sexta-feira, 4 de abril de 2008

Oras, pombas!

Quando eu era criança eu gostava de pombos. Na minha inocência infantil, todo bicho que voava era passarinho, do pardal ao pterodáctilo dos livros de ciências. E não existe quem não goste de passarinho. Então foi fácil concluir, no auge da sabedoria dos 5 anos de idade, que pombo era legal.

Aí um dia eu descobri que existia pingüim. Segundo o André Dourado, companheiro de filosofias do 3º jardim, o pingüim era um passarinho que não voava. Diabos, como um passarinho não voava?

- E tem mais: avestruz também não voa.
- Coitado...

A questão mudou: tudo o que voava era passarinho?

- Claro que não, Daniel. Tem o avião.
- Não vale. É construído.
- E tem o morcego.
- Não vale também.
- Por quê?
- Porque ele vira o Drácula depois.
- Ai, deixa de ser burro!
- Burro é você. Eu vi num filme na televisão.
- Só existe um Drácula. Os outros morcegos viram vampiros.
- Ah...

Apesar desses novos fatos, os pombos continuavam inabaláveis: eram passarinhos e eram bacanas. E isso durou. Só comecei a achar que algo estava errado aos onze anos. Já muito mais sábio, fui levado pelo meu pai a um restaurante em Fortaleza, onde passávamos as férias.

- Vamos comer pombos.
- Pombos?
- É.
- Eu não sabia que se comia passarinho.
- Pombo não é passarinho. Além do mais, você não come galinha?
- Galinha é diferente. Já vem cortada e embalada.
- Você vai gostar de pombo.
- E por que então a gente não pega um desses da rua e faz em casa?
- Os da rua são sujos e cheios de doenças. Os do restaurantes são criados em viveiros, especialmente para serem comidos.

Nesse dia eu desconfiei que meu pai não sabia muito das coisas. Claro que pombo era passarinho, e pra mim era um choque comê-lo. Sentia-me um monstro. Se o Frajola tentava devorar o Piu-Piu desde muito antes de eu nascer, e nunca tinha conseguido, talvez não fosse mesmo para tocar nesses bichinhos. Quanto à galinha, achei mais fácil deixá-la, por ora, sem classificação.

Esqueci um pouco dessa história até vir morar Paris. Aqui só existe uma coisa mais numerosa do que turista: os tais pombos. Eles estão nas praças, ruas, pontes, terraços e em todos os cantos da capital francesa.

Minha convicção infantil não demorou a estremecer. Não bastasse o fato de já ter sido premiado mais de uma vez com seus excrementos, que numa espécie de trajetória teleguiada acertam sempre a minha cabeça, ainda tem a aporrinhação de escutá-los mesmo quando estou em casa.

Moro virado para um jardim. E não é raro um deles vir rulhar na janela logo de manhã cedo, o que invariavelmente me acorda. E num baita susto, pois poucas coisas são mais estranhas do que o barulho que esses animais fazem.

- Começou a 3a Guerra Mundial?
- Volte a dormir, é só um pombo.

Já estava quase decidido a pedir divórcio das minhas certezas de criança e admitir que nem todo passarinho é legal. Por sorte, em uma recente viagem ao Brasil, num almoço de família, a minha irmã bióloga Mariana resolveu sem querer a questão. E ainda avalizou o que meu pai tinha dito anos antes.

- ...tava cheio de pássaro lá: pardal, pombo e até galinha.
- Daniel, pombo e galinha não são pássaros. São aves.
- Tem certeza?
- Claro.
- Tô livre!
- Hã?

Apesar de não entender muito bem a diferença entre pássaro e ave, aceitei na hora a explicação. E também o fato de que acho esse bicho chato pacas. Chato e sujo. Chato e sujo e barulhento, aliás. Depois de afastar meus fantasmas pueris, agora posso dormir tranqüilo. Bom, pelo menos até o próximo maldito pombo vir gritar na minha janela. Ele que se atreva, esse protótipo de passarinho.

13 comentários:

rinaldo disse...

Padres, primos e pombos: os dois primeiros não servem pra casar e os dois últimos só servem pra sujar a casa. (Stanislaw Ponte Preta)

Carlos E. disse...

Pombos e cachorros. Todo mundo tem um cachorro em Paris. Esses dois animais sao os verdadeiros donos da cidade, na minha opiniao: http://carlosperdidoemparis.blogspot.com/2007/07/os-verdadeiros-donos-do-pedao.html

Félix disse...

Olá, acompanho seu blog há algum tempo porém nunca comento. Mas ao ver seu texto sobre pombos não pude deixar passar em branco. Moro em Fortaleza e próximo ao Restaurante que você foi para comer pombos. Bem, ele se chama Pombo Cheio mas já não funciona mais, foi derrubado e hoje é uma residência. Ah, eram 2 restaurantes que vendiam Pombos, aqui no Parque Araxá, perto do Centro e do Trilho da José Bastos. Acho que já é forçar muito sua memória. Uma abraço!

Chiris disse...

Nem reclame dos pombos na sua janela! Aqui em Buenos Aires, além de pombos em toneladas, tem também maritacas - aquele passarinho entre o papagaio e o periquito - a granel. Acontece que algumas delas resolveram fazer um ninho na parede do meu quarto... e já deve ter umas três gerações que moram ali e todos os dias começam a gritar (sim, porque maritaca grita. Insistente e incansavelmente.) assim que o sol ameaça nascer. Volta e meia penso em jogar veneno no buraco... mas aí vejo os bichinhos na janela e me dá pena. Droga!

Anônimo disse...

Pombos, odeio pombos...
Uma das pouquíssimas coisas que odeio na vida.
E quem foi o gênio da raça que disse que eles simbolizavam a paz coisa e tal? Paz pra quem?? Só se for pra eles, os pombos!
Por que não escolheram os golfinhos para simbolizar a paz? Hein?? Ou até mesmo os gatos, que são limpinhos?
Tô contigo Daniels!
Pro saco com os pombos!
Besos cariño!
Flávia Flor do México

Anônimo disse...

Pombos são ratos com asas. Um saco, tive um pombo que resolveu iniciar a fazer barulho sobre o anteparo do ar refrigerado pontualmente todos os domingos às seis da manhã, meses a fio... Tenho problemas com sono e quase enlouqueci porque domingo era justamente o dia em que conseguia e precisava acordar mais tarde. Fiz de tudo para me livrar do demonio com asas e como nada resolvia, adivinhe o que resolveu ?? Favor reler a introdução : pombos são ratos com asas...pois é...

Anônimo disse...

Confirmo: era o Pombo Cheio. Félix sabe das coisas. Fomos lá com Chico e Afonso, mas até hoje me arrependo de não ter ido à Barra do Ceará comer camarões fritos. Abraço, Pápi

FabiCatarse!! disse...

...aaaaaaaaaaaargh, que nojo!! Comer pombos???? Nem que fossem criados a pão-de-ló eu seria capaz de degustar um bicho nojento desses... pomba, pra mim, só a da Paz e olha lá!!

Sabe, aqui em São Paulo, há uns vinte anos, a Praça da República e a Praça da Sé eram o paraíso desses seres fedorentos, mas ultimamente tenho notado uma diminuição considerável (o que têm aumentado visivelmente é o número de mendigos e crianças de rua...), não sei se há alguma medida de controle populacional desses bichos ou nem eles aguentam o cheiro de urina dos novos habitantes do local. Quem sabe,né?!

alinef disse...

Pôxa... e eu vivia reclamando dum passarinho chato pra burro que tem aqui na janela da minha casa.... Agora estou achando até bucólico perto desses pombos e das maritacas de Buenos Aires!

Daniella Lima disse...

Quando criança meu pai me levava para dar milho aos pombos na Praça dos Trës Poderes. Adorava ver a confusão no pombal quando eu deixava cair todo o saco de milho no chão. Hoje morro de nojo dessas "aves", não levo meu filho lá nem a pau! Vai que ele resolve, como eu e o pai dele, virar funcionário público, e viver na Esplanada...

Txotxa disse...

muito bom, Fish.
rato de asa, como diria o Pente-Fino.
só tive que engolir meu próprio vômito com essa história de comer pombos. prefiro beber um copo cheio de chorume do que chegar perto da carne desses bichos.
beijos

Anônimo disse...

Daniel,
acho os pombos de Paris piores que os tupiniquins. Invadem a minha bolha de um jeito muito mais agressivo. Oras, até as pombas?

Ana Leticia disse...

Meu avô era o dono desse restaurante... ele ainda mora la c a minha avó e 2 primos e onde era o restaurante agora mora um tio meu... legal saber dessas coisas neh?!