sexta-feira, 23 de julho de 2010

O mito do longo prazo


De passagem por Brasília, fui convidado a ir à UnB, a universidade onde estudei, conversar com os alunos do curso de laboratório de publicidade e propaganda. Em homenagem a eles publico aqui essa crônica, escrita para a revista nunca publicada de uma agência de propaganda.

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Todo publicitário sonha com um mundo ideal, no qual o diretor de criação diria docemente:

- Tá aqui o briefing. Mas não tem pressa, a campanha é só pra daqui a um mês. Nesse tempo, toma um cafezinho. E se precisar de cafuné, é só chamar.

Quem é da área sabe que é mais fácil o Suriname ser campeão da Copa do Mundo do que isso acontecer. E se acontecesse, nós não saberíamos o que fazer, pois simplesmente não conseguimos trabalhar com tanto prazo.

Apesar de termos que estar sempre antenados com o que rola de mais moderno, acredito que uma parte dos cérebros dos publicitários ainda é meio "old-fashioned", e opera como as velhas máquinas a vapor: quanto mais pressão, melhor. Daria para descrever o seu funcionamento com uma equação como C=P2/∆t, onde C é o cérebro, P é a pressão e ∆t é o deadline.

Imagino o desfecho da situação irreal proposta ali em cima.

- Ô, Juca. Chegou um briefing grande aí, ó.
- Eu vi, mas tem uma coisa que eu não saquei bem.
- O público-alvo?
- Não. Isso é moleza. São as senhoras de 60 anos que já se desquitaram 4 vezes e agora resolveram se dedicar aos esportes radicais.
- É a escolha da mídia?
- Também não, Pedrosa. É verdade que achei estranha a idéia daquela peça promocional, o batom que você aperta e ejeta uma corda de rapel. Mas o resto tá ok.
- Então só pode ser o slogan, que já veio pronto do cliente.
- Nada, eu até gostei. "Radical é a sua avó" é bem apropriado.
- E o que é que você não entendeu, então?
- O deadline.
- O deadline?
- Tem um número errado ali. Tá dizendo que o trabalho é pro 15 do 9, quinze de setembro.
- Isso.
- Mas estamos em julho, mês 7. Hoje é só 23 do 7.
- Isso.
- Temos quase dois meses pra fazer a campanha?
- Isso.
- Não tá certo, Pedrosa. Quem é que consegue criar assim, com todo esse prazo?
- Eu é que não.
- Não dá mesmo.
- E o que a gente faz?
- Vamos deixar o job no fundo da gaveta, pra só tirar de lá 5 dias antes do dia final.
- Genial.
- Agora dá licença que vou ali pedir explicações pro chefe.
- Sobre o trabalho?
- Não. Sobre a história desse deadline. Ele tá pensando que a gente é o quê?

5 comentários:

Sentilavras disse...

Hahahaha... Gostei. Não sabia q vc tbm já foi da FAC. Fiz jornalismo lá. Sinto um saudadezinha.

Fabíola Calazans disse...

Caro Daniel San, obrigada pela conversa com os alunos do LABPP da UnB. Eles gostaram muito da oportunidade de conversar contigo e adoraram a Brazuca. :)

Juliana Duarte disse...

Muito bacana, Daniel!
Só falta o diretor de arte criar um jogo da velha como mote da campanha, né?! heheh

Aproveito para agradacer mais uma vez a sua presença no LabPP. Foi um momento muito bacana para nós e para os alunos :)

Abs, Juliana Duarte

Muri disse...

Olá Daniel...
Então rapaz estou tentando terminar mais esse livro, tenho trÊs projetos, mas este sobre as relações interpessoais é o mais recente e o que está dando mais certo...
Eu estou transformando minhas experiencias em histórias na vida de três personagens principais, e eu ao longo do livro estou mesclando essas histórias, e eles mais pra frente ainda terão algumas relações entre si. Voltei a escrever a pouco tempo, mas estou ansioso por terminá-lo! É legal porque eu me vejo como escritor e leitor ao mesmo tempo, creio que o leitor vai torcer muito para eles se encontrarem afinal ehehe
Daniel se você quiser poderíamos conversar mais sobre por email, meu email é muribraga@hotmail.com seria um enorme prazer.
Abraços... Ah e obrigado por visitar meu blog, eu estou sempre acompanhando o seu, muitíssimo interessante sempre!

Júlia disse...

Hahahahaha
Eu, como (futura) publicitária, morri de rir.
E não é que é assim mesmo? Tudo em cima da hora. E aí fica reclamando que queria ter mais um diazinho pra ficar perfeito. Haha