sexta-feira, 5 de março de 2010

Flanando no Panis


Primeiro de março, primeiro dia do ano em que a temperatura atingiu os dois dígitos. Uma boa desculpa para uma caminhada descompromissada por Paris. Sem dúvida, uma das melhores coisas a se fazer na cidade.

Saio de casa sem a menor idéia do caminho a seguir. Na praça da Bastilha, hesito entre duas ruas. A primeira leva ao bairro do Marais, a segunda à Île St. Louis. Pego esta.

No iPod, para ritmar a andada, Friends, um dos melhores e mais desconhecidos discos dos Beach Boys. Passo pelo Boulevard Henri IV, que não é dos mais interessantes à primeira vista, mas revela alguns restaurantes e bares promissores a um olhar mais atento. Penso em parar para um café, mas decido que ainda não é a hora.

Chego à Île St. Louis e atravesso a pequena ponte que a une à Île de la Cité, onde fica a Notre Dame. Com um sentimento de satisfação e, confesso, blasé, vou em direção ao parque localizado atrás da catedral, sem dar a mínima bola para um dos mais famosos pontos turísticos de Paris. A calmaria do lugar contrasta com a enorme e constante aglomeração logo ali ao lado.

Escolho um banco virado para o Sena. Apesar desses bancos acomodarem tranquilamente três pessoas, há apenas uma nos que estão ocupados. Encontro um vazio, sento e abro um livro. O dia amanheceu bem azul, mas agora já está um pouco cinza. Não tem problema, ainda está agradável o suficiente para uma leitura ao ar livre.

A cavalaria municipal passa do outro lado do rio e pais e crianças correm para ver os animais. Levanto, observo e volto a sentar. Fecho o livro, levanto de novo e saio caminhando para a frente da igreja.

O relógio público marca 16h30 e acho que a hora do café enfim chegou. Já na rive gauche, o lado da cidade à esquerda do Sena, encontro um bom lugar. Fica perto da famosa livraria Shakespeare & Co, que vende apenas livros em inglês, tem um piano e uma máquina de escrever à disposição de quem quiser e, não raro, hospeda escritores sem abrigo, como fez com Allen Ginsberg e William Burroughs nos anos 50.

O Café Panis, pra onde me dirijo, está localizado exatamente em frente ao sinal de trânsito mais perto da Notre Dame. Escolho uma mesa com vista para a catedral e para os carros, pedestres, caminhões, bicicletas, pombos e motos que passam pela rua. Olho para eles e eles olham para mim, construindo suas crônicas mentais sobre aquele cara do lado de dentro, aparentemente contemplando o nada.

Decido então fazer minha própria crônica de flanêur, sobre o momento, começando de quando saí de casa algumas horas antes. Escrevo, risco, mudo de rumo, como no trajeto que tomei para chegar até aqui. Quando me dou conta, ela está pronta, no meu surrado moleskine. Quem foi mesmo que disse que o mais importante não era o fim, mas o caminho?

Obs 1: O título desse texto (e o próprio texto em si) é uma homenagem ao excelente livro Flanando em Paris, de José Carlos Oliveira.

Obs 2: Leiam as histórias em quadrinhos de Belle & Chico, os irmãos franco-brasileiros.

13 comentários:

Sentilavras disse...

Oh la là! Adoro seus textos.

Mirelle Siqueira disse...

4,20€ por um café???

Rs, suponho que estava delicioso como os seus textos?!

Chéri disse...

Foi um chocolate quente, Mirelle. Mas é caro, quand même.

Barbarela disse...

Cheri,
Fico feliz e orgulhosa de ter te apresentado esse cantinho inglês em Paris para vc... Se morasse aí voltaria a visitá-lo sempre! Amo livrarias e a Sheakespeare&Co tem uma história muito legal!!!
Depois de ler seu delicioso texto flanêur fiquei me perguntando porque que por aqui usamos tão pouco os parques, praças e espaços verdes para ler livros, fazer piquiniques ou simplesmente ver a vida passar. Será que é porque o inverno é tão rigoroso no hemisfério norte que faz com que as pessoas valorizem mais os ambientes ao ar livre? Nesse caso, aqui abaixo da linha do Equador o calor nos deixa preguiçosos demais para sair de casa e sentar num banco de praça??
Adorei o texto e o caminho que vc fez!! ;o)

Jú Fuscaldi Rebouças disse...

Nossa, seus textos me dão sempre uma vontade de estar em Paris!
Na Shakespeare & company, que é o lugar mais charmoso do mundo. Eu quero!

Bípede Falante disse...

Mas que vidinha ruim você leva, hein??

Papi disse...

Uma informação talvez desconhecida, Daniel. Seu homenageado de hoje, capixaba, era amigo de seu avô Orlando, que foi aliás personagem de crônicas de "Carlinhos Oliveira" (nome pelo qual foi consagrado no Pasquim). Coisa de sessenta anos atrás, em Vitória. Flanam os dois, hoje, por outras paragens, e tenho certeza que apreciariam seu texto e a homenagem ao escritor.

Mami disse...

Dani, lindo texto.
O título poderia ter sido dado pela
sua avó Anileda que adorava essa
expressão "flanar". Que saudade!
Bjs.
Mami

artebaiao disse...

Cheri:
Que texto delicioso!!!
Me imaginei lá!
Matei saudades!
Com lágrimas nos olhos!!!!
Obrigada!
Tânia Baião

Priscila disse...

Olá Daniel,
Meu nome é Priscila Andrade e faço parte da equipe bab.la (http://pt.bab.la), um website interativo com dicionários multilíngues, fóruns e outros recursos linguísticos. Temos uma competição que elege anualmente os cem melhores blogs sobre intercâmbio e vivência no exterior. Acho que o resultado desta competição é interessante para a seção de intercâmbio do seu site, já que os dois primeiros colocados são blogs escritos por brasileiros que vivem no exterior. A lista dos cem melhores blogs de 2010 sobre as aventuras (e desventuras) de se viver no exterior está aqui:
http://en.bab.la/news/top-100-international-exchange-experience-blogs-2010

É possível inserir em seu site o mapa interativo do Google com a localização de todos os blogs. O código está na página de resultados mencionada acima.
Outra ferramenta interessante para seus leitores é o “Guia de Sobrevivência para Viagens” com frases básicas em 14 línguas (http://pt.bab.la/viagens/guia-de-sobrevivencia/). O Guia foi desenvolvido com base na sugestão de usuários e é uma ótima fonte para quem pretende viajar para o exterior e para quem recebe turistas estrangeiros. É possível combinar o Português com qualquer um dos 13 idiomas disponíveis, inclusive japonês, chinês e hindi. O Guia de Sobrevivência vem em formato PDF para download e é gratuito.
O bab.la oferece ainda uma caixa de tradução que pode ser adicionada gratuitamente nos websites das instituições ou pessoas interessadas.
Gostaria de saber se existe interesse em incluir o link para o Guia de Sobrevivência ou a caixa de tradução do bab.la em sua página. Se houver dúvidas ou sugestões basta me enviar um e-mail.

Atenciosamente,
Priscila Andrade

L.M. disse...

Também adorei o texto, mas nao o preço do café... Um pouco caro demais... Mas eu nao tenho coragem de fazer essas caminhadas só por caminhar, só no verão.... Muito frioooooo...
bjss
Luiza
www.oguiadeparis.blogspot.com

Jose Ramon Santana Vazquez disse...

...traigo
sangre
de
la
tarde
herida
en
la
mano
y
una
vela
de
mi
corazón
para
invitarte
y
darte
este
alma
que
viene
para
compartir
contigo
tu
bello
blog
con
un
ramillete
de
oro
y
claveles
dentro...


desde mis
HORAS ROTAS
Y AULA DE PAZ


TE SIGO TU BLOG




CON saludos de la luna al
reflejarse en el mar de la
poesía...


AFECTUOSAMENTE:
CHERI A PARIS


ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE LOVE STORY, CABALLO, LA CONQUISTA DE AMERICA CRISOL.

José
ramón...

Luma disse...

Engraçado, Dani, esses dias tenho viajado muito no poema do Antonio Machado, poeta espanhol, que fala: "Caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Ao andar faz-se o caminho.
E ao olhar-se para trás
vê-se a senda que jamais
se há-de voltar a pisar."
Coincidência, né?
E lógico que essa flanagem me lembra daquela q a gente fez por essas bandas daí no seu aniversário do ano passado. Inesquecível!
Abração, meu velho!
LM