sexta-feira, 11 de julho de 2008

Paris, 2155

Em 2155, pai e filho passeiam pelas margens do rio Sunny, antes chamado Sena.

- Logo ali ficava a torre Eiffel, meu filho. Um dos símbolos da antiga França.
- Nunca ouvi falar.
- Era enorme.
- Servia pra quê?
- Não se sabe bem. Acho que foi construída para uma exposição.
- E cabia dentro de uma sala de exposição?
- Não ficava em sala nenhuma, filho. Ficava ao ar livre. Era um ponto turístico muito famoso, as pessoas vinham visitá-la. Mas isso foi antes de o McDonalds transformar o lugar num drive thru, que logo depois virou o maior fly thru do mundo.
- Então faz tempo, né?
- Faz sim. Seu avô tem umas fotos holográficas. Você nunca viu?
- Acho que vi. São aquelas em que a vovó está segurando um pão gigante e alongado de hambúrguer?
- Eles chamavam de baguete, e não era pra hambúrguer.
- Se não era pra hambúrguer, era pra quê?
- Ah, meu filho, naquela época os franceses comiam essa baguete com outras coisas, como queijos, patês e frios.
- Quem eram os franceses, pai?
- Eram os habitantes da antiga França. Eles bebiam muito vinho e falavam uma língua estranha, chamada francês.
- Que coisa mais bárbara.
- Nem me diga. Por isso, logo que assumiu o poder, Ronald McDonald II tratou de acabar com os resquícios dessa civilização. Seu primeiro ato foi trocar o hino nacional.
- Eu conheço o hino da República das Batatas Francesas, pai. É aquele que começa assim: “dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial...”
- Muito bem, filho. E depois dessa linda introdução ainda tem a segunda parte, que descreve as maravilhas da terra prometida de Mickey, o sábio.
- Sabe, papai, outro dia os professores-andróides falaram do Napolimão.
- É Napoleão, o famoso imperador.
- Os andróides contaram que foi ele quem mandou construir aquele arco que serve de porta de entrada do museu da paz George Bush.
- Isso mesmo. Fico muito contente de ver que você tem aprendido coisas tão importantes na escola.
- Mas pai, tem uma coisa que não entendo. Na escola disseram que essa cidade que a gente mora, New Hollywood of Europe, chamava-se Paris.
- É mesmo.
- É por causa da Paris Hilton, aquela modelo polêmica do século passado?
- Claro que não, filho. Quando Paris Hilton nasceu, a cidade de Paris já existia havia bem mais de 10 anos.
- Outra coisa que me contaram é que os franceses eram super mal humorados.
- Dizem que sim, filho, mas ninguém tem muita certeza. O que se sabe é que o IPF, o Índice Pateta de Felicidade, aumentou bastante desde que Ronald McDonald IV instituiu o Uncle Sam’s Day.
- Eu gosto do Uncle Sam’s Day. É bonito ver todo mundo colocar sapato social, meia, bermuda e boné e depois sair pra fazer hambúrgueres na churrasqueira comunitária da praça da Bastilha.
- É uma data nacional muito importante, filho.
- Pai, essa conversa me deu sede.
- Vamos ao Pizza Hut Notre-Dame. Você toma uma Coca Espacial e eu tomo um café.
- O que é café, pai?
- É a palavra francesa para a nossa bebida mais importante.
- A Kofi Annan?
- Isso mesmo.
- E por que eles a chamavam de café?
- Sei lá, filho. Esses franceses eram muito estranhos.

9 comentários:

Anônimo disse...

Maravilha!!! Que belo texto!
Parabens Daniel.
beijos
Mirtes

Pedro Aquino disse...

McSinistro...

Anônimo disse...

Daniel!!!

Que maravilha de texto! Amei!!!
No melhor estilo 'Mecanópolis' de Miguel de Unamuno!!
I'm speachless!!

Beijocas
Flor

Jú Fuscaldi Rebouças disse...

Uau!
Tinha muito tempo que eu não lia uma crônica que me fizesse pensar tanto, além de super divertida!
Ótimo texto, parabéns!

FabiCatarse!! disse...

Kofi Annan??!!!kkkkkkkkkkkkkk Mas se ainda tem café, não pode ser tão ruim assim!!! hehehehe

Belíssimo texto, Daniel!! Ares de ADMIRÁVEL MUNDO NOVO e 1984, num tom mais irônico, ácido,mas não menos assutador! Parabéns!

PS: será que vai demorar tanto para que tudo isso se concretize?!Medo.

Paula Chueke Rabacov disse...

Meus Parabéns.

sortenojogo disse...

Também ia citar o Huxley e o Orwell, mas fizeram-no antes. hehe :D

Adorei o texto mas me entristeceu um pouco ver where we are goin' to.

Bom voltar por aqui e sempre ler bons textos! =)

Beijos.

Natália Vaz

Lediane Souza. disse...

Você é demais!

Rafael Perfeito disse...

Que pesadelo!!!!!!