sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Autour de Paris II - Passage des Panoramas


O bom de estar em Paris é que Paris não se cansa de me surpreender. Moro aqui há 3 anos e meio e toda vez que vejo monumentos como a torre Eiffel e a Notre Dame, que já vi milhões de vezes, me dou conta disso e penso “caramba, estou em Paris!”.

Esse tipo de sensação acontece o tempo todo, quando descubro um jardim escondido, uma rua charmosa ou um restaurante imperdível. E hoje aconteceu de novo.

Peguei uma vélib e saí em direção à Bourse, a bolsa de valores, localizada no 2ème e escolhida para essa segunda crônica sobre os bairros da cidade. Porém, com meu aguçado senso de não-direção, acabei parando longe de onde havia planejado. Tant mieux, pois no caminho topei com a Passage des Panoramas, a mais antiga passagem coberta de Paris.

A Passage des Panoramas foi criada em 1799, para que os parisienses pudessem fazer compras abrigados da chuva e da sujeira da cidade, que não tinha esgoto na época. Hoje serve como uma espécie de galeria, cheia de restaurantes, algumas lojas de filatelia e com um climão que me lembra a Galeria Menescal do Rio de Janeiro, onde se encontra a 2ª melhor esfirra da história das esfirras. A melhor está não muito longe dali, na Galeria Condor, no Largo do Machado.

Cheguei perto da hora do almoço, e o cheiro de comida vem de todos os lados. Do restaurante italiano, onde estou e bebo apenas um café, sobe um aroma de manjericão fresco. Do indiano da frente, de curry. Do francês logo ao lado não vem cheiro nenhum, mas o cardápio do dia sugere um “carré de cochon rôti de Paul Legros”, um pedaço de porco grelhado de Paul Legros, Paul o gordo, em português. A dúvida que me bate é se o porco é do Paul, é preparado pelo Paul ou é o próprio Paul. A não conferir.

Ao meu lado, uma senhora fala do marché d’Aligre para o italiano dono do restaurante, e conta a ele maravilhas dos legumes bio que se encontram por lá. Bio – biô, pra eles - é a nova moda francesa. Todos os bo-bos, os bourgeois-bohème, comem biô e se acham super naturebas, enquanto acendem mais um cigarro.

Pouco depois surge um sujeito mais velho, de muletas, e senta-se mais perto do balcão. O italiano faz jus à fama do seu povo e dirige-se a ele num quase grito.

- Ei, pra você nós estamos fechados.
- Eu não quero nada dessa birosca não, só sentar nessa cadeira podre aqui.

Eles sorriem, se abraçam e o dono vai buscar um café para quem parece ser um amigo de longa data, que o bebe com gosto e agradece.

O italiano, feliz da vida, volta pro seu balcão cantando.

- Amore, amore, amore!!!

Paris não se cansa de me surpreender. A poesia está em cada uma de suas esquinas.

Esse texto faz parte da série "Autour de Paris", de crônicas dedicadas a cada um dos bairros da cidade. Para ler os outros, clique no marcador autour de paris, que está aí embaixo.

9 comentários:

Fabíola Calazans disse...

Muito bacana. Tem um livro magnífico de Walter Benjamin intitulado As Passagens. Acho que você vai gostar, ele fala das galerias e das passagens em Paris. O livro é meu xodó. Bjos

Carol Nogueira disse...

Hhhmmmm, e acho que essas crônicas podem virar um livro que também não faria feio como um guia alternativo para a cidade. Não acha? :) Muito bacana mesmo, Dani.

Bípede Falante disse...

Quem me dera!!

Júlia disse...

Vou parar de ler seu blog. Sempre que venho aqui me dá uma vontade imensa de ir imediatamente pra Paris. Haha...

aLiNe disse...

Paris não cansa de surpreender você e eu não me canso de ler seus posts sobre a Cidade Luz! =)

Teresa Souza disse...

fiquei morrendo de vontade de conhecer a passage des panoramas... deu água na boca!

André Lima disse...

Chéri, parabéns pelo seu blog. Estou dando uma passada por aqui pois viajo amanhã para Paris. Peguei seu link no Conexão Paris somente hoje, mas vou vasculhar outros Posts seus pois gostei muito! É muito interessante esse seu olhar sobre a Cidade Luz.
Abraço.

Marisa Muros disse...

Da próxima vez, não vou perder as "passagens"...Paris é inesgotável! Adoro!!!

Rodrigo Nardotto disse...

Legal!