sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Autour de Paris IV - La place des Vosges

Antes de qualquer outra coisa, aperte o play abaixo.
(Yves Montand - Les feuilles mortes)




Na place des Vosges as folhas amarelas caem das árvores em um lento balanço rumo ao chão, já repleto delas.

Um funcionário da prefeitura as aglomera em grandes montes, em cima dos quais eu adoraria me jogar se ainda fosse criança, como eu fazia com as porções da grama recém-cortada na minha infância em Brasília. Seu trabalho hercúleo é ainda mais complicado porque o vento teima em espalhar a folhagem agrupada.

O outono definitivamente chegou. Assim como esse ano a estação não teve pressa em se instalar, o empregado também não demonstra urgência em terminar sua tarefa. Ele deve saber que, por mais folhas que recolha, sempre haverá mais e mais caindo. Inevitavelmente penso em Prometeu, o semi-deus grego que entregou o fogo aos homens e por isso foi condenado a passar 30 mil anos tendo seu fígado comido por uma águia de dia e reconstituído à noite.

O funcionário abarrota um contêiner e vai descarregá-lo em uma espécie de gaiola criada para isso, onde um colega pisa nas milhares de folhas reunidas, compactando-as em uma dança desconjuntada na qual seu pé às vezes afunda demais, às vezes desliza em um quase tombo, que nunca se concretiza.

Do outro lado da praça, um terceiro trabalhador manipula dois ancinhos com imensa habilidade, e não demora a preencher seu próprio contêiner. Labuta cumprida, ele enfia seus instrumentos de trabalho na grande caixa, com os cabos para baixo, deixando visíveis apenas as bases, espécies de vassoura em metal. De longe, tenho a impressão de ver dois espantalhos. Por via das dúvidas, os poucos pombos que ainda não se recolheram com a chegada do frio nem passam perto.

O vento sopra mais uma rajada e algumas folhas sustentam-se um segundo no ar, antes de pousarem suavemente em cima de mim. No outono a vida anda mais devagar. Essa época do ano, como diz uma amiga, é mais do que uma estação. É um estado de espírito.

Esse texto faz parte da série "Autour de Paris", de crônicas dedicadas a cada um dos bairros da cidade. Para ler os outros, clique aqui.

6 comentários:

Pápi disse...

Chéri à Paris, os outonos são diferentes para a França e para o Brasil até nas trilhas sonoras: aí, Yves Montand e "Les feuilles mortes" para a place des Vosges, aqui Nelson Cavaquinho e "Folhas secas" para a Mangueira. Que bom que existem as duas, ou, como diria Chico Buarque, que bom que tem Paris e Rio.

Fluzão Eterno disse...

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Carol Nogueira disse...

Lindeza, e não é? Hora da gente recomeçar os apéros nas casas uns dos outros, de tomar chá, de prolongar um pedacinho mais de conversa enquanto vai se recolocando as mil camadas na hora das despedidas... Que climão de despedida é esse, que até no outono eu ando vendo beleza... :o) Beijo, queridão! E brigada de novo por hoje cedo.

Camila Santos disse...

Que lindo! Dá vontade de passar o outono em Paris (ai, ai, se eu pudesse...)

Mami disse...

Bombou Daniel!!, ainda mais com essa música linda ao fundo cantada divinamente por Yves Montand. Dá até uma certa nostalgia.
Beijos saudosos de Mami

aLiNe disse...

Gostei muito desta nova série de posts! Pena que andei meio em off... O lado bom é que eu leio um montão seguido agora, rs! Mas, infelizmente, não consegui ouvir a música... Serviu-me de fundo "A Sunday Smile" do Beirut mesmo. Espero que aos seus olhos/ouvidos, eu não tenha estragado o seu post...