sexta-feira, 10 de julho de 2009

Një Peja, të lutem

Nunca imaginei que um dia acabaria no Kosovo. Saca o Kosovo? O mais novo país do mundo, mesmo se nações como o Brasil ou a Espanha não o reconheçam. Aquele sobre o qual os jornais sempre dão manchetes tipo: "Confusão no Kosovo", "OTAN bombardeia Pristina" e coisas do gênero.

Então. É daqui mesmo que escrevo esse texto. Mas não pra falar de guerras ou de processos conturbados de independência. E sim de bares. E justifico.

É que depois do estranhamento inicial da chegada, não demorei a me sentir em casa em Pristina, a capital. Um pouco pelo fato de as ruas estarem cheias de flanelinhas e lavadores de pára-brisa nos sinais. Uma tecnologia que julgava brasileira e, descobri, é comum nos bálcãs. Mas principalmente por que já tenho meu bar aqui. Aliás, tenho um bar, um celular e uma agenda cheia de nomes de pessoas bacanas. Elementos que, combinados na dose certa, podem significar felicidade. Na dose errada podem significar cirrose. Ou ao menos uma dor de cabeça desgraçada.

E como se ainda fosse pouco, tenho também uma teoria. De boteco. Diz que o cara cria raízes indeléveis com um lugar quando ali elege seu bar preferido. Como o Beirute em Brasília, o Bar do Mineiro no Rio, o La Liberté em Paris ou o Strip Depot em Pristina. Uma escolha desse calibre é etapa importante na vida social de qualquer cidadão.

Pois o Strip Depot, então. É uma mistura de pub inglês, café francês e preço brasileiro. Quase uma filial do paraíso. E apesar do nome não tem nada a ver com esses lugares de strip tease. Ao menos até onde eu tenha visto. O Strip Depot é um dos poucos lugares de Pristina onde há um equilíbrio na quantidade de homens e mulheres. E ponto de encontro de músicos, artistas e descolados em geral.

Mas um sujeito não é feito apenas do bar que ele escolhe. Vale lembrar da outra angústia que consome a vida de pagadores de impostos ao redor do globo, do Peru à Croácia, do Canadá ao Uzbequistão: a decisão de qual é a cerveja preferida. Eu já tenho a minha. Tá, as minhas. No Brasil, Antártica Original, faz favor. Na França, Leffe, s'il te plaît. E no Kosovo, Peja, të lutem. Alguém sem cerveja preferida é um eclético da cevada. E ecléticos, sabe-se disso mundialmente, são aqueles que não escolhem. Seja por preguiça, comodidade ou falta de noção.

Fiquei pensando nisso tudo quando, no meu terceiro dia em Pristina, voltei pela terceira vez ao Strip Depot. Sentei, abri meu caderno de anotações e rabiscava alguma coisa. Então o garçom dirigiu-se a mim. Não em albanês, como faz normalmente com os clientes. Mas em inglês. Reconheceu-me. "How are you today? Is everything fine?". Nessa hora, pensei se estava bebendo demais esses dias. Pensei se devia estar ali mesmo, ao invés de ir ao hotel terminar um trabalho. E pensei ainda que aquela cevada cedo ou tarde (mais cedo do que tarde, certamente) acabaria concentrando-se na minha região abdominal, criando os inevitáveis pneus. E num golpe de esperteza, resolvi todas essas questões com a frase certa, dirigida à pessoa certa:

- Yes, everything is ok. Can I have a Peja, të lutem?

11 comentários:

Cristiane disse...

Saúde!

destinoparis disse...

porra!
que texto loco!
tumando uma cervejinha em sp e já sabendo que "leffe" será eleita. por que afinal, cerveja é original!

mirrrrrrrrrr risos!

Carol Nogueira disse...

Maravilha! Me convida que eu vou com você! :)

Renato disse...

Mas, afinal de contas, tem cossaco em Kosovo?

Fernando disse...

'Peja, të lutem' soa muito bem aos ouvidos. Se bem que me identifico com a rara alemã 'Dummkopf'!

Saúde, jovem!

Jú Fuscaldi Rebouças disse...

"E ecléticos, sabe-se disso mundialmente, são aqueles que não escolhem. Seja por preguiça, comodidade ou falta de noção." - Vou usar essa quando me xingarem porque eu não gosto de música ruim... =D

Gigi disse...

Dani, adorei! Muita sabedoria... minha frase preferida: "E ecléticos, sabe-se disso mundialmente, são aqueles que não escolhem. Seja por preguiça, comodidade ou falta de noção."

Oficina da Palavra disse...

Daniel,
meu nome é Clara Balbi e há muito acompanho o blog. Estávamos conversando durante a minha aula de Oficina da Palavra (uma espécie de projeto desenvolvido pela escola para quem gosta de escrever) e me lembrei de um post seu, "A França em torno do umbigo". A professora pediu para divulgá-lo, e eu o fiz, obviamente com os devidos créditos. O endereço do post é este: http://oficinaentrelinhas.blogspot.com/2009/07/cheri-paris.html

Espero seu consentimento ansiosamente. Muito obrigada - e parabéns pelo blog!

Rodrigo Dourado disse...

Daniel,

Lembrei que eu ainda lhe devo algumas libras justamente por conta destas suas preferências ridículas pela cevada..... Aproveito para lhe informar que o pequeno brasileiro-uruguaio, Vitor, está chegando antes do francesinho de vcs (jan/10)
um abraço para Charlotte tb!
Rodrigo Dourado

Gabi Goulart Mora disse...

Pelo jeito vc levou a sério as aulas do Carlos Chagas: "Um jornalista deve escolher a sua bebida da vida". Incrível como nunca aprendi a lição e sigo sem rumo na vida etílica. Beijos!

Anônimo disse...

Daniel, você é demais! Pena que eu não bebo... Engorda mesmo, viu! :-) Um beijo, Sandra