pra falar com ele e me identificar como provavelmente o único brasiliense presente.

- É você o pintor?
- Pas du tout. Ele está ali. - E me mostrou um engomadinho com cara de recepcionista.

Deixei o engomadinho no seu canto e engatei um papo com o descabelado, que me contou ser o responsável pelas visitas guiadas no prédio e me perguntou se eu era mesmo de Brasília.

- Sou sim.
- Nascido lá?
- Oui.
- Nascido e criado?
- E batizado também.
- Batizado? Valha-me São Marx.

Curioso de ver um specimen exoticus, o cidadão me cobria de perguntas.

- Como é Brasília?
- Parece com isso aqui.
- E as pessoas?
- Parecem com as que estão aqui também, duas pernas, dois braços e uma só cabeça.
- E o Lúcio Costa?
- Esse também tem duas pernas, dois braços e uma só cabeça.
- É verdade que ele é meio francês?
- É, nasceu em Toulon, sul da França.
- Por quê?
- Talvez porque seus pais estivessem por lá na época. Ou ao menos a sua mãe.
- Isso faz um certo sentido.

Com a conversa engatada, o simpático descabelado me levou para conhecer uma sala de reuniões, na qual figurava uma enorme planta de Niemeyer, e ainda liberou o acesso à famosa cúpula, tão bonita quanto a do Congresso Nacional brasileiro. Logo me interpelou novamente.

- E o Niemeyer, você conhece?
- Conheci criança, meu pai trabalhou com ele.
- Seu pai trabalhou com o maior arquiteto do mundo?
- Ele não é tão grande assim, metro e sessenta, no máximo.
- Hã?
- Nada, eu falei isso quando era criança. Na época causou mais impacto.

E fui embora dali consciente da sorte de ser de Brasília, uma obra de arte a céu aberto. A cidade mais dessemelhante que conheço. Lugar amado por uns e odiado por outros, mas ao qual ninguém fica indiferente.

9 comentários:

Vania Otero disse...

Lindo texto, fiquei emocionada.

Ben Harries disse...

Caramba, mto legal o post...vou até divulgar...hahhahahha

Sempre acompanho o blog...

Abraços

Teresa Souza disse...

Adorei. dei boas risadas.

Bruno Leo disse...

Gostando ou não de Brasília, o que tem de melhor lá são os amigos que você faz. Excelente texto como sempre meu amigo. =)

Silvia Amélia disse...

Nascida, batizada e criada em Brasília, adorei o texto!!!!!

Gabi Goulart Mora disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
GGM disse...

Dani, desta vez respondi com outro post :) Beijos da Brasília de cá! Gabi

Sra. Mamma Monstro disse...

Orgulho, Dani! No top 10! bjs

lá pelas tantas disse...

Os meus muitos sentimentos candangos adoraram ganhar o verbo assim! Adoro brasilia e suas tão interessantes crias, como vc, dani! Beijos querido. Bia