sexta-feira, 9 de julho de 2010

Clésio


- E para o trabalho final vocês fazem o que quiserem. Mas não desperdicem essa chance com algo que não valha a pena. Escrevam o texto que vocês sempre sonharam escrever. Não há nenhuma restrição de tema, formato ou tamanho.

A liberdade muitas vezes pode ser sufocante. O que eu, com ainda 20 anos na época, teria até então sonhado escrever? Nesse segundo semestre da faculdade de publicidade, ainda nem havia escolhido ser redator, não sabia se tinha algum talento para escrita, jamais havia pensado seriamente a respeito.

- O que você sempre desejou redigir?

Fazer o aluno pensar é algo que somente os grandes professores, os verdadeiros mestres, conseguem. O Clodo fez mais de uma geração de publicitários pensar graças ao seu curso de Criatividade em Publicidade. O Zé Ferreira fez uma faculdade pensar ao ceder a um grupo de jovens empolgados, eu incluso, duas aulas para uma apresentação sobre a importância dos Beatles na história da comunicação. O Wagner Rizzo me fez pensar ao me dar a única bomba em 4 anos de universidade: “deixa de preguiça, rapaz, você é capaz de fazer muito melhor do que isso”.

- Aqui não existem restrições de nenhum tipo.

Com duas décadas completadas, achava-me senhor do universo. Fazia o curso que sempre quis, tinha os melhores amigos do mundo, tocava em uma banda barulhenta e divertida e, por cima, a minha namorada era a mais bonita de todas. Mas não tinha idéia do texto que entregaria no final do semestre.

E foi refletindo sobre isso que me dei conta de que adoraria escrever crônicas, meu estilo literário preferido desde que descobri, ainda com 8 anos, um livrinho com histórias de Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Luis Fernando Verissimo, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e outros gênios das letras.

Muito mais do que eu poderia imaginar naquele momento, essa tomada de consciência guiou minha vida profissional. Como universitário, usei e abusei do estilo em um fanzine que fundei e afundei 10 anos depois. Como publicitário, busquei a concisão de forma quase obsessiva nos meus textos e slogans. Como jornalista, privilegiei uma linguagem clara e leve. E, como cronista, criei esse blog, reproduzido em sites e revistas como o Le Monde Diplomatique e a Brazuca.

- Faça valer a pena. Não desperdice essa chance.

Pois é, caro Clésio Ferreira, meu ex-professor de Oficina de Texto na Universidade de Brasília, poeta e compositor de mão cheia, pessoa brilhante que vai deixar saudades nos que tiveram a sorte de conhecê-lo, espero não tê-la desperdiçado. E muito obrigado por ter cruzado o meu caminho.

11 comentários:

Júlia disse...

Também faço publicidade.
Infelizmente, meu caminho não cruzou com o de Clésio Ferreira.
Mas agradeço por ter tido (e estar tendo!) a oportunidade de conhecer professores incríveis que, mais do que simplesmente passar o conhecimento, nos ensinam a pensar.

Natacha disse...

Que lindo. Clodo, Climério e Clésio são piauienses. Ficamos tristes por aqui

Orlando disse...

Valeu, Daniel, bela homenagem ao Clésio. Longa vida aos artistas e artesãos da palavra -- os poetas, cronistas, romancistas, jornalistas, escritores de teatro, publicitários, cordelistas, etc. etc. E aos professores de texto que ensinam o ofício mostrando aos jovens a liberdade como caminho da criação.

Alessandro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alessandro disse...

Grande Daniel,

Você não imagina. Clesio foi meu vizinho na 216! Do mermo andar, quase q de porta. Já bati altos papos com ele. Desabafei. Me contava as historias dele. Vira e mexe ele fazia chá, fazia alguma comida e me chamava pra ir lá. O cara viajava ouvindo kraftwerk. Realmente uma presença muito boa.

Curtia muito o cara, ate q um dia me mudei, e lá se foi mais uma história em que se perde contato das pessoas. Penso agora em como eu gostaria de poder encontrar ele de novo. Fico imaginando uma aula com ele. É isso. Até pouco tempo atras, quem sabe. Agora não mais.

É a vida. E vice-versa.

Gabi Goulart Mora disse...

Dani, me lembro bem da nossa angústia na aula. Salve a doçura e a liberdade instigada pelo professor Clésio! Beijo.

Cristovao disse...

Que deprê, Daniel. Fiquei sabendo por um post do Olímpio que me redirecionou para cá. Sem dúvida, foi um dos professores mais legais que tive na Com. Até hoje lembro quando ele nos fez destrinchar "O Quereres" em sala de aula. Clésio tinha um jeito muito suave de despertar a criatividade das pessoas.

Gilson Leal disse...

É Daniel, O Clésio foi um professor muito especial pra mim e para aqueles, como vc, que entenderam sua questão: o que é liberdade criativa? partindo de uma pergunta anterior: o que vc se deve ?
Este raciocínio, muito mais que qualquer teoria, sempre me acompanhou desde então. Penso que ele cumpriu o seu papel de mestre. Deixar uma questão com infinitas soluções.

Parabéns pela homenagem Cariello ! e que o Clésio continue fazendo essa pergunta em outros mundos...

Ana Patricia disse...

Bonito e inspirador o texto sobre seu professor. Embora tenha vontade de escrever, mesmo antes de saber escrever (com 4 anos, comecei a ditar um livro inacabado), nunca me fiz pergunta tão importante sobre o que gostaria de escrever. Espero não guardar em minha mente essa pergunta, e sim transformá-la em ação. Obrigada pelo texto que para mim é motivação! Beijos

Vania Otero disse...

Que texto bonito Daniel, me fez lembrar um excelente professor que eu tive na faculdade, chamava-se Clauze. Tem pessoas que pasam pela nossa vida e fazem toda a diferença...O Clésio e o Clauze tinham essa capacidade!

Carol Nogueira disse...

Beibe, "nous sommes ce que nos rencontres ont fait de nous". Sorte a minha que tambem encontrei o Clesio. Sorte a minha que tambem encontrei voce! Beijo grande, xuxu!