sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Paisagem da janela

Antes de começarmos, olhem bem para esta letra: û.

Essa é mais ou menos a visão aérea da disposição dos prédios vizinhos ao meu, considerando que eu moro ali em cima, no acento circunflexo. Tenho vista para toda a vizinhança. E toda a vizinhança tem vista para mim.

No começo, essa exposição me incomodava. Mas agora já me acostumei. A questão de se viver em Paris é que a sua privacidade é tão real quanto a popularidade do presidente Sarkozy: dizem que existe, mas ninguém prova.

Com tantos apartamentos à mostra, se eu fosse o James Stewart, em Janela Indiscreta, teria um prato cheio à disposição. Mas mesmo não bisbilhotando (muito) a vida da vizinhança, existem coisas que não dá pra deixar de notar.

. O solitário da sacada
No prédio da frente, tem um sujeito que fica o dia inteiro encostado na sacada, paradão, fumando e olhando a rua. Não sei o que ele faz da vida, mas desconfio se tratar de uma versão francesa do Seu Rafael, está ali para garantir que nada vai mudar. A diferença é que o equivalente brasiliense só se preocupa com a temperatura do dia. Já o meu vizinho parece se importar com a sucessão, pois agora passou a contar com a companhia - estática também - de uma criança, que eventualmente passa algumas horas ali, talvez aprendendo os segredos do ofício.

. Os festeiros do 7º andar
É um absurdo! Todo sábado, sem exceção, eles se reúnem no prédio à esquerda do meu. São trinta, quarenta, sei lá. Bebem, escutam música em volume alto, dançam, riem e ficam nessa até tarde. Já decidi reclamar com eles, aprontar um barraco, essas coisas de vizinho, sabe? Afinal, é um absurdo nunca terem me convidado.

. O casal atômico
Nunca os vi, mas já os escutei diversas vezes. E sempre que eles têm uma discussão braba (e eles sempre têm uma discussão braba) a vizinhança logo aparece nas respectivas janelas. É a chance de ver o velho barbudo do prédio da direita, a gorda da frente com lenço na cabeça, e o seu vizinho de baixo, que está sempre com um poodle nos braços. Vida besta? Quem disse?

. A vizinha de porta
Também não mostra a cara, só a voz. Fico tanto tempo sem ouvir qualquer barulho vindo da sua casa que chego a pensar que ela morreu ou se mudou. Mas há um processo infalível para saber se continua por lá: basta tocar violão na sacada. Não importa a hora do dia. Não importa quem toque. O violão soou, ela pintou! Pra reclamar, é claro.

. Os cozinheiros do 2º andar
Ao contrário do casal atômico, eles não fazem barulho. Mas o cheiro do que preparam se espalha pelos arredores. Outro dia quase gritei pra avisar que o bolo de chocolate estava queimando. Achei melhor deixar quieto.

. A mocinha de baby doll
Mora bem em frente à minha janela. Em frente mesmo. Mas ela, diabos, só apareceu uma vez.

9 comentários:

Anônimo disse...

on s'y croirait presque...

M. disse...

cara, seus textos são ótimos! vale a pena repetir isso de vez em quando. e a vontade de morar em paris só aumenta. um dia eu chego lá!

evipensieri disse...

Não me lembro como cheguei aqui mas adorei seu blog.

Elvira

FabiCatarse!! disse...

...a do bolo queimando foi maldade, heim?! Se tivesse avisado poderia ter ganhado um teco!!! hehehehe

Bj!

Carol Nogueira disse...

Adoro a sua varanda. Parece uma foto antiga de telhados parisienses. Devia virar um quadro. Beijo.

Valberius disse...

Muitas vezes nossa janela é melhor que nossa televisão

brasileiros cantam brasileiros disse...

Dani! Muito bom o blog!!! Cara, peguei teu contato com a Pauilinha! Tah lembrado de mim? Felipe, o primo pródigo!!! Tenho um projeto que pode te interessar, eh relacionado à França. Enfim, meu mail é fechatedesco@yahoo.com.br
Me escreve! Quero trocar uma idéia contigo! Abração!

Felipe Tedesco disse...

Dani! Ótimo teu blog!! Quem fala eh o primo da Paulinha, Felipe, de Porto Alegre, lembra? Cara! quero te falar de um projeto que tenho que tem a ver com música e França. Me escreve. fechatedesco@yahoo.com.br
Um grande abraço!
Felipe

Paula disse...

Dani, muito bom! Adoro quando você fala do seu Rafael! ehehe Figuraça!